Imagem A variedade vertiginosa da China

crônica geopolítica

A VARIEDADE VERTIGINOSA DA CHINA

Diferenças geográficas e culturais ganham escala dramática no país continental

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Sempre que me encontro na China, a pergunta mais frequente que escuto – de taxistas, garçonetes, atendentes de loja, gente com quem acabo jogando conversa fora – é: “De onde você é?”, com o que não se referem apenas ao país de onde venho, mas também ao grupo regional ao qual pertenço, ao dialeto que minha família usa em casa. Em Hong Kong e Taiwan, um ou dois dedos de prosa sobre viagem – sobre partidas e chegadas – desembocam sempre nessa mesma pergunta. Em Singapura, onde corre uma forte identificação com a ancestralidade regional entre as imensas e bem estabelecidas comunidades de imigrantes chineses, as pessoas simplesmente me perguntam: “Você é hokkien?”[1] (embora a maioria já pressuponha que eu seja).

Para boa parte das pessoas que não estão familiarizadas com a China e sua cultura – e com isso me refiro às sociedades e costumes da China continental e da diáspora ultramarina –, a suposição que predomina é a da homogeneidade, de uma grande massa de pessoas que têm feições, pensamentos e comportamentos mais ou menos parecidos. A ameaça dessa horda de bilhões com uma só mente e uma só vontade pronta para manifestar pelo mundo inteiro suas ambições coletivas é o que alimenta a imaginação de economistas e políticos hoje. O governo chinês promove de bom grado essa noção, essa imagem de “uma só China” que consiste em um país monocultural habitado majoritariamente por um só grupo racial: os chineses Han, que respondem por 90% da população da República Popular e 19% da população mundial. E em muitas ocasiões as próprias pessoas de origem chinesa, nascidas seja em Pequim, seja em Hong Kong ou Ipoh,[2] pressupõem certa familiaridade umas com as outras, como se atadas por um antigo parentesco que desafia a nacionalidade. Mas, quando a conversa fica séria, quando o papo sobre o clima se esgota e chega a hora de falar de si próprio, as pessoas chinesas só querem saber de onde você é, de como você difere delas.

Isso é de se esperar, até porque a China é um continente inteiro, quase tão grande quanto a Europa e apinhada de diferenças geográficas e culturais em escala dramática. Alguém do extremo Norte da China não pertence ao mesmo grupo cultural ou linguístico de alguém do extremo Sul ou Oeste; não partilham os mesmos costumes, língua, culinária, vestimenta, clima – a única coisa que têm em comum é o mandarim, o idioma nacional que todos os 56 grupos étnicos reconhecidos aprendem na escola, o idioma do governo e do comércio. Só que em casa, o lugar onde desenvolvemos a percepção que temos de nós mesmos, o lugar onde descobrimos quem somos e no que acreditamos, cada chinês fala seu próprio dialeto. Quando morei em Xangai, me impressionava a forte presença do dialeto local e como era incompreensível para quase todos os outros falantes de mandarim. Os habitantes locais se orgulhavam de falar o dialeto, se orgulhavam de como ele os diferenciava de Pequim. Mas era só um dos muitos dialetos identificáveis que ouvi enquanto morei lá. Pelos arredores de Xangai fica a pequena e próspera província de Zhejiang, cuja capital, Hang­zhou, abriga o pitoresco Lago do Oeste e a primeira loja da Apple na China, entre outras atrações. Lá, nessa cidade que é um dos principais destinos para o fim de semana dos residentes de Xangai, ouvi dialetos que só depois fui descobrir serem variações bastante díspares do idioma wu vindo de Zhejiang. Hangzhou, Shaoxing, Ningbo, Wenzhou, Taizhou, Quzhou: cada cidade escondida dentro do vale daquela província tinha o seu próprio dialeto. Essas diferenças relativamente pequenas ainda assim são perceptíveis, ainda assim dignas de mais interesse; imagine então essas diferenças aplicadas a um continente inteiro e uma diáspora inteira, cuja gente tem traços mais ou menos parecidos, partilha um DNA mais ou menos parecido, mas cuja vida é bem diferente em todos os outros aspectos.

Não à toa os chineses são especialistas no vocabulário da categorização, na arte de distinguir entre dois grupos de pessoas. Americanos de qualquer grupo étnico ou ancestralidade costumam se apresentar alegremente como Americans quando andam por terras estrangeiras; as pessoas chinesas precisam especificar, sobre si mesmas, se por acaso são zhongguo ren, hua ren, huaqiao ou huayi – as denominações mais comuns, em mandarim padrão, para nacionalidade e formação cultural. Isso se deve em parte ao fato de que temos uma diáspora imensa e longeva, o que acaba instigando a subcategorização de chineses étnicos de acordo com o local de nascimento, o país atual de domicílio, o tempo vivido nesse outro país e se eles estão lá só de passagem ou têm planos de retornar à China. Tudo e todos são definidos em relação ao Zhong­guo, o Reino Médio.

Muitas vezes se nota um senso de pertencimento a uma trama maior de “chinessência” que desafia a nacionalidade e ajuda a explicar as suposições de familiaridade que as pessoas chinesas fazem o tempo todo: “Você pode até falar como um americano e se vestir feito skatista, que mesmo assim a gente consegue te entender, porque você parece chinês.” Mas, verdade seja dita, essas semelhanças superficiais quase nunca conseguem mascarar as diferenças que as pessoas chinesas (étnicas ou culturais) delimitam entre si. As pessoas chinesas podem até se definir como um grupo amorfo, porém vagamente homogêneo, na presença de uma terceira presença ainda mais estrangeira, só que entre elas as divisões são concretas e onipresentes. Os protestos ocorridos em Hong Kong entre 2019 e 2020 começaram por uma questão política, mas logo se transformaram numa batalha cultural, numa luta para definir uma identidade local que carregava em seu cerne o idioma cantonês. Estive em Hong Kong três vezes no ano passado; e todas as vezes percebi uma ampla e perceptível relutância em falar mandarim, principalmente entre o pessoal que dirige táxis e ônibus ou serve mesas. Meu cantonês ruim era recebido com simpatia; meu mandarim correto, com ressentimento maldisfarçado.

A realidade é que a China, tal como o fato de ser chinês, implica uma variedade vertiginosa, muitas vezes até exaustiva; viajar pela China e pelos países chineses da Ásia Oriental significa dar os mesmos saltos culturais e linguísticos que estudantes universitários fazem naqueles mochilões de trem pela Europa. As pessoas podem até ter uma cara parecida, mas são diferentes. Em países como Singapura e Malásia, onde as antigas comunidades de antes da revolução não foram submetidas à homogeneização do comunismo, tais divisões são ainda mais nítidas, ainda mais celebradas. Os templos e as associações dos clãs trabalham por e para suas próprias comunidades e carregam em seus nomes o pertencimento ao hokkien, teochew,[3] cantonês ou hakka.[4] Foram as primeiras instituições que estenderam a mão para as ondas de migrantes perdidos em um cais. Os laços forjados lá atrás eram tão fortes que ainda hoje se faz piada com as divisões culturais. Óbvio que ele é delinquente, ele é de Chaozhou.[5] Eu sabia, ela tem cara de hokkien. Naquela empresa só tem Hakka, eles cuidam dos seus.

Distinções desse tipo não querem dizer nada para quem é do Ocidente. Eu dificilmente me dou ao trabalho de explicar as diferenças culturais entre um chinês do Norte e um chinês do Sul, entre um hokkien e um cantonês; já é difícil demais explicar o fato de que sou malaio e chinês. Costuma ser um pouco mais fácil exprimir essa distinção tão primordial para outras pessoas cujas nacionalidades e etnias também não estão unificadas de um jeito muito cômodo. É provável que um britânico de ascendência paquistanesa consiga entender melhor o que quero dizer quando estou falando do chinês singapurense ou dos clãs cantoneses em Hong Kong do que, digamos, alguém cuja família remonta aos tempos da Gália e hoje fala francês.

Com frequência, desisto quando percebo que vai ser muito complicado explicar de onde eu venho e quem sou. Às vezes apenas finjo ser aquilo que a outra pessoa pressupõe que eu seja. Às vezes sou de Xangai. Às vezes sou de Taiwan. Às vezes sou muçulmano (porque sou malaio). Se eu falasse japonês, ficaria tentado a ser de Kyoto. Os templos, as sakura:[6] seria tão pitoresco.


Trecho do livro Estranhos no cais: retrato de uma família, a ser lançado neste mês pela editora Todavia. Tradução de Marcela Lanius.

[1] Hokkien é um dialeto originário da província do Fujian, no Sudeste da China. É falado por comunidades da diáspora chinesa em Singapura, Malásia, Filipinas e Tailândia, entre outros. A palavra também designa uma pessoa que descende do povo Hoklo, do Sudeste de Fujian. (Todas as notas são da Redação.)

[2] Capital do estado de Perak, na Malásia.

[3] Dialeto chinês falado na região de Chaoshan, na província de Cantão, e por pessoas provenientes dali e que vivem em outros locais, em especial no Sudeste Asiático.

[4] Hakka é um povo originário do Norte da China, mas que migrou para o Sul, estabelecendo-se em diversas regiões, como Cantão, Fujian e Jiangxi. A mesma palavra é usada para designar a sua língua.

[5] Cidade chinesa da província de Cantão.

[6] Em japonês, as cerejeiras em flor.


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É escritor, autor dos romances Map of the invisible world e Five star billionaire, entre outros. Nasceu em 1971, em Taipei (Taiwan), e cresceu em Kuala Lumpur, na Malásia, antes de se mudar para o Reino Unido.