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Tiago Coelho Set 2025 16h26
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A cineasta goiana Larissa Fernandes é descendente de camponesas do interior do Maranhão que cultivam a tradição oral de contar histórias. Foi com uma delas, sua avó Maria da Conceição Fernandes Santos, que tomou gosto pelas narrativas fantásticas. Quando criança, a cineasta gostava de ouvir a avó contar sobre a sereia que aparecia no Rio Grajaú, onde as mulheres lavavam roupas, na cidade do mesmo nome. “As lendas da minha família me impressionam até hoje. Um dos meus tios, que foi caixeiro-viajante, já viu inclusive extraterrestres”, conta. “A história da sereia me acompanhou até a vida adulta.”
De fato. Em 2013, Fernandes foi comemorar o Ano-Novo na Bolívia, à beira do Lago Titicaca. O velho recepcionista do hotel em que ela estava hospedada na Cordilheira dos Andes arregalou os olhos e a alertou em tom misterioso: “Tome muito cuidado. À meia-noite, se você estiver olhando para o lago, escutará o canto da sereia, e ela te arrastará para o fundo.” Na virada do ano, Fernandes achou melhor virar as costas para o lago.
O fantástico continuou acompanhando Fernandes até a realização de seu primeiro longa-metragem, atualmente em fase de pós-produção. Solina conta a história de um quilombo que, depois da morte de seu líder espiritual, passa por estranhas mudanças – até o Sol deixa de se pôr. Aprisionada em um dia eterno, a comunidade entra em colapso. A filha do líder morto (interpretada pela atriz Duda Santos) enfrenta um dilema: deve assumir o lugar do pai para conduzir o quilombo de volta à normalidade ou deixar seu povo para buscar novos horizontes?
O enredo sobrenatural alinha a cineasta goiana de 37 anos a uma nova geração de realizadores negros que têm recorrido ao realismo fantástico para falar de questões raciais e sociais do Brasil – como Luis Lomenha, diretor de Os quatro da Candelária – série da Netflix sobre a chacina da Candelária –, o mineiro André Novais Oliveira no curta-metragem Quintal e a diretora Sabrina Fidalgo, que dirigiu o afrofuturista Personal vivator. “A realidade às vezes é tão dura que parece que não é de verdade”, diz Fernandes. “Eu trago um olhar mágico, fantasioso, mas que não é ingênuo nem escapista, para enfrentar traumas com alguma poesia. A magia é uma maneira de conseguir tocar em feridas profundas.”
Para a mãe de Larissa Fernandes, mais do que o Rio e São Paulo, era Goiânia a cidade do futuro. E foi para lá que a maranhense Maria de Jesus Fernandes dos Santos partiu na década de 1980 a fim de encontrar um trabalho. Empregou-se como funcionária pública da área de limpeza de uma escola, e no tempo livre mãe e filha se distraíam vendo filmes na tevê ou em vídeo. Cidade Jardim, o bairro na periferia de Goiânia onde as duas moravam (o pai havia se afastado da família), ficava longe dos cinemas, que também eram muito caros.
Só aos 10 anos a menina foi ao cinema pela primeira vez, para assistir a Titanic. “O lugar que eu construí para mim como narradora audiovisual traz muito dessa experiência com os filmes que eu amava na infância: histórias realistas sobre um cotidiano difícil, mas atravessadas pelo lúdico e o fantástico.” Dentre os filmes que Fernandes viu na Sessão da Tarde, o preferido foi A princesinha, de Alfonso Cuarón, a história de uma menina que encontra na fantasia um ponto de fuga da realidade opressiva do orfanato onde vive.
Justamente no ano em que Fernandes decidiu prestar vestibular, a Universidade Estadual de Goiás (UEG) inaugurou o curso de cinema e audiovisual – e ela fez parte da primeira turma. Foi uma conquista, mas algo que também lhe trouxe a insegurança que costuma afetar filhos da classe trabalhadora que decidem estudar arte. “Venho de uma família pobre e vivia num estado que, na época, não tinha muitos incentivos e investimentos no audiovisual”, ela diz. “Eu tinha a perspectiva de ajudar minha família financeiramente depois de formada, desejava uma ascensão social. Estudar cinema era uma aposta que me assustava.” Poucos meses no curso lhe deram a certeza de que, a despeito das dificuldades que poderia enfrentar, aquela era a carreira que desejava seguir.
Quando Fernandes se formou, em 2010, começaram a surgir editais federais e estaduais que aqueceram a produção audiovisual goiana. Ela se juntou a amigos para fundar a produtora Panaceia e se inscrever nos editais de financiamento de filmes, mostras e seminários de cinema. O grupo produziu documentários e longas de ficção, como Hotel Mundial, de Jarleo Barbosa. Com o mercado aquecido, a cineasta se mudou para a região central de Goiânia e passou a trabalhar como assistente de direção em produções locais.
Foi durante uma filmagem em 2015, na Chapada dos Veadeiros, que Fernandes conheceu o Quilombo Kalunga, em Vão das Almas – experiência que significou para ela uma revelação. “Foi como retornar para minha casa, para minha ancestralidade”, diz. Em Goiânia, as manifestações culturais da negritude não são tão extensamente celebradas quanto em outras capitais.
Com o apagão cultural do governo Bolsonaro, os editais para o cinema foram congelados, e a Panaceia, como outras pequenas produtoras, teve de fechar as portas. Depois veio a pandemia, e Fernandes buscou outras frentes de trabalho em mesas de criação de roteiros para o streaming. Ao mesmo tempo, começou a desenvolver o roteiro de Solina. “Eu queria contar uma história naquele lugar que conheci na Chapada dos Veadeiros.”
Depois da pandemia, Larissa Fernandes partiu para o Rio de Janeiro, chamada pela Rede Globo. O diretor-geral da novela Amor perfeito (exibida em 2023), André Luiz Câmara, a convidou para integrar o time de diretores da atração. “Quando cheguei ao estúdio pela primeira vez, me senti em casa. Um sentimento de realização. Uma vontade de conhecer tudo aquilo e aprender”, conta ela. “Sem arrogância, eu pensava: ‘Era aqui que eu devia estar.’”
Fernandes também não fingiu costume e ligou logo para sua família: “Mãe, estou na Globo!” Depois de Amor perfeito, ela trabalhou nas novelas No rancho fundo (2024) e Volta por cima (2024-25). Agora, está escalada como uma das diretoras de Três graças, próxima atração das 21 horas, sobre três mulheres da periferia de São Paulo. Em paralelo à tevê, Fernandes iniciou em 2025 (com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual para novos realizadores) as filmagens de Solina no quilombo da Chapada dos Veadeiros.
No momento, Fernandes e Lidiana Reis – sua sócia na nova produtora, a Sol a Pino, que produz o longa-metragem – estão em busca de apoio para a finalização de Solina, que demanda muitos efeitos especiais, e para a distribuição do filme. “A mágica agora é encontrar o financiamento que vai permitir o filme chegar ao coração do público”, diz Fernandes.