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VÍTIMA DO PASSADO

A morte de um guarda-freio em Lisboa

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Duas décadas e meia atrás, quando trocou a pequena Sarnadas de São Simão por Lisboa, o jovem André Jorge Gonçalves Marques não estava só mudando de ares. Como muitos compatriotas, abandonava o Portugal antigo em busca de oportunidades no Portugal moderno. Pouco mais de 200 km por autoestrada – e diferenças abissais – separam uma realidade da outra.

A população de Sarnadas de São Simão vem diminuindo desde meados do século passado. Hoje, são meros 167 habitantes. Fica na parte oriental de Portugal, perto da Espanha, um dos maiores desertos geográficos da Europa. O povoado natal de André Marques está justamente ali, na região da Beira Baixa, onde sobra beleza natural – praias fluviais, trilhas, miradouros e cachoeiras – e faltam empregos. Alguns vilarejos com casas de pedra, as Aldeias do Xisto, chegam a ter menos de vinte pessoas, quase sempre idosos, que produzem azeite em lagares artesanais e pão com chouriço em fornos comunitários.

No tempo que passou em Lisboa, Marques testemunhou a transformação da cidade numa vibrante metrópole do Sul europeu. Hoje, além de atrair milhões de turistas, Lisboa, com seus 546 mil habitantes, é um celeiro de startups e abriga anualmente o megafestival digital Web Summit. Depois de concluir os estudos e trabalhar como segurança, Marques se estabeleceu num nicho do Portugal antigo em pleno Portugal moderno. Há quinze anos, tornou-­se guarda-freio de um dos veículos históricos da sesquicentenária Carris, empresa responsável por uma parcela do transporte público da capital.

Guarda-freio é o mesmo que motorneiro no Brasil – o funcionário encarregado de acelerar e brecar os velhos bondes. Já os veículos históricos são os tradicionais bondinhos amarelos de Lisboa, chamados de elétricos, que estampam canecas, camisetas e cartões-postais. Entre eles, destacam-se os ascensores, o meio de transporte mais típico da cidade. Trafegando por apenas uma rua, invariavelmente íngreme, os ascensores ligam os altos e baixos da cidade. Os três que ainda funcionam viraram “monumentos nacionais”: o do Lavra (inaugurado em 1884), o da Glória (1885) e o da Bica (1892).

O guarda-freio é o único funcionário da Carris dentro de um ascensor. Ele recolhe os bilhetes dos passageiros, põe o veículo em movimento e aciona os mecanismos de emergência, se preciso. Dos três bondes, o da Glória atrai o maior número de estrangeiros, pois cruza a ladeira de 275 metros que une a Avenida da Liberdade ao Miradouro de São Pedro de Alcântara, duas concorridas atrações. Não à toa, é comum que turistas fotografem ou filmem o ascensor em celulares.

A última imagem de Marques nasceu dessa forma. Na quarta-feira, 3 de setembro, a francesa Aurelie Delhaye filmou o bondinho e seu guarda-freio pouco antes de conferir o belíssimo final de tarde no miradouro, segundo o jornal Diário de Notícias. Cinco minutos depois, quando a moça deixou o belvedere e se preparava para voltar, o ascensor – que transporta até 42 passageiros – já estava destroçado numa curva da Calçada da Glória, a ladeira por onde circulava. Dezesseis mortos, 23 feridos. Uma parte das vítimas estava no bonde, e a outra caminhava pela rua. Marques figurava entre os mortos – junto de 4 portugueses, 3 britânicos, 2 sul-coreanos, 2 canadenses, 1 suíço, 1 ucraniano, 1 americano e 1 francês. Eram 18h04, ainda dia claro no verão da Europa.

Conforme uma nota do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF), André Marques fez tudo certo. O veículo descia a Glória antes de se despedaçar “como uma caixa de papelão”, nas palavras de uma testemunha. O funcionário acionou os freios manual e pneumático tão logo percebeu que o bondinho de 14 toneladas havia desgovernado, depois da ruptura do cabo que o sustentava. A iniciativa não foi suficiente. O ascensor despencou ladeira abaixo em alta velocidade, descarrilou e bateu num edifício. A última viagem do guarda-freio, que tinha 45 anos, durou menos de 50 segundos.

O sistema de funcionamento do “monumento nacional” era considerado moderníssimo no Portugal antigo. O engenheiro Raoul Mesnier du Ponsard – um português descendente de franceses que estudou na Suíça e na Alemanha – desenhou-o no fim do século XIX. Dois bondes de madeira, impulsionados por motores elétricos (que já foram a vapor), transitam paralela e simultaneamente pela Calçada da Glória, mas em sentidos opostos. Como ambos estão ligados entre si por um cabo, quando um desce, seu peso ajuda o outro a subir. O mesmo sistema opera os veículos do Lavra e da Bica.

No dia do acidente, apenas o bondinho que descia se espatifou. O que subia não descarrilou, embora tenha sofrido uns solavancos – havia se deslocado somente alguns metros quando o cabo rompeu. De certo modo, Marques e os outros quinze mortos foram vítimas do Portugal antigo. “Conseguimos apurar que a Carris quis fazer inovações no ascensor, mas os órgãos responsáveis pelo patrimônio histórico não deixaram”, diz Francisco Oliveira, diretor do Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes. Segundo o engenheiro Fernando Nunes da Silva, professor aposentado e pesquisador do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, o bonde era de madeira por razões estéticas. “As cabines deveriam ser de material mais resistente, como os aviões, para não se desfazerem com os choques”, argumenta.

O relatório definitivo da GPIAAF sobre as causas do acidente só deve sair em 2026. Procurada pela piauí, a Carris não quis falar. Carlos Moedas, presidente da Câmara Municipal de Lisboa – cargo similar ao de prefeito – ordenou que os ascensores da cidade fossem suspensos por tempo indeterminado para uma reavaliação. Uma força-tarefa com especialistas de várias universidades está se debruçando sobre o assunto.

Um dos pontos em discussão, de acordo com Nunes da Silva, é a adoção de mecanismos adicionais de segurança, que poderão ser acionados em caso de emergência. Agora se sabe que os freios, sozinhos, não conseguem deter ascensores desembestados pelas ladeiras da cidade. Uma solução em estudo é a duplicação dos cabos que unem os veículos. Providências do gênero devem mudar o treinamento e as tarefas do próximo guarda-freio que assumir o bondinho da Glória.

No dia 18 de setembro, a Carris passou a exibir o nome de André Marques na carroceria de um elétrico que circula por áreas mais planas da capital. Com certa frequência, ele visitava a mãe e a irmã, que continuam em Sarnadas de São Simão, viajando entre o Portugal moderno e o Portugal antigo. Às vezes, levava a mulher e os dois filhos. Todos os anos, em Lisboa, ele se voluntariava para pilotar o Elétrico de Natal, um bonde destinado às crianças em que o guarda-freio se veste de Papai Noel (ou Pai Natal, no linguajar dos portugueses). A Carris agora terá que encontrar um substituto para a função antes do próximo dezembro.


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É repórter da Folha de S.Paulo em Lisboa e autor dos romances O burlador de Sevilha e Carnaval (Companhia das Letras)