despedida
Gregório Duvivier piauí_piui 08 Out 2026
3 min de leitura
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Assim como a gente, as palavras nascem e morrem. E entre uma coisa e outra elas amadurecem, mudam de personalidade, de profissão, ficam velhinhas corocas. Coroca, por exemplo, é uma palavra que descreve bem a si mesma: já está lá, no asilo das palavras. Assim como caquética, outra palavra bem caduca.
Olha que ironia do destino: as melhores palavras pra envelhecer caducaram. Com a moda da cirurgia plástica, já ninguém fica caquético. A velha coroca hoje está no shape.
Tem palavras que já morreram faz tempo. E caíram no mais profundo esquecimento. Você certamente nunca ouviu falar na palavra linfa. No entanto bebe ela todos os dias. Sim, a linfa não passa de uma palavra velha pra água. Por algum motivo, deixamos de usá-la. E a linfa, tadinha, faleceu. Dá pra entender. Olha a palavra: linfa. É linda. Mas não parece água, que é uma palavra bem mais aguada.
Desjejum já foi o nome do nosso café da manhã. E desjejum faz mais sentido: é a refeição que termina o jejum que o sono nos obriga a fazer (ninguém come dormindo). É assim que a maioria das línguas chama (breakfast, desayuno). Já café da manhã não faz sentido, porque a refeição muitas vezes não tem café. Pra piorar, não tem verbo. Café-da-manhar? Não dá. Desjejuar é feio e difícil de falar, mas existe.
Algumas palavras morrem porque ficaram cafonas. Chofer, por exemplo, era uma palavra chique pro motorista. Vinha do francês, onde chauffeur significa também “esquentador” – antigamente os motoristas tinham que esquentar o motor do carro. De uns tempos pra cá passou a soar meio afetado: a frase “meu chofer está me esperando” faz você parecer um vilão de novela. Resultado: a palavra morreu.
O mesmo aconteceu com tantas palavras em francês: peignoir já foi uma palavra pra roupão, assim como uma penteadeira já foi chamada de coiffeuse. Alguns galicismos (que é uma palavra pra esses empréstimos do francês) continuam: ainda chamamos o funcionário do restaurante de garçom, e os portugueses acham graça nisso. “Garçom” é bem parecido com “chofer”, mas um ficou ridículo, e o outro, não. Vai entender. As palavras são como as pessoas: algumas envelhecem bem, outras mal.
Às vezes a palavra morre porque a coisa já não existe mais. Um jovem nunca ouviu falar num mimeógrafo. Talvez desconheça até o fax. Não vou nem citar o pager, que também atendia pelo nome de bip. Mas são aparelhos hoje obsoletos que já foram papa-fina, que é uma expressão bem obsoleta pro que hoje chamam de top de linha.
Da mesma forma, a geladeira matou a palavra leiteiro. Atenção, crianças: o leiteiro não era um objeto, mas uma profissão. Antes do refrigerador, o leite durava muito pouco. Por isso existia um profissional encarregado de entregar um leite fresco, engarrafado, de porta em porta. Com a geladeira e as embalagens Tetra Pak, o leite passou a durar. Pobre leiteiro, faleceu junto com os linotipistas, os datilógrafos, os ascensoristas e os telefonistas – profissões que a tecnologia assassinou, do dia pra noite.
Pensando nisso, aproveito pra me despedir, antecipadamente, de palavras que a tecnologia há de matar. Fio, por exemplo, é uma palavra corriqueira que talvez morra quando tudo for wireless. Café da manhã talvez morra quando descobrirem os malefícios do café (por favor, não façam isso!). Sem falar em profissões inteiras. Com o advento da inteligência artificial, o escritor pode virar o novo leiteiro. Será que ainda vão precisar desse como este que vos escreve? Tomara que sim. A inteligência artificial gasta muita água, e esse pobre autor que vos fala só consome uns dois copos por dia. Em nome da linfa, poupe-me de virar um linotipista!