dossiê democracia
José Henrique Bortoluci Set 2025 18h30
33 min de leitura
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DAYANNA E JANAÍNA
Depois de uma série de conversas com Dayanna Louise, faço a ela a mesma pergunta que fiz a todas as pessoas com as quais conversei para este dossiê: “Com o que você sonha?” Eu me interesso por sonhos, tanto os noturnos, as nossas fantásticas criações inconscientes, quanto os diurnos, as projeções de desejos que se dão na fricção com o áspero mundo do possível. Nenhuma dessas duas formas de sonhar é uma atitude solitária: em ambas, somos seres sociais, e criamos imagens e histórias durante a dança das matérias coletivas (medos, projeções, identidades, projetos) com a substância misteriosa de nosso desejo.
Na pandemia, muitos de nós sonhávamos à noite, de olhos fechados, com hospitais, com velórios, com o sufocamento; de dia, sonhávamos com a vida depois daquele pesadelo. Muitas das pessoas que entrevistei relatam sonhos noturnos repetidos – acidentes de carro, jantares com netos, imagens da infância, aparições de antepassados vestindo roupas que são descritas minuciosamente –, mas comentam comigo que nunca aprenderam a sonhar sonhos diurnos. Sonhar, no sentido de projetar futuros possíveis e desejados, em que a dor cotidiana se cala um pouco para que emerjam outras imagens e sentimentos, parece não ser uma capacidade inata, mas uma espécie de habilidade, uma conquista que opera na tensa relação do sujeito com o mundo que ele habita. É preciso aprender a sonhar.
Dayanna Louise é uma professora de 40 anos, nascida em Carpina, no interior de Pernambuco, e que vive atualmente no Recife. Mulher trans, doutoranda em educação pela Universidade Federal de Sergipe e chefe da Unidade de Educação para as Relações de Gênero e Sexualidades da Secretaria de Educação de Pernambuco, ela é também ativista dos direitos LGBTQIAPN+ e da educação pública.
É a partir da soma dessas experiências que ela responde minha pergunta sobre o sonho, fazendo da questão algo ainda maior. Ouço Dayanna Louise elaborar uma teoria social do sonho, ou uma pedagogia do sonhar, com a ajuda de sua ex-aluna, Janaína:
Você me perguntou sobre sonhos, sonhos que eu sonho à noite, mas também sonhos de vida. Eu pergunto muito isso para as pessoas trans: “Qual o seu sonho?” Especialmente para as meninas trans e travestis. E a primeira vez que perguntei a uma menina qual era o sonho dela foi quando ingressei como professora na rede estadual de Pernambuco, em 2008. Eu tinha uma aluna travesti chamada Janaína, e estavam implementando lá a primeira experiência educativa voltada ao uso do nome social na escola. Eu conversei com a Janaína na sala de aula, e a gente tinha quase a mesma idade. Ela cursava formação para jovens e adultos, no período noturno. Esse fato já denuncia que, em determinado momento da sua vida, a sua trajetória escolar foi interrompida, possivelmente por processos de opressão e de exploração.
Certo dia, eu disse que tinha uma pergunta que queria fazer a ela. Na hora, Janaína ficou muito nervosa. Claro, isso é reflexo do processo de compreender o nosso corpo como um corpo perigoso, um corpo que fez alguma coisa errada, que pode ser punido. E eu disse: “Olha, relaxa, mas eu queria saber qual é o sonho que você tem para a sua vida. Você tem algum sonho?” E aí eu lembro que Janaína olhou para mim e disse: “Professora, travesti não tem direito de sonhar.” Na época ela estava com uns 22 anos, e eu 23. Eu respondi a ela: “Janaína, então essa vai ser sua tarefa de casa: pensar nessa pergunta.”
E aí passou o tempo, e Janaína chegou um dia para mim e disse: “Professora, eu tenho a resposta para a sua pergunta: o meu sonho é ser professora igual à senhora.” Quando ela trouxe isso para mim, eu entendi a importância da representatividade como um meio, e não como um fim. Entendi que a minha presença ali possibilitava um exercício que durante muito tempo foi negado, que é o de sonhar, de pensar em um futuro, um futuro para além das sentenças sociais que foram estabelecidas por essa sociedade. Aquilo mexeu muito comigo. Eu estava no início da minha carreira como professora, tinha muitas dúvidas sobre se aquele era um espaço que caberia a mim ocupar. A resposta da Janaína foi o início de uma reflexão minha de que aquele poderia ser meu lugar.
Passou algum tempo e Janaína não apareceu mais na escola. Honestamente, a escola não se preocupou em saber como ou onde ela poderia estar. No interior de Pernambuco tem uma cultura radiofônica ainda muito forte, as pessoas costumam ouvir rádio, principalmente na hora do almoço. Eu estava na escola, e o pessoal da limpeza estava ouvindo rádio, e acabei ouvindo também. E Janaína voltou à escola em uma onda de rádio. Ouvi a notícia de que ela tinha sido brutalmente assassinada e que seu corpo tinha sido jogado no canavial.
Quando eu conto essa história, penso sobre o meu papel na educação. Eu me coloco diariamente no lugar de agir para que mortes como a de Janaína não sejam naturalizadas, não aconteçam de novo e de novo. A história de Janaína não pode ser apenas mais uma morte, só mais um ponto em uma estatística crua. Janaína, para mim, é uma bandeira de atuação para que outras Janaínas possam concretizar o sonho que ela me trouxe.
Quando eu estou conversando aqui com você, e penso nas pessoas que está entrevistando – e quando me lembro que ela e eu tínhamos quase a mesma idade –, imagino que Janaína poderia ser uma personagem do seu dossiê. Eu a imagino falando sobre coisas que ela descobriu no espaço escolar, sobre as músicas de que gostava, sobre sua família, as pessoas que marcaram a vida dela, os novos sonhos, o que ela queria para o Brasil. Imagino ela dizendo que gostaria de ser cantora, empresária, governadora…
Eu te disse que tenho dificuldade de pensar sobre sonhos, mas acho que agora tenho uma resposta. Sonho com um país onde Janaína tenha o direito de permanecer viva e sonhar.
1985
No ano em que o primeiro presidente civil foi eleito, o Brasil vivia uma situação de profunda crise educacional – uma crise tanto estrutural, de escassez contínua de investimentos públicos, como de falta de uma concepção de ensino que estruturasse o sistema educacional. Cerca de 20% da população era analfabeta e a defasagem e a repetência eram a regra do sistema.
O projeto de educação da ditadura havia posto em prática fórmulas empoeiradas – a disciplina de educação moral e cívica dava a tônica de uma lógica da obediência, em parte tecnicista, em parte pintado com o verde gasto dos quartéis. Nos livros dessa disciplina, o governo dos militares era descrito como legítimo, emanado do povo, representativo e garantidor do progresso. No ensino superior, a perseguição a professores e dirigentes estudantis desorganizou as universidades, com consequências que são sentidas até hoje.
Foi também o ano em que o Mobral – o programa de educação de adultos instituído pela ditadura como resposta à pedagogia crítica de Paulo Freire –, onde meu avô aprendeu a ler e a escrever, foi descontinuado, numa série de reformas e movimentações que se articulavam e se confundiam com os movimentos pela democratização. Nos anos seguintes, Florestan Fernandes e Darcy Ribeiro – dois dos professores cassados e exilados nos primeiros anos da ditadura –, com uma multidão de professoras e professores pelo país, saíram às ruas para defender a escola pública durante a transição democrática e a Constituinte, mobilizados pela erradicação do analfabetismo, a universalização do atendimento escolar e a melhoria da qualidade do ensino.
Muitos de nossos pais e mães foram educados nesse antigo sistema que os movimentos pela educação dos anos 1980 visavam combater: um misto de precariedade, que afetava de forma aguda as classes populares e os habitantes de zonas rurais, com uma educação acrítica, com seus traços de tecnicismo e patriotada.
MEU PALCO
Dayanna Louise me conta sobre sua cidade natal, Carpina, na Zona da Mata de Pernambuco, e sobre sua infância:
É uma região marcada pela história colonial, pelos engenhos, por toda a herança da escravidão. Eu nasci numa família evangélica, da Igreja Batista, que é um setor mais tradicional. Meu pai, por um tempo, chegou a ser pastor. Tenho um irmão, com quem por muito tempo não tive uma relação boa, porque ele é policial. Ele gostava de jogar bola e de fazer tudo o que a heterossexualidade coloca como padrão e norma. E conseguiu exercer isso muito bem. Eu era o contraponto. Digamos que eu era a patinha feia da história. Carpina era uma cidade muito religiosa, e de início sempre muito católica. A maioria dos bairros tinha nomes de santos: Santo Antônio, São José, São Sebastião, que é o Centro da cidade.
Minha infância foi vivida dentro de um quarto. Para mim, ali era um lugar seguro. Havia na minha cidade uma lógica muito guiada pelo fundamentalismo religioso conservador, que me proibia de adotar certos trejeitos, de andar de determinada forma ou de brincar com as meninas da vizinhança. Então, como eu não tinha esse direito garantido lá fora, eu encontrava no quarto um esconderijo onde podia exercer minha liberdade – não era na rua que eu me sentia livre.
Nesse mundo cheio de restrições, eu criava histórias, inventava personagens. Me lembro que, lá pela terceira série, peguei hepatite e tive que ficar muito tempo presa no quarto. Pequena ainda, fiz do quarto o meu palco: era desfile de moda, era ginástica olímpica…
Eu via essas referências na tevê, que era transfóbica, branca, machista, claro, mas tinha algumas coisas que eu amava: a Claudia Raia, por exemplo. Ela era altíssima, e eu achava que tinha um corpo muito disruptivo, semelhante ao que eu poderia ter no futuro. Minha mente fervilhava na construção de uma realidade paralela, com amigos e amigas imaginárias. A criatividade foi uma válvula de escape diante da repressão do meu entorno. Hoje, acho que isso me ajudou a entender por que, durante os períodos de repressão, as primeiras manifestações censuradas são as artísticas: elas escapam da lógica da repressão, permitem viver outros mundos.
1996
O cenário da educação durante o período de redemocratização – com a precariedade de ensino, as carências sistêmicas das escolas, o baixo alcance das universidades, a falta de estrutura dos programas de pós-graduação, o analfabetismo ainda persistente – dá o ensejo para uma década de disputas que só iria terminar em 1996. Então, os números passaram a apresentar melhoras significativas quando comparados aos anos da ditadura, sobretudo com a queda no analfabetismo e o aumento da cobertura escolar. Mas as dificuldades ainda eram notáveis.
Os debates em torno da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação Nacional – promulgada em 1996 – apontavam caminhos contrastantes para a educação no país. Os defensores da escola pública disputavam as colunas de jornal, os palanques e os gabinetes com aqueles que apoiavam os interesses privados na educação, num contexto em que a palavra “mercado” parecia ter, aos olhos da elite, todos os poderes mágicos para solucionar qualquer problema.
A LDB, embora tenha incorporado aspectos importantes defendidos por educadores e movimentos sociais, como a gestão democrática e a inclusão da educação infantil na educação básica, abriu as portas para o vertiginoso crescimento de instituições privadas que veríamos nas décadas seguintes. A expansão do ensino público fundamental e do ensino superior privado seriam as marcas do governo Fernando Henrique Cardoso, e de certa forma ainda compõem nosso cenário, junto da expansão do sistema superior público e a continuação da expansão do sistema privado dos anos Lula.
Nesse contexto em transformação, começaram também a se expandir exponencialmente as escolas particulares, fossem as de elite, fossem as dirigidas às classes médias baixas (as escolas de bairro, ou as grandes redes com dezenas de milhares de alunos), cujas famílias buscavam investir em seus filhos e “protegê-los” da precariedade das escolas públicas. Matricular os filhos em escolas particulares, por mais fracas que fossem, passou a ser visto como um passo fundamental para se firmar como classe média – junto com o plano de saúde privado, o automóvel e a casa própria. Ser classe média no Brasil é, sobretudo, afastar-se do que é público (espaços, serviços, valores) e lidar com o máximo de dimensões da vida individual e familiar pela via do mercado.
AMOR
Dayanna Louise me fala das armadilhas do amor na vida e na educação:
Eu não me reconheci como um corpo dissidente a partir de um estalo meu, sabe? “Ah, eu sou isso.” Não foi assim. Na verdade, quem começou a me reconhecer foram os outros. Coisas que para mim eram naturais, eu comecei a perceber que para as pessoas não eram. Um exemplo clássico: eu sempre queria brincar com as meninas, e as pessoas diziam que era errado. Quando eu ia à casa da minha avó, nos encontros de família, eu ficava isolada porque não podia brincar com minhas primas e não queria brincar com meus primos. Na adolescência, parei de me olhar no espelho. Eu internalizava a culpa por essas violências, por esse ciclo que vinha de muito tempo.
Depois, teve uma virada de chave que tornou tudo mais complicado para mim, que foi quando minha família começou a se aproximar de igrejas neopentecostais. Então, eu passei a ser levada para as “correntes de libertação” da Igreja Universal. Lembro que eu tinha uns 11, 12 anos, e minha família me levava do interior para a capital, para o grande templo, a matriz da Igreja Universal no Recife. E a lógica era: “Olha, o que está acontecendo é que você tem um espírito dentro de você, um espírito maligno.” E aí eu comecei a tomar aquilo para mim também, achando que eu poderia estar possuída por algum espírito.
Na adolescência, era mais difícil acessar outras informações, outros conceitos sobre as possibilidades de vida, então aquilo era o que chegava até mim. Eu não conseguia achar contrapontos. Penso muito nisso até hoje. Eu entendo que existe um processo contraditório na relação que tenho com minha família, porque é claro que existe muita violência nessa tentativa de “curar” pela fé quem eu era, mas entendo também que havia uma motivação genuína, que era o amor. Uma motivação que se realiza de maneira torta e injustificável.
Era uma sessão de horror. Lembro que uma psicóloga me olhou e disse: “Olha, estou aqui para descobrir o que você é e dizer aos seus pais. Mas, de antemão, já lhe digo que, se confirmar aquilo que eu suspeito, você vai mendigar amor pelo resto da sua vida. Pessoas como você não têm direito ao amor.”
O amor… Se a violência é justificada pelo amor, então eu tenho que desromantizar esse amor. Não é aquele amor bíblico que tudo supera, tudo suporta e por aí vai. Estou pensando nisso agora: acho que eu tenho acreditado nesse amor cada vez menos. Porque eu senti em minha vida o quanto o amor muitas vezes é acionado para justificar o injustificável. A gente vê, por exemplo, os debates da extrema direita: é amor a Deus, amor à pátria e à família. Mas, do meu lado político, também existem problemas. Parece também que o amor sempre entra nesses debates progressistas como uma forma de higienizar a discussão, de amansar as contradições.
Eu venho do serviço social, e lembro que lá tem uma campanha, a única que a categoria profissional desenvolveu até hoje sobre pautas de diversidade sexual, que é: “O amor fala todas as línguas.” Eu pensava: “Gente, uma categoria que defende os direitos da classe trabalhadora, que defende os direitos humanos e justifica a promoção deles para a população lgbt, mas dizendo que o amor fala todas as línguas com um debate que é extremamente bíblico e cristão, é um absurdo!” Eu ainda acho isso.
PEDAGOGIA DO SILÊNCIO
Minha jornada até Dayanna Louise foi gradual. Foi na minha segunda faculdade, a de serviço social, que passei a me identificar, com 20 e tantos anos, como Dayanna Louise. Era tudo tão diferente naqueles anos. É uma loucura como as informações circulam muito mais rápido hoje. Quando ingressei na universidade, a internet ainda era discada, era tão difícil achar referências…
Naquela época, eu não via pessoas trans na faculdade. Quando entrei para fazer história – que foi meu primeiro curso superior – na Universidade Federal de Pernambuco, lá no interior, eu já me reconhecia como uma figura feminina, mas ainda não conseguia me nomear, porque para mim era como se isso não fosse possível. Depois, comecei a fazer trabalhos na periferia da cidade e me envolvi com teatro em congregações religiosas. Os meninos e meninas adoravam ir à igreja para ter aula de teatro, se apresentar, circular em outros lugares, serem vistos, aprender técnicas de cultura que o Estado negava. Na época, mesmo não me identificando abertamente como trans, eu já sentia o poder da arte para engajar e empoderar.
O meu Louise é uma homenagem a Madonna – ela se chama Madonna Louise. E Dayanna é porque as pessoas me diziam que eu era muito fina, muito elegante. Como a princesa Diana.
Eu me dediquei muito aos estudos. Se não tinha com quem brincar, se vivia um processo de repressão por vários lados e das mais diversas formas, se vivia trancada em meu quarto, então eu tinha que me agarrar à educação como uma estratégia de sobrevivência. Hoje eu me pergunto se gostava tanto assim de estudar, ou se queria também brincar com as outras crianças, fazer outras coisas.
Meu pai e minha mãe sempre priorizaram a educação formal para a gente. Mesmo não tendo muito dinheiro, eles faziam de tudo para que eu estudasse sempre na escola privada, uma escola de bairro, na periferia de Carpina. E na escola eu sentia a rejeição constante. O ódio se manifestava, inclusive, na privação de contato com esse corpo, em afastá-lo, em tirá-lo do convívio.
Hoje sei que vários desses colegas que os pais obrigaram a se afastar de mim eram também crianças dissidentes – que mais tarde foram se entender como não heterossexuais. Então, eles buscavam desde cedo afastar o filho ou a filha de mim, daquilo que eles viam como o epicentro do desvio que a família já enxergava em sua própria criança. Era o medo de que aquela dissidência que já viam nos filhos florescesse, virasse um movimento. A escola e a família não dão conta disso, desses corpos dissidentes se unindo.
E, aí, também o silêncio tinha um papel importante. Não falar é um posicionamento, a pedagogia do silêncio é uma estratégia. A escola, para mim, era um lugar onde o silêncio sobre minha dissidência de gênero reafirmava a norma.
Lembro que, quando eu tinha uns 6 anos, estava vendo um desenho na escola e quatro colegas de sala se aproximaram e me bateram. Me agrediram mesmo. Depois de muita pressão da escola, eles disseram: “A gente bateu para que essa pessoa aprenda a ser homem.” E eu lembro que um educador da escola repreendeu os meninos, mas dizendo para eles: “Vocês erraram. Não precisava bater, porque quem vai bater é a vida, e essa pessoa vai aprender a ser homem lá fora.”
Eu não me esqueço. A frase desse suposto educador me feriu muito mais do que a violência física dos meninos que tinham me agredido fisicamente. E teve ainda uma terceira agressão: eu sabia que voltaria para a minha casa e não poderia contar à minha família o que aconteceu.
2004, 2012
A educação é um gigante sutil, geológico. Move placas tectônicas que conectam toda a sociedade, e ao mesmo tempo também é afetada por movimentos externos a ela. A cada manhã, milhões de crianças e adolescentes saem de suas casas para passar várias horas de seus dias em salas de aula – universos que variam conforme a classe social dos alunos e cujo impacto em suas vidas é sempre enorme: vai do edificante (novas habilidades, novos sonhos, amigos e amores) ao brutal (as violências renovadas, o desinteresse, o bullying, a falta de sentido).
Se prestarmos atenção, em alguns momentos a educação pode revelar o tremor por vir que afetará a sociedade de alto a baixo. Era isso que sentíamos, eu e meus colegas, no início de nossa vida universitária, nos anos iniciais do governo Lula, com os acalorados debates sobre a expansão do ensino superior e as cotas raciais e sociais.
A promessa vinda de Brasília era de uma expansão como nunca vista do ensino superior público no país, com a interiorização de um sistema que até então era profundamente elitista, uma estrutura que operava conforme o velho mecanismo de reprodução das elites – em que os alunos de escolas particulares eram aprovados em vestibulares de universidades públicas (e, portanto, gratuitas), sobretudo nos cursos mais disputados, os mesmos que reproduziam a elite da qual esses alunos já faziam parte.
Em paralelo, o governo propunha um programa de auxílio para alunos de baixa renda que quisessem cursar o ensino superior privado, seguindo o modelo de conciliação de classes e de interesses que marcou a esquerda brasileira no poder, mas que também foi a tônica das políticas educacionais do país desde a democratização. Universidades públicas e privadas cresceram, se espalharam pelo território e aumentaram de maneira notável o número de acesso ao ensino superior.
As consequências desse processo sentimos até hoje. Uma espécie de democratização, sim, mas com os traços tortos de uma democracia que preserva a desigualdade, mesmo quando expande acessos. Aos poucos, um diploma de ensino superior deixa de ter o mesmo valor social e econômico de décadas anteriores. Não por acaso, muitos dos que se formaram em universidades menos prestigiosas, à custa de imenso esforço pessoal, engrossaram as ondas de indignação que são música de fundo da nossa história coletiva há mais de uma década.
Pouco depois, um segundo terremoto: em 2012, o governo Dilma Rousseff consegue aprovar a Lei de Cotas, que estabeleceu a reserva de 50% das vagas em universidades e institutos federais para estudantes de escolas públicas, com subdivisões para comtemplar pretos, pardos, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência.
Não é possível compreender o que há de melhor, mas também de mais tacanho no Brasil, sem levar em conta os abalos causados por esse duplo terremoto da expansão do ensino superior e das ações afirmativas. Foi uma espécie de revolução do possível numa sociedade profundamente desigual e racista – uma revolução visível, com o crescente número de pessoas negras e originárias das classes trabalhadoras que passaram a ocupar cada vez mais posições de destaque na economia, na cultura, no Estado. Um abalo sísmico que, apesar das ruidosas reações que se ouvem até hoje, foi um dos mais belos truques que a democracia brasileira já produziu.
O TRUQUE
Vou explicar o que é dar o truque. É tipo dizer: “Olha, vocês querem tirar onda com a nossa cara, mas a gente está criando estratégias aqui, e vocês mal conseguem ver.” Aprendi desde cedo a “dar o truque”, a saber como agir em certos momentos para não ser revitimizada, para não sofrer mais. Aprendi com 5, 6 anos. Chegar em casa e não falar nada do que aconteceu já era uma forma de dar o truque. Ou então estudar muito, tirar notas excelentes, transformando o bom desempenho numa arma. Isso era meu truque, meus primeiros truques. É a malandragem da travestilidade. Minha família se orgulhava do meu desempenho escolar, e com isso tinha alguma coisa boa para falar de mim, para ficar menos focada em minha dissidência de gênero.
Quando eu era criança, estudava numa escola católica particular, da rede salesiana. Eu barbarizava nos seminários da escola – já era resistência criativa. A professora de biologia pediu um trabalho sobre doenças sexualmente transmissíveis e eu apresentei meu seminário no banheiro da escola. Enchi o piso do banheiro de algodão, era um vasto campo de algodão, e em cada cabine eu fazia um personagem que tinha uma ligação com o HIV e a Aids. Foi um escândalo para uma escola confessional católica. Mas isso era truque também. Para mim, tudo isso é uma resistência criativa. A linha entre o que é real e o que é possível é muito, muito fina. E eu vejo que muitas pessoas trans também têm essa linha bem tênue. É uma forma de sobreviver, de subverter.
Naquela época, eu não tinha a compreensão que tenho hoje sobre identidade de gênero, sobre o meu corpo, mas eu sabia que não podia usar o banheiro das meninas, claro. Porém, eu não me sentia confortável com o banheiro masculino. Não me representava. E eu imaginava os níveis de violência que poderiam viver ali. Então, ir ao banheiro sempre foi um inferno para mim.
Uma vez a escola toda foi liberada mais cedo por causa de uma reunião de professores. Aproveitei que todo mundo tinha ido embora e que minha família só podia me buscar no final do horário escolar e entrei no banheiro das meninas. Parecia que eu estava entrando num paraíso! Entrei sozinha, porque todo mundo já tinha ido embora. Mas o truque foi ainda maior: entrei numa das cabines, tirei da minha bolsa um corretivo, e escrevi o nome que eu já sonhava para mim na porta do banheiro, e fui embora.
No dia seguinte, o padre ficou indignado. Foi notificado que alguém tinha depredado a porta do banheiro, que aquilo era um crime passível de expulsão. Então, ele queria saber quem era “essa menina” que tinha ousado ir contra a lei de Deus, contra a lei pedagógica, contra todas as leis, e colocara lá o nome dela. E, quando ele foi procurar, não encontrou nenhuma aluna com aquele nome na secretaria, nenhuma Dayanna com Y e dois Ns. Nenhum professor sabia informar quem era essa pessoa. Isso é um truque que, hoje, quando paro para pensar, acho genial, porque, se Dayanna não existe para a escola, Dayanna não pode ser punida pela transgressão que fez. Um truque perfeito, e eu tinha uns 12, 13 anos.
Uns vinte anos mais tarde, voltei a essa escola para personalizar e retificar meu documento e meu histórico escolar. Me apresentei como Dayanna e fiz questão de ir até aquele mesmo banheiro. Entrei na mesma cabine e vi que naquela porta ainda havia vestígios do nome que eu havia escrito mais de uma década antes. Aí eu tirei o corretivo que estava na minha bolsa e reforcei o nome: Dayanna!
OUTROS VERBOS
Nos anos 1990, era muito comum a gente entender que a escola é um espaço que prepara o aluno para ser alguém na vida. Mas a escola não permitia que eu fosse quem eu era. Como ela estaria me preparando para a vida? Mas hoje vejo que a escola também é um espaço de disputa. Tinha momentos em que, para mim, era muito melhor estar na escola do que no espaço familiar, por exemplo. E foi lá que comecei a reconhecer gente que também era dissidente como eu, a formar pequenas comunidades.
Lembro de um professor de matemática que, num dia de prova, suspendeu tudo para conversar com a turma. E ele começou a falar sobre como era perversa essa lógica do insulto, do xingamento, da violência. Ele olhou para mim e disse: “Eu quero que você conclua o ensino médio, que você vá para a universidade e que possa ser alguém na vida.” Nem sei bem se a cena foi essa, se ele olhou mesmo nos meus olhos e disse isso, mas foi assim que eu vivi aquela cena e é assim que ela ficou marcada em mim. Se estou aqui hoje, devo muito a esse professor. Porque aquilo foi um vento de esperança no meio do deserto.
Quando você se coloca publicamente como um corpo trans ou travesti, a sociedade te apresenta três sentenças: o cárcere, a prostituição e o cemitério. Mas, quando eu rasgo esse contrato e digo “o olhar de vocês não consegue me alcançar”, tudo muda. Quando me apresento hoje como uma pessoa do programa de pós-graduação em educação, eu provoco a sociedade a deslocar a sua retina. Nós estamos fissurando essa estrutura, estamos conjugando verbos que vocês nunca acharam que seríamos capazes de conjugar, estamos acertando uma conta que vocês abriram, e a gente não vai sair no prejuízo.
Uma vez, eu cheguei como representante da Secretaria de Educação numa escola para fazer o acompanhamento de uma pessoa trans, e o porteiro olhou para mim e disse: “Olha, hoje não tem ensaio de quadrilha.” Eu respondi: “Meu amor, eu vim aqui dançar, sim, mas vim como secretária de Educação.”
No ensino médio, me envolvi numa pesquisa sobre manguezais, e minha apresentação foi muito boa. No segundo ano, me candidatei a representante da turma, perdi, mas fui convidada para ser representante de cultura, e a gente montou O auto da compadecida. Essa experiência foi um divisor de águas. No terceiro ano, venci a eleição para representante de turma. Toda aquela vergonha, o silêncio, a culpabilização foram ficando para trás.
A arte foi um caminho de empoderamento, um lugar onde eu podia ser e me expressar sem amarras. Eu acho que as violências ganham novas roupagens a partir do momento em que também assumo outro lugar e outra narrativa. Esse novo lugar, como representante de turma, também acionou outras formas de violência, algumas mais sutis, outras mais escancaradas. Mas fico pensando o que era aquela criança que apanhou na educação infantil, e como ela se transformou em representante de turma na maior escola da cidade, no terceiro ano. É um reflexo de como eu consegui, de certa forma, hackear um sistema que parecia infalível.
O terceiro ano do ensino médio, para mim, foi muito sofrido, porque eu me agarrei demais à escola, sabe? E eu tinha um medo gigante do futuro, não conseguia me enxergar de jeito nenhum. Não queria um curso em que meu corpo fosse exposto, em que minha imagem fosse vista. Eu sabia que, quando você é vista, você é capturada. É por isso que tem tanta gente travesti trabalhando em call centers, porque as empresas entendem que ali o cliente não vê o rosto da pessoa do outro lado. Então, é possível se encaixar nessas profissões em que você perde o visual, o rosto, a imagem, e é reduzida a uma voz. Aí a gente entende o grau de transfobia que isso representa. Porque é como se fosse garantido que o menino hétero branco de 17 anos pode sonhar em ser advogado, médico, ator, pode sonhar em ser várias coisas. Tudo é permitido e possível para ele, sem nenhum efeito colateral.
SEVERINA
Eu sempre tive uma inclinação muito grande para a escrita. E minha avó, por parte de pai, a Severina, sempre falava que eu ia viver de literatura, que eu seria escritora. Todas as vezes que eu ia à casa dela, eu levava o caderno, a caneta e passava a tarde escrevendo. E ela me dava lanche, lavava roupa, conversava comigo.
Lembro muito dela me chamando para conversar, eu estava no ensino médio, e lembro de uma conversa específica em que ela disse: “Olha, vou te fazer uma pergunta, e quero que você seja bem sincera.” Aí eu respondi: “Diga, vovó.” E ela perguntou: “Você é gay?” Eu parei, olhei para ela e disse: ““Não.” E ela, na mesma hora, me disse: “Olha, independente de qualquer coisa, o meu amor por você não vai mudar.”
Estou falando de uma senhora evangélica, que nasceu no interior de Pernambuco, que já estava numa idade superavançada, que não teve direito à educação formal. Eu acho que a lei que falou através dela foi a do amor mesmo.
Minha avó Severina morreu durante a pandemia, e eu não consegui me despedir. Mas, depois, escrevi um conto em homenagem a ela, que inclusive foi publicado – ela tinha dito que eu viraria escritora, né? Ela aparece nesse texto, aparece também na minha tese, que estou escrevendo agora. São formas de honrar a profecia de minha avó Severina.
PESSOAS COMO VOCÊ
Não acredito que a educação formal garanta respeito à identidade de gênero. Um dos lugares onde me trataram com mais respeito foi no sistema socioeducativo, onde trabalhei. Nesses espaços, que atendem adolescentes em conflito com a lei, que vêm de locais de baixa escolaridade, nenhuma pessoa que estava privada de liberdade errou meu pronome, nenhuma. Na universidade, isso aconteceu. Na Secretaria de Educação de Pernambuco, isso aconteceu. Nesses espaços, nos “latifúndios dos saberes e do conhecimento”, isso aconteceu. Acredito que a educação pode ser uma importante ferramenta na disputa. Mas a alta escolaridade, por si só, não garante que a outra pessoa vai te respeitar.
Retifiquei meu documento de nascimento aos 35 anos, em Carpina. Eu saí do Recife, peguei um ônibus para a cidade, fui ao cartório e peguei essa certidão de nascimento. Sequer fui à casa da minha família. Peguei o ônibus de volta para o Recife e passei a viagem toda encarando o documento. Vi muitas pessoas comemorando a retificação, e lá estava eu, sentada no ônibus, ao lado de um desconhecido, sem ninguém para comemorar comigo.
Em 2023, depois de quase três anos sem encontrar minha família presencialmente – a última vez foi antes de eu ir para o Sergipe fazer doutorado –, resolvi abrir o jogo de forma mais direta sobre quem eu sou. Até então, eu nunca tinha tido um diálogo aberto com a minha família sobre o que eu era, sobre transexualidade.
O amor pelos meus pais me fez negociar minha existência durante muito tempo. Até eu perceber que eu não tinha mais moeda para negociar. E aí, quando vi que a conta tinha esvaziado, e que eu poderia perder a mim mesma, rasguei esse contrato que tinha feito. Então, em 2023, mandei uma mensagem para minha mãe, dizendo: “Olha, eu sou mulher trans, a realidade é essa.” Minha mãe me ligou e perguntou: “Está tudo bem?” Ela disse que já sabia e queria pedir desculpas e perdão por não ter tido condições de lidar com a situação durante todo esse tempo. Minha mãe reflete hoje que várias coisas que ela e meu pai fizeram foram muito perversas, muito violentas comigo. Depois, ela conversou com meu pai, e ele disse que me amava muito e que era bom que eu tivesse entrado no movimento LGBT, e em outros movimentos sociais, porque outros espaços não tinham sido capazes de me acolher. E ele disse que me amava muito.
PROFESSORA
Fui cursar história porque eu gostava de contestar as coisas, era curiosa. Ingressei na licenciatura em história sem querer ser professora. Para mim, era inconcebível um corpo como o meu ocupar aquele lugar de professora, pelos níveis de violência que eu poderia sofrer. Mas, quando comecei a dar aula em um curso pré-vestibular comunitário numa igreja batista, e tive uma resposta muito positiva dos alunos, passei a entender que era um lugar possível para mim. Mesmo com a minha presença, digamos, disruptiva, o acolhimento dos estudantes me fez perceber que aquele era um caminho.
Em 2008, quando eu já era formada em história e estava no meio do curso de serviço social, abriu um concurso na rede estadual. Foi superconcorrido, e eu passei. Mas o estado levou um mês para me oferecer a disciplina. Quiseram me dar aula de matemática, de geografia, mas eu batia o pé: “Eu quero aula de história na cidade que escolhi, Carpina.” Me colocaram em duas escolas, uma rural e outra num bairro periférico com muitos problemas, muita criminalidade. Quando fui até a escola rural para a diretora assinar a minha lotação, o porteiro disse que a diretora não estava. Na mesma hora, saiu um aluno dizendo que tinha acabado de ser expulso pela diretora. E aí o porteiro ficou assustado, porque ele foi induzido a mentir.
A diretora de uma escola rural chegou a dizer que não queria “esse tipo de gente” dando aula lá. No fim, fui parar na oitava série de uma escola da periferia, um cubículo com uma turma de quase cinquenta alunos, um ventilador infernal, aula à tarde… Eu me vi ali, diante de um desafio imenso, tendo que adaptar tudo para conseguir fazer a turma aprender.
Mais tarde, trabalhei quatro anos na Secretaria de Educação de Pernambuco, de 2017 a 2021. E, entre 2019 e 2021, fui uma das fundadoras da Unidade da Educação para as Relações de Gênero e Sexualidades. A gente conseguiu impulsionar o uso do nome social em toda a rede estadual de Pernambuco, criando um formulário-padrão para isso. A gente também fez uma mostra itinerante de cinema de gênero e sexualidade nas escolas. Isso era superdisruptivo na época, imagine o que é ter, durante o governo Bolsonaro, uma Secretaria de Educação que leva filmes sobre gênero e sexualidade de forma itinerante para uma rede de ensino inteira!
Acredito que minha presença nesses espaços é uma disputa por outra fotografia desses lugares. Por isso, eu convido essas instituições a transicionarem também. Imagine só: uma escola tem um problema com o uso do banheiro e aciona a Secretaria de Educação para resolver. Aí, quem aparece lá não é o homem branco, hétero cis de paletó que eles esperavam, mas uma mulher trans. O pessoal olha e pensa: “Mas eu tô esperando a Secretaria.” E você chega e diz: “Eu sou a Secretaria.”
A gente está mudando a imagem desses espaços, e é óbvio que a mente cis não consegue lidar com isso. Essa mente queria, dentro de um pacto narcísico, outra pessoa cis para chegar lá e assinar a sentença do corpo trans, dizendo: “Você não deve ir ao banheiro daquele gênero.” Mas, quando a minha imagem aparece, ela estremece uma estrutura. Estremece, porque não só apavora quem por muito tempo acreditou que o jogo já estava ganho, como potencializa aquela aluna, fazendo-a dizer: “Olha, é possível, eu vou construir uma outra narrativa.” Eu represento para ela uma alternativa de projeto de cidadania para este país, inclusive para o processo de democratização. Porque a democratização também é atravessada pela construção de novas fotografias, de novas imagens. Imagens com outras cores, outros gêneros, outros sotaques. Se isso não é democracia, eu não sei mais o que é.
2015-2025
Uma mesma peça, três cenas.
Na primeira, estudantes de todo o país ocupam suas escolas para protestar contra a precarização do ensino, os cortes de gastos, a alienação daquela instituição que também é deles. Em muitas delas, são enfrentados com força policial e violência judicial. Enquanto isso, no interior dessas escolas ocupadas, eles ensaiam outras coreografias sobre o que pode ser feito daquele espaço em que passam tanto tempo de suas vidas.
No mesmo período, movimentos organizados, ondas nas redes sociais e pais conservadores passam a gritar por uma “escola sem partido”. Esses adultos – e muitos de seus filhos e filhas, que repetem seus discursos em salas de aulas cada vez mais conflitivas – bradam contra o que enxergam como a penetração de ideias ameaçadoras nas salas de aula. Ouvimos discursos contra a “ideologia de gênero” e o “marxismo cultural”. Pais de alunos, principalmente em escolas privadas, formam grupos de WhatsApp para denunciar professores que defendem ideias que eles consideram perigosas. Professores passam a ter medo de serem filmados e depois terem suas imagens espalhadas pelo país, de serem atacados por influenciadores e políticos estridentes. Esses movimentos formam um dos veios d’água que desaguam no manancial da extrema direita nos anos seguintes. Uma cena dentro da cena, um flashback de poucos anos antes: médicos formados no curso mais disputado do país recebem com gritos infames seus colegas de profissão vindos de Cuba para trabalhar em regiões onde não querem ir aqueles mesmos médicos que são parte da elite brasileira.
Terceira cena: influenciadores adolescentes pregam nas redes sociais que a escola não vale para nada e que a filosofia de Platão ou o teorema de Pitágoras não irão fazê-los ganhar fortunas com bitcoins, com tráfego pago nas redes sociais ou qualquer outra moda digital. Meninos de 12 anos gravam videocasts compartilhando como usam seu tempo para gerar renda, compartilham seus números, zombam dos que perdem tempo estudando. A escola, para eles, é uma perda de tempo.
Nenhuma dessas três cenas resume as tensões em torno da educação em um país com a complexidade do nosso, com um dos maiores e mais diversos sistemas educacionais do mundo. Um país que conseguiu combater de forma notável o analfabetismo, que expandiu o ensino fundamental e superior, mas que ainda peca pela baixa qualidade de ensino em todos os níveis, a fragilidade da formação de grande parte dos educadores, a baixa inserção dos formados em postos de qualidade no mercado de trabalho.
Hoje, em qualquer sala de aula do país, essas três forças – o desejo de que a escola faça sentido, o desejo de controle ideológico sobre os conteúdos ensinados, o desprezo pela instituição escolar – convivem com muitas outras, num momento em que temos dificuldade de encontrar sentidos coletivos e projetos que organizem de alguma forma esse universo de salas de aula, professores, alunos, coordenadores, diretores, reitores, esse mar de gente, de ideias e de lugares que amarramos nessa palavra tão inflada de sentidos, de bloqueios e de sonhos que chamamos de educação.
IR PARA MARTE
Dayanna Louise continua:
A visibilidade para pessoas trans sempre existiu, mas era uma visibilidade marginalizada. Nas esquinas da prostituição, nos cabarés, nas páginas policiais. O que temos hoje é a construção de uma outra visibilidade, que disputa espaço nos meios de comunicação, na política, na cultura. Isso, para mim, é uma grande virada de chave. Quando o país inteiro está compartilhando e repostando vídeos de uma mulher trans falando sobre escala 6×1 de trabalho, por exemplo, é a prova de que temos um projeto para esse país que não passa só pelas nossas feridas e dores. É um projeto coletivo, é um projeto aquilombado, que se conecta com pautas de moradia, saúde pública, reforma agrária. Todas essas demandas não estão distantes do que a população trans e travesti vive, pelo contrário, são fios que se entrelaçam diariamente para construir outro Brasil.
É duro demais lidar com um Brasil que assassina uma vereadora democraticamente eleita, em que se conquista direitos só pela judicialização, porque as casas legislativas, que deveriam ser a Casa do povo brasileiro, não reconhecem e não promovem a dignidade da nossa população. É frustrante quando alguém me vê fazendo doutorado em educação e pede para eu falar sobre minha experiência, como se eu não tivesse capacidade teórica e intelectual para fazer qualquer análise que não parta do que vivo no dia a dia. É uma desqualificação.
Gosto muito de trazer a lógica do “nós”, porque existe uma perspectiva meritocrática, branca, cisgênero, heterossexual, que instiga a nossa população a falar sempre do singular. Se hoje eu chego como doutoranda à Universidade Federal de Sergipe, eu não chego sozinha. Represento um sonho da minha ancestralidade, de mulheres trans e travestis que, lá atrás, depois de noites e noites vivendo e sobrevivendo da prostituição, deitavam e sonhavam que era possível uma delas chegar à universidade. Quando entro na universidade, eu entro com elas. Eu não posso falar no singular, porque, apesar de minha singularidade, o meu corpo é plural.
Quando fui homenageada pela Câmara Municipal do Recife, apesar de toda resistência da extrema direita contra a concessão do título de cidadã recifense para mim, eu lancei a ideia para o cerimonial: “Vamos começar essa sessão com um vídeo de 5 minutos, com depoimentos de várias pessoas trans e travestis falando o que é a cidadania.”
Isso é um truque, né? A gente começou a sessão com o vídeo, porque mostrar pessoas falando em vídeo é autorizado, mas elas falarem na sessão plenária não é. Então, eu já trouxe a narrativa dessas pessoas logo no início. E, depois, na hora que fui receber o título de cidadã recifense, a gente trouxe várias pessoas trans e travestis para o palco, recitando poesia, cantando, fazendo performance. E aí foi uma noite toda festiva para celebrar aquilo que a gente vislumbra como uma cidadania trans recifense.
Acredito que daqui a vinte anos a gente vai estar em um país onde ocuparemos espaços que muitas vezes nos foram negados. Acredito que teremos uma expansão nas bancadas políticas, e espero que tenhamos uma bancada trans/travesti no Congresso Nacional. Nós não queremos só alongar a mesa, queremos interromper o jantar! Porque o prato principal desse jantar são as injustiças históricas.
Espero que o Brasil, daqui a vinte anos, te permita entrevistar meninas trans e travestis que não tenham dificuldade em responder qual é o sonho da vida delas. Que elas não precisem sonhar, por exemplo, com ir para a universidade, porque a universidade já será um direito garantido para elas.
É absurdo que ainda hoje tenhamos pessoas trans cujo maior sonho é entrar no banheiro sem sofrer violência. Esse não é um país que eu quero, um país em que entrar no banheiro com segurança é ainda um sonho para uma mulher trans, uma travesti ou um homem trans. O Brasil que eu desejo é aquele em que elas possam sonhar com coisas mais sublimes e digam: “Meu sonho é ir pra Marte”, “Meu sonho é fazer uma grande viagem internacional”, “Meu sonho é ser presidenta da República.”