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Vivi Fernandes de Lima Set 2025 17h39
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“Estão vendo uma coisinha ali do lado da estrela Mimosa?”, pergunta o astrônomo ao grupo de cerca de cinquenta pessoas reunidas na sede do Parque Estadual do Desengano, em Santa Maria Madalena, município no Norte do Rio de Janeiro, na noite de 24 de maio passado. Longe da poluição luminosa que esconde os corpos celestes nas grandes cidades, fica mais fácil ver, a olho nu, “a coisinha” que ele localiza com um apontador laser de longa distância direcionado para a constelação do Cruzeiro do Sul.
Mas nem todos conseguem encontrá-la. O astrônomo dá uma dica: “Olhem para aquela outra estrela ali de cima, que aí vocês conseguem enxergar, de rabo de olho, o que estou mostrando.” E fez-se a mágica.
Com esse truque óptico, todos veem a estrela mais brilhante do aglomerado conhecido como Caixa de Joias. Depois, pela lente do telescópio, percebem que as tais joias têm cores diferentes. São mais de cem estrelas de cerca de 6 milhões de anos, a mais de 6 mil anos-luz de distância. Primeira lição da noite: às vezes, se quisermos enxergar uma dada estrela, é preciso olhar para outra.
Quem deu essa dica foi Daniel Mello, astrônomo e professor do Observatório do Valongo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que ensina turistas a observar corpos celestes. Ele coordena, desde 2021, o projeto Astroturismo nos Parques Brasileiros, que reúne uma equipe multidisciplinar de especialistas em astronomia, turismo, geografia e astrofotografia. O grupo já realizou sessões públicas em 25 unidades de conservação do país, como a Floresta Nacional do Araripe-Apodi, no Ceará, e o Parque Estadual do Tainhas, no Rio Grande do Sul.
Por onde passam, os integrantes do projeto levam orientações para diminuir a poluição luminosa em parques, casas e ruas, e ensinam como o excesso de iluminação artificial pode ser prejudicial para os ecossistemas e a saúde das pessoas. Mello explica que as atividades praticadas pelo grupo não se restringem à astronomia. “É uma conexão direta com a natureza, do ser humano com o cosmos”, diz. “Visitamos escolas e fazemos um trabalho voltado principalmente para adolescentes. Mostramos as associações das constelações com as culturas. As pessoas mergulham nos mistérios do universo.”
Foi essa sensação de mergulho no desconhecido que seduziu Ivison Rubim, analista de sistemas aposentado e montanhista de Niterói, durante a sessão noturna no Desengano. Ele já conhecia o parque, mas a observação guiada foi uma revelação: “Meu olhar mudou. Agora, quando olho para o céu, o que vem de imediato à minha cabeça é o mistério. O envolvimento das crianças com a atividade também me emocionou muito”, diz. Entusiasmado, ele já pensa em fazer um curso de extensão no Observatório do Valongo.
Na mesma noite em que Mello revelava a Caixa de Joias oculta no firmamento, outras equipes do projeto conduziam observações noturnas nas sedes do Parque Nacional do Caparaó, no Espírito Santo, e do Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais. Todos os grupos contavam com telescópios, câmeras e apontadores estelares. “Muitos que participaram dessas sessões nunca tinham tido uma experiência astronômica de olhar o céu sem impacto da luz artificial, para ver, por exemplo, o arco da Via Láctea e as nebulosas”, diz Mello.
A escuridão natural desses parques propicia uma melhor visualização dos astros. Mais antiga unidade de conservação do Rio de Janeiro, o Parque Estadual do Desengano, com seus mais de 200 km², espalhados entre os municípios de Santa Maria Madalena, Campos dos Goytacazes e São Fidélis, foi o primeiro da América Latina a receber o título de Dark Sky Park. A distinção, dada a parques de todo o mundo dotados de condições excelentes para a contemplação celeste, foi concedida em 2021 pela DarkSky International, ONG com sede nos Estados Unidos. Mello acredita que outras áreas do Brasil têm potencial para obter o mesmo reconhecimento. Ele cita como exemplo o Parque Estadual da Serra do Brigadeiro, em Minas Gerais, que está em processo de certificação.
A sessão pública de observação dos astros conduzida por Mello na sede do Desengano fez parte dos eventos do Festival das Estrelas, realizado anualmente em Santa Maria Madalena desde 2022, quando o município foi reconhecido pelo governo do estado como Cidade das Estrelas. Na mesma noite, e bem perto do parque, acontecia outro tutorial de observação dos céus, promovido pelo Clube de Astronomia Louis Cruls, de Campos dos Goytacazes. O ponto escolhido foi a Pousada Verbicaro, que ganhou da Dark Sky um outro tipo de certificado, específico para hospedagens.
Santa Maria Madalena recebe mais de 1 mil visitantes durante o festival de três dias, que acontece sempre no outono ou no inverno, melhor temporada para mirar o céu no Sudeste. A praça da cidade fica repleta de estandes com exposições e atividades astronômicas. Neste ano, a 4ª edição do Festival das Estrelas aconteceu entre os dias 23 e 25 de maio. “A ideia é tratar a astronomia com uma linguagem popular, para aproximar as pessoas do tema”, explica Anna Mostowik, produtora do festival e presidente do Madalena Convention & Visitors Bureau, associação turística local.
Manter o certificado de Dark Sky Park do Desengano, razão de ser do festival, não é tarefa simples. Segundo o gestor da unidade de conservação, Heron Costa, sua equipe realiza atividades de educação ambiental nas escolas das três cidades que abrigam o parque e mede periodicamente o grau de poluição luminosa no interior da unidade.
A tarefa mais difícil é convencer os municípios a manter a iluminação pública de acordo com parâmetros que diminuam o impacto da luz artificial no meio ambiente. “Foi encaminhado um projeto de lei à Câmara de Madalena para trocar as lâmpadas brancas de LED por tons quentes e direcionar as luzes para baixo, mas o projeto não andou”, lamenta Costa. É preciso cuidado para não ofuscar as joias do céu.