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Pedro Tavares Nov 2025 14h08
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Na noite de 10 de novembro, data em que começa a COP30, membros de delegações internacionais e convidados vão ocupar as tradicionais cadeiras de madeira e palhinha do centenário Theatro da Paz, em Belém, para assistir à estreia mundial de I-Juca Pirama, ópera baseada no poema indianista de Gonçalves Dias publicado em 1851. O libreto é de Paulo Coelho. Gilberto Gil e o maestro italiano Aldo Brizzi assinam a partitura, que será interpretada pela Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz (OSTP).
No fosso do palco, fora do campo de visão da plateia, se esconde a realidade de uma orquestra que se afunda em um emaranhado de problemas, como salários defasados, instrumentos antigos e agenda desorganizada. Não bastasse o drama presente, tampouco há garantias para o futuro: os contratos dos músicos vencem em dezembro e ninguém foi informado sobre a renovação. No ano que vem, a orquestra comemora trinta anos de atividade.
Em outubro, o produtor da orquestra, Régis Falcão, informou aos músicos que enviaria um relatório à Secretaria de Cultura do Pará (Secult) solicitando novo mobiliário para o teatro e manutenção técnica de instrumentos antigos. “O sonho é alto, sabemos disso, mas se conseguirmos ‘pelo menos’ as tão sonhadas cadeiras profissionais, bancos profissionais de contrabaixo e tímpanos e estantes profissionais, já será um grande passo”, escreveu Falcão em mensagem à orquestra, antes de encaminhar seu relatório à Secult. Um músico da OSTP – que, como outros titulares da orquestra, falou à piauí sob condição de anonimato, por receio de retaliações – define o tom do documento de Falcão: “É um pedido de socorro, quase que implorando por materiais novos.”
A piauí teve acesso ao documento, que traz fotos de itens avariados da orquestra e estima o custo dos reparos necessários. “Nosso timpanista está pedindo há quatro anos para trocar as peles do tímpano do instrumento. Quando ele pisa no pedal faz um chiado enorme no meio do concerto”, conta o mesmo músico. A troca das quatro peles custaria entre 8 mil e 12 mil reais, segundo os cálculos do relatório. “Quando tentamos procurar a solução para algum problema, a culpa sempre é jogada de um lado para outro. A produção da orquestra joga para o maestro, o maestro diz que é culpa da Secult, e a Secult não fala nada, porque não temos acesso a eles”, diz o músico.
A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz é composta por 62 músicos, além do regente titular e diretor artístico, Miguel Campos Neto, e da maestrina assistente, Laura Gentile. Fecham a equipe o produtor Régis Falcão, uma arquivista, três montadores e um inspetor. Todo esse corpo artístico é gerido desde 2011 pela Academia Paraense de Música (APM), organização contratada pela Secult por meio de licitação. A APM também administra a Amazônia Jazz Band, um grupo de Belém que se apresenta no Theatro da Paz. “Um novo chamamento público definirá a entidade responsável pela gestão dos corpos artísticos do Theatro da Paz no próximo ciclo (a partir de 2026), conforme a legislação vigente”, informa a Secult, em nota.
Em 7 de setembro do ano passado, no intervalo de Gianni Schicchi, ópera do italiano Giacomo Puccini, os músicos da OSTP receberam uma mensagem por celular enquanto ainda estavam sob os aplausos da plateia. Era a arquivista Tassiane Gazé, informando que acabara de receber as partituras de dois concertos de compositores do Azerbaijão. As peças deveriam ser estudadas para que a orquestra ensaiasse dali a dois dias com o maestro azerbaijano Ayyub Guliyev. “A gente teria basicamente um dia para passar obras que a gente nunca tinha ouvido”, lembra um músico que está há mais de quatro anos na orquestra. “Era um repertório megadifícil, com um maestro superexigente.”
O ensaio correu de forma truncada. Constrangidos, os músicos resolveram desabafar com Guliyev, que se espantou com o prazo exíguo que a orquestra teve para trabalhar na peça. “Isso não é justo. Eu estou ensaiando há dois meses um Villa-Lobos que vou tocar com minha orquestra no Azerbaijão”, disse Guliyev. “Foi vergonhoso para nós isso acontecer com um maestro convidado”, desabafa o músico entrevistado.
Os ensaios de I-Juca Pirama também foram uma corrida contra o tempo. Em 20 de outubro – a 21 dias da estreia, portanto –, a Secult informou à piauí que a partitura da ópera estava em revisão final e seria entregue à orquestra após a conclusão do processo. Na manhã do dia 22, os músicos receberam a partitura. Mas só às 23h49 do dia 26, domingo, a produção da orquestra lhes enviou um e-mail marcando o primeiro ensaio da ópera – para a manhã do dia seguinte, segunda-feira, dia 27, faltando 15 dias para a estreia. Um músico ouvido pela reportagem disse que, para uma peça inédita, o tempo razoável de ensaio seria de um mês, no mínimo.
Em julho do ano passado, um mês antes do episódio com o maestro do Azerbaijão, outra bomba já havia caído no colo da orquestra: a notícia de que o Festival de Ópera, evento anual do Theatro da Paz desde 2002, seria cancelado por falta de verba. O festival nem fazia mais jus ao nome: estava reduzido a apenas uma ópera, La bohème, de Puccini. Como a orquestra já havia ensaiado, a apresentação aconteceu, mas só com os solistas no palco, sem a parte cênica. “Uma grande soprano que cantaria a ópera desistiu de ir depois que soube disso”, afirma um músico. Desde setembro de 2023, a direção do Theatro da Paz, que é um órgão estadual do Pará, está sob os cuidados do escritor e jornalista Edyr Augusto Proença.
Até o local dos ensaios no teatro é incerto. O ideal seria a orquestra ensaiar no palco. No entanto, há ocasiões em que a OSTP é realocada para uma sala no terceiro andar, onde não cabem todos os músicos. “A Sala Waldemar Henrique é utilizada apenas em situações pontuais, como ensaios de naipes ou ajustes de logística”, alega a Secult. “Eu costumo dizer que não somos a orquestra do Theatro da Paz, mas a orquestra no Theatro. Somos inquilinos aqui”, diz um músico.
Os salários estão sem reajuste desde 2021. Os músicos recebem entre 2,8 mil e 3,1 mil reais por mês. “Eu brinco que um músico da Osesp [Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo] recebe em um mês o que eu recebo em um ano”, diz outro integrante. Os músicos titulares da Osesp ganham entre 10,8 mil e 39 mil reais mensais, mas a orquestra é uma fundação, que conta com patrocínios de empresas e apoiadores individuais, não dependendo exclusivamente de recursos públicos.
Para complementar a renda, a maioria dos músicos da orquestra paraense faz dupla jornada, tocando em casamentos e dando aulas particulares. Há um músico da família de sopros que intercala óperas e concertos com entregas de comida por aplicativo.
O Theatro da Paz não vive só de música clássica. Até a última semana de outubro, o seu site anunciava três shows durante o período da COP, que vai até o dia 21 de novembro: Ney Matogrosso, Toquinho e Lenine. O ingresso mais barato para a apresentação de Ney Matogrosso, que será no dia 13, custa 990 reais. Quem quiser ficar na melhor área da plateia vai ter que desembolsar 2 590 reais, praticamente o salário de um mês de um músico da OSTP. Em geral, as apresentações da orquestra são gratuitas ou têm o ingresso simbólico de 2 reais.
Não será o caso durante a cop. O calendário da Secult informa que, depois da estreia de I-Juca Pirama, no dia 10, a orquestra terá pela frente outras duas récitas da mesma ópera, nos dias 11 e 12, com o tenor Jean William Silva no papel-título, um guerreiro tupi que é capturado pelos timbiras. Depois, fará concertos nos dias 15 e 16. E nos dias 18 e 19, uma apresentação em conjunto com o balé Amazônia motirô, da Companhia de Dança Ana Unger. Os ingressos da ópera e dos concertos da orquestra variam entre 20 e 200 reais.
Mesmo com todas as críticas acerca dos valores absurdos de hospedagem em Belém e das deficiências de infraestrutura e logística urbana, o governo brasileiro e a presidência da COP bateram o pé: o evento não sairia da capital paraense. Os músicos da OSTP dizem que vão estar prontos para que as apresentações não ganhem um tom de réquiem.