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Beatriz Portugal Nov 2025 14h11
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Depois de apenas duas horas de sono, os três funcionários do VLT Carioca despertaram inquietos no hotel em Viena. Eram cinco da manhã, o Sol ainda não tinha nascido na capital austríaca, mas Lisamar Rodrigues da Silva, Rogério Oliveira do Nascimento Filho e Andresson de Lima Jacomim já não aguentavam mais se revirar na cama.
Havia uma boa razão para a ansiedade: naquela manhã de sábado, dia 13 de setembro, os três seriam os primeiros brasileiros a participar do Campeonato Mundial de Condutores de Bondes. Nas edições anteriores, a competição era aberta apenas a países da Europa, mas neste ano condutores de 25 países estavam em Viena para exibir suas habilidades.
A seleção dos competidores no Rio de Janeiro foi rigorosa. Silva e Nascimento Filho foram vitoriosos entre os 123 condutores do VLT Carioca – empresa de transporte urbano ferroviário –, após um processo seletivo que durou um mês, com exame escrito, provas e simulações. Jacomim, que é supervisor de tráfego da empresa e acompanhou a dupla de condutores até a Áustria, enumera algumas etapas da seleção: “Cenários caóticos, análise da caixa-preta dos trens, vistoria de viagens por imagem, simulações com obstáculos.” A proficiência em inglês também pesou, já que seria a língua universal do evento.
Viena tem linhas de bonde operando de forma contínua desde o século XIX. O VLT (veículo leve sobre trilhos) do Rio não carrega essa tradição: foi inaugurado em 2016 para a Olimpíada no mesmo ano. Mas seus dois condutores são apaixonados pelo bonde. Silva, de 43 anos, acompanhou a construção da malha ferroviária em seu bairro, a Gamboa, e Nascimento Filho, de 31 anos, se entusiasmou com o VLT ao embarcar no veículo para ir até o Aeroporto Santos Dumont, em 2019.
Depois da seleção, os condutores passaram por três meses de preparação. Os trens do VLT, porém, são muito diferentes dos modelos de bonde que eles conduziriam na Áustria, onde só tiveram 6 minutos de treino no dia anterior ao campeonato. “Não dá para comparar o que vivemos em Viena com o que tentamos fazer no Rio, mas nos deu o norte”, disse Jacomim, depois da competição. “Lá, a cabine oposta é completamente diferente. Uma alavanca e um botão mal manipulados podem dar trancos no trem”, explicou Silva. Em compensação, ela ficou impressionada com a recepção que o público da competição deu aos motorneiros. “O condutor é ovacionado, é estrela, dá autógrafos, tira fotos”, contou. “A cidade parou para assistir ao Mundial.” Nascimento Filho confirmou: “O espírito era de Olimpíada.”
Competiram 25 países de seis continentes, diante de um público de 50 mil pessoas. Outras 130 mil em todo o mundo acompanharam a transmissão ao vivo, pela internet. “Foi um recorde para o evento”, disse à piauí Wieland Stumpf, o presidente da organização que promove o evento.
Os competidores do VLT Carioca contaram que a torcida dos brasileiros só não foi mais barulhenta do que a austríaca, obviamente a mais numerosa. Mas disseram que os brasileiros conquistaram a simpatia até dos adversários. “O Brasil foi o segundo time do coração de todos”, afirmou Jacomim. Para Nascimento Filho, o clima era de celebração do ofício de condutor de bonde: “Era todo mundo apoiando todo mundo.”
Um trecho de 250 metros da rede de bondes de Viena foi isolado no Centro da cidade para o campeonato mundial. A disputa se deu em oito modalidades, nas quais os competidores ganhavam pontos por precisão e tempo. Em uma das provas, o condutor deveria acelerar e frear o bonde por três vezes, com suavidade, parando exatamente em pontos determinados. Como se isso já não fosse um desafio, havia uma dificuldade adicional: uma tigela de água foi fixada na parte da frente do bonde, e esperava-se que ao fim da prova ainda estivesse cheia.
Outra prova testou o controle de velocidade dos condutores. Eles tinham de percorrer um trecho de 20 metros mantendo a velocidade constante de 25 km/h – sem velocímetro. Na prova em marcha a ré, um condutor permanecia na cabine, seguindo apenas os comandos de apito da colega, que, do lado de fora, o orientava com apitos longos e curtos para que ele parasse em um ponto específico.
A prova que Silva mais gostou foi também uma das favoritas do público. No boliche ferroviário, o bonde tinha que acertar uma bola gigante para que ela derrubasse uma série de pinos de borracha de 2 metros de altura alinhados na pista à frente. “Para nós e para quem está assistindo, foi um impacto visual muito grande”, disse a condutora. No mesmo espírito lúdico, houve uma prova de curling com bonde. Como no esporte de inverno em que se empurram discos de granito que deslizam sobre o gelo, o trem precisava empurrar um carrinho para que ele parasse em um ponto específico dos trilhos.
“A prova da porta foi a mais difícil”, avaliou Nascimento Filho. O desafio era estimar o comprimento do bonde para executar a parada perfeita, com a porta do trem alinhada a uma marca no solo. Cada centímetro fora do alvo resultava em perda de pontos. “Tivemos que ter uma noção técnica de um trem diferente do nosso. Na adrenalina, na correria da competição, essa foi a mais complicada.”
O time de Viena venceu o campeonato. Os brasileiros não subiram ao pódio: terminaram em 17º lugar. Mas comemoraram o fato de terem superado países com maior tradição ferroviária, como Escócia, Croácia, Estados Unidos e China. E voltaram da Áustria com uma nova perspectiva sobre a própria profissão. “Nossa visão aumentou”, disse Nascimento Filho. “Foi igual a escalar uma montanha: ao subir um passo, a gente tem uma visão maior. Me fez enxergar como a mobilidade urbana faz diferença na vida de um cidadão.”
Silva encantou-se com a civilidade austríaca. “Se você colocar qualquer um dos meus colegas para conduzir na Áustria, eles vão falar que estão no paraíso”, ela brincou. “Lá, os pedestres não atravessam na frente dos trens.” Jacomim reparou que os vienenses percebem as linhas urbanas como algo que lhes pertence: “Eles entendem que o transporte melhora a vida deles. Esse senso de cuidar, de ser dono, é muito forte.”
O trio voltou ao Rio com a missão de compartilhar a experiência, para fomentar uma nova mentalidade sobre o transporte público. Também está de olho em novas competições. O próximo mundial de condutores de bondes será em Melbourne, na Austrália, em 2027.