anais de um descalabro
Angélica Santa Cruz Dez 2025 13h47
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“Oi, você conhece a Juliana? Ela caiu no Monte Rinjani. A gente precisa que você ligue para o seguro e mande um helicóptero para a cratera do vulcão. Tem mais ou menos três horas e meia que ela caiu. É realmente urgente!”
Às 21h30 de 20 de junho do ano passado, uma sexta-feira, o celular da carioca Mariana Marins começou a vibrar, muito. Da maneira como ela descreve, o instante foi similar àquelas cenas de filmes em que o som de um telefone aparece como irrupção do destino.
Mariana é gerente de marketing e, por causa do trabalho, morava desde janeiro com a mulher, a analista de dados Mariana de Oliveira, em um pequeno apartamento na Bela Vista, na região central de São Paulo. Faltavam três dias para o seu aniversário de 32 anos. Ela havia convencido os pais, Estela e Manoel Marins, a emendar uma viagem pela Chapada Diamantina com o feriadão de Corpus Christi, e visitá-la na cidade. Eles toparam e se hospedaram em um hotel próximo.
As Marianas, como a família costuma chamá-las, bolaram uma programação animada. Naquela sexta, os quatro foram ao Museu do Futebol, fizeram um lanche rápido e zarparam para o Memorial da Resistência. À noite, o grupo resolveu dar uma pausa e conversar com calma no apartamento. A geladeira tinha opções para todos – vinho, espumante, licor. Depois de uma costumeira polêmica familiar sobre o que pedir, decidiram: pizza.
Nos encontros do gênero, Mariana Marins tem o hábito de fazer a convocação: “Celulinos, sem celular agora. Vamos aproveitar esse momento juntos.” E, como quase sempre acontece, todo mundo ficou pianinho – os aparelhos foram para escanteio. A vibração no telefone dela, no entanto, era realmente insistente. “Falei: ‘Putz, o que é isso?’ Fui ver. Tinha muita gente dizendo: olha, entraram em contato comigo para falar com você.”
E lá estava aquele recado, que ela achou estranhíssimo. “Pensei: ‘Nossa, que golpe novo é esse?’ Agora querem que a gente mande dinheiro para helicóptero?”, lembra.
A irmã mais nova, Juliana Marins, 26 anos, estava no quarto mês de um mochilão pelo Sudeste Asiático. Em um grupo de WhatsApp criado para manter a família informada de seus passos, avisara que ficaria três dias incomunicável numa trilha no Rinjani, o segundo vulcão mais alto da Indonésia. Mesmo desconfiada da mensagem, Mariana resolveu dar trela para a desconhecida que enviara o aviso, junto com um número de telefone. Mandou uma mensagem e disse: “Oi, sou a irmã da Juliana.”
Do outro lado, respondeu Olivia de Olmedilla, uma turista espanhola.
A mensagem não era um golpe, era quase um milagre, tamanha a improbabilidade de ter sido enviada tão rapidamente. Quase não há sinal de internet no alto do Rinjani. Os visitantes que encaram a subida no vulcão se preparam para ficar offline. Olmedilla e alguns dos outros integrantes de seu grupo, sem saber como, tinham conexão contínua – e aquele pedido de socorro varou os 16 mil km que separam São Paulo da Ilha de Lombok, onde fica a montanha de 3 726 metros.
O Monte Rinjani é um vulcão ativo, com uma imensa caldeira que abriga um lago azul-esmeralda, o Segara Anak. Em uma das bordas do lago, fica o Gunung Barujari, um outro vulcão bem menor, secundário, resultado de erupções mais recentes. A montanha tem seis trilhas com percursos diferentes – quatro delas levam ao cume e duas seguem por outras rotas. Os trekkings que vão até o topo passam primeiro por áreas de savana aberta e, depois, vão subindo vulcão acima. Até que, no trecho final, chegam a um caminho que vai serpenteando por uma crista estreita, ganhando altura.
A última subida, já perto do cume, é especialmente íngreme, arenosa, cada passo afunda no terreno solto. É um caminho de cerca de 1 metro de largura, ladeado por dois penhascos. De um lado é a encosta externa do vulcão. Do outro, é uma descida que leva ao interior da cratera – começa inclinada, mas depois vira um paredão vertical, um abismo que termina em um amontoado de rochas, já perto do fundo. Divididos em vários grupos e levados por guias diferentes, turistas esbaforidos pelo esforço percorrem a área, indo ou voltando da faixa estreita que leva até o cume.
A espanhola passava pelo início dessa subida, quando ouviu alguém gritar: Help, help! Parou e avistou uma mulher caída na encosta interna da cratera, no que lhe pareceu ser uns 200 metros de distância da borda da trilha. O guia do grupo de Juliana, Ali Musthofa, estava com outras pessoas e informou o nome completo dela. Olivia de Olmedilla e seu grupo procuraram pistas no Instagram. Encontraram uma Juliana Marins que viajava pela Ásia e enviaram mensagens para os contatos dela, sobretudo para aqueles com o mesmo sobrenome que comentavam suas postagens. O pai, Manoel, e pelo menos três primas também receberam alertas. Naquela noite, só Mariana Marins viu as mensagens.
Antes de alarmar os pais, ela chamou Mariana de Oliveira para descer ao saguão do prédio, sob o pretexto de receber a pizza – que ainda não chegara – e explicou o que estava acontecendo. Pediu então que Olmedilla enviasse a sua localização. Eram 21h50 da sexta-feira em São Paulo – e 8h50 da manhã de sábado em Lombok – quando a espanhola mandou a prova de que estava mesmo no Rinjani, junto com uma foto que mostrava um pequeno ponto preto no fundo de uma superfície arenosa e cinzenta. “Eu ainda duvidava, nada provava que era Juliana ali”, recorda Mariana Marins.
Mariana de Oliveira percebeu logo que era mesmo a cunhada – e entrou em desespero. Saiu do saguão, subiu ao mezanino do prédio e encontrou na internet os contatos de emergência da Embaixada do Brasil na Indonésia. Telefonou, chorando, para explicar o caso. Passou o número do passaporte de Juliana e o contato da agência onde ela comprara o passeio no vulcão, a Ryan Tour. Pediu ajuda para checar o acidente. Depois, ela mesma ligou para a empresa. Não conseguiu nem se fazer entender, nem compreender o inglês dos funcionários. Tentou falar por mensagem, também não deu. A embaixada prometeu intermediar a comunicação, com a ajuda de um intérprete.
A pizza chegou, as Marianas voltaram ao apartamento. “Achei que estávamos escondendo superbem, mas minha mãe perguntou: O que está acontecendo? Eu disse que nada. Ela insistiu.” Às 22h20, não deu mais para disfarçar. A turista espanhola enviou um vídeo.
Um grupo de dez jovens malaias subia o Rinjani levando, com autorização do parque, um drone dji Mini 3 Pro, um modelo amador. Algumas delas são influenciadoras e queriam fazer imagens aéreas do vulcão que, nos momentos em que a neblina se dissipa, revelam vistas acachapantes do Lago Segara Anak. Por causa da dificuldade da subida, três delas desistiram de enfrentar o último trecho até o topo. Enquanto esperavam o resto do grupo voltar, ficaram filmando a área. Foram chamadas por um punhado de pessoas que estava no ponto onde Juliana havia caído. Era o guia Musthofa e outros turistas, entre eles Olivia de Olmedilla. Eles pediram que as jovens usassem o drone para localizar o ponto exato em que estava a brasileira e conferir suas condições físicas.
Deitada à beira do penhasco, a turista malaia Xiao E Ching operou o drone, que desceu encosta abaixo. Na primeira tentativa, o aparelho não avistou Juliana Marins. Na segunda, conseguiu filmá-la, ainda a uma distância de uns 200 metros. A brasileira aparecia de cabeça baixa, com as pernas flexionadas e voltadas para o mesmo lado. Estava presa em uma fresta de um trecho arenoso. Esfregou as mãos cobertas por luvas e, em seguida, mexeu em uma pochete e, aparentemente, percebeu a presença do drone. Era uma imagem desoladora, solitária.
Sem sinal de internet, as jovens malaias não conseguiam transmitir esse vídeo com imagens de Juliana. Então Olivia de Olmedilla gravou, com o celular, a tela do controle remoto do drone e enviou o registro para Mariana Marins. Era apenas um trecho da filmagem inteira e, pelo ângulo em que foi feito, dava a impressão de que Juliana havia parado sobre uma espécie de platô. Mariana Marins tentou duvidar: “Mas não dá para ver o rosto. Pode não ser ela…” Mariana de Oliveira respondeu: “É a Juliana, sim.”
Coube a Mariana Marins dar a notícia aos pais. Estela, professora de biologia aposentada, ajoelhou-se, juntou as mãos e orou pela filha mais nova. Em seguida, orientou: “Vamos avisar as autoridades, a imprensa, todo mundo. E tem que ter família lá. Minha filha pode ser engolida por esse vulcão.” Manoel, dentista também aposentado, reviu o vídeo, tentando entender os detalhes. Por fim, disse: “Eu vou para a Indonésia.”
Nas quase três horas em que permaneceram no alto da montanha, as jovens da Malásia enviaram o drone quatro vezes em direção à área onde Juliana estava, com intervalos de meia hora. Na terceira vez, improvisaram uma mensagem. Com um batom, a turista Ruiees Yap escreveu “WAIT SOS” em uma tira de tecido, daquelas usadas para fazer bandagens. O recado foi preso ao aparelho e enviado.
Não se sabe se Juliana conseguiu ler a mensagem pedindo que aguardasse socorro. Ela tinha 4,5 graus de miopia em um olho e 5 no outro e, na queda, perdera os óculos. Mas, desta vez, ao ouvir o barulho do drone, ela levantou a cabeça. Foi possível então filmar seu rosto. “Quando recebi essa outra imagem, não deu mais para eu ficar em negação, achando que podia não ser a minha irmã”, diz Mariana Marins.
Nesse vídeo completo, via-se também a encosta em detalhes. Juliana Marins estava, na verdade, em um plano inclinado – e o terreno arenoso a fizera escorregar mais alguns metros em relação à primeira foto enviada pela espanhola. Uns 400 metros mais abaixo dela, estava o abismo. Se ela deslizasse mais, encontraria uma queda livre.
No alto do Monte Rinjani, grupos de turistas continuavam a passar. Pelo WhatsApp, a espanhola Olivia de Olmedilla avisou Mariana Marins que Juliana gritava muito. As chances de que a irmã caçula pudesse ouvir algo vindo de cima eram mínimas, mas Mariana Marins arriscou: “Pedi para a Olivia falar os nossos nomes porque, se minha irmã escutasse, saberia que a gente estava tentando ajudar. Falei: ‘Diz que as Marianas estão no caso, Estela, Manoel… A gente vai buscar ajuda. E pedi: ‘Grita, grita, não deixa ela dormir, mantém ela acordada. Grita!” A espanhola protegeu a boca com as mãos e berrou, em inglês: “Fique acordada! O resgate está chegando!”
A Ilha de Lombok, na província indonésia de Nusa Tenggara Barat, combina arrozais, montanhas tropicais e praias de areia branca ou rosada. É um dos pontos do Sudeste Asiático que, por suas paisagens extasiantes, preços acessíveis, diferenças culturais e uma pegada roots, atraem multidões de mochileiros. Nos pontos mais movimentados, cartazes com fotos coloridas se amontoam anunciando as principais atrações. Em lojinhas precárias, os turistas compram excursões às praias Tanjung Aan, Mawun e Selong Belanak, tours nas cachoeiras Sendang Gile e Tiu Kelep, mergulhos com snorkel nas Ilhas Gili ou passeios culturais em Sukarara, procurada pela tradição de tecelagem manual.
Mas a principal atração é o Parque Nacional do Monte Rinjani, que integra um geoparque global da Unesco e, desde 2023 limita a entrada a setecentas pessoas por dia. É um fluxo de gente que alimenta todo o comércio em volta da entrada principal do parque, a Vila de Sembalun. As caminhadas pelo vulcão costumavam ser vendidas aos turistas como um passeio comum, sem nenhuma explicação adicional sobre o alto grau de dificuldade, sobretudo na chegada ao cume.
A brasileira Juliana Marins comprou seu trekking na modalidade compartilhada, que permite até sete pessoas no mesmo grupo, acompanhadas de um guia e três carregadores. Juntou-se a mais cinco turistas de países diferentes, e apenas dois se conheciam entre si. Seguiu todas as exigências da agência. Contratou um seguro e passou por um check-up médico, basicamente uma série de perguntas sobre condições físicas e uso de remédios, organizado pela empresa que vende o passeio.
O guia Ali Musthofa detalhou o roteiro para os turistas. Eles chegariam pela entrada de Sembalun e fariam a caminhada que dura duas noites e três dias. Com paradas para descanso, andariam o dia inteiro até o acampamento-base, chamado Pelawangan Sembalun, a 2 639 metros de altura. Nos dias de céu aberto, aquele ponto já oferece uma vista extraordinária da cratera e do Lago Segara Anak. Pernoitariam ali, em barracas de camping levadas pelos carregadores. Ainda durante a madrugada iriam encarar a parte mais difícil, o trecho final que leva ao cume do vulcão. Lá no topo, os trilheiros assistem ao Sol nascer e, no geral, posam para fotos segurando placas com a altitude da montanha.
Na manhã da sexta-feira, dia 20, o horário de Lombok, Ali Musthofa passou no hotel dos turistas e os levou em transfer privado até o parque – foram duas horas de viagem. O grupo fez registro de entrada, posou para uma selfie tirada por Musthofa e começou a subida.
Segundo contaria o guia depois em entrevistas na Indonésia, Juliana Marins estava muito feliz. Tirou poucas fotografias e, no caminho, conversou bastante com ele. Quando ouvia música, ficava animada e apressava o passo. Depois de uma longa caminhada montanha acima, chegaram ao acampamento Pelawangan Sembalun, de onde o grupo partiu às três da manhã rumo ao topo. Para turistas estrangeiros, essa parte final costuma levar cerca de três horas.
Juliana teve dificuldade para acompanhar o grupo e foi ficando para trás. Em um trecho extremamente inclinado ficou sem fôlego e se deitou no chão para descansar. Ali Musthofa, que permanecera andando ao seu lado, brincou: “Juliana, quer parar aqui ou continuar?” Ela quis seguir em frente. Em um trecho mais adiante, pediu para parar um pouco. O guia a sentou em uma espécie de recuo, uma área ainda perto do precipício, mas plana.
Como os outros integrantes do grupo já estavam uns 200 metros à frente, Musthofa avisou que ia subir um pouco e ver se eles estavam bem. Segundo ele, combinaram que Juliana o alcançaria quando estivesse descansada. Enquanto a esperava subir ao seu encontro, o guia fumou um cigarro, para ajudar a aquecer o corpo – no topo pode fazer 5ºC negativos naquela hora da madrugada. Viu que a brasileira estava demorando muito e, cerca de trinta minutos depois, voltou para encontrá-la.
Juliana não estava mais lá. Um dos seus bastões de caminhada caíra a 3 metros da trilha. O guia olhou para o precipício e avistou a luz da lanterna do capacete de Juliana. Percebeu que ela havia caído, entrou em pânico. Voltou ao ponto mais alto, onde havia deixado a mochila, pegou o celular e retornou ao local do acidente para filmar a luz da lanterna. Ficou um tempo procurando sinal e, mais perto do cume, conseguiu conexão. Às 6h08 da manhã, enviou o vídeo para a empresa e para o grupo de WhatsApp da associação dos operadores de trekking, usado também por guias e carregadores do parque, informando o que havia acontecido.
O presidente da associação, Pak Munawir, viu a mensagem e acionou o parque. Enquanto isso, por HT – os rádios de comunicação chamados de handy talky na Indonésia –, Ali Musthofa falou com outros guias. Perguntou se havia cordas no acampamento-base Pelawangan Sembalun, que poderiam ser usadas para resgatar a brasileira. Os colegas responderam que não. Ele gritou para Juliana esperar pelo resgate e não se mexer, já que qualquer movimento a levaria a deslizar mais, para cada vez mais longe da borda. Ela só dizia: Help me! O guia procurou de novo por sinal de celular e conseguiu ligar para o seu pai. Contou que uma de suas turistas havia caído no precipício. O pai pediu que ele se mantivesse calmo e que fosse forte.
Os próximos quatro dias seriam marcados por acontecimentos confusos, embaralhados por um fuso horário de onze horas de diferença. De um lado, na Indonésia, uma jovem brasileira deslizava abismo abaixo enquanto equipes de resgate se atrapalhavam para prestar socorro. Do outro, no pequeno apartamento em São Paulo, a família tentava, desesperadamente, fazer algo para evitar a queda.
Nas horas seguintes ao aviso da espanhola, as Marianas entraram em uma maratona de mensagens e telefonemas. No grupo de WhatsApp da família, descobriram que Juliana Marins não havia informado o nome da seguradora que contratara. Conversaram com mochileiros que a conheceram na viagem e rastrearam as empresas mais utilizadas por viajantes na Indonésia, até chegar na que ela escolhera, a SafetyWing. Os funcionários explicaram que a apólice dela não cobria resgate de helicóptero, mas orientaram sobre o protocolo para acionar o seguro assim que Juliana fosse levada a um hospital.
As Marianas também encontraram duas empresas privadas de resgate aéreo, uma da Indonésia e outra da Austrália. Ambas deram a mesma resposta: o Parque Nacional do Monte Rinjani não permitia voos de helicóptero na cratera do vulcão, considerada muito perigosa em razão da instabilidade do terreno e das condições climáticas, que mudam muito rápido. Ainda assim, elas mantiveram contato com as equipes dessas empresas, que recomendaram que Juliana não fosse levada ao hospital da Ilha de Lombok, pequeno e precário. Assim que fosse resgatada, deveria seguir de helicóptero da portaria do parque direto para o Hospital Siloam Denpasar, em Bali, a cerca de uma hora de voo, onde uma equipe médica estaria de prontidão. Em seguida, elas ligaram para a embaixada brasileira em Jacarta e pediram apoio para que esse plano fosse seguido pelos socorristas.
Enquanto cuidavam dos detalhes do socorro, as Marianas acionaram uma rede de contatos para impedir que o acidente passasse despercebido. Quanto mais gente soubesse, acreditavam elas, maiores seriam as chances de conseguir um resgate rápido.
Formada em publicidade pela Escola de Comunicação da UFRJ, Juliana Marins havia trabalhado em canais do grupo Globo e na agência Mynd. Conhecia muitos jornalistas. Um ex-namorado foi acionado, assim como várias amigas – uma delas, no meio da própria festa de aniversário. A corrente funcionou. À meia-noite de sexta, a televisão começou a noticiar o caso. As imagens da jovem brasileira caída em uma língua de areia vulcânica logo se espalhariam pelas redes sociais.
Em nenhum momento, a administração do parque entrou em contato com a família. Às 23h20 da sexta-feira, no horário de São Paulo, duas horas após a mensagem de Olivia de Olmedilla, chegou a primeira de várias informações desencontradas, intercaladas por longos períodos de silêncio. Um funcionário da embaixada brasileira telefonou para Mariana de Oliveira e disse que uma equipe de resgate alcançaria Juliana em até duas horas.
Já na madrugada de sábado, dia 21, Mariana de Oliveira conseguiu o contato oficial do parque. Às 2h44, enviou mensagem perguntando o que estava acontecendo. Eram 13h44 em Lombok. Três minutos depois, um funcionário enviou um print do passaporte de Juliana e quis confirmar se era ela quem havia caído. Em seguida, afirmou que socorristas já subiam a montanha e que o resgate seria rápido. Escreveu: We handle it quickly (Tratamos disso com rapidez). Depois disso, o parque parou de responder.
Às quatro da manhã de São Paulo, a empresa de resgate privado de Bali, que mesmo sem poder fazer nada de concreto continuava em contato com as Marianas, enviou uma foto de socorristas no ponto da queda. “Eu pedia que eles também acionassem os contatos deles no Rinjani, porque daqui a gente não sabia de nada. Todas as informações que a gente conseguia vinha dos turistas que estavam lá em cima”, lembra Mariana Marins.
Nessas horas cegas para a família, o que ocorreu no alto do vulcão foi um descalabro.
O Parque Nacional do Monte Rinjani tem cerca de duzentos guias e carregadores cadastrados, que conhecem cada detalhe da montanha. Em casos de acidente, que são frequentes, eles costumam organizar resgates por conta própria, já que os socorristas demoram para subir o vulcão. Foi assim que guias locais que também são alpinistas experientes e habilidosos tornaram-se famosos na região por fazer resgates voluntários no vulcão ou auxiliar as equipes profissionais, quando elas enfim chegam para prestar socorro. Entre os mais experientes estão Abdul Haris Agam e Herna Prasetyo, conhecidos nas redes sociais como Agam Rinjani e Tyo Survival.
No ano passado, o irlandês Paul Farrell, de 32 anos, caiu perto do cume e só não deslizou encosta abaixo porque conseguiu se apoiar em uma pedra. Segundo contou à BBC, alguns guias que estavam por ali, no desespero, improvisaram uma corda amarrando camisetas e a jogaram em sua direção. Desconfiado de que aquele expediente não daria certo, o turista permaneceu agarrado à pedra e deu um leve puxão na corda feita às pressas, para testar sua resistência. Ela, claro, se rompeu. Farrell saiu vivo cinco horas depois, graças à coincidência de que uma equipe com profissionais e voluntários, incluindo Agam Rinjani, já estava na área para resgatar o corpo de um outro trilheiro, o indonésio Kaifat Rafi Mubarok, de 16 anos.
Agam Rinjani calcula ter resgatado no vulcão 21 turistas vivos e 9 mortos. Um deles, por acaso. Em 2016, enquanto estava em uma trilha que leva os turistas para mergulhar no lago da cratera, viu boiando o corpo de uma viajante de Sumatra, Ike Suseta Adelia, de 26 anos, que morrera afogada no dia anterior. Nem Agam nem Tyo Survival estavam em Lombok no dia em que Juliana caiu.
Quando o aviso de que a brasileira havia caído no penhasco chegou à portaria, o parque enviou uma equipe de resgate financiada por uma taxa cobrada dos turistas. É um grupo de moradores locais, acostumados a chegar até o topo rapidamente, mas sem treinamento para casos complexos. Eles saíram às oito da manhã de sábado levando apenas uma corda, e alcançaram o ponto do acidente por volta das duas da tarde, no horário de Lombok. Foi a gravação da chegada desse grupo que as Marianas receberam, sem saber que eram apenas socorristas locais.
No alto da montanha, esse grupo precário de resgate discutiu o que fazer com alguns guias que estavam na área, levando turistas. Os socorristas disseram que nunca haviam feito rapel, nem descido precipícios. Ali Musthofa também não. “Eu nunca tinha subido nem em árvore”, disse ele em entrevista ao videocast indonésio Curhat Bang!. “Ninguém se atreveu a descer, então eu fui”, completou.
Musthofa amarrou a corda na cintura, sem qualquer equipamento de segurança. Com as pernas tremendo, começou a descer, apoiando os pés desajeitadamente na parede vertical de areia solta. Não havia ancoragem. A corda era sustentada por uma fila de socorristas e guias que usavam chinelos. Um movimento errado e cairiam todos. Enquanto descia, avistou o outro bastão de caminhada de Juliana. Foi chamando por ela, mas desta vez não houve resposta. Musthofa achou que a brasileira pudesse ter desmaiado. Como a corda era curta demais, não conseguiu chegar onde Juliana estava e voltou para a trilha.
O horário estimado da queda da brasileira é quatro da manhã, no horário de Lombok. A Basarnas, a agência nacional de busca e salvamento da Indonésia, só foi acionada cinco horas e meia depois, às 9h30, quando a capenga equipe local já estava subindo, com uma corda curta demais.
A base da unidade regional da Basarnas, chamada Kantor SAR, fica em Mataram, a cerca de duas horas da entrada principal do parque. Um primeiro grupo desse time chegou às 10h21, com cinco pessoas, entre elas um especialista em rapel. Nove minutos depois, chegaram mais nove socorristas. E, às 12h30, uma terceira equipe, com mais cinco, completou a operação. Ao todo, dezenove membros da Basarnas entraram nessa operação de resgate. Já fazia oito horas que Juliana havia caído quando eles iniciaram a subida da montanha.
Quando anoiteceu, o grupo de Olivia de Olmedilla precisou iniciar a descida da montanha – eles haviam conseguido permanecer no alto bem além do horário permitido. Antes de ir embora, por volta das sete da noite em Lombok, a espanhola enviou uma de suas últimas mensagens. Avisou às Marianas que Juliana tentara levantar, mas não conseguira. E mandou uma foto. A brasileira estava cada vez mais perto do trecho em que a encosta virava um abismo – e aquela foi a última vez em que ela foi avistada lá de cima.
A equipe completa da Basarnas chegou ao alto do vulcão mais de quinze horas depois da queda, e depois da saída dos espanhóis. Enfrentou sete horas de corrida montanha acima, sem paradas para descanso. No cume, os socorristas da agência nacional fizeram o Maghrib, oração islâmica do pôr do sol – a maioria dos habitantes de Lombok é muçulmana. Depois, instalaram as primeiras âncoras de segurança. Após uma pausa de poucos minutos para a Isha, a oração da noite, Samsul Fadli, coordenador de campo da Unidade de Busca e Salvamento de Lombok Timur, desceu o penhasco até o ponto onde o drone das garotas malaias havia localizado Juliana. Chamou pelo nome dela, e nada: a brasileira já não estava lá. A corda de que ele dispunha – mais uma vez – não era suficiente para ir mais fundo e a neblina estava densa. Fadli avisou que precisaria de cordas mais longas e, para não ter que subir e voltar de novo, decidiu montar um flying camp, um pernoite pendurado na encosta. O resgate ficaria para o dia seguinte.
Em São Paulo, na manhã de sábado, dia 21, Mariana de Oliveira voltou a falar com a embaixada às 9h30. “Naquele momento, a gente recebeu uma mensagem deles dizendo que a primeira equipe tinha chegado lá e não tinha conseguido alcançar a Juliana. Por causa do mau tempo, suspendeu as buscas no fim da tarde, no horário indonésio. Ela caiu de manhã, ia passar a noite lá”, lembra ela. E completa: “Ficou claro que algo estava mesmo muito errado.”
Duas horas depois, às 11h30, a embaixada ligou novamente. Um funcionário disse que, na verdade e de acordo com informações de autoridades locais, o resgate tinha conseguido chegar até Juliana, levando água, comida e agasalhos. Mas ela só seria retirada na manhã seguinte, também no horário da Indonésia.
E veio uma confirmação dessa versão. Um indonésio ligado a uma das empresas privadas de resgate contatadas pelas Marianas enviou um vídeo de homens descendo com cordas durante a noite, carregando mantimentos. Elas acreditaram que, enfim, o socorro havia chegado.
Por insistência da filha mais velha, Estela e Manoel foram para o hotel tentar dormir um pouco. Os Marins decidiram que iriam todos à Indonésia para acompanhar a caçula no hospital.
A família avisou à imprensa que Juliana estava assistida, postou a boa-nova nas redes sociais. As Marianas se permitiram um pouco de alívio. Brincaram: “Ai, a Juliana vai voltar e vai dizer: Que mico! Saí nos portais de notícia, falaram até com meu ex-namorado…”
Ainda assim, não se conformavam com a ideia de ela passar a noite no precipício. Achavam que as coisas continuavam estranhas. “Era tudo sem lógica. Como eles a alcançaram e mesmo assim ela iria passar a noite lá? Eles não tinham lanterna para retirá-la? Eu perguntava à embaixada se conseguiam mandar alguém ao parque, para saber o que estava acontecendo. Eles respondiam que não podiam fazer mais nada, além de tentar levantar informações e repassar para a gente”, diz Mariana de Oliveira.
Mariana Marins conseguiu o telefone do embaixador do Brasil em Jacarta, George Monteiro Prata. Às 11h48 de sábado, mandou mensagem de WhatsApp, apresentou-se e perguntou se havia notícias do resgate. Prata respondeu que tentava obter mais informações. “Eu insisti, perguntei se ele sabia quem estava lá no local do acidente”, lembra ela.
O embaixador escreveu: “Fornecimento de alimentos e de cobertor já é parte do resgate, e a evacuação teve início na manhã de hoje [sábado]. Não foi possível fazê-la ontem à noite, em vista das condições climáticas. Para seu conhecimento, envio abaixo o relato dos esforços da embaixada quanto ao caso, levo muito a sério a proteção a brasileiros e vejo que a embaixada tem recebido críticas pouco fundamentadas.”
As críticas vinham das redes sociais, que já pegavam fogo. E a essa altura Prata repassava notícias do resgate até mesmo para Rodrigo Neves, prefeito de Niterói – onde Juliana morava com os pais. Neves havia chegado ao embaixador depois de acionar o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, um niteroiense.
Filhos de amigos de Estela e Manoel Marins que vivem na Austrália mandaram mensagens: agências locais já noticiavam que Juliana havia sido resgatada e estava a caminho de um hospital. “A queda da Juliana já tinha causado um fuzuê. Até sites americanos e europeus estavam noticiando. Mas como ela podia estar chegando no hospital sem que a família fosse informada? Nada batia”, recorda Mariana Marins.
Horas depois, a empresa de resgate privado de Bali enviou nova mensagem. Era um aviso de que, na verdade, a Basarnas havia chegado ao local da queda, descido penhasco abaixo e não conseguira avistar Juliana. Um drone também não detectara a presença dela. Naquele momento, dizia a mensagem, Juliana estava “desaparecida”.
Com a ajuda do prefeito de Niterói, as Marianas conseguiram checar a informação. A notícia transmitida pela embaixada brasileira era um equívoco, causado, provavelmente, pelo fato de que os integrantes da Basarnas haviam enviado provisões para que o socorrista Samsul Fadli passasse a noite lá embaixo.
As Marianas entraram em pânico, de novo.
Estela Marins acordou Manoel com a notícia: “Olha, era tudo mentira. A Juliana não foi encontrada.” Ele decidiu que viajaria para a Indonésia imediatamente. Seguiu-se uma corrida logística, com a família inteira trocando mensagens, dando opiniões, combinando quem poderia acompanhá-lo. A sobrinha Kamila Marins foi até a casa dos tios, em Niterói, pegou o passaporte e algumas peças de roupas e levou tudo para São Paulo. O plano era que Manoel embarcasse para Lisboa, onde se encontraria com outro sobrinho, Sady Neto, jovem fluente em quatro línguas, que o acompanharia até a Indonésia.
Quando foi deixar o tio no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, a sobrinha avisou que embarcaria também. “Ele é muito ativo, inquieto. Participa de maratonas, anda quilômetros de bike, nada no mar. Mas, quando desceu do carro, estava com os movimentos pesados, meio letárgico. Não tinha a menor condição de viajar sozinho”, lembra Kamila. E completa: “Ele não queria que eu fosse. Até que respondi: ‘Você não manda em mim, eu vou com você.’”
Para conseguir passagem de última hora, ela explicou no balcão da companhia aérea que viajava com o pai “da moça do vulcão na Indonésia”. A funcionária conseguiu encaixá-la no mesmo voo. Durante a viagem, Kamila trocou mensagens com a diplomata Helena Massote de Moura e Sousa, da embaixada brasileira, que se oferecera para dar suporte à família na Ilha de Lombok.
No Aeroporto de Lisboa, eles se encontraram com Sady Neto. A viagem seria turbulenta. O bilhete previa conexão em Doha, capital do Catar, mas o embarque só seria permitido com uma passagem de volta. Tentaram explicar que ainda não sabiam a data de retorno. Não teve jeito. Acabaram comprando o voo de volta mais barato disponível, via Austrália. Pouco depois, o espaço aéreo foi fechado por causa dos ataques do Irã a uma base militar dos Estados Unidos em Doha.
Quando os voos foram liberados, quase cinco horas depois, o aeroporto virou um caos. Em meio a filas imensas, Sady Neto explicou no guichê que viajava com o pai da brasileira que caíra em um vulcão. Os funcionários, que também haviam visto as imagens, conseguiram colocá-los no primeiro voo. A família saiu de Lisboa seis horas depois do horário previsto.
Durante a viagem, Manoel, Kamila e Sady Neto se sentaram lado a lado, na mesma fileira, e decidiram ficar sem internet. “Estranhamente, foi um voo bacana. Conversamos sobre tudo: divindade, morte, vida, conexão familiar, casamento, amor, política, sobre como a fé nos constitui como seres humanos. Lembramos da infância de Juliana e Mariana. Fizemos várias declarações de amor uns aos outros. O meu tio tem o dom da palavra e parecia que estava intuindo algo. Fomos assim até a Indonésia, chegamos mais leves”, conta Kamila.
Na manhã de sábado, dia 21 no Brasil, a jovem brasileira deslizando para o abismo de um vulcão da Indonésia, à espera de um resgate que não chegava, já dominava a internet. Quando ficou claro que o socorro demorava demais, as Marianas concluíram que era preciso manter a pressão nas redes. Criaram um grupo no WhatsApp com as primas Kamila, Priscila e Lais, para discutir uma estratégia.
Mariana Marins já relatava o que acontecia nos stories de seu Instagram, para que as pessoas compartilhassem. Mas decidiu-se que seria mais eficiente abrir uma conta específica para cobrar agilidade no socorro, a @resgatejulianamarins. Em três dias, ela alcançaria 1,5 milhão de seguidores. “Eu dizia, é preciso que cheguem nela. Ela tá caindo, ela tá escorregando! A gente precisa chegar rápido, porque, se Juliana chegar na ponta desse abismo, acabou”, lembra.
A mobilização nas redes se incendiou. Houve indignação com a demora do resgate, debates sobre a falta de comunicação entre autoridades dos dois países, opiniões sobre segurança em trilhas e gestão de parques, reflexões sobre o direito das jovens mulheres ao turismo de aventura. Multiplicaram-se também as críticas a um guia que abandona uma cliente em um vulcão perigoso.
A imagem penosa de Juliana sozinha com risco de desabar no abismo entrou nos assuntos mais comentados do X. Nos comentários, os internautas marcavam o presidente Lula e o Itamaraty. Brasileiros invadiram os perfis do presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, e da Basarnas, acusando negligência e cobrando providências. A pressão foi tão grande que autoridades como o ministro das Florestas da Indonésia, Raja Juli Antoni, acabaram entrando no caso.
A propagação nas redes também trouxe efeitos colaterais. Juliana praticava pole dance em um estúdio em Niterói, indicação de Estela depois que a filha começou a procurar aulas de dança – e chegou a participar de competições. No Carnaval, saía em blocos com as amigas usando adesivos de glitter nos seios, os nipple pasties que se tornaram símbolo do empoderamento feminino. E Juliana era uma mulher negra. Não é difícil adivinhar o que aconteceu. Haters usaram fotos de seu Instagram para espalhar discursos de ódio, racismo e misoginia.
O caso atraiu caçadores de seguidores. Apareceu de tudo. Alguém fez um post no TikTok garantindo ter trabalhado com Juliana Marins e que ela nem sequer falava com a irmã, Mariana, que estaria mobilizando a população apenas para aparecer. Uma desconhecida chegou a criar um grupo de WhatsApp com amigas reais de Juliana e, com acesso privilegiado às informações que circulavam por ali, passou a dar entrevistas em nome da família – com críticas violentas à atuação da embaixada brasileira na Indonésia. Só parou quando Mariana Marins descobriu e ameaçou processá-la.
Nessa tempestade viral, a família percebeu que precisava reforçar uma onda de simpatia por Juliana. “No começo, foi intuitivo, mas depois começamos a criar uma jornada do herói ao contrário, porque o final, infelizmente, todo mundo já sabia”, diz Mariana Marins, referindo-se ao modelo narrativo criado por Joseph Campbell, muito usado em filmes, que descreve o caminho de transformação de um protagonista – na partida, ele deixa seu ambiente conhecido; na iniciação, amadurece ao encarar desafios; e, no retorno, volta transformado.
Nas redes sociais e nas entrevistas, passaram a mostrar Juliana em família e a apresentá-la como uma jovem esportista, feliz, cheia de vida. “A gente não queria que ela ficasse conhecida como a ‘menina do pole dance’, que é um esporte estigmatizado, né? Mostramos que fazia também vários outros esportes. Contei nossas histórias de irmã no Instagram, falei dos sonhos dela”, diz Mariana Marins. “Sabíamos que, se as pessoas não se identificassem e se isso caísse no esquecimento, não conseguiríamos trazê-la. No início era trazer viva. Depois, conseguir trazer para nos despedirmos”, lembra Mariana de Oliveira.
A certa altura, o prefeito de Niterói colocou sua assessoria de imprensa à disposição para ajudar a família a redigir e divulgar comunicados. E, para manter o assunto na mídia, as Marianas passaram a liberar gradualmente as informações que recebiam da Indonésia.
A fotógrafa brasileira Lara Fassarella Pierri, que morava na Austrália e estava de férias no Sul de Lombok com o namorado, o francês Gaspard Legrand, ficou abalada quando soube de Juliana no Rinjani. As duas não se conheciam, mas tinham amigos em comum. “Era como se fosse comigo. Quando eu tinha 19 anos fiz o mesmo mochilão. Só não subi o vulcão porque não tive tempo.” As férias perderam a graça.
A produção do Fantástico perguntou se ela toparia cruzar a ilha para ir até a agência responsável por vender a trilha para Juliana. Lara Pierri aceitou. Perto das 22 horas, subiu na garupa da moto do namorado e, à meia-noite, os dois chegaram ao hotel onde o grupo da brasileira havia se hospedado. Funcionários da agência estavam lá e disseram que a Ryan Tour só vendia o trekking; a organização ficava a cargo de outra empresa.
Dois turistas que haviam subido a montanha com Juliana, a italiana Federica Matricardi e o francês Antoine Le Gac, gravaram depoimentos de como o grupo foi se dispersando no alto da montanha. Matricardi, uma enfermeira que também viajava sozinha e teve mais contato com Juliana, estava consternada. Mostrou um vídeo que fez com ela no acampamento-base Pelawangan Sembalun. As duas diziam que subiram a montanha pela vista e riam ao apontar para a paisagem toda coberta de névoa. As imagens foram exibidas no Fantástico.
Depois de colher esses depoimentos, Lara Pierri manteve contato com Mariana Marins e se ofereceu para buscar informações diretamente no parque, para repassá-las apenas à família. Na manhã seguinte, domingo, dia 22, ela e o namorado encararam mais duas horas de moto até o Rinjani. “Chegando lá, fiquei chocada. Tudo funcionava normalmente, o lugar cheio de turistas. Parecia que ninguém estava nem aí”, conta. A única evidência de uma operação de resgate eram dois carros vermelhos da Basarnas estacionados na base.
Enquanto isso, no alto do Rinjani, a Basarnas retomava as buscas. O dia amanheceu com neblina e garoa. O socorrista Samsul Fadli voltou a procurar Juliana e não a viu. Às oito da manhã, subiu de volta para a trilha e descansou um pouco. Por volta das 10 horas, uma montanhista se ofereceu para usar seu drone e vasculhou o penhasco abaixo do ponto onde a brasileira havia sido vista pela última vez. Também não encontrou nada, a bateria acabou antes de cobrir a área.
Várias equipes já participavam das buscas – e concluíram que a combinação de névoa fechada e terreno instável, com areia vulcânica e pedras que se desprendiam facilmente, tornava impossível continuar. A operação foi suspensa. Um drone térmico da Basarnas que chegou depois ainda sobrevoou o penhasco, mas, por causa do tempo ruim, não achou nada. À noite, as equipes acamparam na trilha, à beira do abismo.
Lara Pierri e o namorado conseguiram reunir essas informações e repassaram à família Marins. “Por causa da notícia falsa de antes, eu tinha cuidado redobrado. Tudo o que descobria, passava em sigilo total para a família”, conta. O casal se hospedou em um pequeno hotel nas proximidades, onde acabaria permanecendo por três noites. Revezavam-se no parque, para não perder nenhuma atualização.
Na manhã de segunda-feira, dia 23, o tempo amanheceu mais aberto. A fotógrafa conversou com socorristas que estavam sentados no chão, tomando café. Eles contaram que, às 6 horas, a Basarnas havia conseguido operar o drone na encosta e que por volta das 7h50, localizaram Juliana. No vídeo feito pelo aparelho, a brasileira aparecia muito ferida, imóvel. Lara Pierri ligou para Mariana Marins e mostrou as imagens.
Havia um detalhe: Juliana estava descalça e a posição dos tênis causou estranhamento. Um estava caído acima do ponto onde ela estava e o outro aparecia junto dela. Os integrantes do resgate cogitaram que ela poderia estar viva. Se os sapatos se soltaram e estavam em posições diferentes, talvez ela tivesse se movido depois da última queda e conseguido retirá-los dos pés.
Era uma esperança frágil, mas no Brasil a família Marins também se agarrou a ela. Lara Pierri transmitiu à equipe a orientação das Marianas para que o vídeo não fosse vazado. Mesmo assim, ao longo do dia, a BBC da Indonésia divulgou o registro, que se espalhou por outros veículos. Depois de um pedido da família, a emissora retirou o material de suas redes e publicou uma nota de desculpa.
À noite, Lara Pierri viu quando chegaram alguns voluntários, carregados de equipamentos – era Agam Rinjani e sua turma, que haviam viajado de volta para Lombok e passado na casa de amigos para pegar cordas e furadeira emprestadas. Pelo conhecimento que tinham da montanha e de técnicas de rapel em paredões verticais, eram os alpinistas mais indicados para ajudar o resgate da Basarnas a ir mais fundo no penhasco, onde a brasileira estava.
Na terça-feira, dia 23, chegou ao parque a diplomata Helena Massote, acompanhada de um intérprete e de um adjunto do adido militar da embaixada brasileira em Jacarta.
No início da noite, integrantes da Basarnas e autoridades locais se reuniram em uma área aberta. Havia muita gente em volta – até crianças brincando. Lara Pierri imaginou que anunciariam o plano de resgate para a manhã seguinte. Mas os socorristas haviam alcançado Juliana – e ela estava sem sinais vitais. Quando o tradutor da embaixada repassou a notícia, de forma abrupta, a fotógrafa saiu da reunião e ligou para as Marianas.
Por causa do fuso de Lombok, de onze horas à frente, era durante a noite em São Paulo que a família Marins conseguia notícias. No decorrer das buscas, as Marianas entraram em estado de alerta. De sexta para sábado, ficaram acordadas. De sábado para domingo, dormiram apenas 40 minutos. De domingo para segunda, Mariana Marins conseguiu cochilar um pouco. “Ela estava dando muitas entrevistas. Eu a obrigava a fechar os olhos para conseguir responder direito”, diz Mariana de Oliveira.
Da segunda para terça, ninguém dormiu. As duas participaram de uma live que atravessou a madrugada, com amigos e desconhecidos em uma corrente de orações para Juliana. Um pouco antes das oito da manhã de terça-feira, no horário de São Paulo, tentaram descansar. Exausta, Mariana Marins capotou. Mariana de Oliveira ficou deitada na cama, com os olhos fixos no celular. “Então a Lara ligou…”, lembra.
Avisada, Mariana Marins respondeu: “A gente não vai falar nada até a Juliana ir para o hospital.” Cobriu a cabeça e virou para o lado. “Eu dei uma desassociada. Fiquei paralisada, confusa”, lembra. Quando finalmente entendeu que a irmã estava morta, demorou a achar coragem para ligar para a mãe. “Eu disse: ‘Olha, chegaram na Juliana. E ela não resistiu.’ Ela ficou em choque.” A família então começou a decidir quem avisaria quem, antes que a imprensa divulgasse a notícia.
Manoel Marins é o tipo de passageiro que se levanta antes mesmo de o avião abrir as portas. Assim que pousaram em Bali, já de pé e com a bagagem nas mãos, perguntou à sobrinha, a única com roaming internacional: “Já está com internet?” O celular dela conectou imediatamente, dezenas de mensagens começaram a chegar. Ela abriu primeiro a de Mariana Marins. A prima dizia: “Kamila, minha irmã foi encontrada, mas ela não resistiu. O meu pai precisa saber disso por você, por favor, não pela internet.”
O tio estava olhando para ela. “Eu disse: ‘A Ju foi encontrada…’ Ele entendeu na hora. Dali mesmo telefonamos para minha tia. Foi uma ligação de 11 minutos. Vê-lo falando com a tia Estela foi muito doloroso.”
Quando desembarcaram, às quatro da manhã, horário da Indonésia, Manoel, Kamila e Sady foram recebidos por funcionários da companhia aérea, que os ajudaram a passar rapidamente pela imigração. Um táxi enviado pela embaixada os levou ao Porto de Bali. De lá, embarcaram para Lombok. Outro táxi, enviado pelo governo local, os aguardava. Seguiram direto para a sede da administração do Parque Nacional do Monte Rinjani, onde encontraram a diplomata Helena Massote e os outros dois funcionários da embaixada.
Havia duas reuniões agendadas, uma com a alta cúpula da Basarnas, a segunda com o diretor do parque, Yarman Kadir, além de um funcionário da agência que havia vendido o trekking e o guia Ali Musthofa. A primeira reunião atrasou, e a família foi levada a um hotel próximo, para deixar a bagagem e tomar banho – já viajavam havia mais de quarenta horas. Sady Neto aproveitou o intervalo para anotar as perguntas que queria fazer, e eram muitas.
De volta à administração, os Marins entraram em uma sala com um sofá e cadeiras arrumadas em U. Um representante da Basarnas fez uma apresentação em inglês, diante de oito pessoas – Manoel, Kamila, Sady Neto, Lara Pierri e o namorado e o pessoal da embaixada. No PowerPoint projetado na parede estava a cronologia detalhada do resgate, do momento em que foram chamados até o içamento do corpo de Juliana.
O PowerPoint também mostrava, em sequência, as etapas da queda. Primeiro, Juliana caiu cerca de 200 metros. Depois, mais 200, por um trecho ainda levemente inclinado. Alcançou a beira de um precipício. Por fim, mergulhou em um paredão vertical, uma queda livre de mais 200 metros. Em três dias, ela havia descido 600 metros, uma altura arrebatadora. A estátua do Cristo Redentor, no alto do Corcovado, fica a pouco mais de 700 metros do nível do mar.
Ninguém pode reconstituir o que aconteceu com ela enquanto escorregava abismo abaixo. Não se sabe se desmaiou em alguns momentos, se tentou se agarrar a algo – nem mesmo se enxergava o que estava abaixo dela. “É tanta solidão que prefiro acreditar que ela não tenha visto nada”, diz Mariana de Oliveira.
O resgate do corpo foi complexo. Sete pessoas desceram, entre integrantes da Basarnas e os voluntários Agam Rinjani e Tyo Survival. O corpo dela foi embalado e começou a ser suspenso. Na noite de 24 de junho, parte desse grupo acampou a 3 metros dele, para evitar que deslizasse e voltasse ao ponto em que caíra. No dia seguinte, cogitou-se o uso de um helicóptero pequeno, emprestado por uma mineradora, para ajudar na retirada. Mas a área, com pedras soltas e ventos fortes, tornava a opção perigosa demais. O corpo foi içado apenas com técnicas de rapel, em uma operação que durou nove horas, em meio a pedras que caíam nos capacetes dos socorristas. Vídeos publicados no Instagram da Basarnas mostram essa etapa, dramática, com os voluntários pendurados em cordas e suspendendo a brasileira ao longo de um paredão. Por último, aparece Agam Rinjani, cuidando para que o corpo não batesse na encosta.
A família de Juliana estava em choque com a notícia da morte, exausta, atordoada com a barreira da língua e o fuso horário. E, sobretudo, indignada. “Na apresentação, o pessoal da Basarnas foi muito solícito e respondeu a todas as nossas perguntas. Mas fomos percebendo que aquele parque não deveria estar aberto. Era escandaloso como qualquer socorro era moroso. As chances de Juliana ter sobrevivido eram muito pequenas”, diz Kamila Marins.
A reunião seguinte também foi adiada. O corpo de Juliana já chegava à portaria, em uma ambulância. “Era preciso fazer dois reconhecimentos. Um para a Defesa Civil, ali mesmo, e outro no dia seguinte, no hospital, para a polícia”, lembra Manoel Marins.
A família estava em frangalhos, mas Manoel insistiu em vê-la pessoalmente. “É minha filha”, disse. Kamila e Sady Neto não o deixaram ir sozinho. Os três entraram na ambulância por uma porta que se abria de baixo para cima. Por causa da repercussão do caso, o lugar estava agitado. Além dos envolvidos na operação de resgate, havia curiosos – entre eles youtubers tentando filmar com celulares. Os funcionários da embaixada, Lara Pierri e o namorado pediam para que todos guardassem os aparelhos.
Juliana estava em um saco mortuário que se abria pela lateral. Um funcionário da Basarnas começou a puxar o zíper. A família a viu primeiro pelos pés, sujos de terra. Depois pelas pernas, arranhadas. Em seguida, pelo tórax, que estava expandido. Por fim, o rosto. Manoel, chorando, afastou os cabelos do rosto da caçula e disse: “Minha filha…” Kamila Marins fez um sinal para que o funcionário fechasse o zíper, e todos foram retirados da ambulância. Do lado de fora, a diplomata Helena Massote tentava conter os que queriam filmar a cena.
A equipe de alpinistas voluntários que resgatou o corpo chegou logo depois. Kamila ficou amparando o tio. Sady Neto foi agradecer a todos, um por um. Agam Rinjani, àquela altura já famoso entre os brasileiros, que passaram a segui-lo em massa no Instagram, pediu desculpas por não ter conseguido tirar Juliana com vida da montanha. Sady Neto respondeu que, sem eles, a família não teria podido trazê-la de volta ao Brasil. Os funcionários da embaixada levaram os Marins a uma pizzaria próxima, ninguém conseguiu comer.
O que aconteceu nas quatro horas entre a queda de Juliana e o momento em que a Basarnas foi acionada só se esclareceria para a família na reunião seguinte, realizada na mesma sala. Foi um encontro tenso. Ao contrário dos membros da Basarnas, sempre atenciosos, a família achou que o diretor do parque, Yarman Kadir, respondia às perguntas com impaciência.
Os Marins também se irritaram com o guia Ali Musthofa. “É um garoto de uns 20 anos. Nos recebeu com um sorriso de orelha a orelha, como se fosse contar o resultado de uma partida de futebol, não sei se por nervosismo. O povo indonésio é hospitaleiro, responde a tudo com um sorriso. Mas o dele foi tão acintoso que todos perdemos a paciência. Meu sobrinho disse ao intérprete: ‘Pede para ele tirar esse sorriso do rosto, está nos fazendo mal’”, conta Manoel.
A família perguntou ao diretor por que a Basarnas não havia sido prontamente acionada. “Ele respondeu que o procedimento-padrão era enviar primeiro o insurance (a equipe local financiada pelo seguro dos turistas)”, recorda Kamila. Perguntaram o que era necessário para ser guia no parque. Ele respondeu que é preciso ser certificado. Quiseram saber, então, o que era exigido para obter certificação. “Entrar no sistema”, respondeu ele, evasivo. A cada explicação, os brasileiros ficavam mais atônitos. Manoel Marins disse: “Vocês mataram a minha filha.”
Sady Neto ficou inquieto. “Essas quatro horas foram cruciais. Se a Basarnas tivesse sido chamada até uma hora depois da queda, talvez ainda chegasse com luz e a Juliana não teria deslizado mais”, afirma.
Saiu da reunião e foi até a guarita que controla a entrada e saída de turistas. Pediu para ver a ficha de Juliana. Teve a impressão de que o funcionário fingiu não entender. Quando enfim abriu o arquivo, surgiu um dado que deixou a família ainda mais indignada: o parque havia feito o check-out da jovem brasileira. Registrou que ela havia saído da montanha no dia 21, a mesma data em que Mariana de Oliveira confirmara a sua identidade ao funcionário do Rinjani pelo WhatsApp. “Era uma ficha totalmente incompleta. O nome dela estava como Julian, a nacionalidade, italiana. Só a identificamos porque o número do passaporte era o dela”, conta Manoel. A pedido de Sady Neto, Lara Pierri fotografou a ficha de registro.
Os turistas costumam sair das trilhas do Rinjani muitas vezes em jipes, respondendo a chamadas feitas em voz alta – é um processo informal. A família, no entanto, considera que o check-out falso de Juliana não foi feito por desorganização. “Foi má-fé. Estava tudo pronto para a minha filha desaparecer por ali. Se os turistas lá em cima não tivessem nos procurado, talvez nunca soubéssemos que ela caiu. Iríamos atrás e o parque ia dizer: ela saiu daqui no dia tal. Seria uma jovem brasileira desaparecida no Sudeste Asiático. E eu seria uma mãe com uma filha perdida”, diz Estela Marins.
Manoel Marins formou-se em odontologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói. De origem presbiteriana, estudou também teologia e foi ordenado pastor em 2005. Exerceu o ministério por vinte anos, em paralelo à odontologia. Durante doze anos liderou a Igreja Presbiteriana do Riachuelo, uma das mais antigas do Rio, e depois assumiu uma congregação menor, onde permaneceu por um ano. Estela começou engenharia florestal na UFRJ, curso que não concluiu, e foi professora de biologia durante décadas, até se aposentar.
O casal começou a namorar na adolescência e se casou em 1986. Ficaram sete anos sem filhos, porque ela tinha dificuldade para engravidar. “Eram os tios incríveis que adoravam crianças. Os sobrinhos só queriam ficar com eles”, lembra Kamila.
Juliana era a caçula entre os netos da mãe de Manoel, dona Dolores. No domingo, dia 5 de outubro, a família, numerosa, gregária e unida, se reuniu para celebrar seu aniversário de 100 anos. Enlutado, o clã pensou em cancelar a comemoração. Mas Estela insistiu: “Vamos comemorar, não sabemos por quanto tempo estaremos vivos.”
As filhas dos Marins cresceram em meio à rotina da Igreja Presbiteriana. Frequentavam cultos, organizavam atividades culturais, como grupos musicais, coros e cantatas de Natal. Mas, com o tempo, a relação da família com a igreja foi se transformando. Manoel se decepcionou com a adesão acrítica de parte dos fiéis ao bolsonarismo. “A instituição sempre foi conservadora. Nos últimos anos, passou a ser reacionária”, diz. Em 2022, pediu exoneração do ofício pastoral. Estela também se afastou. Ainda assim, o casal manteve muitos amigos no grupo, que compareceram em peso ao sepultamento de Juliana.
O distanciamento não foi apenas político. Na adolescência, Mariana Marins descobriu sua sexualidade. A família não sofreu pressão direta, mas o conservadorismo da religião foi dando um nó na cabeça de todos. “A Mariana, e nós também, sofremos muito com isso. E a Juliana era a grande advogada da irmã”, diz Estela.
Hoje, Estela frequenta uma Igreja Batista independente e progressista, que prega uma fé inclusiva. Manoel também começa a se aproximar dessa comunidade. Juliana foi se descolando da igreja e passou a se interessar por questões de gênero e racismo. O último livro que estava lendo, guardado na casa de Niterói ainda com um marcador na página, foi Torto arado, de Itamar Vieira Junior.
Entre essas mudanças que se desenrolaram por dentro da família, um traço comum permaneceu: o amor desbragado por viagens. Quando ainda não tinham as filhas, Estela e Manoel viajavam de carro velho para acampar. Depois, com as meninas pequenas, percorriam o Brasil nas férias e feriados – de Torres, no Rio Grande do Sul, a Fortaleza, no Ceará. “Algumas dessas viagens foram feitas com os meus pais, mesmo com meu pai já em cadeira de rodas”, lembra Manoel. “Fomos para o Paraná, Mato Grosso do Sul, Foz do Iguaçu, Gramado. A gente pegava a estrada e pronto.” Nas aulas de geografia, as meninas conheciam boa parte do Brasil descrito pelas professoras. Também viajaram ao exterior – Argentina, Chile e Estados Unidos. Quando havia dinheiro, jantavam em bons restaurantes. Se não, em lanchonetes, mas sempre faziam tudo juntos.
Na adolescência, Mariana fez intercâmbio em Portugal. Juliana, no Egito, onde trabalhou em uma ONG. Em seu último emprego, com o humorista Yuri Marçal, economizou para fazer seu mochilão no Sudeste Asiático. Em quatro meses, passou pelas Filipinas, Tailândia e Vietnã. Pretendia ir para a Índia, ou talvez mudar o roteiro para Barcelona.
No início de maio, publicou no Instagram: “Fazer uma viagem longa sozinha significa que o sentir vai sempre ser mais intenso e imprevisível do que a gente tá acostumado. E tá tudo bem. Nunca me senti tão viva.” No final do mês, postou uma foto com os pais e a legenda: “Hoje liguei pra eles chorando de saudade. […] Terminei a ligação rindo das bobeiras dos meus pais e com uma paz no coração por ter vindo ao mundo nessa família.”
Os pais lembram bem da chamada de vídeo, que durou quase duas horas. Juliana contou de novo que tinha feito dois cursos de mergulho, um período de silêncio num mosteiro budista e pensava em estudar ioga na Índia. “Ela não queria voltar, mas se sentia solitária. Fomos conversando e no fim o astral dela mudou. Ela disse: ‘Ainda tenho muitos projetos para realizar’”, diz o pai.
A pressão provocada pelas Marianas na internet deixou as autoridades da Indonésia de cabelo em pé. Quando chegou em Lombok, a família Marins foi acompanhada por representantes do governo da ilha. Na manhã seguinte ao reconhecimento do corpo, foram levados de carro até Mataram para o segundo reconhecimento. Hospedados em um hotel quatro estrelas, tomaram café da manhã e seguiram para o Hospital Bhayangkara Mataram, onde encontraram cartazes de condolências e coroas de flores. “As pessoas se aproximavam da gente e pediam desculpas pela morte dela”, lembra Sady Neto.
No hospital, a vice-governadora de Nusa Tenggara Barat, Indah Dhamayanti Putri, os recebeu, acompanhada de autoridades locais.
Os Marins pediram uma autópsia e foram informados de que não havia legista forense no hospital. Montou-se um esquema para levar o corpo a Bali. Depois da reunião, foram surpreendidos por uma entrevista coletiva que aconteceria na recepção. Recusaram-se a participar e saíram por uma porta lateral. A vice-governadora explicou à imprensa os detalhes da transferência do corpo.
A família permaneceu em Lombok, onde foi homenageada com um almoço – novamente, mal conseguiu comer. No dia seguinte, 27 de junho, o corpo de Juliana seguiu para Denpasar, a capital de Bali, com escolta policial. Os Marins encararam mais uma viagem. Pegaram um barco para Bali e, depois, uma van até o Hospital Bali Mandara, onde seria feita a necropsia.
Tinham uma reunião privada agendada com o legista, mas, ainda no caminho, Kamila recebeu um telefonema da diplomata Helena Massote. O médico Ida Bagus Putu Alit dava uma coletiva de imprensa no hospital, detalhando a autópsia. “Comecei a gritar no telefone: Que loucura é essa? A minha tia vai ver!”, conta ela. Um primo, em São Paulo, mandou links de matérias que já saíam no Brasil. A sobrinha leu as notícias em voz alta, para o tio, até a bateria do celular acabar. No trânsito parado, os Marins, extenuados, adormeceram na van.
Quando chegaram ao hospital, o médico já havia ido embora. A embaixada conseguiu trazê-lo de volta. Ele pediu desculpas pela entrevista sem autorização e, enfim, sentou-se com a família para explicar o laudo. A autópsia descartou morte por hipotermia, fome ou sede. Juliana, dizia o perito, teve múltiplas fraturas na coluna, dorso, peito e coxa. Os traumas mais graves, na parte posterior do tórax, causaram uma hemorragia interna extensa. Estimou a morte em cerca de 20 minutos após a última queda no penhasco.
Em São Paulo, Mariana Marins se indignou com a coletiva do legista, concedida à revelia da família. “É absurdo atrás de absurdo, atrás de absurdo e não acaba mais”, reclamou. A família declarou que não confiava mais nas informações vindas da Indonésia e pediu uma nova autópsia, no Brasil.
Em Bali, começou mais uma maratona de reuniões, para resolver o novo desafio: sincronizar o embalsamento e o voo de traslado, para garantir que o corpo chegasse ao Brasil em condições para um novo exame. Os Marins compraram um bilhete pela Emirates, que primeiro demorou para confirmar o voo e depois alegou falta de espaço no compartimento de carga, o que atrasou a viagem e aumentou a preocupação com o prazo da autópsia no Brasil.
Como não havia voo com escala no Rio de Janeiro em tempo hábil, iniciou-se mais uma onda de mobilização e indignação nas redes sociais. Diante da repercussão, o presidente Lula telefonou para Manoel Marins e assinou um decreto que permite ao governo federal custear o traslado de corpos de brasileiros mortos no exterior em casos específicos, como dificuldades financeiras e morte que provoca comoção. Com isso, autorizou o uso de um avião da FAB para concluir a última etapa do transporte. Nas redes sociais, Lula declarou: “A morte de Juliana é uma tragédia que entristece o Brasil. Determinei apoio integral à família e às autoridades que tratam do traslado.”
O corpo de Juliana Marins chegou ao Brasil na terça-feira, 1º de julho, em um voo da Emirates que aterrissou em São Paulo às 17h10. O traslado foi pago pela Prefeitura de Niterói. No avião da FAB, o corpo chegou à Base Aérea do Galeão, no Rio, às 19h40 e foi levado para o IML.
A autópsia no Brasil foi feita pelo perito Nelson Massini, que atuou no caso como voluntário, e pelo médico-legista da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Reginaldo Franklin Pereira. No dia 11 de julho, eles apresentaram os resultados ao lado de Mariana Marins, na Defensoria Pública da União. Segundo os peritos, Juliana foi deslizando de costas pelo penhasco e, na última queda, despencou de lado sobre as rochas. Sofreu politraumatismo e hemorragia interna. Fraturou o fêmur e várias costelas – uma delas perfurou a pleura do pulmão. Por causa do impacto, teve extrema dificuldade para respirar e levou de 10 e 15 minutos para morrer. “Foi uma morte agônica, hemorrágica, sofrida. Infelizmente”, disse Nelson Massini.
Um estudo de entomologia forense, feito em larvas encontradas no couro cabeludo e tórax, estimou data e horário da morte. “Ela morreu por volta do meio-dia do dia 22, no horário da Indonésia”, afirmou Pereira. Ou seja, permaneceu viva por cerca de 32 horas após cair da trilha. Quando foi encontrada, vestia uma jaqueta corta-vento leve, que não aparecia nas primeiras imagens registradas por turistas e estava guardada na pochete.
Um mês e meio antes da morte de Juliana, o turista malaio Rennie Bin Abdul Ghani, de 57 anos, morreu no Rinjani, depois de despencar em um abismo de 100 metros. E, nas quatro semanas seguintes à queda de Juliana, outras três pessoas se acidentaram no vulcão. Em 27 de junho, o também malaio Nazli Bin Awan Mahat, 47 anos, caiu e foi resgatado dezessete horas depois, com fratura no quadril e ferimentos na cabeça. Em 16 de julho, o suíço Benedikt Emmenegger, 46 anos, se feriu nas coxas e no braço. E, no dia seguinte, a holandesa Sarah Tamar van Hulten, de 26 anos, escorregou cerca de 30 metros e machucou o pescoço.
Por causa da indignação criada pelo caso de Juliana Marins, Raja Juli Antoni, o ministro das Florestas da Indonésia, anunciou a revisão dos protocolos de segurança nos parques nacionais de montanha da Indonésia. Em agosto, as seis trilhas do Rinjani foram classificadas como grau IV de dificuldade, nível reservado a alpinistas experientes e receberam placas de advertência, corrimãos e escadas de segurança. Agora, quem compra o passeio sabe qual é o nível do desafio – diferente do que aconteceu com Juliana.
O governo da Indonésia também anunciou um programa de certificação de guias em padrões internacionais e a atualização de sistemas de monitoramento, incluindo o desenvolvimento de um aplicativo capaz de rastrear turistas desaparecidos por pulseiras.
Abrigos para guardar equipamentos foram colocados na montanha. Nos últimos meses, essas melhorias foram amplamente divulgadas nas redes sociais do ministro e do parque. Equipes de socorristas receberam treinamento em resgates verticais, alguns ministrados por Agam Rinjani e Tyo Survival.
(O clamor das redes sociais foi se espalhando por outros caminhos. Uma vaquinha virtual brasileira arrecadou doações para agradecer a Agam Rinjani. A campanha acabou em polêmica após a plataforma cobrar uma taxa de 20% pelo serviço. Depois das críticas, a empresa repassou 100% do valor arrecadado e o alpinista recebeu 435 mil reais. Agam aparece nas redes sociais com equipamentos novos, virou celebridade local e aproveita os milhares de novos seguidores brasileiros para fazer campanha para encontrar o jogador Neymar. Em novembro, esteve no Brasil, para participar da COP30, em Belém.)
Em junho, o Jakarta Globe informou que a polícia de Lombok abriu investigação sobre a morte de Juliana. Segundo o chefe da unidade de investigação criminal, I Made Dharma Yulia Putra, quatro testemunhas foram ouvidas: o organizador do trekking, o guia local, um carregador e um policial florestal. No Brasil, os Marins não foram chamados a depor. Temporariamente afastado, Ali Musthofa tem dito que gostaria de continuar trabalhando como guia – e se isso acontecer será mais enérgico para manter todos os turistas juntos nas trilhas. A família Marins estuda maneiras de abrir processos contra o parque.
Manoel e a filha Mariana, que se mudou com a mulher para a casa dos pais, em Niterói, agora usam as redes sociais para publicar reflexões sobre a vida e homenagens a Juliana. “E eu e a Estela vamos revezando”, diz Manoel. “Tem dia que estou pior, tem dia que é ela. Aí um dá força para o outro.”