José de Ribamar, os irmãos Raul e Raimundo Batista e Pedro Valdo, que foram vendidos e submetidos a servidão por dívidas em épocas diferentes de suas vidas, mas quando todos eram apenas garotos - CRÉDITO: JOÃO LAET_2026
José de Ribamar, os irmãos Raul e Raimundo Batista e Pedro Valdo, que foram vendidos e submetidos a servidão por dívidas em épocas diferentes de suas vidas, mas quando todos eram apenas garotos - CRÉDITO: JOÃO LAET_2026

anais da escravidão

TANTO HORROR PERANTE OS CÉUS

Como um padre sem memória escancarou o passado brutal da Volkswagen em uma fazenda na Amazônia

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Era em Belém, na manhã solar de 24 de fevereiro deste ano, mas as frases que voavam pelo auditório do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região pareciam ter saído de algum lugar do século XIX. O colegiado da 4ª Turma analisava um recurso da Volkswagen que, quase seis meses antes, havia sido condenada em primeira instância a pagar 165 milhões de reais de indenização em danos morais coletivos por submeter trabalhadores à escravidão em uma gigantesca fazenda de gado no Sul do Pará, entre 1974 e 1986.

Em sua defesa, a Volkswagen apresentou dez preliminares – que iam da prescrição do crime à alegação de incompetência da Justiça do Trabalho para julgar o caso – e recheou cada uma delas com outras pencas de argumentos. Por isso, a relatora Maria Zuíla Lima Dutra precisou ler sua fundamentação no ritmo dos locutores de corrida de cavalos, o que tornava sua fala praticamente ininteligível. No julgamento do mérito, no entanto, ela desacelerou ligeiramente e recorreu a um repertório poético para elogiar as provas apresentadas nos autos: “Ao analisá-las, fui transportada para o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, aonde chegavam os navios trazendo os escravos da África para o Brasil. [...] O poeta Castro Alves resolveu visitar o cais para ver de perto e, ao presenciar pessoas amontoadas, esqueléticas, chorando de dor e de fome, olhou para o céu e disse: ‘Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade. Tanto horror perante os céus...’ No mesmo dia, ele transformou essa prece no poema O navio negreiro.” A desembargadora votou pela manutenção integral da sentença, incluindo o valor da indenização, que deve ir para o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

Nos minutos seguintes, frases de um arcaísmo penoso, como “tráfico de pessoas” e “trabalhadores eram vendidos” rodariam pelo ambiente, citadas pelos outros desembargadores e pela representante do Ministério Público do Trabalho (MPT). No final, o colegiado seguiu a relatora e manteve a condenação da empresa, por unanimidade. Em seu voto, o desembargador Carlos Rodrigues Zah­louth Júnior escreveu que as provas são “avassaladoras”, transcendem “a esfera puramente trabalhista, alcançando dimensões de degradação socioambiental e humanitária” e descrevem um “cenário de desumanização absoluta”.

A Volkswagen entrou com recurso, mas a sentença já é histórica. “É a maior condenação por trabalho escravo contemporâneo da história do Brasil, cometido por uma das maiores empresas do mundo”, diz Rafael Garcia Rodrigues, um dos procuradores do MPT autores da ação.

Em 2012, um ano antes de morrer, o alemão naturalizado brasileiro Wolfgang Sauer publicou uma biografia chamada O homem Volkswagen: 50 anos de Brasil. É um livro meio autolaudatório, em que o ex-presidente da montadora no país – durante décadas um dos executivos mais conhecidos e influentes do cenário nacional – revisita momentos marcantes de sua carreira. Um dos capítulos se chama Projeto Pará: uma fazenda em estado de arte em plena selva amazônica e é inteiramente dedicado à história do empreendimento agropecuário da Volks no Sul do estado, instalado em uma área quase do tamanho da cidade de São Paulo.

O capítulo começa assim: “Uma fazenda dentro da selva amazônica! Sua área: 139 392 hectares. Um projeto verdadeiramente espetacular – Companhia Vale do Rio Cristalino Agropecuária Comércio e Indústria, localizada em Santana do Araguaia, na zona fisiográfica do Rio Araguaia, com 54 mil hectares destinados a pastagens [...]. A cobertura natural de matas foi preservada ao longo dos rios, nas nascentes e também nos morros, para evitar a erosão e para manter o equilíbrio do ecossistema.”

Sauer conta que foi convocado pelo governo federal para aderir a um projeto em que grandes empresas receberiam incentivos fiscais a rodo para ocupar a Floresta Amazônica, principalmente por meio da Sudam, o órgão criado para planejar e financiar o desenvolvimento econômico da região. Animadíssimo com o convite, o executivo foi até a sede da multinacional, em Wolfsburg, na Alemanha, especialmente para convencer o Conselho Administrativo a comprar a faixa de terra gigantesca.

No livro Volkswagen in the Amazon: the tragedy of global development in modern Brazil (Volkswagen na Amazônia: a tragédia do desenvolvimento global no Brasil moderno), o historiador Antoine Acker diz que a história é outra: Sauer e outros altos executivos da sede na Alemanha já teriam comprado um pedaço da terra e depois avisado ao Conselho Administrativo, já como um ato consumado. De todo modo, Sauer saiu da apresentação com um sinal verde em mãos – e iniciou ali sua encrenca de cores fitzcarraldianas.

No livro, Sauer diz: “Montei uma fazenda exemplar. Minha equipe e eu. Não éramos apenas produtores de gado, levávamos a civilização e a possibilidade de uma vida decente aos moradores daquela região. Fizemos uma linda vila de casas de alvenaria, circundadas de flores, com áreas reservadas para hortas e pomares na parte de trás. Construímos 155 km de estradas, pontes diversas com 494 metros de construção, 174 açudes, pista de pouso de 1,2 mil metros, doze retiros, treze currais, ambulatórios com médicos e dentistas para atendimento das famílias e laboratórios para pesquisas sobre doenças endêmicas.”

Antigos funcionários da Volkswagen do Brasil que o assessoraram na empreitada tiveram seus depoimentos incluídos no livro. Um deles, que costumava acompanhá-lo nas viagens de avião até o lugar, contou, maravilhado: “[...] éramos os desbravadores, pioneiros, enfim, bandeirantes em solo amazônico. Impossível não sofrer o contágio da exaltação criadora que tomava conta do Sauer, a cada vez que ele lá botava os pés.”

Outro colaborador elogiou a maneira como o executivo concebeu a empreitada: “O Sauer andava com uma faca enfiada em um grosso cinto, porque havia muitas onças rondando por ali. Tirou-a da cintura e, segurando-a firme, sentou-se no chão. Com aquela faca, ele riscou o projeto. [...] Apontava o local da pastagem, das casas, dos alojamentos, das pontes, do frigorífico e verbalmente me descrevia a logística.”

Igualmente comovido, um terceiro colaborador lembrou do dia da inauguração da escola para filhos de funcionários, instalada em uma casa branca na sede da fazenda e batizada em homenagem a Sauer: “As crianças foram chegando uma a uma. Nunca haviam calçado sapatos. Estavam ali, à nossa frente, todas fardadas, penteadas, perfiladas lado a lado, cantando o hino nacional, enquanto a bandeira brasileira subia no mastro, agitada pelo movimento do vento.”

Transbordando magnanimidade em sua maneira de se referir à floresta como um inferno verde a ser amansado e ao povo da Amazônia como desvalidos a serem salvos, o capítulo sintetiza a lógica de ocupação da região pela ditadura militar. Nessa época, a propaganda oficial se apoiava no slogan “Integrar para não entregar”. Animado com a adesão da Volkswagen, o governo federal publicou anúncios na imprensa conclamando outras empresas a fazer o mesmo. Era um projeto vendido como uma marcha civilizatória, em defesa das fronteiras do país.

A Fazenda Vale do Rio Cristalino foi inaugurada em dezembro de 1973, com cerca de trezentos funcionários registrados. Alguns deles podiam usufruir dos confortos da sede, como área de lazer com piscina e campo de futebol. Chegou a ter 60 mil cabeças de gado nelore, parte delas depois cruzada com raças como brown swiss, gelbvieh, fleckvieh, holandês vermelho e branco e holandês preto e branco.

Para que o gado pudesse pastar na Amazônia, no entanto, era preciso que alguém derrubasse a mata. Trabalhadores temporários de vários lugares do Norte, Centro-Oeste e Nordeste do país eram arregimentados e levados para uma frente de desmatamento a cerca de 80 km da entrada da sede louvada por Sauer. Ali, mergulhavam em um sistema barra-pesada de servidão por dívida, vigilância armada, restrição de liberdade e maus-tratos inomináveis.

Em janeiro de 1983, um grupo de cinco jovens de Canabrava, na época parte do município de Luciara, em Mato Grosso, soube que um homem conhecido na cidade como Batista estava recrutando trabalhadores para “a fazenda da Volkswagen”. Os rapazes tinham entre 17 e 24 anos, todos alucinados por futebol. Eram Pedro Valdo Pereira Vasconcelos, o Doca; José de Ribamar Viana Nunes, o Riba; Jo­sé Libório Desidério, o Zeca; Francisco Rezende de Souza, o Chico; e José Pereira de Souza, o Jamanta. Convidados por Batista, acharam que trabalhar na temporada de desmate na fazenda era uma excelente ideia. Eles ganhariam um abono antecipado que ficaria com suas famílias, não pagariam transporte até o lugar, receberiam cerca de 20 mil cruzeiros por lote roçado – um valor superior ao pago na cidade, em torno de 18 mil. E, melhor das notícias, poderiam jogar futebol no campo de gramado verdinho da sede da fazenda.

“Ficamos animados, falamos: bora conhecer o Pará!”, lembra Viana Nunes. Os rapazes pegaram suas chuteiras e subiram em um pau de arara cheio de peões, entre eles mais dois moradores de Canabrava, que conheciam apenas como Alonso e Paulo. No começo da viagem, que duraria a tarde inteira, já perceberam uma mudança radical no tratamento que recebiam, sem falar nas cenas surreais que começaram a presenciar. Quando pegaram a estrada, por exemplo, o irmão de Batista viu um homem bêbado jogado no chão, o pegou pela calça e o jogou para dentro do caminhão – era uma mão de obra a mais. O sujeito só acordou a quilômetros dali, perguntando para onde estava indo.

O grupo viajou levando chuva na boleia da caminhonete lotada de homens. Na entrada da Fazenda Vale do Rio Cristalino, viram o símbolo da Volks na corrente da guarita, funcionários com uniformes azuis e, de relance, a sede e o campo de futebol. Mas foram levados fazenda adentro, para a frente de desmatamento. Lá, havia um armazém chamado de cantina. Todos foram obrigados a colher sangue, sem saber para quê – Vasconcelos, a contragosto, porque foi criado em uma família de Testemunhas de Jeová. (Em seu livro, Wolfgang Sauer diz que, nos laboratórios para pesquisas sobre doenças endêmicas da fazenda, “lâminas e mais lâminas de sangue eram estudadas, observadas, servindo como contribuições efetivas para a erradicação da malária na região onde atuávamos”.)

Tiveram que abrir uma conta em seus nomes, onde seriam anotados todos os itens de primeira necessidade que precisariam comprar: lonas para montar as barracas onde dormiriam, redes, panelas, comidas, remédios e até as foices que usariam no trabalho. Nessa mesma noite em que chegaram, viram um peão que surtara, levara tiros perto dos pés e fora amarrado na forquilha de uma barraca, onde passou a noite chorando – e depois não foi mais visto.

Os cinco amigos dormiam na mesma barraca e se revezavam para fazer a comida que levariam para a mata. Começavam a trabalhar às seis da manhã, terminavam por volta das seis da noite. Não tinham banheiro à disposição, eram obrigados a usar a mata. Não recebiam água potável, iam aos mesmos igarapés que o gado. Roçavam de segunda a sábado. Aos domingos paravam ao meio-dia para lavar roupa. Às vezes, retomavam o trabalho em seguida – porque queriam terminar rápido para ir embora logo.

Quando acabaram de roçar os primeiros 20 alqueires, perguntaram pelo salário. Foram avisados de que, na verdade, estavam devendo, por causa das provisões que haviam comprado na cantina, do transporte no pau de arara e do abono que receberam antes de embarcar. Roçaram mais 20 alqueires, obtiveram a mesma resposta. E depois mais 20 – deu no mesmo. Permaneceram quatro meses nesse ciclo, período em que viram um homem morrer de malária, souberam de outro que foi assassinado por um companheiro de barraca e conversaram com um colega que havia sido baleado na perna porque insistira em sair dali. Não podiam ir embora porque só passavam pela guarita aqueles que tinham uma autorização escrita por um dos responsáveis por arregimentar os trabalhadores, os empreiteiros chamados de “gatos”. E, se tentassem fugir pela mata que de todo modo não conheciam, seriam perseguidos pelos capangas armados, os “fiscais”.

Os rapazes já haviam entrado em desespero quando tiveram uma ideia. Avisaram que três dos integrantes do grupo haviam se alistado no Exército. Se não se apresentassem dali a um mês, contaram, a polícia iria atrás deles. O responsável pela empreitada, Chicô, achou melhor deixá-los ir embora, mas cogitou manter na fazenda os outros dois, Viana Nunes e Vasconcelos, ambos na época com 17 anos. José Desidério, o mais velho de todos, com 24 anos, reagiu. Disse que sem os amigos menores de idade não sairia dali. Acabaram todos liberados. Chicô era Francisco Andrade Chagas, empreiteiro contratado pela Companhia Vale do Rio Cristalino (CVRC) e um dos gatos mais conhecidos e brutais da região.

No dia de ir embora, acordaram cedo e foram à cantina pegar o salário. De novo, foram avisados de que não tinham nada para receber. Enquanto estavam por ali, viram passar uma caminhonete com um homem morto na caçamba. “Estava todo retalhado de foice”, descreve Vasconcelos. Em seguida, apareceu um caminhão carregado de mercadorias. O motorista, jovem como eles, perguntou se o grupo ajudaria a descarregá-las, em troca de carona até a saída da fazenda. Os rapazes toparam e fizeram o serviço com tanta pressa que esqueceram de pegar a autorização de saída assinada pelo gato. Os guardas só abriram a corrente com o símbolo da Volks porque o motorista do caminhão atestou que eles tinham mesmo sido liberados.

Quando conseguiram chegar à estrada, já tarde da noite, exaustos, encontraram um boteco. O dono, penalizado com a situação deles, os deixou dormir na parte de trás da construção, um lugar cheio de ratos. No dia seguinte começaram a pedir a série de caronas que os levaria para casa, aonde chegariam apenas uma semana depois. A notícia da volta deles rapidamente se alastrou pela cidade. Agentes da Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, telefonaram para o padre Ricardo Rezende Figueira, que estava em Conceição do Araguaia, no Pará. Imediatamente, o padre pegou um avião e foi até Mato Grosso para encontrá-los.

Ricardo Rezende Figueira nasceu em Carangola, na Zona da Mata de Minas Gerais, filho de um pequeno comerciante que faliu e virou operário. Aos 11 anos, foi enviado para fazer seus estudos em um seminário. Quando saiu, aos 17 anos, resolveu voltar para a casa da família, que a essa altura morava em Juiz de Fora. Acabou fazendo faculdade de filosofia e decidiu trabalhar na igreja, a princípio como leigo. Em plena ditadura militar, com partidos jogados na clandestinidade, eleições proibidas e sindicatos controlados, a Igreja Católica era o único espaço de autonomia, já que não estava ao alcance do governo ordenar ou consagrar um religioso. “Os militares podiam prender os padres, mas não podiam nomeá-los”, explica.

Em 1976, Rezende foi conhecer a diocese de Goiás, na época nas mãos de dom Tomás Balduíno. Ficou impressionado com o trabalho dele e de sua equipe. Seguiu viagem para ver como era a prelazia de Conceição do Araguaia, no Pará. Encontrou um clima tenso pela passagem recente da guerrilha, com o militar Sebastião Curió ainda comandando a repressão. Era um ambiente de chumbo, em que religiosos pouco antes haviam sido presos; um deles, torturado. Foi adiante, até Marabá, também no Pará. Depois do périplo, bateu o martelo: iria trabalhar no Movimento de Educação de Base de Conceição do Araguaia. Achou que seria mais útil por ali – um lugar mais pobre, com infraestrutura precária e poucos agentes pastorais para o tamanho da população.

Rezende era um jovem urbano, acostumado a ir ao Rio de Janeiro para visitar exposições e museus. Caiu de paraquedas em uma região em que precisava andar de barco, a pé ou de bicicleta para visitar as comunidades, e a principal comunicação era feita por rádio. Conceição do Araguaia era também um polo por onde passavam peões, fazendeiros, pistoleiros, comerciantes e funcionários administrativos antes de seguir adiante Pará adentro. Nas áreas que ocupavam, deixavam uma cornucópia de conflitos fundiários, desmatamentos, incêndios florestais, surtos de malária, sonegação de impostos. Mas ninguém falava ainda em trabalho escravo nas recém-criadas fazendas de gado na Amazônia. Na cabeça de Rezende, o tema só foi tomando forma aos poucos.

Certo dia, por exemplo, ele foi chamado por dona Custódia, uma viúva que lavava roupas à beira de um rio e morava em uma casa de sapé. Ela avisou que estava com um morto em casa. “Um morto, dona Custódia, como? Ela explicou que o homem, chamado Francisco, havia fugido de uma fazenda com a mulher grávida e uma criança de colo. O casal pegou malária e, ela, com pena, os levou para casa. Ele morreu na rede – cheguei e o corpo estava estendido na mesa, com quatro velas”, lembra o padre. “Pensei: gente, o que é isso? Ele teve que fugir de uma fazenda? Eu não sabia nem que nome dar para aquele fenômeno...”

Em outro episódio, em 1977, Rezende viu uma caminhonete passando devagar na frente da igreja, porque a rua tinha muitos buracos. Um rapaz pulou do carro e saiu correndo. Dois homens desceram e o levaram de volta. “Eu estava assistindo a uma tentativa de fuga, mas não enxerguei. Achei que era brincadeira de rapaziada.”

Nos anos seguintes, foi ouvindo vários relatos de trabalhadores amontoados nas profundezas de imensas fazendas, trabalhando em condições sub-humanas, e de pessoas que acusavam o sumiço de familiares nessas engrenagens. Entendeu que, além dos conflitos fundiários, a região inteira era dominada pelo que os estudiosos do tema, hoje numerosos, apontariam como o terceiro ciclo de grande incidência do crime de trabalho escravo na Amazônia, iniciado na década de 1970 com a participação do governo – os primeiros foram ligados à exportação de caucho do fim do século XIX ao começo do XX e, depois, durante a Segunda Guerra Mundial.

Bem antes da chegada de Rezende, Conceição do Araguaia foi desmembrada e nasceu outro município, Santana do Araguaia. E, nas duas cidades, acontecia uma movimentação curiosa: elas concentravam os maiores conglomerados de capital financeiro e industrial atraídos pelo governo para abrir fazendas de criação de gado na Amazônia. Juntas, recebiam mais de 52% do orçamento da Sudam.

Histórias como as dos rapazes que saíram de Mato Grosso não eram pontuais – se repetiam aos borbotões e formavam um grande sistema econômico. Depois de comprar imensidões de terras na região, as empresas não conseguiam derrubar a mata usando máquinas. Tratores eram muito caros e a reposição de peças, difícil. Então contratavam os empreiteiros que arregimentavam trabalhadores em vários estados. Muitos desses gatos eram disputados pelas fazendas. Todos adotavam métodos enganosos para atrair os peões e, depois, animalescos para mantê-los presos.

Além de Chicô, havia outros muito conhecidos, como Abílio Dias de Araújo, o Abilão, os irmãos Adão e Leomar Modesto, Joaquim Gringo e Zezinho da Codespar. Juntos, eles deitavam e rolavam naquelas áreas em que não havia fiscalização do Estado para o cumprimento das leis trabalhistas. Giravam uma máquina gigantesca. Subcontratavam outros empreiteiros, os subgatos, além de motoristas, cantineiros, capatazes, cozinheiros. Faziam acordos com a polícia e com donos de pensões. Alguns conseguiam coordenar simultaneamente centenas de homens que faziam derrubadas em mais de uma fazenda. Se uma eventual fiscalização chegasse, escondiam os homens na mata.

Os peões passavam entre os gatos, de mão em mão. Quando a empreitada terminava, podiam ser enviados para outras propriedades antes de serem liberados. De modo geral, os trabalhadores achavam que, de fato, eram devedores dos gatos e tinham vergonha de fugir e acabarem presos como ladrões ou de voltar para suas cidades sem dinheiro. Mas, ao longo de anos, alguns procuraram a Comissão Pastoral da Terra e sindicatos com denúncias que sempre coincidiam nos detalhes. No entanto, os relatos chegavam quando já não havia temporários nas fazendas e era impossível fazer um flagrante.

Daí a pressa do padre Ricardo Rezende em pegar aquele avião. O caso dos jovens de Mato Grosso que escapuliram da fazenda da Volkswagen era especial, porque eles informavam que pelo menos outros seiscentos homens estavam, naquele momento, sendo submetidos a trabalhos escravos. O padre não poderia confiar na polícia, mas conhecia o então governador do Pará, Jader Barbalho, escolhido em 1982, na primeira eleição direta sob o regime militar com um discurso progressista que, entre outras coisas, prometia prender todos os pistoleiros do estado. “Minha intenção era muito simples: eu avisaria o governador e ele nomearia um delegado especial para o caso, que iria até a fazenda libertar os trabalhadores e fazer o flagrante”, conta Rezende.

Chegando em Mato Grosso, o padre pegou o mais velho dos rapazes, José Desidério, e voou com ele de volta para Conceição do Araguaia. De lá, ligou para a assessoria do governador, avisando que precisava vê-lo, com urgência. “Mas cometi um erro: disse que era um caso de trabalho escravo na Volkswagen. Não devia ter falado”, lembra. O padre e José Desidério entraram em um avião e venceram 780 km até Belém. Quando chegaram, o governador tinha ido para Brasília. O padre avisou à assessoria de Barbalho que iria atrás. Junto com Desidério, pegou outro voo, mais 1,6 mil km. Chegando em Brasília, a notícia: Barbalho viajara para o Rio.

“O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil na época, dom Luciano Mendes de Almeida, me disse: ‘Ricardo, o governador está fugindo de você...’” Em Brasília mesmo, Rezende organizou uma coletiva de imprensa na sede da CNBB. No dia seguinte, apenas um jornal de Brasília publicou uma nota, mas foi o suficiente para o caso repercutir na Alemanha. O padre também pediu que deputados federais enviassem ofícios para Jader Barbalho exigindo a instauração de um inquérito. Depois, mandou ele mesmo uma carta para o juiz de Conceição do Araguaia, que pediu providências ao então secretário de Segurança Pública, Arnaldo Menezes Filho.

Com essa pressão, um delegado da cidade acabou designado para liderar um inquérito. A investigação concluiu que, de fato, era um caso de trabalho escravo, mas os responsáveis eram os empreiteiros. E, curiosamente, não denunciou ninguém pelo crime. Ainda em 1983, Menezes Filho leu essa conclusão do delegado local e enviou um parecer ao governador, afirmando que ficava patente a responsabilidade da Volkswagen no caso, por omissão. Quando enfim conseguiu se reunir com o governador, o padre ouviu que o Ministério Público assumiria o caso. A partir daí, o assunto virou uma cortina de fumaça. A apuração criminal foi esquecida.

As alternativas estavam se esgotando, mas padre Ricardo Rezende continuava tentando chamar atenção para o que acontecia na fazenda da Companhia Vale do Rio Cristalino. Enviava sistematicamente cartas para jornais. Soube que o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo tinha uma publicação, a Tribuna Metalúrgica. Mandou a história para eles. O jornal publicou, com destaque. A reportagem caiu nas mãos do então deputado estadual Expedito Soares (), um ex-metalúrgico da VW do Brasil. Indignado, ele leu a matéria no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo. Recebeu um recado da diretoria da montadora. Os executivos diziam que o padre estava mentindo e o convidaram para visitar a fazenda no Pará. O deputado Soares topou, desde que pudesse levar uma comissão.

Em julho de 1983, uma comitiva formada por Expedito Soares, outros dois deputados, dois sindicalistas, um repórter e um fotógrafo do jornal O Estado de S. Paulo partiu para a fazenda, distribuída em dois aviões oferecidos pela Volkswagen – e acompanhados por dois diretores e do gerente de relações internacionais da empresa em São Bernardo do Campo. Sem o conhecimento da empresa, Soares avisou ao padre e pediu que ele fosse para a região. Os funcionários da montadora e da fazenda restringiram a visita da comitiva à sede. Mas, em um momento em que a Kombi da fazenda que levava a comissão alterou o itinerário para que os parlamentares fossem buscar o padre, cruzaram em uma estrada de terra com o gato Abilão dirigindo uma caminhonete que levava, na carroceria, um trabalhador fugitivo resgatado.

Espremido pela comissão, o gato não dourou a pílula. Ali mesmo, disse que o peão tentara escapar – e acrescentou que, em caso de resistência “eu apresento à polícia, que dá uma prensa e faz voltar”. Na reportagem do Estadão, publicada em 17 de julho de 1983, um policial identificado apenas como sargento Nonato, de Nova Barreira do Campo, explicou com sinceridade espantosa o funcionamento das coisas por ali. “Tem alguns que não querem trabalhar no sábado e no domingo, então tentam fugir. Mas não há violência aqui. Existe, sim, energia, porque se um vai embora outro acha que tá mole e vai também [...]. Eles não podem sair de livre e espontânea vontade, o que é justo, porque têm um compromisso com esse homem, o gato.”

A visita da comitiva durou três dias e resultou em um relatório, concluído em agosto de 1983, chamado Escravidão na Rio Cristalino. Em quinze páginas, o deputado Expedito Soares fazia uma descrição completa do que vira na fazenda. Incluía detalhes de como a Vale do Rio Cristalino replicava vários métodos usados na sede da empresa, em São Bernardo do Campo – do esquema de segurança com guardas vestindo uniformes azuis que mantinham forte vigilância sobre os trabalhadores até a metodologia da escola para filhos de funcionários, extraída do sistema de aprendizagem profissional da montadora de veículos.

O documento falava de um encontro com um trabalhador que, chorando, se aproximou da equipe e pediu ajuda para sair dali. Explicava como os gatos circulavam livremente na propriedade em caminhonetes com o logo da fazenda – inclusive com o poder de liberar trabalhadores nas guaritas. Na recepção da fazenda, havia um livro de assinaturas dourado. Soares foi xeretar e viu algumas das visitas graúdas que passaram por ali, como os ex-ministros Jarbas Passarinho e o general Rubem Ludwig. Depois de conhecer a propriedade, a comitiva ainda participou de reuniões organizadas pelo padre nas cidades de Nova Barreira do Campo e Velha Barreira do Campo, com trabalhadores, familiares e sindicalistas. Soares descreveu a tensão dos encontros. “Todo mundo com medo de falar.”

O relatório foi enviado para Jader Barbalho e distribuído entre outras autoridades no Brasil, mas os problemas da empresa começaram quando as denúncias chegaram à Volkswagen na Alemanha. Organizações da sociedade civil e integrantes do Partido Verde passaram a pressionar acionistas que, por sua vez, exigiram providências ao Conselho de Administração. As denúncias se juntaram a outro mal-estar fenomenal que nos anos anteriores já rondava a aventura amazônica da filial brasileira. No começo de 1976, um satélite fotografou uma queimada em um trecho de 25 mil km2 na interseção de várias fazendas de ga­do na Amazônia – 9 383 deles dentro da fazenda da Companhia Vale do Rio Cristalino. No mundo inteiro, ambientalistas fizeram protestos indignados – o paisagista Burle Marx, por exemplo, denunciou em uma audiência no Senado Federal “o maior incêndio da história”.

Sauer descreve a crise em sua biografia: “O auge da campanha culminou com a ameaça de boicote à venda dos produtos Volkswagen no mundo. Fui imediatamente chamado a Wolfsburg. Não havia como defender nada. Voltei com a penosa tarefa de dizer a todos que haviam tomado carona no meu sonho, embora ele tivesse sido quase uma imposição do governo brasileiro, trabalhando intensivamente, viajando para aquelas plagas longínquas e perigosas, correndo muitos riscos: ‘Vamos sair do negócio!’ e o mais depressa possível.”  Indicado pela própria Volks para fazer uma pesquisa sobre a participação da empresa em crimes cometidos pela ditadura militar, o historiador Christopher Kopper escreveu em 2017 que, ao contrário do que disse Sauer no livro, a VW do Brasil na verdade desistiu do projeto porque vinha registrando perdas constantes desde o início da década de 1980: “O objetivo original da fazenda como recurso para economizar impostos tornou-se obsoleto. Enquanto a VW do Brasil não produzia lucros, a empresa não conseguiria investir receitas não tributáveis na fazenda”.

Sauer, de qualquer maneira, lamentou os efeitos de seu delírio amazônico: “Provavelmente, este foi um dos fatores que abortaram minha escalada profissional até a presidência da Volks­wagen mundial.”

Nas décadas em que essas imensas massas de mão de obra derrubavam a Floresta Amazônica em condições degradantes, o trabalho escravo era proibido no Brasil por um conjunto de leis, como o Código Penal de 1940, a CLT de 1943 e a Constituição de 1967, com a emenda de 1969. No plano internacional, o país já havia aderido à Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 e a duas convenções da Organização Internacional do Trabalho, de 1930 e 1957, que proibiam o trabalho forçado em todas as suas formas. Ainda assim, ninguém foi punido pelo que aconteceu na Fazenda Vale do Rio Cristalino. Ao contrário, o uso dessa mão de obra se estendeu até o momento em que a montadora decidiu se livrar dela, no começo da redemocratização no país.

Em 1986, Martina Pereira Rodrigues foi quatro vezes à casa do gato Hiltomar de Souza Monteiro. Meses antes, ele e seu irmão, Dilson, haviam levado um grupo de homens de Porto Nacional, na época no Tocantins, para trabalhar na fazenda da VW do Brasil – entre eles estavam três filhos, três sobrinhos e o genro dela. Como todos sumiram, a família andava alarmada. Ela ouviu do gato que eles estavam bem, trabalhando, e voltariam logo mais com dinheiro.

Um dos filhos de Martina Rodrigues, Lourival, o Lourinho, acabou voltando mesmo, mas fugido. Estava com malária – esquelético, tremendo de febre – e chegou relatando os horrores que o grupo estava sofrendo no empreendimento da Volks. Ela procurou o delegado da cidade, cuja casa ficava em frente à do gato. Não adiantou. Falou então com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Porto Nacional, Pedrinho Alves de Alencar, que foi até a Comissão Pastoral da Terra avisar o frei Henri des Roziers, um frade dominicano e advogado francês que teve atuação histórica na região. Frei Henri fez um escarcéu. Procurou o Ministério do Trabalho em Brasília, parlamentares e entidades civis para denunciar o caso. Melhor ainda, disse ao gato Hiltomar Monteiro: “Quero os filhos de Martina aqui amanhã!”

Monteiro foi até a Vale do Rio Cristalino e soube que pegar de volta os homens da família seria complicado. Eles haviam sido entregues para outro gato e entraram na espiral de terror. “Eu chorava escondido, com saudades da minha mãe e da namorada que deixei na cidade, prometendo voltar. Achava que não ia sair vivo”, lembra Raimundo Batista de Souza, um dos sobrinhos de Martina Rodrigues. Na época com 14 anos, ele ficou na fazenda em uma barraca de lona, junto com dois de seus irmãos mais velhos, Raul e Juldemar. Passaram por situações idênticas às relatadas três anos antes pelos rapazes de Mato Grosso: servidão por dívidas, medo de bichos da mata, condições degradantes em um ambiente extremamente violento, em que pessoas podiam ser retalhadas se tentassem fugir. Mas com um detalhe adicional: na fazenda da Volkswagen, foram avisados que teriam que sair dali porque a propriedade havia sido vendida. Foram entregues para outro gato, chamado Juracy Franco, e levados para a fazenda São Geraldo, ali perto.

Nessa fazenda, Raimundo e Juldemar Batista de Souza foram separados de Raul. “Até hoje lembro do desespero de ver a caminhonete com ele indo embora”, conta o mais novo. Pegaram malária e só foram enviados para tratamento na cidade de Nova Barreira porque um homem foi morto na fazenda onde estavam e os capangas ficaram com medo de a Polícia Federal aparecer e encontrar todos os doentes amontoados em um barracão. Saindo do hospital, voltaram para casa em uma saga pelas estradas do Pará, bebendo água de poças no chão, passando fome, se esquivando de postos policiais e pegando caronas.

A carona final até hoje impressiona Raimundo de Souza. Com os pés inchados e sem conseguir andar, pediu para um motorista de ônibus levá-los até sua cidade. O homem recusou, e ele se convenceu de que iria morrer por ali. Mas, de repente, o motorista deu ré na estrada e veio buscá-los. “Salvou minha vida”, surpreende-se. Quando voltou pa­ra casa, encontrou a confusão armada pelo frei Henri. Ficou seis meses em tratamento da malária, desfalecido em uma rede. “E a namorada, Marinalva, tinha ido embora”, conta. Juldemar de Souza hoje não fala, não consegue trabalhar e faz tratamento psiquiátrico — a família acredita que são sequelas do trauma e da malária.

Separado dos irmãos, Raul Batista de Souza enfrentou outro calvário para voltar para Porto Nacional. Fugiu de onde estava, em uma outra frente de desmatamento da fazenda São Geraldo e, em nove dias andando na mata, foi ajudado por um caçador de onças, comeu lascas da carne de um jabuti e tentou se guiar pela posição do Sol. Também voltou para casa de carona em carona – e levou um mês para chegar. Um a um,  os envolvidos no caso, acabaram chegando a Porto Nacional. Todos foram levados pela Comissão Pastoral da Terra para deixar sua história registrada em um cartório de Gurupi, uma cidade vizinha.

A fazenda da Volkswagen ainda sairia muito nos noticiários. Em 1986, enquanto os irmãos Batista de Souza estavam lá dentro, foi de fato vendida, na bacia das almas. A princípio colocada à venda por 80 milhões de dólares, acabou passada adiante por 20 milhões, para o grupo Matsubara, uma família que criava gado e plantava algodão no Paraná. Sauer escreveu: “Vendemos em muitas parcelas por preço muito abaixo do valor real da fazenda. O novo proprietário pagou a primeira parcela, tirou todo o gado, todas as máquinas – tratores, geradores, veículos e todos os itens transportáveis. Abandonou o que não podia levar e sumiu no mundo, sem nos avisar.” O papagaio voltou para a Volkswagen. Em 1997, foi a leilão em Santana do Araguaia e, por 20 milhões de reais, foi parar nas mãos do empresário e pecuarista Eufrásio Pereira Luiz, que chegou a ter por ali 20 mil cabeças de gado. Mais tarde, a área da propriedade começou a ser fatiada. Em 1998, foi declarada de interesse social para fins de desapropriação. Depois de um processo demorado, boa parte de sua área virou um assentamento da reforma agrária. Um outro pedaço se tornou cenário de conflitos agrários violentos, e mais um naco acabou arrendado para o banco Opportunity.

Em 2013, a pedido de dez centrais sindicais brasileiras, a Comissão Nacional da Verdade começou a investigar as violações aos direitos humanos contra a classe trabalhadora praticadas durante a ditadura militar. Veio à tona um esquema bem estruturado de colaboração de grandes empresas com o regime – e não apenas na conhecida ajuda financeira para criar órgãos repressivos brutais, como a Operação Bandeirante (Oban). Algumas delas também levaram a estrutura policial e militar pa­ra dentro de suas dependências. A investigação pegou em cheio a VW do Brasil.

Ficou evidente que a montadora sistematicamente delatava trabalhadores à polícia política, expondo-os a prisões ilegais e tortura, inclusive em suas dependências. O setor de segurança era um braço da repressão, participava de interrogatórios e encobria o paradeiro de funcionários presos. Para piorar, mantinha uma lista de trabalhadores para impedir sua recontratação, restringia a liberdade sindical e o direito de greve. O conjunto de provas resultou na abertura de três inquéritos. A Volks, então, topou fazer um acordo. Em setembro de 2020, assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal, o Ministério Público de São Paulo e o Ministério Público do Trabalho. Em troca do arquivamento dos inquéritos, se comprometeu a pagar 36 milhões de reais em compensações – desse valor, 2 milhões foram destinados à Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo, para financiar pesquisas sobre a participação de outras empresas em violações de direitos humanos durante o governo militar.

Ricardo Rezende passou dezoito anos jurado de morte no Sul do Pará, em um clima brutal de conflitos fundiários que resultou no assassinato de várias pessoas próximas, como a freira americana Dorothy Stang e o advogado e ex-deputado Paulo Fonteles. O padre resistia em sair da região, para não sinalizar uma vitória dos latifundiários. Até que passou muitos meses sem receber ameaças, aproveitou para voltar a estudar e foi para o Rio de Janeiro. Em 2003, criou o Grupo de Pesquisa Trabalho Escravo Contemporâneo (GPTEC), um centro de estudos na UFRJ que ajudou a levar o termo “trabalho escravo contemporâneo” para o léxico acadêmico. Apesar de acontecer por todos os rincões do país, o assunto era praticamente ignorado pelas universidades – e a legitimação do conceito entre os intelectuais foi importante para a criação do arcabouço de fiscalização existente hoje. Rezende passou a se dividir entre suas atividades pastorais e acadêmicas. Ele dá aulas no Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos da UFRJ.

Quando soube da assinatura do TAC em São Paulo, o padre ligou para o procurador do Trabalho Rafael Garcia Rodrigues. “Falei para ele: ‘Olha, a Volkswagen durante a ditadura escravizou trabalhadores no Sul do Pará – e tenho toda a documentação da época arquivada aqui.’ Eles nunca responderam por isso.”

Em conversa em um café em São Paulo, o procurador relembrou o que aconteceu em seguida. “Fui até ele fazer cópias dos documentos. Esperava encontrar uma pastinha. Quando vi o que ele tinha... era um arquivo importantíssimo.” No terceiro andar de um dos prédios da UFRJ, na Praia Vermelha, o GPTEC é uma sala com mapas do Norte do Brasil pendurados nas paredes, estantes abarrotadas de livros, computadores onde pesquisadores tabulam dados e uma mesa de reuniões. Só se transforma em um ambiente universitário realmente peculiar por causa de um detalhe: os arquivos de aço encostados na parede, onde estão quase quatro décadas de provas do tal terceiro ciclo de escravização na Amazônia.

É uma profusão de documentos metodicamente arquivados por agentes da Comissão Pastoral da Terra, uma prática que começou com maior rigor na Amazônia no início dos anos 1970, por orientação de dom Pedro Casaldáliga na Prelazia de São Félix do Araguaia. A princípio, os documentos registravam a história de conflitos fundiários. Depois, a prática foi seguida por Rezende na então prelazia de Conceição do Araguaia, desta vez guardando também informações sobre trabalho escravo – uma medida ainda mais conveniente porque ele declaradamente se embanana com nomes e datas. “Minha memória é horrível, tenho que anotar e guardar tudo”, conta.

“Era impressionante a capilaridade e o senso de temporalidade dessas pessoas ligadas à Igreja Católica na Amazônia”, diz o procurador Garcia Rodrigues. “Eles sabiam que não podiam contar com as instituições da época, mas registravam tudo para, quem sabe, ter uma chance de fazer algo no futuro.” Aos poucos, padres, freiras e leigos desenvolveram maneiras de sistematizar as denúncias feitas por trabalhadores e seus familiares contra várias fazendas da região. Os registros evoluíram de notas manuscritas para depoimentos datilografados, narrados em primeira pessoa e validados pela assinatura ou pela impressão digital do denunciante, sempre com testemunhas. Se a denúncia envolvia uma empresa de grande porte, o trabalhador era levado para um cartório ou delegacia e registrava uma declaração pública ou termo de declaração. Geralmente, essas denúncias não davam em muita coisa. Alguns gatos até chegaram a ser ouvidos pela polícia, mas nenhuma grande empresa foi incomodada. Estava tudo ali, no entanto, registrado.

No caso da fazenda da VW do Brasil, tudo mesmo. No arquivo, estava o relatório de Expedito Soares e fotos da visita da comitiva à propriedade: a sede, o gado gordo, a pequena escola de nome Wolfgang Sauer, o flagrante da caminhonete transportando um fugitivo resgatado por Abilão e até um jovem padre chamado Ricardo Rezende, usando barba, calça jeans, camiseta listrada e chinelos. Havia documentos da Sudam e da Câmara dos Deputados que detalhavam a estrutura acionária da propriedade – na época da denúncia a Volks possuía diretamente 70,1% da Companhia Vale do Rio Cristalino, além de 20,9% através de outra empresa chamada Transalme. E os diretores da fazenda eram, em sua maioria, altos funcionários da montadora, o que demonstrava que ambas tinham gestão unificada.

Na papelada, havia ainda recortes de notícias que saíram no Brasil e em outros países, principalmente no período em que Rezende deu entrevistas ao lado de José Desidério – que, por medo de represálias, pedia para não ter seu nome identificado. E lá estavam detalhes de um processo trabalhista que os rapazes de Mato Grosso moveram contra a montadora. A ação começou ainda em 1986 e se arrastou até 1995, em um caminho atravancado. Teve início na Vara do Trabalho de Conceição do Araguaia, onde os trabalhadores chegaram a ser condenados a pagar as custas do processo, subiu para o Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região, que reformou a sentença e reconheceu o vínculo entre eles e a fazenda, depois voltou para a primeira instância. No final, ganharam 1 049,65 reais, cada um.

E havia o que realmente deixou o procurador de olhos arregalados: os depoimentos, muitos deles registrados em cartório, de homens que passaram pela fazenda. Eram várias vozes, de lugares e em momentos diferentes, que contavam a mesma história, feita de trabalho forçado, jornadas exaustivas, servidão por dívida, condições degradantes. Rafael Garcia Rodrigues propôs a criação de um Grupo Especial de Atuação Finalística (Geaf), uma força-tarefa para analisar as provas, no qual passou a atuar ao lado dos colegas Christiane Vieira Nogueira, Ulisses Dias de Carvalho e Silvia Silva da Silva.

Os procuradores começaram uma busca Brasil afora para encontrar essas pessoas e ouvi-las de novo. Era uma missão complicada. Além das décadas que se passaram e da dispersão dos denunciantes, localidades mudaram de nome e estados foram criados, como o Tocantins, desmembrado de Goiás em 1988. No Pará, o município de Conceição do Araguaia, epicentro das denúncias, deu origem a outras cidades como Redenção, Rio Maria, Xinguara, Floresta do Araguaia, São Geraldo do Araguaia, Piçarra e Pau D’Arco.

Consultaram bases de dados, conversaram com agentes da Igreja que estavam nas cidades na época das denúncias e, em agosto de 2021, com ajuda de vários outros colegas, conseguiram colher novos depoimentos de catorze pessoas, em vários lugares. “Uma operação delicada, com muita gente que ainda sofria para falar sobre o assunto”, diz Garcia Rodrigues. Montaram aquele conjunto de provas elogiado pela desembargadora do TRT-8, com ajuda do poeta Castro Alves. Com as evidências nas mãos, os procuradores notificaram a Volkswagen em 2022. Ambos começaram a conversar sobre a possibilidade de fazer um novo TAC e chegaram a participar de quatro  reuniões. Um ano depois, no entanto, a empresa comunicou que não seguiria adiante nas negociações. Em 2024, então, os procuradores ajuizaram a ação civil pública. Em uma audiência de conciliação, a Volkswagen de novo recusou um acordo.

A empresa estruturou uma defesa sui generis. Alegou que a fazenda nunca lhe pertenceu. Entre 1974 e 1986, afirmou a montadora, o local era de propriedade da Companhia Vale do Rio Cristalino s.a., uma entidade independente, com sócios próprios, e não poderia ser considerada uma filial – responsabilizá-la diretamente, portanto, seria um desrespeito às regras fundamentais do direito societário, como a da autonomia das pessoas jurídicas. Declarou até mesmo que na época da constituição da sociedade detinha apenas cerca de 10% do capital social e o resto era distribuído entre outras empresas e pessoas físicas. Por isso, jamais contratou esses trabalhadores, não teve contato com os empreiteiros e nem participou da administração do local.

Na sentença, o juiz Otávio Bruno da Silva Ferreira rejeitou os argumentos. Citou os relatórios da Sudam e do governo que esmiuçavam a participação acionária, entrevistas de executivos da empresa na época e até o fato de que a própria Volkswagen fez uma auditoria interna na fazenda – que, por sinal, não viu nada de errado na relação com os seus trabalhadores temporários.

Na manhã de fevereiro passado em que os desembargadores do TRT-8 mantiveram a condenação da primeira instância, Ricardo Rezende estava sentado na primeira fila da plateia, junto com dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, bispo da Prelazia do Marajó e presidente nacional da Comissão Pastoral da Terra, e de professores e alunos da Clínica de Combate ao Trabalho Escravo da Universidade Federal do Pará. Durante a sustentação oral de Alexandre de Almeida Cardoso, um dos advogados da Volkswagen, sobrou para o padre.

Em sua defesa nas duas instâncias, a montadora alegou também que os temas que envolvem a sua participação em crimes da ditadura militar já foram encerrados com o TAC assinado em São Paulo – e acusa o Ministério Público do Trabalho de ter iniciado em 2019 investigações sobre a fazenda que manteve intencionalmente em sigilo até 2023, esperando primeiro a empresa fechar o acordo no outro caso, para só depois notificá-la. “A Volkswagen considera essa postura injustificada, inaceitável”, disse Cardoso, e citou um áudio incorporado ao processo de uma entrevista dada por Rezende. “Nele, esse padre relata um encontro com o procurador responsável pelo inquérito que deu origem a essa ação, em que ele falou: ‘Olha, a Volkswagen está negociando um acordo com o Ministério Público lá em São Bernardo, e nós temos todo esse material aqui que detalha ainda mais os fatos relativos à fazenda.’ E aí ele ouve do procurador: ‘Não vamos dar ciência dessa investigação agora, vamos esperar aquele acordo ser celebrado para então iniciarmos a negociação a respeito deste assunto em específico.’”

Tanto o juiz da primeira instância em Redenção quanto os desembargadores do TRT-8, em Belém, consideraram que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra. Segundo decidiram, o TAC celebrado em São Paulo tratava de crimes ligados à repressão política no ambiente fabril, sem relação nenhuma com o recrutamento e exploração de trabalhadores rurais na Amazônia. O caso da fazenda, portanto, não poderia fazer parte do TAC.

Na saída da audiência, indagado se estava feliz com o resultado, Rezende respondeu: “Mais ou menos, porque são muitas décadas. Os trabalhadores já estão falecendo.” José Desidério, que o acompanhou no alucinado tour atrás de um governador para denunciar um crime em curso, morreu em 1993, de um câncer na garganta.

José de Ribamar Viana Nunes, o Riba da turma de Mato Grosso, hoje tem 60 anos e um bigode vistoso. Ainda mora na cidade que hoje se chama Canabrava do Norte, em um sítio que fez em um assentamento onde se orgulha de ter plantado pés de acerola e de ter colocado uma mesa embaixo de uma mangueira, na qual faz as refeições com a mulher. Pedro Valdo Pereira Vasconcelos, o Doca, tem a mesma idade e é coordenador de Esportes e técnico do time de futebol feminino da cidade onde mora, Porto Alegre do Norte, também em Mato Grosso. Vive de olho no celular, ouvindo e enviando áudios com instruções para eventos e jogos. Raul Batista de Souza tem 70 anos e é lavrador. Mora no núcleo urbano de Monte do Carmo, em Tocantins, mas, de vez em quando, faz retiros solitários nas matas e só volta quando dá na telha, um costume que lhe foi passado pelo pai. É muito unido e fala todos os dias por WhatsApp com o caçula, Raimundo Batista de Souza, hoje com 55 anos, um pescador que sai todos os dias para trabalhar no lago da Hidrelétrica Luís Eduardo Magalhães. Adora o que faz e, sempre que possível, para o barco em um igarapé para passar a noite em contato com a natureza. Certa vez, pescou um pirarucu de 40 kg, episódio que consegue provar mostrando um vídeo em que aparece segurando o bicho, quase do seu tamanho.

Na manhã de 4 de março, eles estavam sentados na última fila de cadeiras da recepção da Vara do Trabalho de Redenção, à espera de mais uma audiência. Desta vez, seriam ouvidos nas ações civis individuais que movem contra a empresa. Com ajuda do Coletivo Veredas, um grupo composto por jovens que se dedicam à advocacia popular, cada um pede 2 milhões de reais de indenização, por danos morais e existenciais. Raul e Raimundo Batista de Souza estavam um pouco nervosos, por causa do formalismo desse tipo de audiência. José de Ribamar Nunes estava calmo. E Pedro Valdo Vasconcelos continuava, quase sempre, com os olhos grudados no celular.

No começo da audiência, mais uma vez, a Volkswagen se recusou a fazer um acordo e destacou uma representante para dizer que a empresa era apenas acionista da fazenda com participações que flutuaram ao longo do tempo, embora não soubesse detalhar essas mudanças porque elas aconteceram há décadas.

Quando foram chamados pelo juiz Jose Iraelcio de Souza Melo Júnior, que presidiu a sessão por Zoom, os quatro trabalhadores falaram, pela enésima vez, de como foram tratados na fazenda e como sabiam que ela era da Volkswagen. Relataram de novo o convite dos gatos, as promessas falsas, o símbolo da empresa na corrente da guarita, os uniformes azuis, os maus-tratos, o pagamento que nunca vinha, a proibição de sair dali. José de Ribamar Nunes, vestindo camisa polo vermelha, mencionou um detalhe a mais: “Inclusive, até um cantineiro usava um uniforme da fazenda. Nós, moleques novos naquela época, éramos doidinhos pra pegar um boné da Volks.” O juiz perguntou: “Mas tinha o símbolo da Volks?” Ele respondeu: “Exatamente, nele e na corrente da guarita. Todo tipo de carro tem seus emblemas, né?” Depois encerrou: “É uma coisa que eu não esqueço, tantas vezes o senhor me perguntar eu posso dizer o que nós passamos lá dentro. O que tô falando pro senhor é a realidade pura.”

Sem querer, desempatou a dúvida do poeta Castro Alves.


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É jornalista da piauí