carta dos trópicos
Nelio Biedermann piauí_239 06 Ago 2026
6 min de leitura
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O LABIRINTO
É meio-dia, o Sol está enorme e arde lá no alto.
Aterrissamos há apenas duas horas; ontem à noite ainda estávamos em Zurique – no inverno, na escuridão. Agora, estamos parados diante do nosso Airbnb no Belenzinho, em São Paulo, cedo demais. Enviamos mensagem ao dono do apartamento, perguntamos se podemos deixar as malas no prédio; ele lê a mensagem, mas não responde. Digitamos uma sequência de números no teclado do portão; uma voz ecoa, falando alto e rápido em português – estranhamente distorcida, como se a pessoa estivesse num prédio do outro lado da cidade. Talvez esteja, pois a mulher não desce para abrir a porta. Apenas continua falando, cada vez mais alto. Finalmente, emudece abruptamente, e acabamos deixando nossas malas ao lado, nos fundos de uma loja da Kopenhagen, onde tomamos café gelado e limonada, ambos excessivamente doces.
Sem as malas, seguimos para o Centro. Ao chegar à estação Belém do metrô, nossas roupas já grudam na pele. O Sol reflete na lataria dos carros e nas janelas das casas. São centenas de pequenos sóis iluminando o bairro e fazendo as ruas arderem. Dentro da estação de metrô, finalmente há sombra. Entramos na longa fila formada diante da única bilheteria com atendimento. Voltamos a ter sede e fome, pois no avião não comemos nada além de um bolinho no café da manhã. A fila mal anda. Depois de 20 minutos, percebemos que as pessoas não estão ali para comprar passagens, mas para outra coisa, algo que não conseguimos captar. Estariam recarregando os cartões do metrô? Trocando as passagens?
Tentamos a sorte em um terminal de autoatendimento. Em vão. Não temos CPF. Ficamos ali, perdidos diante da máquina, até uma jovem com uma criança perceber nosso desespero e explicar, num inglês rudimentar, como comprar a passagem. Ao compreender que não temos CPF, ela se oferece para comprar a passagem para nós; basta transferir o dinheiro para ela. É claro que tampouco temos Pix. Ela sugere que compremos as passagens em uma banca do lado de fora da estação. Voltamos para o Sol forte e o calor abrasador do concreto e descobrimos que o quiosque só aceita dinheiro em espécie.
Em frente à agência do Banco do Brasil, ao lado do nosso Airbnb, há três pessoas em situação de rua e dois cachorros. Os cachorros levantam a cabeça quando a porta de vidro se abre, as pessoas continuam dormindo. Estão deitadas sob cobertores, vestindo casacos. Seus pés estão descalços e sujos. O caixa eletrônico não aceita os meus cartões nem os da minha namorada. Cada vez mais nos sentimos como se estivéssemos dentro de uma história de Kafka. O castelo – só que, em vez de numa cidadezinha de inverno, em São Paulo. O centro inalcançável de nossos esforços não é o castelo, mas o coração da metrópole, que não consegue decidir se nos devora ou se nos cospe.
Por fim, desistimos de tentar ir à cidade de metrô e pedimos um Uber, que pouco depois chega dobrando a esquina da nossa rua como uma sombra. Ao entrar somos recebidos por um ar gelado que na hora seca o suor. Protegidos do Sol impiedoso pelos vidros escurecidos e sentindo quase frio, finalmente deslizamos rumo ao nosso primeiro destino.
A ILHA
Sentado na areia branca da Ilha Grande, contemplo as águas azul-turquesa e olho para o século xvi. Vejo um navio da frota portuguesa deslizando ao longo da costa verdejante. O Sol castiga, daria para torcer o suor das camisas de linho dos marinheiros portugueses. O clima no convés é de tensão, pois transportam os valiosos pau-brasil e ouro. Os últimos navios a deixar o Porto de Paraty foram todos atacados por piratas. Contudo, é preciso correr o risco; são enormes os lucros que vêm do continente recém-descoberto, daquela terra que parece se estender infinitamente para Oeste e que abriga recursos imensos. E a mão de obra indígena é praticamente de graça.
Algumas décadas mais tarde – o navio há muito já naufragou diante da ilha –, doenças trazidas pelos europeus ceifaram inúmeros indígenas. Para garantir que as plantações de cana-de-açúcar não fiquem ao abandono e que os próprios europeus não pereçam com o trabalho, é preciso arranjar novos trabalhadores, e logo escravizados africanos chegam à ilha em cuja praia estou sentado. Acorrentados e arrancados de suas terras natais, olham para o céu azul, orando. Foram forçados a desembarcar na Praia de Dois Rios. Homens, mulheres, crianças. A ilha é apenas um entreposto; aqui, são inspecionados, vendidos e separados. Vão trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar e nas fazendas do Rio de Janeiro.
Após a abolição da escravatura em 1888, os portugueses enfrentam nova escassez de mão de obra, o que os leva a abrir as portas para imigrantes europeus e asiáticos. Para proteger o Brasil da cólera, o imperador Pedro II havia mandado construir uma estação de quarentena em uma ilha, onde todos os trabalhadores que atravessavam o oceano em busca de uma vida melhor são obrigados a permanecer por algum tempo antes de seguir para a terra firme. Hoje, pequenos saguis-de-tufo-branco brincam entre as ruínas que vão sendo engolidas pelo mato.
Não encontro vestígios da colônia de leprosos instalada nessa ilha algumas décadas mais tarde. Só consigo imaginar como os enfermos levavam a vida aqui, acostumando-se aos corpos deformados e às faces leoninas uns dos outros, lentamente perdendo a noção dos próprios corpos. Desativado o leprosário, a ilha acabou se tornando uma prisão – principalmente para presos políticos que poderiam ameaçar a ditadura militar. Também eles olharam para o céu, que continuava tão azul quanto era quatrocentos anos antes, quando os primeiros escravizados vindos da África fizeram o mesmo. Planando acima deles, as mesmas aves: fragatas, grandes e negras. Vejo-as agora e me pergunto quantos turistas entre os que nadam aqui sabem que a ilha é, na verdade, um túmulo coletivo.
A CIDADE DO REDENTOR
Dominando tudo está o Cristo, abraçando a cidade de braços abertos. As favelas labirínticas que sobem cada vez mais alto pelas encostas, o Centro da cidade deserto numa noite de sábado, os sem-teto e seus cães, as butiques do Leblon, as aleias de palmeiras do Jardim Botânico, os bares de Botafogo, o Maracanã, as igrejas e os hotéis de Copacabana, os túneis e os ônibus que passam por eles, lotados de gente cansada, carregando de volta para casa, ao fim do dia, as mercadorias que não conseguiram vender na praia.
Compreendo perfeitamente por que o Cristo se estabeleceu no Rio de Janeiro. Por que escolheu logo o Corcovado para lançar seu olhar eterno sobre o mar. O Rio é uma cidade sem igual, e do Corcovado ele tem uma visão perfeita de tudo. Talvez até ouça os gritos dos vendedores de milho, biscoitos Globo, queijo coalho, camarão e caipirinha, que caminham descalços pelas praias com a areia ardendo como carvão em brasa. Talvez ouça também os gritos de homens, mulheres e crianças que se lançam às ondas a qualquer hora do dia. Em certo momento, boiando nas águas calmas e cinzentas do mar de Ipanema, além da arrebentação, olhando para o Cristo Redentor no fim da tarde, quase vou às lágrimas. Que sorte poder estar aqui! Que sorte ver o Morro Dois Irmãos erguendo-se ao meu lado, observar as fragatas – que parecem símbolos da morte – girando pelo céu cinzento; ver uma tempestade se formando e nuvens escuras avançando em direção à praia; e contemplar a cidade aninhada nessa paisagem deslumbrante, que remete à era mesozoica, evocando imagens de dinossauros e insetos gigantes! Por um instante, penso em ficar aqui para sempre. Largar tudo na Suíça e me instalar aos pés do Cristo com nada mais do que uma mala e algumas caixas de livros. Ao sair da água, antes que eu fale qualquer coisa, minha namorada diz: “Por favor, podemos ficar aqui? Para sempre?”
Tradução de Kristina Michahelles.