concurso pós-suíno
Nov 2010 18h07
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Ao acender a luz da cozinha, iluminou a um canto a galinha de pés amarrados com alguma coisa de homem assassinado. Tentou ignorá-la enquanto enchia o copo de leite, mas ela cacarejou breve e impensadamente, como quem pede clemência. Tinha olhos que não acusavam mas eram acusatórios. Alarmada com a luz e o ruído da geladeira, teve movimentos antigos e num desses, mais violentos, colocou-se entre ele e a porta. Com o canto do olho ele percebeu o obstáculo terrível, mas fingiu outras preocupações mais graves.
Bebeu o leite e pulou por cima do corpo da galinha, sabendo que no dia seguinte a comeria. Mas nenhum atleta jamais dera tal salto. Se fizessem um instantâneo, ele parado no ar com a galinha de pés amarrados sob seu corpo já obeso, seria ridículo. Mas não houve flagrante, senão o da sua consciência.
Sentado na poltrona da sala, refez um pouco a festa de onde viera, rodeado insensivelmente pela família dormindo lá dentro, em varias posições.
Balançou a cabeça, tonta de uísque, mas não conseguiu apagar os ruídos que a ave fazia lá na cozinha, restaurada a escuridão. Condizente com a sua espécie ela aguardava seu destino, mas não o conhecia.
Solta no galinheiro, poria ovos pacificamente, ali no escuro fazia ruídos diminutos e perturbadores. Imitava esse ladrão que as esposas nervosas ouvem todas as noites.
O cansaço distribuído no corpo não permite que ele rebusque a infância, onde estão calmos e perigosos sentimentos semelhantes. Com os braços fortes empurra o mundo para baixo, poderosamente ergue o corpo.
Entra no quarto fofo, atira-se na cama e dorme amplamente como num templo. Quando acorda era domingo, o quarto ampliava-se com luz e mormaço, a família já tinha acabado de almoçar. E se passaram muitos anos.