Do Onze de Setembro a Trump: o projeto Custos da Guerra, da Universidade Brown, revelou que entre 2001 e 2021 o governo americano gastou 8 trilhões de dólares com a guerra ao terror iniciada por George W. Bush e que já provocou a morte de 940 mil pessoas - CRÉDITO: KLEBER SALES_2026
Do Onze de Setembro a Trump: o projeto Custos da Guerra, da Universidade Brown, revelou que entre 2001 e 2021 o governo americano gastou 8 trilhões de dólares com a guerra ao terror iniciada por George W. Bush e que já provocou a morte de 940 mil pessoas - CRÉDITO: KLEBER SALES_2026

anais da história moderna

A GUERRA SEM FIM

O Onze de Setembro e suas consequências, 25 anos depois

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“Achei que era um filme.”

“Vi o segundo avião atingir a torre. Pensei que era replay.”

“Ia para a universidade.”

“O céu estava azul.”

“Tinha acabado de chegar ao escritório.”

“Fiquei preso no aeroporto.”

Quem tem idade para se lembrar do dia 11 de setembro de 2001 tem sempre uma história para contar, como se pairasse no ar a mesma pergunta: “Onde você estava no Onze de Setembro?” Depois vem a frase derradeira: “O mundo mudou.” 

Naquele dia, quando acordei e olhei para o céu de Nova York, ele estava mesmo azul, límpido. A primeira página do jornal The New York Times não trazia nada de extraordinário. Cheguei mais cedo à redação da Rede Globo, onde coordenava o escritório de jornalismo, antes do primeiro avião, o voo 11 da American Airlines, com 92 pessoas a bordo, atingir a Torre Norte do World Trade Center, às 8h46. Assim como os jornalistas das tevês americanas, achei que era um bimotor. Nenhum repórter tinha chegado ainda à redação. Entrei no ar, por telefone, logo depois do segundo avião, o voo 175 da United Airlines, com 65 pessoas, atingir a Torre Sul do World Trade Center, às 9h03.

A incerteza sobre o que estava acontecendo aumentava a cada minuto. Mas só às 9h41, quando anunciei que havia informações de que o Pentágono estava em chamas (havia sido atingido pelo avião da American Airlines, o voo 77, às 9h37), tive noção de que estava narrando um ataque. Quem miraria a sede do poder militar de uma potência? Seria o início da Terceira Guerra Mundial? Às 10h03, gritei na transmissão: “A torre acaba de desabar.” Lembro da confusão mental que senti quando vi a imagem da Torre Sul desabando, sem entender o que estava acontecendo (essa torre, a segunda a ser atingida, começara a cair às 9h59, cobrindo todo o centro financeiro com uma imensa nuvem de fumaça). 

As informações sobre o sequestro de quatro aviões iam chegando ao longo da manhã, a conta-gotas. Chegavam notícias não confirmadas de um acidente com um quarto avião na Pensilvânia; de que o espaço aéreo do país tinha sido fechado; de que pessoas estavam se jogando do alto das torres antes de a segunda torre cair. Os atentados interferiram no sistema de telecomunicações da cidade. As linhas de telefone funcionavam mal e, para piorar, uma das antenas de transmissão de televisão e rádio ficava no topo da Torre Norte. 

Os jornalistas americanos estavam tão perplexos como nós. Às 10h28, as Torres Gêmeas do World Trade Center não existiam mais. Às 10h53, chegou a confirmação de que um Boeing 757 caíra mesmo na Pensilvânia. O voo 93 da United Airlines, com 44 pessoas a bordo, caiu às 10h03 em campo aberto perto de Shanksville quando passageiros e tripulantes tentavam reagir aos sequestradores. Segundo o relatório oficial da Comissão do Onze de Setembro, criada mais tarde pelo governo americano, o alvo original do voo 93 seria o Congresso ou a Casa Branca. Àquela hora, os repórteres já tinham conseguido chegar à redação, e eu fiz minha última participação na transmissão, com Nova York oficialmente sitiada, o Exército nas ruas e o espaço aéreo fechado. 

Stéphanie Habrich só começou a entender o que estava acontecendo naquela manhã de setembro quase quatro horas depois de ter saído às pressas de uma divisão do Deutsche Bank que funcionava no 4 World Trade Center, um edifício de nove andares colado à Torre Sul. Habrich chegara mais cedo ao escritório open space, praticamente vazio antes do início do expediente. “Eu estava bem próxima à janela de vidro. Quando o primeiro avião se chocou, senti, não sei se foi o calor, a vibração, o barulho, olhei para trás e vi uma bola de fogo absurda”, recorda a então executiva do mercado financeiro, na época com 30 anos. 

Os seguranças mandaram que os poucos funcionários saíssem imediatamente. “Deixei tudo para trás: bolsa, chaves de casa, celular. Sentamos todos lá fora, na calçada. A sensação era de estar anestesiada. Pensei que tinha sido um avião de acrobacia. O cérebro parecia que não raciocinava”, ela conta. “Como achar que era um avião de acrobacia com aquela bola enorme de fogo? Via papéis caindo em cima da gente e sorria, como se fosse confete. Estava mesmo entorpecida. Ficamos sentados ali uns 15 ou 20 minutos, que para mim pareceu um tempão, até o segundo avião atingir a outra torre.” 

Habrich ainda estava na calçada quando o segundo avião se aproximou da Torre Sul. “Não era o barulho de aviões que você ouve no aeroporto”, ela explica. “Era diferente, como um avião acelerando ao máximo. As explosões começaram quando ele atingiu o prédio. Bombas de fogo caíam na minha direção. Pensei: ‘Acabou, não tem como eu ser salva destas bombas que estão vindo do céu.’ Achava que era um ataque e que estavam disparando sobre nós. Tentava entrar nos prédios para me proteger e as pessoas fechavam as portas, não deixavam. Então corri pela minha vida. Quando estava quase chegando à St. Paul’s Chapel, uma igreja pequena que havia ali perto, as ‘bombas’ pararam”, conta Habrich. “Virei e comecei a ver cadeiras caindo dos prédios, mas não eram cadeiras: eram pessoas. Tentei ligar para os meus pais de um telefone público, mas não dava sinal. Eu usava saltos altos e, a àquela altura, já não tinha mais sapatos. A polícia pedia para a gente entrar no metrô. Entrei junto com o fluxo sem pensar. É um absurdo eles terem mandado a gente entrar no metrô. O metrô parava toda hora. Ficava um tempão parado, como se estivesse acontecendo algo lá fora. Quando cheguei na Rua 81, onde eu morava, sem chave, sem telefone, sem nada, bati na porta da minha vizinha e foi então que vi na tevê que as duas torres já estavam no chão.”

Em 2001, quando não vivíamos ainda na era dos smartphones e das redes sociais, os atentados de Onze de Setembro foram os mais midiáticos da história. Calcula-se que 2 bilhões de pessoas assistiram pela tevê, ao vivo, em todo o mundo, aos ataques perpetrados por dezenove terroristas suicidas da Al Qaeda, que sequestraram os quatro aviões comerciais naquela manhã nos aeroportos de Boston, Washington e Newark. Os ataques são também considerados os mais mortíferos, com 2 977 vítimas de mais de noventa nacionalidades. “Quando começaram a falar de atentado, nem entendi direito. Sabe quando não cai a ficha?”, diz Habrich, que hoje vive em São Paulo. “Não era como agora, que você fica sabendo na hora, pelo celular, o que está acontecendo. Não me lembro exatamente quando começaram a falar do Osama bin Laden, mas acho que não foi na mesma noite. Hoje fica tudo misturado na cabeça e parece lógico, para alguém que não viveu isso, que o autor foi Osama bin Laden.” 

No dia 13 de setembro, dois dias depois dos atentados, o secretário de Estado americano, Colin Powell, anunciou oficialmente que o principal suspeito era o saudita Osama bin Laden, na época o terrorista mais procurado do mundo, com a cabeça a prêmio por 5 milhões de dólares. No dia 16, a Al Jazeera, rede de televisão do Catar, transmitiu uma declaração, enviada pelo líder da Al Qaeda negando qualquer participação. Bin Laden só admitiria a autoria dos atentados três anos depois, numa gravação de 18 minutos enviada mais uma vez para a Al Jazeera.

Na noite de 11 de setembro, em Islamabad, capital do Paquistão, Baker Atyani assistia à tevê quando o plantão de notícias entrou no ar com os ataques. O jornalista jordaniano de origem palestina pensou imediatamente: Bin Laden havia cumprido a sua promessa. 

Atyani foi o último jornalista a entrevistar o líder da Al Qaeda no Afeganistão antes dos atentados. Na entrevista, feita em junho de 2001, Bin Laden confirmara com um aceno de cabeça a Baker que um ataque de grande proporção estava prestes a acontecer. 

Conheci Atyani, em 2019, quando escrevia o livro O vento mudou de direção: o Onze de Setembro que o mundo não viu (Fósforo), sobre o impacto dos atentados em sete pessoas dos países mais afetados pela chamada “guerra contra o terror”, a resposta americana aos ataques. Ele me contou em detalhes como recebeu o convite de Bin Laden para a entrevista e como foi a viagem até Kandahar, no Afeganistão. O jornalista fez parte do caminho em um ônibus com as janelas vedadas, o que o impediu de ver onde estava. O veículo viajou escoltado por militantes armados. 

Quando chegou ao esconderijo, o líder da Al Qaeda disse que Atyani não poderia gravar a entrevista. O saudita Bin Laden estava no Afeganistão como convidado do líder do Talibã, mulá Omar, que governava o país em 2001, e prometera ao seu anfitrião não falar mais com a imprensa. Isso não o impediu de confirmar as informações dadas pelos dois homens que participavam do encontro – o egípcio Ayman al­-Zawahiri, número dois do grupo, e Mohammed Atef, comandante militar dos extremistas – de que a Al Qaeda estava planejando um ataque sem precedentes para muito breve. No fim de três horas do encontro, foi Atef quem disse a Atyani a frase que ele nunca esqueceria: “O negócio de caixões vai prosperar nos Estados Unidos.” Apesar da reportagem de Atyani à MBC, o canal árabe com maior audiência da época, transmitida no dia 23 de junho de 2001, citada inclusive no The Washington Post, nem a imprensa ocidental nem os serviços de inteligência deram a devida atenção ao alerta. 

Ao proclamar a guerra contra o terror, os Estados Unidos formaram uma coalizão com o objetivo de destruir a Al Qaeda e capturar Bin Laden. Nove dias depois dos atentados, o presidente americano, George W. Bush, disse a frase que se tornaria o lema da chamada Doutrina Bush: “Ou você está conosco ou está com os terroristas.” No dia 7 de outubro, os caças americanos e britânicos começaram a bombardear o Afeganistão. A coalização levou dois meses para conseguir a rendição total do Talibã – e ocupou o país por duas décadas. Cinquenta países participaram da coalizão com tropas no terreno, 196 apoiaram financeiramente e 142 congelaram bens e ativos financeiros de grupos terroristas. A prolongada ocupação militar estrangeira provocou uma onda de atentados suicidas como o Afeganistão nunca tinha visto. O vizinho Paquistão viu a guerra se espalhar para o seu território, com a formação do Talibã paquistanês, uma reação à presença americana na região e à ajuda dos militares paquistaneses aos Estados Unidos. Vinte anos depois, em 2021, quando as tropas americanas já estavam na fase final da retirada do país, o Talibã voltou a tomar o poder em Cabul, derrubando o governo apoiado pelos Estados Unidos e provocando uma caótica retirada de civis e diplomatas.

“A guerra contra o terror começa com um ataque ao Afeganistão, que abrigava Bin Laden, mas depois os Estados Unidos terceirizaram a guerra para empresas privadas a fim de minimizar suas perdas”, explica Atyani, que hoje vive entre Islamabad, Dubai e Londres. “Aí vieram as empresas militares privadas, as instituições, os cursos, as conferências e a legião de especialistas em terrorismo e contraterrorismo. A maioria nunca esteve no terreno, nem conhece a região. Eu, vivendo no Paquistão, vi a avalanche destas empresas, como a Blackwater [empresa militar privada que faturou contratos que somaram 1 bilhão de dólares no Afeganistão]. A guerra contra o terror virou um negócio de bilhões e deixou de ser realmente um esforço na luta contra o terrorismo e os militantes radicais”, ele diz. “Lembro de um ex-produtor da CNN que, de repente, virou um grande especialista em militância e extremismo. Não acredito que estudar as causas e o que aconteceu no Onze de Setembro exija tantos institutos e especialistas que têm pouquíssimo conhecimento da região para falar sobre militantes islâmicos.”

O projeto Custos da Guerra da Universidade Brown revelou que, entre 2001 e 2021, o governo americano gastou 8 trilhões de dólares com a guerra contra o terror, que provocou a morte de 940 mil pessoas. Segundo o relatório, vinte anos depois do início das operações militares, as guerras continuavam em oitenta países. “As políticas que foram introduzidas criaram mais caos do que controle”, afirma Atyani. “Os Estados Unidos não se importavam se a pessoa era inocente ou não. Distribuíam recompensas em troca de militantes. Era um comércio. O Onze de Setembro criou uma indústria em nome do contraterrorismo.” Anos depois dos atentados aos Estados Unidos, Atyani foi sequestrado pelo grupo islâmico radical Abu Sayyaf, nas Filipinas, e passou um ano e meio em cativeiro. Foi levado para onze acampamentos diferentes dentro da floresta até conseguir escapar, 35 kg mais magro. O Abu Sayyaf era conhecido por decapitar seus reféns estrangeiros. 

“Os países do Ocidente, os Estados Unidos e Israel já violavam as leis internacionais antes, mas, depois dos atentados do Onze de Setembro, o desrespeito às convenções entre países, os ataques unilaterais a países sem evidências, as violações às leis internacionais viraram norma”, diz o jornalista. “É só olhar para o que está acontecendo no mundo hoje: é evidente o total desrespeito às leis internacionais, ao estado de direito.” Ele recorda um dos episódios mais chocantes da guerra contra o terror, a invasão do Iraque, em 2003, e uma das imagens que marcaram a diplomacia internacional na época: o secretário de Estado americano, Colin Powell, no Conselho de Segurança da ONU, mostrando um tubo de ensaio para provar que Saddam Hussein produzia armas de destruição em massa. “Era tudo mentira. Mas eles envolveram outros países e conseguiram o apoio do Reino Unido para atacar o Iraque. Hoje nem se preocupam em fingir e parecer que estão agindo dentro das leis internacionais. Atacam e pronto. E depois até dizem: não respeitamos e não nos importamos. A ONU foi completamente destruída”, afirma Atyani. 

Às nove da manhã de 11 de setembro de 2001, o advogado escocês Paul Seils participava de uma reunião no Edifício Eisenhower, um dos principais prédios do complexo presidencial dos Estados Unidos. O local está separado da Casa Branca apenas por uma rua estreita. A caminhada dali até a famosa West Wing (Ala Oeste) pode ser feita por passagens subterrâneas que ligam os dois edifícios e não leva nem 2 minutos. “Foi simplesmente bizarro”, conta Seils. “O que sempre me chamou a atenção foi terem permitido que terminássemos a reunião, apesar de o Pentágono já ter sido atingido e de haver um avião que se acreditava estar a caminho da Casa Branca, onde nós estávamos. Quando acabou a reunião, nos mandaram evacuar o edifício e ir rapidamente para Dupont Circle.” Seils lembra que saiu correndo para aquela que é uma das praças mais famosas da capital americana, a cerca de 20 minutos a pé da Casa Branca. Passou o resto do dia na livraria Kramers. “Sempre achei curiosa a forma com que as autoridades lidaram com a situação de segurança naquele momento.” Na época, ele morava na Guatemala e estava na capital americana apenas para a reunião. 

“O Onze de Setembro foi uma grande falha de inteligência”, continua o advogado com mais de 25 anos de experiência em conflitos ao redor do mundo, tendo atuado no gabinete do promotor do Tribunal Penal Internacional, no Alto Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos e como vice-presidente do Centro Internacional de Justiça de Transição. “O erro crucial foi a falta de colaboração e troca de informações entre as agências americanas, como o FBI e a CIA, além da incapacidade de identificar os pilotos sauditas, agir e entender o que estava acontecendo. Essa enorme falha de inteligência gerou uma reação que se assemelha muito à postura recente de Benjamin Netanyahu em Gaza. A resposta foi em parte desenhada para desviar a atenção de onde ela realmente deveria estar nas semanas seguintes aos ataques.” Ele diz, porém, que não quer passar a impressão de que desvaloriza o trabalho dos serviços de inteligência nem que algumas ameaças não sejam reais. “A coleta de informações dos serviços de inteligência certamente impediu atos horríveis.”

Ao contrário do senso comum, Seils não acredita que o mundo mudou por causa dos ataques, mas pelas respostas adotadas depois. “O Onze de Setembro, por si só, não tornou o mundo estruturalmente mais perigoso do que já era no dia anterior, 10 de setembro”, afirma. “Foi um ataque terrorista trágico e massivo, mas geograficamente concentrado. O governo dos Estados Unidos tinha uma gama enorme de caminhos possíveis para reagir. O que tornou o cenário global muito mais perigoso não foi o atentado em si, mas a natureza da resposta. A invasão do Iraque foi o que destruiu completamente a arquitetura legal internacional, com impacto profundo no estado de direito, na ordem global e suas regras.” A associação feita entre Saddam Hussein e o Onze de Setembro foi uma “mentira deliberada”, nas palavras do advogado. “A justificativa usada pelo governo de George W. Bush e por políticos como Donald Rumsfeld e Dick Cheney era uma farsa. Eles sabiam que não existia nenhuma ligação entre os atentados e Saddam.” 

Em uma pesquisa de opinião divulgada pelo jornal The Washington Post pouco antes da invasão do Iraque, em março de 2003, quase 70% dos americanos acreditavam que Saddam Hussein estava diretamente envolvido nos atentados, e 82% acreditavam que ele dera apoio a Bin Laden. “A ocupação do Iraque foi 100% motivada por interesses geopolíticos e econômicos, pela disputa por recursos naturais. O terrorismo foi usado apenas como pretexto para ações profundamente prejudiciais, que não tinham nenhuma relação real com a ameaça terrorista. O resultado imediato de toda essa estratégia foi um dano gravíssimo aos princípios fundamentais dos direitos humanos em escala global.” 

Como exemplo, Seils cita as transferências clandestinas de prisioneiros – as chamadas “extradições extraordinárias” –, a criação de prisões secretas fo­ra do controle oficial, o water­boarding (afogamento simulado) como forma de tortura, a introdução de tribunais militares que ofereciam garantias mínimas ou praticamente nulas de processo legal para os acusados, deixando os advogados de defesa em enorme desvantagem, sem capacidade de defender os seus clientes. Houve ainda Abu Ghraib, a prisão de segurança máxima do Iraque, palco de tortura e abuso de direitos humanos pelas tropas americanas, e a base de Guantánamo, no Sul de Cuba, “uma ferida aberta”, segundo Seils. 

Em 2020, um relatório da Anistia Internacional denunciou que violações de direitos humanos continuavam a ser praticadas em Guantánamo, transformada em centro de detenção americano. Desde o início da guerra contra o terror, foram presos ali 780 homens e rapazes muçulmanos, de 48 nacionalidades, principalmente afegãos e iraquianos, sem nenhuma acusação formal nem esperança de um julgamento justo. Ainda restam quinze detidos na ala de segurança máxima da prisão militar. 

Todos os anos, a Anistia Internacional publica relatórios com denúncias e pede o fechamento de Guantánamo, “símbolo da injustiça e do abuso”, segundo a organização. “Os Estados Unidos inventaram o termo jurídico ‘combatentes inimigos’, tentaram mudar as definições básicas do direito internacional para encobrir o que acontecia em Guantánamo, e tudo isso enfraqueceu os princípios básicos de proteção do indivíduo diante do Estado. Direitos são direitos”, explica o advogado. “Na época, a justificativa oficial foi que a ameaça, de tão imensa e imediata, exigia medidas excepcionais. Mas é justamente nos momentos de maior crise que as proteções civis e os direitos humanos precisam se manter robustos”, defende Seils, atualmente um dos diretores do Instituto Europeu da Paz, ONG que apoia a diplomacia e promove a mediação na resolução de conflitos. 

Na manhã de 11 de setembro de 2001, a libanesa Mariam Said entrou no ônibus que tomava todos os dias no ponto próximo à sua casa, na vizinhança da Universidade Columbia, para ir ao banco onde trabalhava no Centro de Manhattan. Em algum momento, um jovem tirou os fones do ouvido para dizer que um avião tinha se chocado contra uma das torres do World Trade Center e que parecia haver um segundo avião. Mariam achou que era um exagero. Quando chegou ao trabalho, todos já estavam assistindo à tevê na sala de conferências. As duas torres estavam em chamas. 

Assim que soube por um vizinho o que havia acontecido, o marido de Mariam, o ensaísta e crítico literário palestino Edward Said, um dos grandes intelectuais da segunda metade do século xx, ligou para saber como ela estava. Em seguida, os dois telefonaram para os filhos. Mariam lembra que precisou ficar no banco até as duas da tarde e que depois daquele dia virou um pesadelo compensar ou liberar cheques de pessoas com nomes árabes. 

Mariam recorda também a maneira agressiva com que Edward Said – professor da Universidade Columbia e autor de Orientalismo, o livro que demonstrou a visão distorcida que o Ocidente tem do Oriente – foi recebido para uma entrevista à CNN. “Ele não conseguia terminar as frases porque a jornalista o atacava”, conta Mariam. “Ele tentava falar, e ela ia ficando cada vez mais agressiva.” Depois disso, Edward Said não aceitou mais dar entrevistas. 

“Muitas pessoas, como essa jornalista, começaram a colocar para fora todos os seus preconceitos, sua raiva, e elas ganharam cada vez mais poder nos últimos anos. A narrativa criada por quem está no poder é que os muçulmanos e os árabes são perigosos e terroristas, não podem nem ser considerados seres humanos. O que mudou nos Estados Unidos é que as pessoas agora sentem medo”, afirma Mariam. “Mas Nova York é muito diferente do resto do país. Aqui, todo mundo vive com todo mundo, se senta com todo mundo no metrô, no ônibus, todos se ajudam.” 

Em novembro de 2025, os nova-iorquinos elegeram pela primeira vez um muçulmano para prefeito. Zohran Mandani tomou posse em janeiro deste ano, confirmando a tendência mais liberal da cidade. “Mas quem está no poder não quer saber de coexistência, é assustador e triste”, continua Mariam Said referindo-se ao resto do país. “Estamos vivendo em um mundo no qual muitas pessoas estão sendo humilhadas, desrespeitadas, enquanto quem está no poder espalha ideias estúpidas sobre religião. Nas bibliotecas do Sul dos Estados Unidos, pais estão lutando para que não estejam disponíveis livros que falam de liberdade, emancipação e direitos civis. A América não foi criada como um Estado cristão, mas como um país aberto a pessoas de diferentes crenças. Esta ideia de país da liberdade não existe mais.”

A médica afegã Gawhar, de 35 anos, que pediu para não ter seu sobrenome revelado, se lembra do impacto que teve ao se aproximar do memorial às vítimas do World Trade Center, há quatro anos. Era a primeira vez que visitava a cidade, e aquele era o único lugar que queria conhecer em Nova York. Ela conta que se emocionou ao ler alguns dos nomes das quase 3 mil vítimas, gravados em bronze nos parapeitos de granito que cercam os espelhos d’água do memorial, com duas cascatas construídas exatamente no local onde havia as duas torres. O som da queda d’água em um vão no meio dos espelhos d’água abafa o barulho do resto da cidade. A médica ficou tão impressionada com o local que diz ter conseguido entender o motivo de os americanos odiarem tanto os muçulmanos. 

Gawhar levou mais de uma década para compreender que o seu futuro tinha sido traçado de alguma forma no dia 11 de setembro de 2001. Quando os atentados ocorreram, ela estava com apenas 10 anos – é da geração que viveu sob o regime do Talibã e depois conheceu as consequências da guerra contra o terror. Entre 2001 e 2021, a população afegã sofreu com mais de 1,5 mil ataques suicidas em todo o país. Quando se formou em medicina e começou a trabalhar num hospital de Cabul, Gawhar presenciou um atentado, teve que socorrer as vítimas e tentar salvar civis desesperados. A experiência a traumatizou e a fez se refugiar na Áustria, em 2015. Ela faz parte da multidão de 2 milhões e 400 mil afegãos que fugiram do país entre 2012 e 2019. 

Foi em Viena, em 2019, que a entrevistei pela primeira vez, quando escrevia o livro sobre o impacto do Onze de Setembro na vida de afegãos, paquistaneses e iraquianos. Na época, apesar de todos os esforços para se adaptar, de ter aprendido a falar o alemão e o inglês, de morar num dos bairros mais modernos da cidade e se vestir como uma ocidental, ela não deixava de perceber o preconceito. Mesmo agora, casada, com uma filha e depois de ter morado nos Estados Unidos e voltado a viver em Viena, esse sentimento não mudou. “Quando digo que sou afegã, imediatamente me perguntam sobre religião, tema que eu evito. É um assunto particular”, diz Gawhar. “Não sigo a religião, e não quero que me condenem por eu ter nascido numa família muçulmana. Você está sempre sendo julgada, mesmo quando dizem que não há diferença entre nós. A maioria acha que os afegãos são conservadores. Quando a pessoa depara com uma mulher jovem, médica, que sabe ler e escrever, que fala várias línguas, fica surpresa, como se todas as mulheres do Afeganistão fossem analfabetas. Toda vez que digo que sou afegã, me olham com espanto e dizem: ‘Achava que você era de outro lugar, você parece tão moderna, onde aprendeu a falar tantas línguas?’ Quando digo que me formei em medicina em Cabul, a surpresa é maior ainda. ‘Mesmo naquela época?’ Já me fizeram esta pergunta milhares de vezes”, conta Gawhar. 

A guerra contra o terror provocou mais radicalização religiosa, conflitos internos e forçou 38 milhões de pessoas a deixarem suas casas. Oito milhões saíram dos seus países para se tornarem refugiados ou solicitantes de refúgio. Outros 29 milhões se tornaram deslocados dentro de seus próprios países. A pesquisa da Universidade Brown calcula que, entre 2001 e 2023, 408 mil civis morreram nas guerras ocorridas depois do Onze de Setembro no Afeganistão, Paquistão, Iraque, Iêmen e na Síria. Foram vítimas de atentados, ataques de drones de tropas americanas e aliadas, combates entre militares estrangeiros e militantes que lutavam contra a ocupação. Quando se somam as mortes indiretas, provocadas pela devastação ambiental e pela des­truição da economia, da infraestrutura e dos serviços de saúde, esse número total aumenta: é estimado entre 4,5 e 4,7 milhões de civis. Os números exatos, segundo a Universidade Brown, não são conhecidos. Em maio de 2023, 7,6 milhões de crianças que viviam nesses países sofriam de malnutrição aguda. 

Dez anos depois dos ataques, as forças de elite da Marinha americana mataram Bin Laden no Paquistão, em uma operação secreta, durante a presidência de Barack Obama, da qual só o círculo mais próximo do presidente sabia. Nem o governo do Paquistão foi avisado. Nenhuma foto do corpo do líder da Al Qaeda, que foi jogado ao mar, chegou a ser divulgada. 

“Quando cheguei ao memorial do Onze de Setembro, eu tinha na cabeça as imagens que vi na tevê na época, quando realmente não entendia o que significavam os atentados, nem a sua gravidade”, diz Gawhar. “Então vi os nomes inscritos nas placas de bronze e pensei em quanta gente tinha morrido ali. De alguma forma, consegui sentir o que as famílias das vítimas sentem. Também entendi por que as pessoas julgam tanto os muçulmanos. Pensei até que, talvez, elas tenham direito ao ódio. Foi uma sensação ruim que eu tive.” 

“Os atentados assustaram tanto as pessoas que milhões de americanos se voltaram para o extremismo, e Donald Trump é um extremista pronto, embora incapaz”, afirma o jornalista e diretor Peter Davis, realizador do documentário Corações e mentes, que em 1974 desmitificou a propaganda do governo americano a respeito da Guerra do Vietnã, expondo os efeitos devastadores da ação militar dos Estados Unidos no país asiático e dando voz às vítimas vietnamitas. “Em retrospecto, a ascensão de Trump é uma consequência do que aconteceu no Onze de Setembro e da guerra contra o terror, proclamada pelo presidente Bush. O único paralelo possível na história recente do nosso país é com a campanha do senador McCarthy, no final dos anos 1940 e início dos 1950.”

O político republicano Joseph McCarthy liderou a chamada “caça às bruxas”, uma intensa perseguição à esquerda nos Estados Unidos, a pretexto de livrar o país de comunistas durante a Guerra Fria. As suas perseguições políticas e acusações sem prova arruinaram a vida de milhares de pessoas, não poupando nem mesmo alguns astros de Hollywood e artistas de várias áreas, como os diretores Charles Chaplin e Dalton Trumbo, os atores John Garfield e Lee Grant, os escritores Arthur Miller e Lillian Hellman. “McCarthy era tenebroso, mas não tinha poder real, e acabou sofrendo uma moção de censura pelo Senado. Trump, infelizmente, tem muito poder”, compara o diretor, que ganhou o Oscar de documentário em 1975 por Corações e mentes, considerado um dos mais contundentes filmes antiguerra já realizados nos Estados Unidos. 

No dia 11 de setembro de 2001, Peter Davis estava a caminho de sua casa no estado do Maine, quando ouviu no rádio o locutor anunciando um terrível acidente envolvendo uma aeronave no World Trade Center. O locutor disse estar perplexo, por não entender como o piloto podia ter se chocado contra o prédio em um dia tão ensolarado. “Enquanto ele contava sobre os caminhões de bombeiros que corriam para o local, a segunda torre foi atingida. Nesse momento, ele percebeu que o primeiro impacto não tinha sido um acidente. ‘Meu Deus’, disse o locutor, ‘estamos em guerra’. E, em certo sentido, estamos em guerra desde então”, afirma Davis, que aos 89 anos continua um crítico incisivo da política militarista americana. “Trump começou a guerra no Irã, incentivado por Netanyahu, não para impedir os iranianos de desenvolverem uma arma nuclear. Ele tinha alternativas. O que queria, na verdade, era inflar o peito como um guerreiro. Um colunista maravilhoso do The New York Times, Thomas Friedman, orgulhosamente judeu, escreveu que Netanyahu é o pior líder em toda a história dos judeus. O que fizemos, ao fornecer ajuda a Israel para prosseguir com sua guerra em Gaza, é provavelmente um crime de guerra.”

Davis avalia que o Onze de Setembro marca o início da queda dos Estados Unidos na liderança internacional. “Trump nos retirou definitivamente da posição de liderança que um dia tivemos. Ele se sente mais confortável com ditadores do que com líderes democraticamente eleitos”, diz. “No pedestal da Estátua da Liberdade tem um poema de Emma Lazarus que diz assim: Dai-me os vossos cansados, os vossos pobres/As vossas massas amontoadas ansiando por respirar livremente. Isso foi totalmente abandonado na era Trump. Ele chegou a ameaçar colocar jacarés no Rio Grande [fronteira natural entre México e Estados Unidos] para devorar as pessoas que querem entrar no território americano. Nós definitivamente perdemos a nossa autoridade moral de defensores da liberdade.” Desde que Trump assumiu a Presidência, no seu segundo mandato, em janeiro de 2025, os Estados Unidos se retiraram de 66 organismos internacionais, incluindo tratados e agências da ONU. 

“Se o objetivo de Bin Laden era abalar e subverter os valores ocidentais e o nosso estilo de vida, como era a retórica vigente depois dos atentados, então ele teve 100% de sucesso”, diz o advogado Paul Siels, que nos últimos cinco anos tem trabalhado com temas relacionados ao Estado Islâmico, o grupo terrorista mais sanguinário que surgiu no Iraque depois da invasão americana. “A expansão massiva dos poderes policiais e estatais, os sistemas de vigilância e sua aplicação em contextos políticos, afetaram as liberdades de expressão, de associação e de reunião. Foram as respostas dadas pelos governos ocidentais, que acabaram cerceando a liberdade de expressão e os valores democráticos.” 

O exemplo mais evidente, segundo ele, é a atual batalha judicial nos tribunais britânicos envolvendo o Palestine Action, grupo de ativistas que defendem a causa palestina e protestam contra a venda de armamento britânico para as operações militares de Israel na Faixa de Gaza. Em julho do ano passado, integrantes do grupo foram acusados pelo governo do Reino Unido de terrorismo, depois de conseguirem entrar na Base Aérea Real de Brize Norton, a maior do país, e picharem de vermelho as turbinas de dois aviões. Nas acusações também consta a invasão a uma empresa privada que fabrica e vende drones e armamento para o Exército israelense. Os manifestantes destruíram quarenta drones. Os prejuízos foram de 16 milhões de libras esterlinas (cerca de 110 milhões de reais). 

A decisão do governo britânico provocou um debate intenso no país, já que o Palestine Action foi colocado na lista de 84 organizações proscritas como terroristas pela Lei Antiterrorismo do Reino Unido, ao lado de extremistas islâmicos, supremacistas brancos e de grupos que cometeram ou ameaçaram cometer atrocidades em larga escala, entre eles a Al Qaeda e o Estado Islâmico. Mas não há nenhum indício de que o grupo de ativistas do Palestine Action tenha cometido atos terroristas ou ameace a segurança global. “Em seus 26 anos de existência, a Lei de Terrorismo no Reino Unido nunca foi utilizada em caso de danos à propriedade”, explica o advogado. “O que os ativistas fizeram foi vandalismo, mas estão em uma lista de grupos terroristas. Qualquer pessoa que tenha manifestado simpatia à causa palestina em protestos do Palestine Action é agora considerada apoiadora de uma organização terrorista. Com isso, centenas de idosos britânicos foram presos e respondem a acusações criminais. Esse é o maior exemplo de como, em termos estritamente legais, a definição de terrorismo e o seu uso podem ser problemáticos.” No final de julho, a polícia prendeu, em Londres, 117 manifestantes por apoiarem o Palestine Action. Até hoje, mais de 3 mil pessoas foram detidas, presas ou processadas, enquadradas na Lei Antiterrorista por apoiarem o grupo. A interdição do grupo está sendo contestada na Justiça, com um recurso transitando atualmente na Suprema Corte do país. 

Na opinião do jornalista Baker Atyani, que entrevistou Bin Laden, a situação na Faixa de Gaza e a ocupação da Palestina são as questões centrais do debate político atual. “Os impérios começam a ruir quando sua moral começa a desabar. Há um nítido colapso moral no Ocidente, a começar pelos Estados Unidos, com seu comportamento militar e político, sobretudo na administração Trump, em relação à Palestina”, afirma Atyani. “Enquanto não houver justiça nos principais conflitos no Oriente Médio, principalmente no que diz respeito à questão palestina, grupos de militantes vão continuar a surgir e crescer. Isso é o que estamos vendo há sete décadas. Esses grupos podem até ser controlados, mas a razão para que surjam não desapareceu. E a principal razão é a ocupação da Palestina. Quando você estuda a Al Qaeda, vê que seus líderes e militantes sempre se referem à questão palestina. O alvo da Al Qaeda foram os Estados Unidos porque é o país que mais apoia Israel. Na entrevista que me deu em 2001, Bin Laden mencionou que iria atacar alvos americanos e israelenses.” 

Seils também acredita que o risco de atentados hoje é maior do que há 25 anos. “Acho que o risco de novos ataques aumentou. Se pensarmos em termos globais, estamos menos seguros”, diz o advogado. Ele lembra o que aconteceu no campo de refugiados de Al-Hol, na Síria, fechado em fevereiro deste ano. Em 2019, quando o Estado Islâmico foi derrotado, milhares de mulheres e crianças fugiram para lá. O número de pessoas vivendo nesse campo passou de 12 mil para 80 mil em questão de meses. “Havia uma parte chamada anexo internacional, com pessoas de 57 nacionalidades diferentes. Por seis anos, eles ficaram ali, até que o novo governo sírio os deixasse ir embora. Imagina 8 mil crianças vivendo em condições horrendas. Algumas chegaram no campo de refugiados com 8, 10 anos de idade, outras nasceram lá.” Para Seils é inevitável que acabem sendo atraídas pelo extremismo islâmico e cometam atos terroristas. “São crianças traumatizadas psicologicamente, sem nenhum motivo para fazer outra coisa a não ser o que se espera que algumas delas façam. Mesmo que sejam apenas trezentas crianças entre as 8 mil, temos aí um problema – e essa é a ponta do iceberg: quem pode prever o que vai acontecer daqui a dez anos?” 

Em 2006, quando voltou para o Brasil, país em que foi criada, a alemã Stéphanie Habrich já não trabalhava no mercado financeiro. Resolveu fundar um jornal para crianças e adolescentes, o Joca, que chegou a 1 milhão de crianças em mil escolas privadas e públicas de quarenta municípios. Há vinte anos, ela e sua equipe apoiam as escolas na formação de leitores críticos e mais bem preparados para compreender o mundo. “Todos os anos, no dia 11 de setembro, sinto gratidão por estar viva e ter podido refazer a minha vida. Mas sei que no Ocidente raramente ouvimos os outros lados desta história.”

“O que eu sinto o tempo todo e me irrita muito é que não pertenço a lugar nenhum desde que deixei o Afeganistão”, diz Gawhar, a médica que fugiu de Cabul há dez anos. “Isso é angustiante. É como se eu estivesse numa corrida constante para provar, alcançar algo. Nunca mais me senti em casa.” A filha de Gawhar vai fazer 3 anos no mês que vem. A menina nasceu nos Estados Unidos quando os pais viveram em Maryland e tem passaporte americano. Ela e o marido resolveram chamá-la Athena, nome de uma das principais figuras da mitologia grega – a deusa da sabedoria, da justiça e da guerra, mas que preferia a diplomacia e a estratégia ao combate sangrento.


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Jornalista, chefiou o escritório da Globo em Nova York e foi diretora executiva do jornal português Público. É autora do livro O vento mudou de direção: o Onze de Setembro que o mundo não viu (Fósforo). Dirigiu o documentário Sérgio Vieira de Mello: a caminho de Bagdá