Vida conectada: a onipresença da internet tem estimulado as tentativas de compreender esse fenômeno não apenas com as ferramentas da não ficção, mas também com as da criação literária - CRÉDITO: PEDRO NEKOI_2026
Vida conectada: a onipresença da internet tem estimulado as tentativas de compreender esse fenômeno não apenas com as ferramentas da não ficção, mas também com as da criação literária - CRÉDITO: PEDRO NEKOI_2026

questões tecnoliterárias

A WEB EM PROSA

Os desafios e dilemas dos “romances de internet”, que dramatizam o ambiente digital

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Bee relata o momento em que teve acesso à internet: “Desde a infância eu já tinha uma relação simbiótica com nosso Apple IIGS, a partir do primeiro monitor de tela azul-escura piscando e o som abafado de espingarda que a CPU fazia quando ligava, e depois quando nós fizemos o upgrade para um Dell e para a internet discada, e com isso surgiu a opção de não ser ninguém específico, quero dizer, não ter corpo – ser uma entidade de pura gramática, um discurso sem a ilusão da carne –, eu não tinha mais motivos para sair de casa.”

Com pais tailandeses, criada no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos, Bee passa décadas tentando anular qualquer traço próprio de identidade. Não quer ter gênero (muito menos ser agênero), nem raça, nem mesmo um rosto. A obsessão começa quando ela é ainda criança e decide “vender seu gênero” por 22 dólares para um colega de escola. Chega ao ápice na idade adulta, quando orquestra um autocomplô envolvendo milhares de perfis falsos em redes sociais, multidões de uma só pessoa sem corpo, sob o discurso “sem a ilusão da carne”. O melhor meio de atingir essa anulação está claro desde cedo e define tudo o que vem depois: a rede mundial de computadores.

Bee é a protagonista de Personagem principal, o quinto e o mais longo dos contos da coletânea Rejeição, do escritor americano Tony Tulathimutte. Lançado em 2024 nos Estados Unidos, o livro foi escolhido como um dos cem melhores do ano pelo jornal The New York Times, e figurou entre os dez finalistas do National Book Award. No Brasil, foi lançado em março passado, pela editora Fósforo. O que une os contos é o sentimento descrito no título do livro e a forma como ele prospera em ambientes online, em meio a “milhões de solidões piscantes, existindo e desaparecendo, cada uma sonhando com as outras”, como diz Bee. 

O conto Personagem principal lida com uma controvérsia nascida nas redes sociais, mas a coletânea inteira, num esforço de abranger vários cenários digitais, trabalha com diferentes escritas nativas da internet, com suas idiossincrasias, vocabulário, humor, estética e público. Em O feminista, aparecem o tuíte, a biografia feita para o Tinder e as postagens em fóruns de ódio. Em Fotinhas, temos o grupo de amigas no WhatsApp. Em Ahegao ou Balada da repressão sexual, o e-mail e a narrativa erótica cultivada em sites de ficção literária. Se a internet fez com que todos pudéssemos nos conectar, Tulathimutte mostra de que modo essa possibilidade teve como consequência fazer com que todos pudéssemos ser rejeitados.

Nos Estados Unidos, livros como Rejeição têm sido rotulados como “romances de internet” (internet novels). A designação, bastante direta, indica autores que utilizam a cultura online ou o substrato comportamental, estético e formal da rede para contar uma história. Mas a classificação não é nada unânime. Por causa da onipresença dessa tecnologia, o termo e sua aplicação carregam várias dúvidas. Uma das maiores questões é saber quanto de “internet” é preciso para um livro ser considerado um “romance de internet”. Quando parte da ficção contemporânea já incorporou o uso de celulares e aplicativos, as trocas de mensagens de texto e a convivência com as redes sociais – muitas vezes emulando seus formatos em alguns trechos –, não é simples definir o que é um romance de internet, ou sobre a internet. Não por acaso, nenhum dos escritores mais associados a esse suposto fenômeno reivindica a etiqueta.

Eles têm seus motivos. Nos últimos anos o mercado editorial americano privilegiou algumas categorias, como a autoficção, a memória confessional-­sociológica e a ficção de fundo identitário, e todas elas alcançaram certa consolidação entre críticos e escritores. Entre as recentes tendências literárias, os romances de internet talvez sejam os mais atacados em dezenas de pretensos defeitos, como sua suposta inabilidade em retratar a web, a escrita simples demais, os protagonistas irritantes, os enredos em que pouco acontece e o exagero caricato. Juntar literatura e cultura online, para muitos críticos, é de saída uma tarefa inútil, porque fadada a ser rasa, afobada e pouco eficiente do ponto de vista literário. Essa justificativa é sintetizada numa fala da protagonista de Fake accounts (Contas falsas, 2021), de Lauren Oyler, um dos romances recentes mais lembrados como “de internet”: “Se eu quisesse um livro que se parecesse com o Twitter, eu não escreveria um livro; eu só passaria ainda mais tempo no Twitter.”

Por que escrever ficção sobre a web numa época já saturada por ela? A literatura não serviria para nos afastar do consumo rápido, fútil e nocivo, como o visto nas plataformas digitais de hoje? Ao exigir concentração por longos períodos, interpretação e desconexão, a leitura de ficção não é, de certa forma, o oposto de estar online? Quando deixamos as redes sociais para ler um bom livro, não estamos tomando uma atitude benéfica para nós mesmos? E, sobretudo, existe alguma coisa sobre a internet que já não tenha sido dita, com mais naturalidade, franqueza e humor, por outras pessoas (e robôs) na própria internet? Não é gratuito que a protagonista de Oyler faça esse questionamento justo num “romance de internet”, onde a ironia costuma ser o denominador comum da experiência em ambientes digitais.

Sobre a decisão de juntar literatura e cultura online, ou falar da web via ficção, Tulathimutte parafraseia Susan Sontag em seu famoso ensaio Notas sobre camp. “Ninguém que partilha de determinada sensibilidade pode analisá-la, mas apenas mostrá-­la”, ele me diz, numa conversa por videochamada. Para Tulathimutte, frequentar com regularidade uma rede social, postando ou não, já é o suficiente para uma pessoa fazer parte de um universo avassalador, que pode afetar sua capacidade analítica ou isenção. Ele também aponta uma inerente incompatibilidade entre a leitura de um romance e a navegação virtual. “Na prática é impossível mergulhar na leitura se você fica checando o celular, são duas coisas incompatíveis”, diz, e acrescenta, brincando com esse antagonismo: “Não por acaso, uma foto sua lendo é um péssimo tipo de conteúdo para compartilhar nas redes sociais.” 

Tulathimutte não está imune ao problema. Das nove da manhã ao meio-­dia usa um bloqueador de sinal para impedir qualquer conexão, de modo que ele “possa funcionar” e “tenha menos ansiedade” no seu dia a dia. Ele conta que, para descrever as idiossincrasias de diferentes plataformas nos textos de Rejeição, não fez muita pesquisa, apenas se baseou na sua experiência online desde os primórdios. Aos 43 anos, formado no curso chamado sistemas simbólicos (focado na relação cognitiva com sistemas artificiais) pela Universidade Stanford, no coração do Vale do Silício, ele se sente desconfortável com a designação de “romance de internet” para seu livro de contos. Nega qualquer intenção de fazer um retrato da paisagem digital e garante que Rejeição é composto de “histórias que de algum modo envolvem a internet”, e apenas isso. “Consigo facilmente imaginá-las num cenário off­line, com exceção talvez de Personagem principal”, diz. “É bastante arbitrário o que andam chamando de internet novels e tudo depende das escolhas individuais que editores e escritores estão fazendo para descrever esses projetos.” Inegável, no entanto, tem sido o apetite – pelo menos no mercado americano – por narrativas que destacam a vida conectada. 

A jovem escritora Sophie Kemp, de Nova York, defende que mesmo hoje, mais de três décadas depois do início da Web 1.0 (a fase inicial da internet, nos anos 1990), ainda não dispomos de uma ficção que captou os meandros da vida conectada com sucesso. Ela diz isso apesar de seu próprio romance, Paradise logic (Lógica do paraíso, 2025), ser por vezes apontado em resenhas e comentários como um representante desse tema, o que ela também refuta. O maior problema, afirma, é geracional: “A ficção sobre esse assunto até agora foi escrita por millennials [nascidos antes da web se tornar amplamente acessível] e nela a rede é sempre apresentada como uma novidade, algo que conseguimos separar da realidade comum, mesmo hoje.” 

Esse descompasso, na sua visão, só será resolvido com o tempo. Sua aposta está em escritores a partir da Geração Z (nascidos depois de 1997), cuja abordagem da cultura online será tão natural quanto sua criação sempre conectada. Assim, considera que leitores mal perceberão a onipresença do tema nessas futuras ficções, diferente das aproximações flagrantes nos livros de hoje. “É provável que o verdadeiro romance de internet nem mesmo tenha a palavra internet contida nele”, me diz Kemp, repetindo o que escreveu num artigo do ano passado para a revista The Point.

Sentimento parecido é evocado por Sarah Sgro, professora visitante de comunicação e inglês na Faculdade Warren Wilson, na Carolina do Norte. Ela é uma das raras pesquisadoras que já consideram os tais romances de internet dignos de serem analisados na academia. Sgro observa que entre seus jovens alunos, a maioria deles da Geração Z, há certa resistência com a descrição da web nessas ficções, que porém despertam um autêntico interesse. “Acham a crítica [à internet] redundante e barulhenta demais, e consideram que a web não está bem caracterizada por millennials”, diz Sgro, que é também poeta e está preparando o próprio romance de internet. Ela reconhece, no entanto, que a velocidade da cultura digital faz com que uma parte dessas ficções já soe cringe, meme, ou jargão-piada da web, para algo constrangedor. “Mas há múltiplas internets”, diz, e o que realmente interessa nesse caso, segundo ela, “é a capacidade da linguagem em extrair comunicação de outro ambiente e reformular em literatura”.

Apesar da linha temporal traçada por Sophie Kemp e confirmada pelos alunos de Sarah Sgro, narrativas centradas na web estão presentes, com maior ou menor frequência, desde que essa tecnologia se tornou disponível. Antes mesmo de a internet ser inventada por uma parceria acadêmico-militar americana nos anos 1960, uma rede de comunicação bastante semelhante já aparecia em histórias de ficção científica, como na célebre novela A máquina parou, do escritor inglês E. M. Forster, publicada em 1909. Desde que o acesso à internet se tornou viável ao grande público, a rede tem servido de mote para a literatura. The sluts (As vadias), do escritor americano Dennis Cooper, é lembrado não apenas por retratar um fórum em que os usuários avaliam garotos de programa, mas sobretudo por ser escrito inteiramente no formato de postagens, como num romance epistolar – tudo isso ainda em 2004, quando foi lançado. 

No obsessivo e enorme livro Live­blog, de 2015, a escritora americana Megan Boyle relata seu cotidiano num diário, nos mínimos e mais tediosos detalhes, tal como fazia à época na plataforma Tumblr. Em 2021, outra americana, Patricia Lockwood, ficou entre os seis finalistas do Booker Prize, o mais prestigioso prêmio literário inglês, com No one is talking about this (Ninguém está falando sobre isso), romance escrito em pequenos parágrafos, semelhantes a tuítes, em grande parte sobre a navegação no próprio Twitter (atual X).

A diferença é que os tempos mudaram, e muito, em matéria de vida conectada. Se em 2004 mal existiam redes sociais e em 2015 os celulares se consolidavam em todos os segmentos, em 2021 já era quase impossível viver desconectado, situação levada ao extremo durante a pandemia. Hoje, com a popularização das ferramentas de ia, a concentração de grande parte dos novos investimentos na indústria da tecnologia e o poder inédito das gigantes do setor, falar sobre “cultura online”, e não apenas “cultura”, soa ainda mais incongruente. Na prática, a onipresença da internet tem estimulado cada vez mais as tentativas de compreender esse fenômeno não apenas com as ferramentas da não ficção – investigações jornalísticas, biografias e relatos históricos –, mas também com as da criação literária.

Mas, se a rede de computadores é mundial, os romances de internet são sobretudo americanos. Além de Oyler, Kemp, Lockwood, Boyle, Cooper e o próprio Tulathimutte, há outros nomes associados à tendência, como Tao Lin e Jenny Offill, e novos autores e livros surgindo a cada semestre. Nesse terreno movediço de classificação é mais seguro falar não em autores dedicados à web, mas em livros específicos, com temas também específicos. Como as comunidades online, as histórias possíveis são infinitas, e já se pode encontrar romances americanos que falam da radicalização masculinista (Muscle man, de Jordan Castro), da vida com uma namorada IA (Annie Bot, de Sierra Greer) e da relação fantasiada e obsessiva com influenciadores (A touch of Jen, de Beth Morgan).

Essas experiências online estão longe de se restringirem aos Estados Unidos. A tradutora de Rejeição para o português, Isadora Sinay, encontrou nos contos de Tulathimutte situações que já lhe eram bastante familiares. Com 38 anos, ela escreve na web desde os 13, hábito que se materializou em blogs e newsletters durante anos, em diversas encarnações e sites, até chegar à plataforma Substack. O interesse pelas possibilidades da tecnologia associadas à escrita também a fizeram testemunha desse ambiente maior encontrado em redes sociais, fóruns, comunidades e demais espaços digitais. 

Essa bagagem foi decisiva para a tradução do livro de Tulathimutte, visto que os contos usam jargões, memes e referências específicas da cultura online que já são de difícil compreensão no original – e podem afastar gerações mais velhas, segundo a tradutora. “O desafio era manter a especificidade da linguagem online tentando não datar os termos, o que é bastante complicado”, diz ela. Não há nada mais vergonhoso, nesse caso, que usar referências fora de moda. Sinay dá exemplos. No conto Nosso futuro irado, ela pensou inicialmente em traduzir a frase just couldn’t even como “ablublublé das ideias”, jargão da web brasileira para um estado de loucura, vindo dos gritos do personagem de animação Taz. Mas acabou decidindo pela expressão “ficou passada”, com receio de que a primeira caducasse muito em breve. Já nos chats do conto Fotinhas, ela usou o meme “queria ⭐ morta”, mais antigo e já consolidado no internetês nacional, para traduzir I’m going to kill mice elf.

Sinay acha que a combinação de ficção e internet não só funciona como é inevitável: “Ambos têm que combinar, de um jeito ou de outro, afinal sempre vamos escrever ficção, e essa é uma maneira ímpar de refletir e produzir cultura.” Para ela, Rejeição acerta na mistura, ao reunir a prosa realista à experimentação formal. A tradutora chama a atenção, em particular, para o mosaico de plataformas e comportamentos online, o que gera “uma visão aérea”, panorâmica, da paisagem da internet, provocando “a sensação de olhar no espelho”. Tudo isso somado à descrição irônica de comportamentos e discursos, no que Tulathimutte se destaca.

Isadora Sinay se define como “alguém que passou tempo demais na internet”. Ela não é a única. O Brasil aparece entre os dez primeiros países em vários indicadores sobre a web, desde que o acesso à banda larga e aos smartphones se tornou comum. Somos o quinto país com o maior número de cidadãos conectados, com 184 milhões (86,5% da população) em 2025 e o quarto em tempo gasto por semana nas redes sociais (com quase doze horas). Essa predileção está ainda mais visível no número de comunidades, vocabulários, piadas e estéticas – tão únicas quanto aquelas do universo americano descrito em Rejeição. Apesar disso, a ficção de internet é coisa rara na literatura brasileira, que parece ainda longe de considerar a web como fazem os autores americanos. Aqui, a internet continua sendo um vasto território inexplorado para a ficção.

Um dos livros mais lembrados no Brasil quando se fala em web é o quinto romance do escritor Daniel Galera, Meia-noite e vinte, lançado em 2016. É ela que emoldura a narrativa sobre quatro amigos, cujas vidas são descritas em dois tempos: 1999 e 2014. No fim do milênio, os jovens universitários resumiram todas as suas esperanças na realização de uma publicação eletrônica amadora (um e-zine), que escreviam e mandavam por e-mail – então uma nova tecnologia – para milhares de leitores. Quinze anos depois, quando um deles morre e os outros três se reencontram no enterro em Porto Alegre, não só a paisagem digital, mas sobretudo a íntima, tornou-se bem mais sombria. A narrativa toma emprestada a experiência que o próprio Galera teve com e-zines na mesma época, quando era estudante universitário e encontrou na internet o único recurso para publicar seus primeiros textos, um percurso igual ao de amigos seus que também se tornaram escritores, como Clara Averbuck e Daniel Pellizzari.

“O início da escrita, para mim, veio junto do início da internet no país”, lembra Galera, hoje com 47 anos. Como os personagens de seu romance, ele tinha a expectativa que a nova tecnologia provocasse uma revolução na literatura, o que não se concretizou, como ele observa. Em vez de um espaço de experimentação com formatos e conteúdos, os ambientes digitais foram se tornando “apenas meios de divulgação e debate ao redor do que é publicado pelas editoras tradicionais”, nas palavras de Galera. A razão disso foi que a internet deixou de ser um espaço aberto a amadores para se tornar cada vez mais monopolizada por profissionais. Ele não esconde certa nostalgia das possibilidades que se abriram com a Web 1.0, natural para um filho de primeira hora da internet, mas se diz pessimista a respeito de mudanças no ambiente atual, ainda mais com o crescente domínio exercido pelas big techs.

Entre o cenário já desanimador desenhado em 2016 e a realidade atual, o problema só se agravou. “Há um buraco entre o que a gente pode entender como literatura e as formas de expressão produzidas nas redes sociais, que se cristalizaram de formas separadas”, diz o escritor. Para Galera, o sonho de novas escritas, que animou sua geração conectada, terminou por produzir monstros: “O que queríamos chamar de literatura de internet acabou assumindo uma forma que não é literatura, nem uma derivação dela, mas apenas ‘conteúdo’: pessoas postando stories, vídeos no TikTok, entre outros.” A exceção, mesmo que tímida, estaria na recente volta das newsletters com foco literário.

Isso não quer dizer que a literatura deva ignorar a experiência online, mesmo a mais desagradável. É um papel dos escritores tentar compreender essa experiência e lançar novas luzes sobre ela, por desagradável que seja. Só não é tarefa fácil, como diz Galera: “Me parece que as formas de viver mediadas pela internet são um desafio para serem narradas em prosa.” Os problemas a serem enfrentados – e que constituem também a tríade de críticas mais frequentes feitas à literatura da internet – são a especificidade da tecnologia, a sua rapidez e caducidade frenética dos recursos, e a tendência dos escritores em imitar a linguagem dos diferentes meios, como expresso na dúvida de Fake accounts sobre escrever um livro parecido com o Twitter.

Nesse ponto, ficções que desejam abordar ambientes online teriam uma predileção por fazê-lo mimetizando esses mesmos espaços, transportando-os da tela para a página com poucas mudanças significativas. A experiência, nesse caso, seria reduzida à mimese rasa, cujo ganho não parece tão diverso do navegar diretamente nas mesmas redes – algo “redundante”, aponta Galera. Mas essas críticas não são motivo válido para desistir, quanto mais num mundo dominado por plataformas digitais: “O que vemos com mais frequência são escritores desviando dessa questão [a experiência online], narrando o que personagens estão fazendo apenas quando fora das telas, mesmo que passemos o dia com elas”, completa.

Para ele, como para Sinay, o desinteresse dos escritores brasileiros pelo mundo da internet está relacionado tanto a características do nosso mercado literário (que é bem diferente do americano) quanto ao apego da literatura brasileira a temas mais tradicionais. Enquanto para escritores brasileiros a internet é como um pano de fundo, para americanos se configura como um elemento definidor da identidade, segundo o autor de Meia-­noite e vinte. Sinay adiciona à equação a desconfiança despertada nos autores pelo fugaz material vindo das redes, tido como indigno de figurar no espaço nobre e duradouro da literatura. É uma forma de preconceito que não faz sentido para a tradutora. “O TikTok é hoje o maior responsável pela venda de livros e tem o poder de fazer bombar, de uma hora para outra, autores como Dostoiévski”, diz ela. A novela Noites brancas, escrita pelo autor russo em 1848, entrou para a lista dos livros mais vendidos em diversos países, como o Brasil, depois de viralizar entre jovens na rede chinesa de vídeos curtos. 

Numa visão que define como “bastante materialista”, o próprio Tony Tulathimutte classifica os romances de internet americanos como um fenômeno de marketing do mercado editorial nos Estados Unidos. “Por algum motivo, a internet tem sido vista como um assunto vendável para um livro por aqui”, conta ele. “Não acho que tenha nada a ver com o espírito da nação ou algo do tipo.” E compara: “Um romance ambientado em Nova York não ganha automaticamente o status de ‘romance de Nova York’ apenas por se passar nessa cidade.” 

Quanto à tríade de críticas mais recorrente aos romances online (especificidade, fugacidade e imitação), Tulathimutte acha que elas podem se estender a qualquer ficção má escrita, o que ele sugere ser aproximadamente 90% do que é publicado, num cálculo informal. Especificamente sobre o medo de escrever algo com os dias contados, ele não se preocupa: “O importante é apenas contar uma boa história, não ficar pensando em metanarrativas sobre o que a internet é ou será.” O escritor cita como exemplo The sluts, um de seus livros favoritos, e garante que preocupar-se sobretudo com a história impede o texto de envelhecer mal.

O primeiro romance de Tulathimutte, Private citizens (Cidadãos privados), já incluía a tecnologia. Ambientado em São Francisco, terra natal das big techs, onde o autor morou no fim dos anos 2000, o livro lançado em 2016 descreve serviços e plataformas de internet que então ganhavam tração nos Estados Unidos, num timing perfeito. “Tive sorte porque escrevi sobre uma região que costuma estar tecnologicamente adiantada”, diz o escritor. Mas, para ele, o sucesso no jogo de gato e rato com a atualidade da tecnologia vem como espécie de consequência, e não deve guiar a escrita. Ainda mais quando se trata da web, “um alvo ambulante e veloz”, o que sempre vai resultar em diferenças “entre o tempo que o livro é escrito e o momento em que chega às livrarias”. Se é provável que, quando o leitor abrir o volume, a história já tenha se tornado “ficção histórica”, isso não chega a ser um motivo de condenação da literatura da internet para Tulathimutte. “Em certa medida, tudo vai virar ficção histórica um dia”, diz ele.

O impasse ganha outra altitude com os livros do americano Jarett Kobek. O escritor e morador de Los Angeles é afeito a computadores há décadas, o que o levou a aprender programação, morar no Vale do Silício, trabalhar em subempregos de tecnologia e escrever aquele que talvez seja o principal romance de internet dos anos 2010, antes mesmo de o termo internet novel ser vulgarizado. 

Com um título pouco sutil, I hate the internet (traduzido, em Portugal, como Odeio a internet) foi lançado no início de 2016, poucos meses antes das eleições presidenciais americanas que deram a vitória a Donald Trump e mudariam completamente a influência das redes na vida pública. Dez anos depois, Kobek afirma que o timing foi responsável pelo sucesso do livro, traduzido em onze línguas, mas que o romance também teve a capacidade de envelhecer bem. Ambientado em São Francisco, I hate the internet é uma crítica direta ao mundo empresarial que faz da cidade o centro de grande parte das mudanças produzidas na paisagem digital. “Os Estados Unidos são o laboratório de quase todas as más – ou até boas – ideias sobre como usar a internet”, resume Kobek, ao responder sobre o motivo dessa literatura ter florescido no país.

Na primeira metade dos anos 2010, poucas pessoas duvidavam da promessa das plataformas de conectar o mundo e promover a liberdade em todo o planeta. Essa esperança ganhou ainda mais fôlego com a Primavera Árabe, uma série de protestos em países do Oriente Médio contra seus regimes autoritários, organizados sobretudo por meio das redes sociais. “Nessa época, os únicos céticos eram alguns jornalistas”, lembra Kobek sobre o ambiente de desconfiança que motivou I hate the internet. Um episódio que resume a empolgação daquele momento aconteceu num evento dedicado ao romance na City Lights, a livraria mais famosa de São Francisco, em fevereiro de 2016. Com a incapacidade dos democratas para enfrentar a candidatura de Trump, um dos presentes pegou o microfone para anunciar, gritando, que a esperança dos Estados Unidos estava nas redes sociais, mais especificamente no Twitter. Embora o homem e o próprio Kobek votassem em Bernie Sanders, candidato independente de esquerda, isso não impediu uma acalorada discussão entre ambos. “A ideia de colocar plataformas como promotoras e fiadoras da democracia é absurda, mas não era assim naquela época”, lembra o escritor.

Kobek aponta a efemeridade da internet como a maior dificuldade para torná-la ficção, algo que “ninguém ainda sabe direito como fazer”. Mas isso não deve ser motivo para desistir da tarefa, e pode ser frutífero descrever um tempo-espaço que está constantemente se esvaindo. A sensação seria parecida, na comparação de Kobek, com a que temos atualmente ao ler romances antigos, como Jane Eyre, de Charlotte Brontë, publicado em 1847 e que se passa no início do século XIX. Não por acaso, a escrita de I hate the internet evoca a experiência comum de abrir a Wikipédia, como quando abrimos o artigo sobre Homero e pulamos de aba em aba até esbarrar no verbete sobre o Big Brother Brasil. As primeiras linhas de cada página da enciclopédia virtual, dedicadas à definição mais sucinta de um objeto, é a forma que inspira o livro em sua inflamada prosa-hiperlink, que vai rapidamente de um tema a outro mirando sua explicação mais direta (e irônica), como se o leitor clicasse num novo verbete ao fim de cada parágrafo. “Eu tinha a sensação de que, se não definisse o Twitter de uma época, então quem saberá no futuro o que ele era de fato?”, diz.

Com dois livros prontos, ambos sobre temas da web, Kobek brinca que, com o avanço da IA e as big techs turbinadas, ele finalmente achou que a internet havia ficado idiota o suficiente para escrever sobre ela de novo. O cenário digital hoje é ainda pior do que antes, mas agora o escritor acredita que as pessoas estão mais cientes sobre o que há de nocivo no complexo tecnológico que ele já havia denunciado. “Há algo muito estranho numa internet que cometeu suicídio, onde agora tudo é sintético, falso, inutilizável, e isso é fascinante justamente porque é repulsivo”, aponta. 

Não só sobre a paisagem digital, mas também sobre a dinâmica literária, Kobek diz que vê tudo com mais clareza do que dez anos atrás. Para ele, hoje o maior pecado dos livros sobre internet é se concentrar em experiências psicológicas individuais. Ele defende que a maneira mais interessante é apresentando a web em abordagem materialista, como a história de uma indústria que acumula bilhões de dólares enquanto direitos sociais são cada vez mais reduzidos. “Se você está escrevendo sobre a vida moderna, falar da internet é inevitável, mas não acho que isso é exatamente bom.”

Cético, Tony Tulathimutte tampouco vê um futuro cor-de-rosa para a internet, mas diz que há exageros na patologização da rede, sobretudo quando a acusam de “apodrecer nossos cérebros” e fazer um mal incontornável à literatura. A real preocupação deve estar nas estruturas que a movem: “É um corredor da morte feito por tecnocapitalistas para nos vigiar, prender e modificar nossos comportamentos, e é com isso que deveríamos nos preocupar mais.” Mas ele vê um antídoto à ai slop (conteúdo repetitivo e de baixa qualidade feito por inteligência artificial), às redes sociais tomadas por robôs e aos monopólios digitais: a cura pelo cansaço. “Me parece que haverá um momento em que a vida online será tão horrível que as pessoas vão começar a sair, como num êxodo – ao menos aqueles produzindo cultura de maneira consciente”, diz ele. Até lá, sugere que a web deve continuar a aparecer com protagonismo no que está escrevendo após Rejeição, embora “ainda seja cedo para cravar”.

Como nos bons romances, a principal qualidade das internet novels é nos fazer enxergar aspectos que não percebemos de nossa experiência individual e coletiva. Quando se escreve sobre a web, esse efeito talvez apareça potencializado tanto pela natureza onipresente da vida conectada atual, impossível de se distanciar, quanto por seu aspecto autorreferencial, hermético para os não iniciados. Falar da internet fora da internet permite que nos desvencilhemos da lógica das grandes plataformas, abrindo caminhos para avaliar suas insuspeitas consequências em nossas vidas. Numa época ultraconectada, isso possibilita ter uma visão panorâmica do ambiente digital e sua conexão com outras áreas da vida, o que a imersão claustrofóbica nesse mesmo ambiente não permite. Ler um romance que utilize parcialmente a linguagem do Twitter não é o mesmo que navegar pelo Twitter. É por isso que um livro como Rejeição se destaca, tanto mais que casa a internet com o sentimento que lhe serve de título, tirando dessa união um grande número de questões.

É o que se vê em Personagem principal, conto no qual a tentativa de Bee de anular sua identidade é também uma reação aos delírios ideológicos que inflaram o discurso conservador nas redes sociais. Essa estratégia, que se cerca do exagero online para apontar complicações na vida offline, guia a escrita de Tulathimutte e leva o livro para fora do mundo da web, produzindo uma crítica ao mesmo tempo bem-humorada e sombria. Como em outro conto, O feminista, em que o maior esquerdomacho do mundo, depois de ser muito rechaçado por garotas, acaba virando presa de comunidades misóginas. Em destaque na narrativa, a capacidade das redes de estimular a radicalização, sobretudo quando a pessoa é rejeitada socialmente, e as consequências políticas do ressentimento. Em Fotinhas, a busca da protagonista por um homem que não a deseja também é a busca por autenticidade. Em Ahegao, o que está em jogo é o desejo, a forma como sexo e internet formam uma só coisa. Já Nosso futuro irado expõe a insanidade que aguarda o mundo deixado nas mãos dos donos mimados das empresas do Vale do Silício.

O resultado de tanta rejeição não pinta a web como o melhor lugar do mundo. Por isso, as internet novels são com frequência acusadas de quase sempre descrever a internet como o lugar da cristalização dos maiores problemas atuais da humanidade, da crise climática à expansão da ideologia fascista. Nesse sentido, esses livros estariam desconsiderando o potencial efeito agregador que a internet também tem. De fato, a predileção por reprovar a web está presente em muitos romances, mas fechar os olhos, no atual cenário digital, aos problemas causados pela web é pedir um pouco demais. Ou como coloca Bee no fim de seu relato: “Porque se a grande promessa da internet é ser quem você quiser, na realidade ela vai fazer de você o que ela quer.” Levar a internet para a literatura talvez seja uma maneira de retomar o controle.


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É repórter e doutorando no programa de pós-graduação em literatura, cultura e contemporaneidade da PUC-Rio, onde pesquisa literatura e cultura online