Lula e Dirceu, em 1984: “Na primeira vez que o vi, Dirceu usava camiseta vermelha. Na segunda, um Armani com sapatos Gucci. Diferente, não?” diz a ex-embaixadora americana Donna Hrinak - CRÉDITO: ARQUIVO EDGARD LEUENROTH_UNICAMP_1984
Lula e Dirceu, em 1984: “Na primeira vez que o vi, Dirceu usava camiseta vermelha. Na segunda, um Armani com sapatos Gucci. Diferente, não?” diz a ex-embaixadora americana Donna Hrinak - CRÉDITO: ARQUIVO EDGARD LEUENROTH_UNICAMP_1984

anais do poder

DUAS FACES

A relação entre Lula e José Dirceu

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Fazia oito dias que o ex-deputado federal e ex-ministro José Dirceu fora informado de que estava doente. Depois de sentir um mal-estar e fazer um check-up no Hospital Sírio-Libanês, descobrira um linfoma no duodeno. Naquela segunda-feira, 18 de maio passado, estava se recuperando da primeira das seis sessões de quimioterapia previstas para aquela etapa do tratamento. Teve uma intercorrência intestinal ao fim da sessão que o levara de volta à internação, mas já se sentia melhor. No início da noite, seu telefone tocou. Era Lula.

No Sírio, Dirceu era atendido pela mesma equipe que cuida do presidente, formada pelo cardiologista Roberto Kalil Filho, o cirurgião oncológico Raul Cutait e o hematologista Celso Arrais. Naquela manhã, o próprio Lula passara pelo hospital para exames de rotina, um mês depois de retirar um tumor de pele do couro cabeludo. Não visitou o aliado. Talvez por isso a ligação tenha surpreendido Dirceu. No telefonema, Lula lhe desejou força e disse que os médicos estavam confiantes na cura. Às 19h54, a coluna de Igor Gadelha, no site Metrópoles, noticiou a ligação, depois de falar com Dirceu. Às 21h49, o Brasil 247, site ligado a setores do PT, afirmou que o telefonema reforçava “a proximidade política e pessoal entre os dois dirigentes históricos do PT”. 

Proximidade não é a palavra mais precisa para descrever o vínculo entre Lula e Dirceu hoje, quarenta anos depois do início do convívio político. Feita de aproximações e afastamentos, a relação entre os dois acabou por mimetizar a que Lula estabeleceu com o próprio PT: desequilibrada, mas sólida; distante, mas dependente; tensa, mas resignada. O enfraquecimento político de Dirceu nas últimas duas décadas, período em que passou três anos preso, coincide com a perda de poder do PT perante Lula. A máquina partidária colossal estruturada por Dirceu e decisiva para levar Lula à Presidência pela primeira vez, em 2002, perdeu lastro social depois do escândalo do mensalão e da Lava Jato. Lula conseguiu se reerguer. O PT, ainda não. A eleição de Edinho Silva para o comando do partido em 2025 foi, antes de tudo, uma vitória de Lula sobre as demais forças do PT. Quando Dirceu, durante sete anos, presidiu a legenda, a vitória era de Dirceu.

Aos 80 anos, os dois enfrentam agora aquela que talvez seja a última campanha eleitoral de suas vidas. Lula, se vitorioso, completará dezesseis anos no poder – o dirigente mais longevo da história democrática do Brasil. Dirceu, por sua vez, busca a reabilitação política: pretende voltar à Câmara dos Deputados por São Paulo 21 anos depois de ser cassado no exercício de seu quarto mandato, em 2005, no auge do mensalão.

Entre os obstáculos de Lula está uma disputa eleitoral num país dividido e menos sensível às políticas sociais que impulsionaram sua popularidade nos dois primeiros mandatos, além de uma investigação criminal que recai sobre um de seus filhos. Já Dirceu faz campanha sob as limitações impostas pelo tratamento contra o câncer e impedido de ir às ruas. Com a imunidade baixa, foi desaconselhado até mesmo de receber visitas. Os médicos não o liberaram nem para a Convenção Nacional do PT, que oficializou a chapa presidencial, nem para a Convenção Estadual, que chancelou Fernando Haddad como candidato ao governo de São Paulo, e muito menos para o ato que marcou o início da campanha de Lula, na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. Dirceu deu uma única escapada: de máscara, esteve por alguns minutos no aniversário do amigo e candidato a deputado estadual pelo PT, Maurici, em maio.

Para promover a campanha nas redes, Dirceu grava vídeos em casa e tem dado entrevistas a veículos de todo tipo, da Jovem Pan à BBC, da rádio Agro FM à revista The Economist. Com a piauí, não quis falar. Na metade de agosto, sua equipe publicou uma imagem em que ele e Lula aparecem abraçados, olhando para o alto, na direção da câmera. Lula usa o chapéu-panamá que adotou depois do câncer de pele; Dirceu aparece com cabelos. No canto inferior da peça, um aviso: “Essa imagem foi gerada com ia.” Minutos depois, a publicação foi retirada do ar. Dirceu e Lula não têm fotos recentes juntos.

Em dezembro de 2021, quando Lula e Geraldo Alckmin fizeram a primeira aparição pública juntos, José Dirceu não estava entre os presentes. O evento era a festa de fim de ano do Prerrogativas, grupo de juristas comandado pelo advogado Marco Aurélio de Carvalho. A chapa presidencial ainda não havia sido oficializada, mas, nos bastidores, era dada como certa. A presença de Lula e Alckmin no jantar turbinou os rumores.

Dirceu já havia deixado claro o que pensava da composição. Num podcast do site Brasil de Fato, gravado no mês anterior, afirmara que Lula precisava “ter um vice leal e de confiança”, sugerindo que o escolhido fosse petista. “Por que não uma mulher?”, emendou, antes de defender que também fosse jovem e negra. Em dezembro, pouco antes do jantar, voltou ao assunto numa live: “É muito cedo para escolher o vice.”

Naquela transmissão, sempre que projetava uma eventual vitória de Lula, Dirceu usava “nós” como sujeito do futuro governo. Em certo momento, percebeu o ato falho e tratou de se explicar: “Tô falando nós, no caso, o PT, a direção do PT. Porque eu não sou membro da direção do PT, não falo em nome do PT, não falo em nome do Lula, não tenho mandato, nem na direção, nem mandato parlamentar. Eu sou um militante, um filiado, claro, uma liderança do PT.”

Depois da repercussão do jantar do Prerrogativas, Dirceu mudou de posição. Passou a defender que a chapa Lula-Alckmin daria governabilidade a Lula e, em caso de vitória, teria força para conter o ímpeto golpista de Jair Bolsonaro, ainda mais aguçado no último ano de seu governo. Para justificar a mudança, compartilhava entre amigos e militantes um artigo do cientista político Mathias Alencastro, publicado na Folha de S.Paulo, que ponderava que a experiência europeia com a “esquerda de ruptura”, como a representada por Jean-Luc Mélenchon na França, havia fracassado, enquanto a “esquerda de coalizão”, como ocorrera na Espanha e em Portugal, havia prosperado em conter a extrema direita. Diante dessa reflexão, Alencastro, que depois veio a integrar o governo, se referia à chapa Lula-Alckmin como uma “revolução republicana”. 

Dirceu passou então a conversar com lideranças do PSB, colocando-se paralelamente no jogo das articulações. Não tinha o aval de Lula para agir, tampouco recebeu ordem de parar. Interpretara o jantar como uma orientação inequívoca de Lula: a aliança com Alckmin era um fato consumado. Passou, então, a defendê-la como se nunca a tivesse criticado. É um exemplo clássico da dinâmica entre os dois, que quase nunca se falam, mas se conhecem há tempo suficiente para que as palavras se tornem supérfluas. O episódio também revela a obediência militar de Dirceu a Lula, algo que o acompanha, salvo raríssimas exceções, desde que ingressou no PT  nos  anos 1980. A mais importante ocorreu em 1994, quando quis concorrer ao governo de São Paulo pelo partido, enquanto Lula desejava apoiar Mario Covas, do PSDB. Dirceu ganhou a disputa com Lula, mas perdeu a eleição.

Em 2022, quem acompanhava suas andanças era cético quanto à sua eficácia, já que as principais decisões partidárias, àquela altura, ficavam com o próprio Lula ou com a cúpula petista, da qual ele não participava formalmente. Ele agia nos bastidores por conta própria, mas não era reprimido pelo Diretório Nacional. Tampouco frequentava os eventos de campanha. Quando ia, ficava na plateia. Em 1º de janeiro de 2023, assistiu à posse de Lula do gramado da Esplanada dos Ministérios, junto aos demais militantes, vestindo camiseta polo vermelha e óculos de sol de aro também vermelho. Sua volta aos holofotes do partido começaria menos de dois meses depois – por obra de Lula e a despeito de Lula. 

Em 13 de fevereiro de 2023, no evento que celebrava os 43 anos da fundação do PT, Dirceu sentou-se no palco destinado a autoridades, embora ocupasse uma discreta cadeira na última fileira. Sua presença era uma novidade. Durante a fala de Lula, outra novidade: o presidente dirigiu-se ao colega. “Companheiros e companheiras, eu quero agradecer cada um de vocês, mulheres e homens. Companheiro José Dirceu, agradecer a você porque eu sei o quanto você foi solidário ao que eu passei”, disse. Três dias depois, numa entrevista à CNN Brasil, Lula foi indagado sobre a menção a Dirceu e manteve a deferência. “Ninguém pode ser penalizado a vida inteira. [...] O José Dirceu é um agente político, um militante político da maior qualidade. Ele está voltando a participar”, disse, referindo-se aos eventos do PT.

Os acenos de Lula a Dirceu poderiam até ser espontâneos, mas eram, sobretudo, políticos. Ao longo dos quase vinte anos em que se mantivera afastado da vida pública, Dirceu conseguira reconstruir sua imagem junto à militância, em especial entre os mais jovens, e preservara a amizade dos velhos companheiros de partido. Se não disputava cargos na estrutura partidária, era mais para não afrontar Lula do que por falta de apoio interno. Ao trazer Dirceu novamente à luz, portanto, Lula apenas reconhecia o que, dentro do PT, já se tornara irremediável: o velho militante estava reabilitado.

Dirceu vivia dias mais luminosos. Pouco antes do aniversário do PT, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulara sua condenação por lavagem de dinheiro na Lava Jato, mantendo apenas a de corrupção passiva. Ele também ajudara nas articulações internas para que seu filho, o deputado Zeca Dirceu, fosse escolhido para liderar a bancada do PT na Câmara. O posto proporcionou a Zeca e ao pai uma aproximação política importante com Arthur Lira, então presidente da Casa e mandachuva do Centrão, a ponto de Zeca ter sido agraciado com emendas do orçamento secreto. Só em 2023, conseguiu distribuir 9,4 milhões de reais, segundo levantamento publicado pela jornalista Natália Portinari no site Metrópoles, realizado com base em dados obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. (Embora correta, a reportagem posteriormente foi retirada do ar.)

O caminho de Dirceu de volta aos holofotes, porém, ainda seria longo e algo frustrante: ele não conseguiria, de fato, alcançar o verdadeiro centro do poder, onde já estivera um dia, nem recuperar a proximidade com o presidente. Desde o mensalão, no fim do seu primeiro mandato presidencial, Lula se afastara dos petistas envolvidos no caso e nunca mais os trouxera de volta. 

Nesse grupo estavam Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha, Delúbio Soares e João Vaccari Neto. Dirceu era o mais poderoso, nutrira uma disputa velada por poder com Lula e tivera também a queda mais rumorosa, culminando num processo de cassação que o PT até hoje não digeriu por completo. Entre petistas, vigora a avaliação de que Lula poderia ter ajudado a barrá-lo – e não o fez. Além disso, parte dos votos pela cassação veio do próprio PT.

A partir daí, o afastamento entre os dois tornou-se irreversível. Nem mesmo a firmeza de Dirceu nos anos seguintes alterou o quadro: ele passou pela prisão sem dar um pio capaz de responsabilizar Lula ou qualquer outro companheiro pelo que lhe acontecera. Delação premiada? Nem pensar. Dirceu fez o oposto de Antonio Palocci, que, embora tivesse desfrutado de uma relação pessoal mais próxima com Lula, decidiu colaborar com a Justiça e fazer acusações contra o antigo aliado.

Se a festa dos 43 anos do PT marcara a volta discreta de Dirceu, na celebração seguinte, em 2024, ele estava à vontade. Rodeado de correligionários, conversava com entusiasmo, deixava-se fotografar e, em dado momento, até se dirigiu ao cercadinho onde ficava Lula, aparentando querer cumprimentá-lo. Antes de ser alcançado, Lula zarpou. “O Lula foi ao banheiro para não ser visto [com Dirceu]”, provoca um petista que pediu anonimato para não renovar disputas. Segundo ele, além das rixas de poder do passado, outro obstáculo à reaproximação de ambos é a primeira-­dama, Janja, que não esconde sua antipatia por Dirceu, nem pelos antigos companheiros do marido. “É uma coisa muito negativa a influência que ela exerce sobre Lula, afastando-o de toda a velha guarda”, diz. (Durante a campanha de 2026, tanto a memória de Marisa Letícia quanto os antigos companheiros de partido foram resgatados, o que indica que a antipatia pode ter dado lugar ao pragmatismo.)

Em março de 2024, animado com os novos rumos que a vida tomava, Dirceu comemorou seu aniversário numa festa oferecida pelo advogado Marcos Meira, que abriu sua casa, no Lago Sul, em Brasília. Mas o que seria uma discreta celebração tornou-se um dos principais eventos políticos do ano, quando forças que habitualmente colidem no Congresso se reuniram para brindar. A cena estava repleta de personagens do Centrão e da base que paralisavam o governo Lula naquele momento. Entre a fauna, estavam Arthur Lira e o ministro da Fazenda, Fernando Had­dad. O vice-presidente Geraldo Alckmin e Marcos Pereira, presidente do Republicanos. Era tanta gente que Dirceu ficou mais de duas horas em pé recepcionando os mais de 500 convidados – 300 a mais do que o previsto. Uma das participantes do evento contou não ter recebido o convite diretamente de Dirceu. “Ele convida apenas pessoas pontuais, mas tem aqueles que espalham por ele, que fazem a notícia andar”, conta a convidada, que dificilmente perde um aniversário do ex-ministro.

Naquela altura, o Centrão disputava quem sucederia a Arthur Lira na presidência da Câmara, e todos os pré-candidatos estavam presentes. Havia outra disputa em curso na Petrobras, onde Jean Paul Prates, também entre os convidados, tentava se sustentar no cargo de presidente. (Dois meses depois, foi demitido.) Haddad compareceu acompanhado de boa parte da equipe econômica. Tinha motivos para ser grato ao anfitrião. Dirceu ajudara a abrandar as críticas do PT à política econômica do governo num momento em que Haddad precisava travar embates não apenas com os adversários no Congresso, mas também com setores do próprio partido, que dinamitavam publicamente suas iniciativas. Semanas antes da festa, Dirceu dissera num podcast que era “quase uma covardia” o PT não dar apoio integral a Haddad. Uma das críticas mais ferozes contra Haddad era Gleisi Hoffmann, então presidente do partido. Gleisi e Dirceu nunca foram próximos.

Defensor histórico de ideias de viés desenvolvimentista, Dirceu não concordava com a política econômica de Haddad, mas reconhecia que não havia espaço para outro modelo em razão da correlação de forças no Congresso. Por isso, defendia o governo. O mesmo não se pode dizer da política monetária. Embora Gabriel Galípolo seja uma indicação de Lula para o Banco Central, Dirceu seguiu o PT e nunca poupou críticas à subida da taxa Selic, dizendo que se tratava de “um crime”. Entre petistas, a artilharia pesada se explica pela convicção de Dirceu de que vocaliza o que Lula pensa sobre os juros, mas não pode dizer para não fragilizar a posição de Galípolo.

Depois de cortar o bolo, Dirceu fez um breve discurso, sempre recorrendo a “nós” quando se referia ao governo. A Folha de S.Paulo reproduziu alguns trechos. Um deles dizia: “Nós temos dez anos para fazer a mudança. Nas condições que nós estamos vivendo, vocês sabem quais são as condições, não chegamos no governo com maioria do Parlamento. Nós não chegamos no governo com maioria do país. Nós chegamos no governo pelas circunstâncias históricas do bolsonarismo, o que possibilitou a criação de uma frente ampla que levou à vitória do Lula.” Dirceu não se preocupava mais em justificar o “nós”. 

Um dos ministros que compareceu ao evento explica o alto quórum à festa de um político sem cargo e com acesso limitado ao presidente. “Há uma dimensão simbólica. Ele foi uma das pessoas que caíram em batalha. E a volta do Lula, naquele momento, representava a volta dessas pessoas”, diz. Outra explicação para o prestígio, segundo esse ministro, é a capacidade de diagnóstico de Dirceu e também sua capacidade de ler o governo e, sobretudo, ler Lula. “Ele tem a memória dos governos anteriores, das disputas. Ele tem muita informação, ele conhece o PT”, diz, antes de concluir que falar com Dirceu hoje é como falar com “um oráculo”. 

Embora comemore com frequência seu aniversário com festas em Brasília, São Paulo e Vinhedo, onde tem uma casa, nem sempre o evento se torna um acontecimento político. “Quando ele era ministro, ele não fazia. Mas depois que saiu, sim, até para mostrar que ele tinha essas relações”, diz o advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, amigo de Dirceu. Em 2008, ao festejar 62 anos, o petista havia perdido o ministério, o mandato de deputado e atuava como lobista em Brasília, um período em que sua imagem seguia arranhada, conforme narrou a jornalista Daniela Pinheiro na reportagem O consultor, publicada em janeiro daquele ano na piauí. Mesmo assim, recebeu entre os convidados o vice José Alencar, sua sucessora na Casa Civil, Dilma Rousseff, e uma comitiva de chefes da Esplanada. Na comemoração dos 64 anos, em 2010, o então presidente do Senado, José Sarney, e o senador Renan Calheiros, no auge do poder, marcaram presença. Dirceu era réu no mensalão. Lula nunca compareceu.

“Eu não acho que ele se coloque, assim, como articulador do governo. Não acho que chega a isso”, defende Kakay. “Mas ele é uma figura altamente respeitada por todos os partidos, inclusive da direita, por governadores, pelo Senado. Ele mantém uma interlocução com todo mundo, com o comando das Casas. Ele não se contamina com aquele dia a dia.” Seu círculo de amizades atravessa mundos improváveis: inclui Emilio Odebrecht e Valdemar Costa Neto, com quem dividiu uma cela na Papuda; o maestro João Carlos Martins e o empresário João Camargo; Aldo Rebelo, ex-comunista hoje mais alinhado à direita, e Gilberto Kassab, alinhado com todos os lados.

Cânones do tucanato que antagonizaram com Dirceu no Congresso e na Esplanada no passado hoje defendem sua candidatura, como é o caso de José Aníbal e Aloysio Nunes Ferreira. “Ele vai ter um mandato. Ele vai ser eleito triunfalmente”, diz Ferreira, reforçando que Dirceu “merece” voltar. Aníbal, que votou pela cassação do colega, até a descoberta da doença vinha dialogando com Dirceu em grupos de centro que reclamam que o governo convocou uma frente ampla para ganhar em 2022, mas não a chamou para governar. “Ele foi muito receptivo. Ouviu bem, mas não falou muito.”

O retorno político de José Dirceu foi concluído em 2024. Não em razão de festas, mas porque o Supremo Tribunal Federal (STF) deu duas decisões que abriam caminho para sua volta à disputa eleitoral. A primeira foi em maio, quando a Segunda Turma votou por 3 a 2 para extinguir sua condenação por corrupção passiva, a única que ainda restava da Lava Jato. Os magistrados entenderam que o crime prescrevera. Em outubro, o ministro Gilmar Mendes anulou as duas ações penais que ainda estavam em curso, atendendo a um pedido da defesa de Dirceu. O advogado Roberto Podval, de quem Dirceu hoje é sócio, pediu que fossem estendidos ao seu cliente os efeitos da decisão de 2021 da Segunda Turma que classificou Sergio Moro como juiz parcial ao julgar Lula. 

A demora de três anos entre a decisão sobre Lula e o pedido da defesa de Dirceu é um termômetro de sua reabilitação. Viviane Raffaini, uma das advogadas do petista, contou à piauí que levaram esse tempo para construir a tese que conectava a decisão sobre Lula ao caso de Dirceu. Mas a percepção no meio político e jurídico é de que o pedido só foi feito em 2024 porque se percebeu que o clima político se tornara favorável. 

Um dia depois da decisão de Mendes, Dirceu deu uma entrevista à GloboNews e afirmou se tratar de “um dia especial, acredito, para milhões de brasileiros e brasileiras”. Mais uma vez, associou seu destino ao de Lula. “Se lembrarmos, naquele PowerPoint famoso só tem um nome além do nome do Lula – o meu. E todo o objetivo de todas as minhas condenações, antes inquéritos e processos, era a delação do Lula, e a Vaza Jato deixa isso muito claro”, disse. “Repetiu-se nos meus processos tudo o que aconteceu em todos os processos, particularmente no do Lula.” Dirceu dizia que merecia voltar à Câmara dos Deputados por uma questão de justiça: sua cassação, em 2005, teria sido um processo político, assim como suas prisões. Mas deixava claro que nenhuma candidatura seria decidida sem o aval do PT e, em última instância, de Lula.

O aval chegou na noite de 14 de março de 2025, na festa de 80 anos de Marta Suplicy, à qual compareceu boa parte da cúpula petista, incluindo Lula e Janja. Não houve uma conversa privada entre os dois. Ao avistar Dirceu sentado a uma mesa com o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, Lula cruzou o salão para cumprimentá-los. Depois de abraçar o antigo companheiro de partido, disse: “Você está com cara de candidato.” Os convidados haviam deixado os celulares fora do salão, mas Ricardo Stuckert, o fotógrafo de Lula, registrou o encontro. No dia seguinte, Dirceu publicou a imagem numa rede social. “Ontem no aniversário da nossa querida Marta Suplicy ao lado do nosso presidente Lula. Sempre juntos!”, escreveu.

Em julho daquele ano, Dirceu confirmou à Folha de S.Paulo que seria candidato nas eleições de 2026 com o aval de Lula. E voltou a se referir ao governo na primeira pessoa do plural. “Não tem escapatória. Temos que ir com os melhores do nosso campo. O Alckmin não temos como tirar da vice, e, no caso do Haddad, temos de esperar um pouco para ver qual o melhor caminho, se governo ou Senado”, afirmou.

Mas sua candidatura criou algumas arestas no próprio partido. Concorrendo por São Paulo, Dirceu inevitavelmente disputará votos com outros petistas, entre eles o deputado Rui Falcão, um de seus melhores amigos. (Eles se conhecem desde os anos 1960, quando Falcão dividia a moradia estudantil com Olavo de Carvalho, então um homem de esquerda.) Numa festa, chegou a dizer para Cristiane, mulher do parlamentar, que estava preocupado, pois notara Falcão tenso, e não se perdoaria caso sua candidatura contribuísse para que o amigo não se reelegesse. Mas em seguida disse que aliados haviam garantido que, nas contas do partido, haverá votos suficientes para os dois. Seus apoiadores mais otimistas apostam em 400 mil votos. Os mais comedidos, 200 mil. (Em 2002, quando concorreu pela última vez, Dirceu recebeu 550 mil votos.)

A disputa pela presidência do PT, também em 2025, colocou a amizade com Falcão diante de um teste mais concreto. Candidato ao comando da legenda, Falcão pediu o apoio de Dirceu. Não conseguiu. A pedido de Lula, Dirceu trabalhou pela eleição de Edinho Silva, com quem nunca tivera maior proximidade, e divulgou uma carta conclamando a militância a fazer o mesmo. Como gesto de deferência a Falcão, restou o apoio de Lucas Busatto, um dos principais aliados de Dirceu no PT atualmente.

Pouco antes do pleito interno, Dirceu já estava novamente tão mergulhado na vida partidária que chegou a ser incentivado a disputar ele próprio a presidência da legenda. Recusou. “Lula nunca aceitaria”, disse. Edinho venceu. Depois da eleição, Dirceu foi reconduzido ao Diretório Nacional do PT, no qual já foi a voz mais poderosa e do qual não fazia parte desde que ingressara no governo, em 2002.

Dos medalhões petistas, Lula e Dirceu talvez sejam os mais parecidos no pragmatismo com que arbitram decisões políticas indigestas. Lula foi criticado pela base quando se afastou dos companheiros envolvidos no mensalão sem olhar para trás. Deixado na chuva, Dirceu diz que não guarda ressentimento, talvez porque seja um dos poucos capazes de compreender a natureza daquele afastamento. Ao construir a máquina partidária em que o PT se transformou nos anos 1990, ele próprio se viu inúmeras vezes na bifurcação da política e dos afetos pessoais. Em PT, uma história, publicado pela Companhia das Letras, o sociólogo Celso Rocha de Barros reconstitui alguns dos episódios mais fratricidas.

Na década de 1990, o economista Paulo de Tarso Venceslau, que foi secretário de Finanças de duas prefeituras petistas, denunciou que o advogado Roberto Teixeira, amigo e compadre de Lula, fazia lobby em favor de uma consultoria junto a prefeituras controladas pelo PT. Segundo Venceslau, parte do dinheiro repassado pelas prefeituras à consultoria financiava gastos paralelos do partido. Dirceu presidia o PT e abriu uma sindicância interna para apurar as denúncias.

A comissão de ética encarregada do caso, formada por Paul Singer, Hélio Bicudo e José Eduardo Cardozo, concluiu que as acusações eram verdadeiras. Ao fim do processo, porém, Teixeira foi absolvido internamente, e Venceslau, expulso pelo Diretório Nacional. Pesou contra ele ter acusado publicamente, em declarações à imprensa, dirigentes petistas – entre eles o próprio Lula – sem apresentar provas.

Venceslau não era um companheiro qualquer para Dirceu. Fora um dos executores do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969, ação que levou à libertação de quinze presos políticos da ditadura, entre eles Dirceu, e custou a Venceslau cinco anos de prisão. Os dois eram grandes amigos. Ainda assim, Dirceu endossou sua expulsão, escolhendo blindar a órbita de Lula.

Nem isso, segundo duas fontes ouvidas pela piauí, sensibilizou Lula. O efeito teria sido o contrário. O petista se ressentiu de Dirceu por ter iniciado a investigação interna, o que considerou uma afronta. Anos depois, já ministro, durante uma visita à então embaixadora americana Donna Hrinak, Dirceu caminhava pela embaixada em Brasília quando se deparou com a galeria de retratos dos antigos embaixadores. Diante da fotografia de Elbrick, comentou: “Foi ele quem me libertou.” 

Em outro episódio dramático, Dirceu degolou um segundo companheiro em nome da política. Vladimir Palmeira era seu grande parceiro de juventude. Os dois foram companheiros no movimento estudantil em 1968, presos no Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna e, mais tarde, trocados pelo embaixador Elbrick. Em 1998, o diretório do PT no Rio de Janeiro escolheu Palmeira como candidato ao governo do estado. A decisão contrariava os planos da cúpula petista. Como o PT fluminense se recusou a retirar a candidatura, Dirceu anulou a decisão numa intervenção inédita. Palmeira se afastou de Dirceu e, mais tarde, do partido.

No segundo volume da biografia de Lula, também publicado pela Companhia das Letras, Fernando Morais conta que Palmeira não guardou rancor. Em 2006, depois que Dirceu teve o mandato de deputado cassado, o antigo companheiro apareceu de surpresa num almoço em sua homenagem e resumiu com bom humor a traição do passado: “Quem me degolou foi o Lula. Dirceu foi apenas o carrasco.”

A frase descrevia mais do que o episódio de 1998. A mesma lógica pragmática, executada por Dirceu com a anuência de Lula, serviu para reduzir o poder das correntes mais radicais do PT e consolidar uma maioria formada pelas bases sindical e católica. Como as pequenas tendências à esquerda exerciam uma influência desproporcional, coube a Dirceu organizar os setores mais moderados numa força coesa, capaz de derrotá-las nos congressos internos.

Nesse jogo, porém, Dirceu considerava fundamental não perder o contato com os radicais nem com o restante da base. Cabia a ele traduzir as demandas das diversas correntes internas para a estrutura partidária. Enquanto Lula brilhava no palanque, Dirceu cuidava da engrenagem. Nos primórdios do partido, era tão próximo da base que companheiros de seu grupo político, também intelectuais vindos da clandestinidade, sugeriam que disputasse cargos de direção no PT paulista. Dirceu preferia seguir na burocracia e deixar os postos mais visíveis aos líderes sindicais, como forma de prestigiar as bases operárias. O poder formal ficava com eles; o domínio da máquina, cada vez mais, com ele.

Décadas depois, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, do Prerrogativas, ainda se lembra dessa atenção às bases. Quando presidia o centro acadêmico dos alunos de Direito da puc-­sp, nos anos 1990, Dirceu já comandava o PT e tinha a agenda tomada por compromissos políticos. Ainda assim, comparecia todos os anos à cerimônia de abertura do ano letivo e telefonava para Carvalho, então estudante, a cada aniversário.

José Genoino aponta outra característica da mesma forma de fazer política: a memória extraordinária de Dirceu para a geografia interna do partido. “Ele tinha a memória do partido. Ele viajava. Sabe o cara que conhece o diretório zonal do diretório estadual? Ribeirão Preto, Rio Bonito, tudo ele conhecia. E conhecia por presença, não por live”, diz Genoino. Para Carvalho, “foi o melhor presidente que nós tivemos”.

Mesmo afastado das funções partidárias depois do mensalão e da Lava Jato, Dirceu continuou a influenciar eleições regionais até que as prisões reduziram muito seu raio de ação. Nem assim perdeu o contato com a base. Recebia visitas e, mesmo preso, mantinha um blog abastecido com textos e postagens. Quando deixou a prisão pela última vez, em 8 de novembro de 2019, no mesmo dia em que Lula foi solto, seu primeiro ato foi visitá-lo na casa de um amigo petista, em Curitiba. Dirceu também cumpria pena no Paraná – no presídio, não na carceragem da Polícia Federal. Naquela noite, Dirceu gravou um vídeo para ser disparado à militância, em que dizia: “Agora é para nós voltarmos e retomarmos o governo do Brasil. E para isso nós precisamos deixar claro que nós somos petistas, de esquerda e socialistas.” Mas a retomada da militância de rua durou pouco: meses depois, chegou a pandemia.

Quando voltou a circular, Dirceu retomou um método antigo. Passou a frequentar debates universitários e a se aproximar de uma geração que só o conhecia pelo noticiário e pelos livros. Foi assim com o economista Gabriel Cassiano, de 29 anos. Até conhecer Dirceu, ele militava na juventude do PDT. Por desentendimentos, acabou saindo da sigla e hoje trabalha como voluntário na campanha do ex-­ministro, sobretudo na tarefa de conectá-lo a outros jovens.

É também essa geração que ocupa parte das reflexões de Dirceu atualmente. Segundo Cassiano, o ex-ministro tenta entender o deslocamento ideológico da juventude, em especial da geração Z, em direção à direita. Avalia que o “identitarismo meio que tomou conta” da pauta dos jovens progressistas e que a centralidade dessas questões no discurso da esquerda pode afastar pessoas, em vez de incorporá-­las a um projeto político mais amplo.

No ano passado, Dirceu organizou em Brasília um encontro com jovens servidores dos ministérios para discutir o Estado. Um dos convidados, que não compareceu ao evento, diz que esse tipo de iniciativa é frequente: o ex-ministro procura conhecer quem hoje em dia opera, na prática, a máquina pública. “Ele alimenta o mito, né”, diz o servidor. “Quando ele chama, vai todo mundo. Como se fossem encontrar o Che Guevara aposentado.” Outro servidor, que esteve no encontro, diz que todos queriam ouvir “o diagnóstico que ele tem sobre a conjuntura”. Um petista hoje afastado da política, que foi ministro de Lula na mesma época que Dirceu, atribui parte do fascínio exercido por Dirceu sobre os jovens, um dos segmentos que mais crescem dentro do PT, a outra razão. Essa geração, diz, “o vê como injustiçado”.

O consultor Flávio Magalhães, que se tornou amigo de Dirceu nos últimos anos, diz que a admiração pelo ex-ministro alcança até jovens de direita. Num domingo à noite, os dois embarcavam de Brasília para São Paulo quando foram abordados por um homem de uns 35 anos. “O senhor dá licença? Eu posso lhe cumprimentar?”, perguntou a Dirceu. Autorizado, fez uma confissão: “Olha, eu sou de direita, mas o senhor é o maior político que o Brasil tem atualmente.”

Magalhães diz que hoje em dia é raro, ao circular com Dirceu, presenciar os constrangimentos que já foram comuns no passado. Mais frequentes são as abordagens de quem deseja ouvir seu diagnóstico sobre o país. “Às vezes, quando estávamos no carro, ligava um ex-presidente da República Dominicana ou algum político da esquerda da América Latina, sempre consultando sobre o Brasil.”

Há cerca de quatro anos, Magalhães apresentou Dirceu a um executivo estrangeiro que veio ao Brasil e queria conhecê-lo. Marcaram um café da manhã. No  fim do encontro, o empresário os convidou a continuar a conversa no exterior. Os dois viajaram a Portugal e voltaram a se encontrar com ele durante um almoço. Magalhães não quis revelar o nome do executivo nem da empresa. “É sempre a mesma pergunta: como você vê o Brasil hoje e daqui para a frente?”

José Dirceu fala menos com Lula do que faz parecer, mas tampouco é tão distante do presidente quanto os maldosos afirmam. Em rodas informais, recorre a frases ambíguas para deixar no ar a ideia de que conversava com Lula com alguma frequência, enquanto, aos amigos mais próximos, reclama de ser recebido na companhia de outros petistas, e não a sós. Durante o terceiro mandato, Lula o recebeu pelo menos em duas ocasiões: uma vez no Palácio da Alvorada, juntamente com líderes de movimentos sociais, e outra vez na Granja do Torto, acompanhado de outros petistas.

No início de junho, Lula fez uma ligação, depois que um petista frequentador do gabinete presidencial chamou a atenção para um vídeo em que Dirceu parecia abatido. O presidente ligou, perguntou como estava, e Dirceu disse que estava bem. Em agosto, nova ligação, também para perguntar da saúde. 

O principal canal de contato entre ambos era o sociólogo Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula hoje enrolado nas investigações sobre a lobista Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís da Silva, o Lulinha. A Polícia Federal investiga se Marcola transformou a antessala do presidente num escritório de negócios. Dono da agenda presidencial até meados de julho, quando deixou a função em meio às investigações, Marcola era a principal via de acesso ao gabinete de Lula para petistas da velha guarda, como Gilberto Carvalho, João Paulo Cunha e o próprio Dirceu. (Lula continua como sempre esteve: sem celular.)

Admirador de Dirceu, Marcola dedicou sua dissertação de mestrado na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) à estratégia que reduziu o poder das correntes mais radicais do PT. Com uma epígrafe que remete a uma frase de Dirceu – “O peso da injustiça pode tudo. Só não pode prender meus sonhos” –, a tese, publicada em 2014, trata Dirceu como o grande arquiteto do projeto de unidade partidária vislumbrado por Lula. “Face pública desta coalizão, Dirceu sempre ficaria marcado internamente por sua rigidez com relação às outras tendências”, escreve. A fama autoritária era tamanha que militantes das correntes adversárias criaram um grito de guerra, entoado nos encontros do partido e carregado de crítica irônica: “Stálin não morreu, ele encarnou no Zé Dirceu!”

Marcola não contesta a fama. “Quadro histórico do partido e da esquerda brasileira, ele [Dirceu] comandou com mão de ferro o PT nos anos seguintes e ficou com fama de autoritário. Justificada, por sinal.” Para explicar a divisão de trabalho que se consolidaria entre Lula e Dirceu, recorre ao historiador Lincoln Secco: “Sacramentava-se uma dupla que Lula há muito procurava. Alguém que pudesse domesticar o PT enquanto ele se dedicava às ruas.”

Quando Lula e Dirceu chegaram ao governo pela primeira vez em 2003, Marcola era um estudante secundarista. Quando Dirceu saiu do cargo, dois anos depois, era um estudante universitário. Vinte anos mais tarde, Marcola tinha o poder de mediar o contato entre as duas figuras cuja dimensão política ele conhecera nos livros. O primeiro volume da biografia de Lula escrita por Fernando Morais ajuda a esclarecer o nível de intimidade entre Marcola e Lula. Em 2018, coube ao sociólogo ligar para o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e avisar que Lula iria para lá assim que seu pedido de prisão fosse decretado. Também foi ele que Lula chamou num canto para mostrar as câmeras e refletores que a TV Globo montara num prédio vizinho ao sindicato para filmar sua prisão. Marcola também soube em primeira mão que Lula não imporia resistência. O petista pediu que ele fosse a Curitiba e o aguardasse até que chegasse para iniciar o cumprimento da pena. “Marcola, você fica comigo até o fim?”, perguntou Lula, antes que o assessor viajasse. “Sim, presidente, claro que sim.”

Marcola, que começara no PT como assessor de Edinho Silva na Assembleia Legislativa antes de trabalhar com Clara Ant no Instituto Lula, terminou se mudando para Curitiba, de onde coordenava os contatos que Lula desejava fazer no Brasil e no exterior, além de organizar os acampamentos da militância. Quando o petista foi solto, 580 dias depois, tornou-se seu confidente. Quando Lula foi eleito, virou seu chefe de gabinete. Como o círculo mais próximo de Lula se fechou nos últimos anos, excluindo a velha guarda e deixando Janja como filtro supremo, Marcola se tornou a única porta acessível do entorno para que políticos e empresários chegassem a Lula fora da agenda.

Quando o governo e o presidente do Senado colidiram sobre a indicação de Jorge Messias para o stf, Davi Alcolumbre pediu para ver Dirceu. Numa conversa na residência oficial, disse ao petista que o nome de Messias não passaria. Quem fez essa conversa chegar ao Palácio do Planalto foi Marcola, embora tanto o governo quanto o próprio Messias tenham decidido bancar a votação por achar que o resultado, embora apertado, seria favorável. Erraram por oito votos.

O emaranhado de relações em torno de Marcola alimenta outra característica que acompanha Dirceu desde os tempos em que foi ministro da Casa Civil: a percepção de que sua influência alcança espaços nos quais ele não aparece formalmente. Por exemplo: o escritório de Roberto Podval, do qual Dirceu é sócio, defende a lobista Roberta Luchsinger no caso que envolve Marcola. Danyelle Galvão, namorada de Dirceu, juíza substituta do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e sócia do escritório Galvão & Raca, integra a banca de defesa do empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, também ligado a Luchsinger e preso há um ano.

O escritório de Podval atua ainda na defesa de Cafu Cesar (PSB), vice-prefeito de Hortolândia preso pela Polícia Federal no ano passado sob suspeita de desvio de recursos públicos. A cidade fora uma das únicas do interior paulista a eleger um prefeito com apoio de Lula. Antes de ser investigado, Cesar chegou a agradecer publicamente a Marcola, nas redes sociais, pela ajuda na liberação de 50 milhões de reais para sua administração. Em abril, Cesar reassumiu como vice-prefeito enquanto correm as investigações.

Não há evidência de que Dirceu tenha aproximado esses clientes dos escritórios, muito menos de que coordene suas estratégias jurídicas. As três defesas são conduzidas por advogados renomados e qualificados para a advocacia criminal. Mas a sobreposição de personagens – Dirceu, Marcola, Luchsinger, Antunes e Cesar — cria uma zona cinzenta na qual relações profissionais, pessoais e políticas se cruzam. Para alguns, há ali sinais de um alinhamento. Para outros, apenas coincidências produzidas por um círculo relativamente pequeno de advogados e personagens do poder. 

É justamente nessa impossibilidade de distinguir com clareza influência real de influência presumida que sobrevive parte do poder de Dirceu. Sua força depende menos de demonstrar que ele moveu uma peça do que da crença de que poderia tê-la movido.

Todos que deram um passo em falso como Marcola – Dirceu, Genoino, Delúbio Soares, João Vaccari Neto, João Paulo Cunha – acabaram afastados do convívio presidencial, mas talvez só um deles nunca tenha tido qualquer brecha de regeneração: Antonio Palocci, ministro da Fazenda no primeiro mandato de Lula, que rivalizava com Dirceu na Casa Civil. Em algum momento, ambos chegaram a frequentar a lista de possíveis candidatos à sucessão de Lula, até serem atropelados pelos escândalos.

Palocci era mais do que um conselheiro político de Lula. Era também seu amigo. Dirceu jamais ingressou na intimidade de Lula da mesma maneira, em grande parte por seu próprio perfil, formal e inteiramente dedicado aos afazeres da cozinha palaciana. Nos famosos churrascos na Granja do Torto que marcaram o primeiro mandato, Dirceu raramente estava. “Não é que ele fosse excluído. É que todas as atividades dele fora do expediente também eram políticas. Ele não descansa. Não existia um momento ‘agora vou ao cinema’”, contou um ministro palaciano daquela época, sob a condição de não ser identificado. Palocci era o oposto: sociável, piadista, aberto às trivialidades, uma antítese do perfil cerebral e autoritário do colega. 

Com jogo de cintura, Palocci vencia muitas batalhas internas com Dirceu – todas elas estimuladas por Lula. “O presidente construía sínteses em cima das antíteses. Ele sempre foi uma liderança que estimula o conflito”, diz um frequentador palaciano atual, que conhece bem o passado recente. Nas disputas externas, Palocci também saía ganhando. Como defensor do modelo tucano de política fiscal, era bem tratado pela imprensa e pelo empresariado. Dirceu, em contraste, carregava a fama de implacável e, por vezes, grosseiro, não apenas com jornalistas, mas também com integrantes do próprio gabinete.

Em 2004, antes do escândalo do mensalão, o fotógrafo oficial de Lula, Ricardo Stuckert, publicou um livro com imagens dos primeiros quinhentos dias de governo (Lula, 500 dias em fotos). Os 152 registros reúnem as grandes cenas daquele período: a ascensão de um líder popular, seus encontros com líderes de outros países, momentos em família e bastidores do governo. Há duas fotos de Lula a sós com Palocci. Em uma, os dois caminham à beira do lago do Alvorada durante o fim de semana, em trajes esportivos, numa conversa informal. Na outra, falam ao pé do ouvido numa antessala do Palácio Real de El Pardo, em Madri, durante a visita oficial de Lula à Espanha.

Dirceu também aparece em duas cenas, mas nunca sozinho com o presidente. Em uma, está numa reunião ministerial, junto de todo o alto escalão do governo. Na outra, participa de uma reunião menor em torno da mesa de trabalho de Lula, ao lado de ministros e secretários palacianos. A curadoria de Stuckert não prova que reuniões privadas entre Lula e Dirceu nunca aconteciam. Mas, quando o livro se aproxima da intimidade do presidente, é Palocci quem ocupa esse espaço.

Quando o mensalão desestabilizou o governo e Dirceu foi degolado, Palocci se fortaleceu. Mas logo também sucumbiu em seu próprio escândalo, quando o caseiro Francenildo dos Santos Costa denunciou que o ministro frequentava uma mansão em Brasília usada para reuniões com lobistas e encontros com prostitutas. Palocci então renunciou em março de 2006, mas, ao contrário de Dirceu, não deixou o convívio presidencial. Mais que isso: candidatou-se a deputado no mesmo ano, venceu e continuou a frequentar o Palácio com a desenvoltura de sempre, enquanto Dirceu, cassado, submergiu. No governo Dilma Rousseff, Palocci voltou ao centro do poder como ministro da Casa Civil. Durou seis meses: a revelação de seu enriquecimento patrimonial durante o mandato de deputado acabou provocando sua queda.

Mas não foram nem o caseiro nem o dinheiro que mandaram Palocci para a Sibéria petista. Foi sua delação premiada de 2018, na qual afirmou que Lula recebia “dinheiro vivo”, Dilma chefiava uma “organização criminosa” e 90% das medidas provisórias que beneficiavam empresas envolviam “propina ao PT”. Depois, sua delação naufragou porque nem ele mesmo conseguiu reunir provas de qualquer uma das acusações. Resultado: tornou-se um pária irrecuperável do entorno petista.

Dos antigos amigos, restaram Marta Suplicy e o marido, Márcio Toledo, anfitriões de alguns constrangimentos ao convidar Palocci para eventos em que também estariam outros ex-­colegas de partido. Embora, para a festa de 80 anos de Marta, na qual estavam Lula e Dirceu, o convite de Palocci nunca tenha chegado. 

Em 17 de junho, o deputado federal Rui Falcão recebeu a piauí em seu gabinete no bairro do Sumarezinho, em São Paulo. Naquela manhã, durante um encontro do G7, Lula havia dito à diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, que nunca foi “esquerdista” e sempre fora um “dirigente sindical”. Falcão começou a conversa comentando a declaração, que repercutia no noticiário, e disse, em tom de sarcasmo, que “já sabia” que Lula não era de esquerda. O deputado integra o diminuto grupo de dirigentes petistas que não se acanham em discordar publicamente de Lula. Sem que a piauí lhe perguntasse sobre o assunto, observou espontaneamente que o presidente não gosta de ser contrariado.

Crítico de longa data da moderação de Lula e de sua política de pactuação com a direita, Falcão considera que o governo privilegia a “autocelebração” em detrimento da mobilização popular e adota uma postura excessivamente conciliatória com o Congresso, evitando comprar as brigas necessárias. Sua crítica, porém, se estende ao próprio PT e às perspectivas futuras para a legenda. Para ele, a sigla se tornou “muito parlamentar” e se afastou de sua base popular. “Um partido que faz atividade política só nos anos pares?”, indaga. “Se você tem um partido que dá muito peso à instituição, você vai esquecendo as ruas, o território, e isso foi nos enfraquecendo, né?”

José Genoino, que recebeu a piauí em sua casa no bairro do Butantã, em São Paulo, em julho, acrescentou outra camada ao problema. Para além da desmobilização da base, o PT encolheu à sombra do próprio Lula, que alcançou uma dimensão política desproporcional à do partido, sobretudo depois de sair da prisão e conquistar um terceiro mandato. “Ele ficou muito grande, e o PT, ó”, disse, apontando para baixo. Um dos sinais disso, segundo Genoino, apareceu no impeachment de Dilma, quando os parlamentares petistas aceitaram o andamento do processo sem impor uma resistência à altura da crise. “Podiam deitar no chão, provocar uma crise. Nós fizemos isso na época da Constituinte. O PT sofreu uma violência tão grande que ele se recolheu muito.”

Lula, ao contrário, soube reagir às crises que ameaçaram sua sobrevivência política. Genoino identifica dois movimentos distintos. “O movimento que o Lula fez quando os caras o prenderam foi pra esquerda. A posição do Lula na prisão foi pela esquerda. É da característica do Lula. Companheira, quando tá em jogo a carreira política do Lula, a personalidade política do Lula, o prestígio do Lula, ele vai, ele se defende. O Lula tem um instinto de defesa, de autodefesa muito grande. Muito grande. Ou ele arranja um jeito de manobrar, ou ele arranja um jeito de radicalizar. No mensalão, ele arranjou um jeito de manobrar. Na prisão, ele arranjou um jeito de radicalizar.” A consequência, para Genoino, foi um descolamento cada vez maior entre líder e legenda: “Então o Lula cresceu politicamente, e o PT não acompanhou esse crescimento.”

Em Os sentidos do lulismo, publicado pela Companhia das Letras em 2012, o cientista político André Singer dissecou os mecanismos da dissociação entre Lula e o PT, dando formulação teórica ao que dirigentes petistas hoje tratam como um dado incontornável: o partido perdeu espaço como formulador autônomo de políticas, enquanto uma parcela de sua base passou a se conectar menos com a legenda e suas ideias do que por uma relação direta e pessoal de confiança em Lula.

É uma realidade oposta à que se vivia em 2002, quando a candidatura de Lula decolou e as pesquisas indicaram, pela primeira vez, grandes chances de vitória. Naquele momento, os rumos da campanha ainda eram definidos pelo partido. José Dirceu, então presidente do PT, assumiu a coordenação política e a costura das alianças. Coube a ele e a Genoino, entre outras tarefas, encontrar um candidato a vice. Genoino reconstituiu a orientação que receberam de Lula, nos seguintes termos: “Eu só posso ser candidato se eu ganhar. Eu posso não ganhar, mas eu tenho que ter convicção de que eu vou ganhar. E para isso eu preciso de três condições: primeiro, eu tenho que ter um empresário na vice. A segunda condição é ter um candidato forte em cinco estados: Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Rio de Janeiro. A terceira: ter um aparato de comunicação do PT.”

As três condições foram atendidas. Na escolha do vice, Dirceu teve um papel preponderante. José Alencar, então senador, foi sondado para a posição e se mostrou simpático à ideia. Como o PMDB apoiaria José Serra, Dirceu articulou com Valdemar Costa Neto, ele mesmo, a transferência do empresário para o PL. “Zé Dirceu foi o protagonista das articulações políticas da eleição do Lula. Então a ideia dessa coalizão mais ampla foi dele. Ele foi a peça-chave. Tanto que a justificativa dele para ir para a Casa Civil é que ele tinha a memória da campanha”, diz Genoino.

Segundo ele, a contrapartida proposta por Valdemar para abrigar Alencar foi que o PT ajudasse a financiar, por meio de caixa dois, campanhas da bancada do PL. (Até 2019, usar recursos financeiros não contabilizados ou declarados à justiça eleitoral era considerado infração, não crime.) “Teve uma reunião lá em Brasília que eu nem fui, na casa do Paulo Rocha, que era deputado federal, em que estavam o Valdemar, o Delúbio, e foi feito um acordo para o PT ajudar a financiar a campanha do PL.” Para Genoino, estava aí a origem do que mais tarde seria denunciado como mensalão. “Não teve compra de votos porra nenhuma. Aquilo ali foi financiamento das campanhas de 2002 sem registro. E aquela inflexão o Zé Dirceu conduziu. Porque pra passar [a aliança] na maioria do Diretório Nacional foi traumático, foi dose.” Nas entrevistas que deu sobre o assunto, Dirceu sustenta a mesma versão: “Não havia ‘mensalão’ para comprar votos. Eram acordos eleitorais. Não havia desvio de dinheiro público”, disse, na primeira entrevista que deu após a eclosão do escândalo, à Folha de S.Paulo. Na mesma entrevista, disse que Lula não sabia de nada.

Entre os condenados, Genoino teve pena de 4 anos e oito meses porque o STF considerou que, na posição de presidente do PT durante o governo, ele participou da articulação política para o pagamento de aliados. E Dirceu foi condenado a 7 anos e 11 meses, por ter sido o coordenador dos acordos, na visão majoritária da Corte, numa tese jurídica levantada pelo então ministro Joaquim Barbosa, ainda hoje objeto de controvérsia.

A formação do primeiro governo do PT – em cuja base estava presente o PTB, que seria o estopim da denúncia do mensalão – remonta a um dos primeiros embates entre Lula e Dirceu. Convencido de que não seria possível governar sem uma coalizão ampla, Dirceu havia costurado com Michel Temer a entrada do PMDB no governo. No último momento, Lula vetou o acordo. Dirceu insistiu, mas perdeu.

Lula não via o mesmo impedimento em governar com PL, PP e PTB, partidos cuja relação com o Executivo passava em grande medida pela negociação de cargos e emendas. Nos bastidores, a ala lulista do PMDB, representada por Renan Calheiros e José Sarney, tentava convencê-lo de que em breve tomaria de Temer o comando do partido, o que permitiria uma aliança mais orgânica com o governo. Seria melhor esperar. Havia, porém, outra leitura para o veto: Dirceu costurara o acordo com autonomia excessiva, e Lula aproveitara a ocasião para lembrar quem dava a palavra final.

As arestas vinham desde a vitória. Na comemoração na Avenida Paulista, Lula não chamou Dirceu ao microfone durante o discurso, ato que definiu logo de cara que o líder estudantil que inflamara a juventude na rua Maria Antônia ficaria circunscrito aos bastidores. Na transição, surgiu uma divergência mais substantiva. Lula queria que ele permanecesse na Câmara dos Deputados e, mais tarde, disputasse a presidência da Casa, posto que acabaria ocupado por João Paulo Cunha. Dirceu queria outra Casa – a Civil. Deixou claro que ninguém faria melhor do que ele o trabalho de coordenar o governo. Lula cedeu.

Alguns companheiros aconselharam Dirceu a não aceitar um cargo no Executivo. Rui Falcão foi um deles. Avaliava que, seguindo na presidência do PT, Dirceu poderia ajudar a “empurrar o governo para a esquerda” e, sobretudo, preservaria sua autonomia em relação a Lula, ao não se tornar seu subordinado.

Consumada a escolha, Lula ainda cogitou deixar com Dirceu apenas a gestão interna do governo e entregar a articulação política a outra pasta. Foi convencido do contrário. Na Casa Civil, Dirceu passou a concentrar a coordenação do governo e a relação com os partidos, sem perder de vista o controle sobre o PT. Lula precisava do pulso firme de Dirceu para comandar o governo durante suas frequentes viagens no início do mandato e reconhecia nele a força necessária para ocupar aquele espaço, mas se incomodava com sua autonomia e com a extensão de seu poder.

Genoino identifica aí uma característica da relação de Lula com seus aliados. “O Lula tem dois critérios: lealdade e força. Quando você tem força, ele te ouve. Ou então quando você é leal a ele.” Um ministro palaciano daquela época, que pediu para não ser identificado, resume de outra maneira: a capacidade de “iniciativa” de Dirceu lhe garantia espaço no centro do poder. Era também o que tornava inevitável a tensão entre os dois. 

Outro ponto de atrito era a participação de Dirceu na política externa, seara em que já havia uma disputa de espaço entre o chanceler Celso Amorim e o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia. Como ministro da Casa Civil, Dirceu viajou a Caracas para uma conversa com Hugo Chávez, sem que o Itamaraty soubesse ao certo qual era sua missão, e posteriormente tornou-se seu amigo. Também desenvolveu uma espécie de diplomacia paralela com a então secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice.

Sua interlocução com Washington, porém, começara ainda na campanha de 2002. Um consórcio articulado com Dirceu e Lula pelo empresário Mario Garnero, e que envolvia a consultoria de lobby Stonebridge e a então embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Donna Hrinak, acertou uma ida do poderoso articulador de Lula a Washington para explicar à equipe de George W. Bush que um eventual governo do PT não promoveria uma ruptura radical. A Carta ao Povo Brasileiro, concebida por Palocci e à qual Dirceu inicialmente se opôs, reforçou a mensagem de moderação que a campanha procurava transmitir.

A aproximação avançou rapidamente. Depois da vitória, Lula deu uma entrevista ao jornal The Washing­ton Post, num acerto também intermediado por Garnero com Lally Weymouth, integrante da família então proprietária do jornal. Naquelas primeiras horas, porém, Dirceu estava indignado: Bush ainda não telefonara para cumprimentar Lula pela eleição. Ligou irritadíssimo para Garnero, que procurou a Casa Branca e ouviu que o telefonema ocorreria apenas no dia seguinte. O presidente americano de fato ligou. Antes mesmo da posse, Lula viajou a Washington para se encontrar com Bush, num gesto inédito da administração republicana em relação a um presidente estrangeiro eleito. A ponte que Dirceu ajudara a construir acabou desembocando naquela que seria a melhor relação de Lula com um presidente americano.

Hrinak guarda boas recordações de Lula e também de Dirceu, com quem manteve uma relação positiva durante o governo e depois de deixar a diplomacia, quando ocupou cargos executivos em grandes empresas, entre elas a Boeing. “Eu sei que, no fim das contas, ele talvez não tenha sido o político mais honesto na história do Brasil. Mas a minha experiência tratando com ele sempre foi excelente.” A ex-diplomata conhecera Dirceu na década de 1980, quando trabalhava no consulado americano em São Paulo e ele ainda não era uma figura proeminente no PT. “Na primeira vez que o vi, ele usava uma camiseta vermelha. Na segunda vez, acho que era um Armani com sapatos Gucci. Diferente, não?”

Quando os primeiros escândalos do governo Lula começaram a surgir justamente dentro do gabinete de Dirceu, as coisas tomaram outra conformação. No primeiro caso, Waldomiro Diniz, seu assessor, foi flagrado numa gravação extorquindo um contraventor. Dirceu procurou Lula para entregar o cargo. O presidente recusou. Mais tarde, Lula contou ao secretário de Imprensa, Ricardo Kotscho, que talvez tivesse cometido “o maior erro político de sua vida” ao manter o ministro, segundo o próprio Kotscho relatou em Do golpe ao Planalto, publicado pela Companhia das Letras.

Em seguida, soube-se que Silvio Pereira, outro assessor de Dirceu, aceitara uma picape Land Rover como pagamento para facilitar um contrato com a Petrobras. Depois, Marcelo Sereno, também integrante da Casa Civil, foi acusado por um petista de desviar recursos de um fundo de pensão estatal para campanhas do partido. 

(Outro subordinado de Dirceu à época era Swedenberger Barbosa, o Berger, que não se envolvera em nenhum escândalo no primeiro governo Lula, mas hoje aparece nas investigações que apuram tráfico de influência no Ministério da Saúde para favorecer a lobista Roberta Luchsinger. Os fatos comprovados até agora apontam que Berger recebeu a lobista em seu gabinete, mas nenhum contrato foi firmado entre ela e a pasta.) 

Em conversas com petistas, todos defensores da reabilitação política de Dirceu, a piauí repetiu a mesma pergunta: o PT não se ressente do fato de que a gestão de Dirceu deu origem aos escândalos que minaram a credibilidade do partido junto à classe média, até então sua principal base de sustentação? Dirceu não teria um papel ambíguo na história da legenda ao ser, simultaneamente, a principal âncora da militância e o maior responsável pela perda parcial do lastro social que o PT erguera?

As respostas variaram pouco. Os companheiros de partido valorizam, acima de qualquer malfeito, a atitude de Dirceu depois de preso: manteve-se calado, não delatou ninguém, não expôs Lula nem o PT. Outra corrente o vê como bode expiatório: Dirceu queria construir uma base de governabilidade mais sólida com o pmdb, mas foi impedido por Lula e acabou obrigado a negociar no varejo com partidos menores e mais fisiológicos, até ser abatido por uma estratégia que, originalmente, não era a sua. Há quem atribua parte do desastre a um defeito pessoal: o péssimo hábito de Dirceu de se cercar de assessores ruins, desde que não o contrariem e saibam adulá-lo. Por fim, estão os que enxergam o mensalão como uma grande ofensiva das forças de oposição, em aliança com a imprensa e setores do Judiciário, para destruir a máquina petista.

Kakay, o advogado, se aproxima dessa última interpretação. Conta que, ao ver na imprensa uma fotografia de Dirceu usando óculos escuros dentro de um helicóptero, tomada de baixo para cima, ligou imediatamente para o amigo. “Eles vão te derrubar, cara. Isso aí é foto de presidente da República.” Quando o mensalão explodiu, fez um novo alerta: “Zé, esse processo vai ser um processo político. Você vai ser perseguido. Já está sendo perseguido, porque todo mundo sabe que você será o próximo presidente da República. Então, eles vão atirar em você.”

Na memória de Genoino, porém, o alvo final daquela ofensiva não era Dirceu, mas Lula. Ele conta que, no auge do escândalo, Fernando Henrique Cardoso procurou o presidente levando um recado de seu campo político: se Lula desistisse de disputar a reeleição, a oposição abandonaria a ideia de abrir um processo de impeachment. Lula recusou. “O Lula sentiu. Porque ele sente as coisas no ar”, diz Genoino. Segundo ele, o presidente reuniu sua equipe de comunicação e mudou de estratégia. “Ele disse: ‘Olha, eu não vou sair da Presidência, nem dar um tiro no peito, nem ser impichado. Eu vou para rua e vocês arquem com a responsabilidade.’ Aí ele lançou aquela campanha ‘Mexeu com o Lula, mexeu comigo’ e ‘Deixa o Lula trabalhar’. Tudo aquilo foi sensibilidade do Lula.” 

Segundo as lembranças de Kotscho, no entanto, as coisas pareciam bem mais complicadas. “Quando a ficha finalmente caiu, meses depois das primeiras denúncias, Lula parecia ter voltado à época das assembleias dos metalúrgicos, achando que poderia resolver tudo no gogó, nos discursos de palanque”, escreveu. “Começou a viajar mais pelo país e para o exterior, em vez de pôr a casa em ordem e preparar sua tripulação para enfrentar a tempestade.”

Diante da complexidade da relação do presidente com seu ministro, quando Dirceu deixou o governo, o ambiente foi tomado por uma ambiguidade extrema. Não se sabia o que ele estaria disposto a falar, e a imprensa ajudava a pintá-lo como o homem-bomba. Antipatias entre os dois petistas que antes ficavam submersas ganharam a superfície. Nos bastidores, Dirceu passou a criticar Lula como nunca antes ousara fazer. Era uma incógnita se Lula estava aliviado com sua saída, ou perdido com sua ausência. Tampouco era claro se o governo não tentou impedir sua cassação por instinto de sobrevivência ou por decisão deliberada. Mais tarde, os papéis ficaram mais evidentes: Lula se dizia traído pelo partido, e Dirceu não dizia mais nada.

Na festa de 45 anos do PT, em março deste ano, Lula subiu ao palanque para discursar e, indiretamente, fez um desagravo aos que foram abatidos naquela época. “O Zé Dirceu sabe o que é ser vítima de uma mentira. O companheiro Delúbio sabe o que é ser vítima de mentira. O companheiro Vaccari, que não está aqui, e tantos outros companheiros que foram vítimas de mentiras.” Com exceção de Vaccari, todos eles estarão com seus nomes nas urnas de 2026 – Dirceu, Delúbio, João Paulo Cunha e André Vargas, que não foi réu do mensalão, mas sim da Lava Jato.

José Dirceu vive hoje em São Paulo, num apartamento de dois quartos que divide com uma das filhas no bairro de Perdizes. Antes da doença, passava a maior parte do tempo em Brasília, na casa do filho Zeca. Depois da última sessão de quimioterapia, prevista para setembro, espera conseguir fazer ao menos a reta final da campanha nas ruas, junto à militância. Embora receba uma aposentadoria da Câmara, passou por dificuldades financeiras em diferentes momentos, o mais recente durante a pandemia, quando amigos passaram a comprar exemplares de sua autobiografia, escrita na prisão, para ajudá-lo financeiramente. Se for eleito, voltará à Câmara mais de vinte anos depois de ter o mandato cassado. Se Lula também vencer, os dois voltarão a ocupar simultaneamente posições de poder pela primeira vez desde 2005. 

Amigos de Dirceu ainda se perguntam como e por que ele mantém tamanha devoção a Lula depois de tudo o que ocorreu entre os dois nas últimas duas décadas. Ainda não encontraram uma resposta. Uma amiga relata que uma das poucas vezes em que viu Dirceu chorar foi em 2011, quando soube que Lula estava com câncer na laringe.


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Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época