ontem & hoje
Thomas Mann piauí_241 08 Out 2026
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Escrevo para esta publicação de renome, cujo público se espalha por todo o mundo, a fim de assinalar uma revista pequena e corajosa que, creio eu, há de suscitar nos muitos leitores do jornal Aufbau1 a mesma alegria, surpresa, admiração, o mesmo estímulo e alento que suscitaram em mim.
Chama-se Extempore e sai “em estilo manuscrito” pela editora Vita Nova, de Lucerna. Seus diretores são dois suíços que escrevem em alemão excepcional; ambos me comunicaram seus nomes, mas não sei ao certo se estou autorizado a mencioná-los. A publicação, que vem saindo mensalmente desde o último verão, é apoiada por um círculo até agora bastante restrito de professores de universidades suíças, por sacerdotes de confissão católica e protestante, advogados – há mesmo, entre eles, um distinto sociólogo e economista alemão. Na modesta lista de assinantes figuram personalidades ativas na vida pública e cultural ou ainda nas profissões liberais. Veem-se também os nomes de políticos e pesos-pesados dos negócios, que presumivelmente não têm lá grandes simpatias pela revista, e por fim algumas missões diplomáticas estrangeiras.
O subtítulo da revista (Unabhängiger Informationsdienst) promete “informação independente”, e Extempore é exatamente isso. Sua linguagem é independente, livre dos slogans vazios e corrosivos destes nossos dias; do ódio maníaco; da autocomplacência carola e da denúncia monótona diante dos tribunais da moral; dos grandes interesses disfarçados de ideologia. E Extempore é uma revista de informação em um sentido que a grande impressa mundial, subserviente ao “ideal” de formação de um bloco ocidental, deixou para trás há muito tempo. A revista suíça é informativa na medida em que expõe e combate certa “politização da verdade”, na qual ela detecta o verdadeiro perigo que ameaça nossa civilização. Esses homens sabem que nada contradiz com tanta força, nada perturba tanto as tendências dominantes no controle da opinião pública quanto um modo de avaliar as coisas que não apenas não se submete a objetivos políticos, como ainda se opõe à disseminação e à banalização desses objetivos. Na contramão de tudo, esses homens decidiram criar um órgão de informação de horizontes amplos, sem perder de vista os aspectos essenciais e característicos, e cuja missão consiste em oferecer resistência à deformação propagandística da situação mundial – uma situação caótica, uma vez que nela impera o abuso da moral e do direito para fins polêmicos e interesseiros. Ao fazê-lo, os editores de Extempore dirigem-se a todos aqueles que conservaram a capacidade de resistência íntima diante das forças que, desde o fim da guerra, têm-se dedicado a adulterar o problema da ordem mundial e reduzi-lo à tarefa técnica de constituição de blocos de poder.
Como tenho amor à Suíça, é para mim um motivo de orgulho que justamente ali seja possível publicar uma revista que ousa dizer abertamente a verdade, a saber: o mundo moderno não se encontra em uma situação de desordem ameaçadora por obra de um bloco do “Leste” onde não vigoram os princípios que a civilização ocidental proclama, mas sim porque, a Oeste, a defesa desses mesmos princípios padece de insinceridade – e porque o Ocidente, historicamente falando, fez mais para desacreditar do que para realizar esses ideais. Ainda é possível dizer coisas assim; mas trata-se, é claro, de uma possibilidade tênue, mesmo em um país pequeno, neutro e muito avançado em termos culturais. Evita-se tomar posição pública contra a imposição de uma “ordem” que ameaça privar a Europa da capacidade de lidar com seus verdadeiros problemas; evitam-no mesmo aqueles que reconhecem o perigo de tal negligência e que se mantiveram firmes até nos tempos de maior desalento diante do triunfo nacional-socialista, entre 1938 e 1941. Mesmo esses não ousam mais nadar contra a corrente, temendo o rumor público ou o prejuízo profissional. Se o fizessem, teriam que lidar com a suspeita ou com a acusação estridente de serem agentes de propaganda pró-comunista – como acontece agora com os responsáveis por Extempore. Recusar a ideia de uma ordem mundial comunista e ao mesmo tempo recusar a ideia de uma ordem alternativa, definida exclusivamente por seu não comunismo; perceber que tanto uma como a outra resultariam em uma ordem mundial ditada pela força e pela violência, que necessariamente assumiria formas fascistas e imperialistas; declarar-se a favor de uma dinâmica de pacificação entre Leste e Oeste, na medida em que apenas o fim da Guerra Fria seria capaz de sanear a atmosfera internacional e levar ambos os lados a renunciar ao abuso do poder – tudo isso é propaganda pró-comunista, não é?
Como isso me soa familiar! Posso ouvir a voz daquele americano intrépido que certa vez me dizia: “Em tempos de caça às bruxas, todo cuidado é pouco!” Não sei bem se o alerta dirigia-se a mim ou a si mesmo. Provavelmente a si mesmo. Pois já exprimi ideias semelhantes às de Extempore a respeito da Guerra Fria entre o comunismo e a “ordem” e moldei minhas ações segundo essas ideias; meu eclipse moral, portanto, é fato consumado há muito tempo. Eu me pergunto, porém, se o “eclipse” não se deu com mais evidência em outros lugares, longe de minha pessoa.
Preciso abrir um parêntese pessoal antes de seguir adiante. Muito se escreveu, com grande estridência – em especial na imprensa alemã-ocidental –, a respeito do meu “comunismo”, da minha “traição à liberdade”, do meu “culto à violência e ao arbítrio”. Não há uma palavra verdadeira em tudo isso. É verdade que penso que a Revolução Russa foi um acontecimento histórico da mais alta importância, como creio que o atual conflito social e econômico entre o Leste e o Oeste acabará por se sanar e, como as polaridades passadas, por se resolver no âmbito da civilização. Então há de ficar claro que a recepção de ideias “orientais” no Ocidente foi mais intensa do que o processo contrário. Penso isso sem prejuízo de expressar repetidas vezes toda minha repulsa aos métodos do Estado policial: as detenções sem processo legal, os desaparecimentos, a incerteza jurídica, os campos de concentração, a tutela totalitária da cultura, a arte sob prescrição, nivelada pelo gosto mais baixo e mais ignorante.
Ocorre, porém – e me parece natural que seja assim –, que as pessoas formam suas emoções morais a partir da vida a seu redor, e não a partir de circunstâncias distantes, das quais não toma parte. Acreditemos, como berram nossos jornais, que tudo vai mal na União Soviética – não me parece, por outro lado, que as coisas estejam assim tão bem entre nós. Quem há de negar o espantoso declínio moral dos Estados Unidos e a concomitante dissolução de seu prestígio moral mundo afora desde os tempos de Franklin Roosevelt? Naqueles tempos, “o grande presidente” (como ainda o chama a revista suíça) trabalhava, não sem oposição, por uma ordem econômica mundial voltada para o bem comum, para uma fusão dos interesses econômicos de todos os povos e raças; proclamava uma paz baseada na submissão da economia ao estado de direito; e declarava: “No futuro, o abuso de poder, tal como expresso no termo ‘política da força’, não terá como ser o fator determinante das relações internacionais.” A ignorância geral a respeito dessas e de outras coisas não ajuda em nada, é claro. Um ato de desespero patriótico como o suicídio do ex-embaixador em Londres, J. G. Winant,2 deveria servir para despertar o público. E a sistemática difamação da memória de Roosevelt, de seu governo e de seus amigos pessoais, que parecem não ter pensado em outra coisa além de entregar aos russos nossos segredos militares mais cruciais – alguém realmente acredita que esse tipo de difamação sirva aos interesses dos Estados Unidos e confirme a crença dos povos na maturidade deste país para exercer o poder? E a ira por termos derrotado a Alemanha, aliando-nos à Rússia, em vez de termos derrotado a Rússia, aliando-nos à Alemanha, é uma flor de estupidez que expõe este país ao ridículo. Nos Estados Unidos, a imprensa livre parece ter por missão levar toda a nação ao estado de Forrestal,3 cujas ideias sobre defesa e estações espaciais militares só foram tomadas como sintomas do excesso de trabalho quando ele começou a andar de pijama pela rua, gritando: “Os russos estão chegando!” Essas histórias sobre carregamentos secretos, destinados a entregar nossas armas secretas à Rússia, fazem pensar imediatamente nos depósitos de materiais demoníacos que os nazistas teriam descoberto nas “catacumbas” da casa de Liebknecht!4 A imprensa sabe muito bem que simplesmente não existiam em 1944 “os canhões supersecretos, automáticos e providos de radar”, que, segundo o senador Lodge,5 nos deixariam ao abrigo de todo e qualquer ataque aéreo, por mais sofisticado e perigoso que fosse. Mesmo assim, difunde-se por toda parte, sem contraditório, a afirmação desse senhor, que também afirma – e parece acreditar – ter sido convidado a soprar aos russos os segredos dessa arma fenomenal. A imagem do senador está em todos os jornais, empunhando uma foto em que se pode vê-lo, ao lado de oficiais e engenheiros americanos, diante de um canhão qualquer. Impossível não ceder ao pânico. Estamos às voltas com o nevoeiro mental da propaganda fascista, não com o esforço de formar a capacidade de juízo sensato de um povo livre.
É fácil desfazer-se da Europa humilhada com um repelão e declarar I choose America (Eu escolho a América), para assim sentir-se intimamente em harmonia com o ambiente ao redor. Um escritor que não mereça esse nome apenas por seu talento deveria antes se preocupar com o bem-estar deste grande povo que o acolhe tão bem, mas cujo sentido ético é confuso, cuja saúde espiritual se deteriora sob o efeito da fragilidade moral de uma política que aceita como “ordem” tudo que não seja comunista, mesmo quando diante dos níveis mais extremos de degradação social, corrupção e ruína feudal – sob o efeito de uma política que só se vale da manipulação propagandística de argumentos morais numa direção, sempre a mesma, e que se resume a um projeto de dominação econômica mundial, sob roupagens messiânicas.
Temos à nossa disposição a gama completa do militarismo e do ódio ao Estado soviético, cujo sistema de governo se faz por meio do desprezo à opinião pública e da violência política. Mas os dedos das duas mãos não bastariam para enumerar os Estados não comunistas da Europa, das Américas e da Ásia cujos governos não se comportam de outra maneira – sem que demos a menor importância ao fato. His Majesty, o xá do Irã, monarca de um país apodrecido e farsesco, recebe nossas boas-vindas, e defendemos em nome da democracia um regime feudal e medieval, que não garante nenhum direito aos pobres, pois não queremos que os russos obtenham concessões petrolíferas! Nossas denúncias de abusos extremos contra os direitos humanos na União Soviética elevam-se aos céus, em especial no que diz respeito à condenação de pessoas irreprocháveis a penas de trabalhos forçados que mais se parecem à escravidão. Mas evitamos toda tomada de posição contra Estados que, seja em seu território nacional, seja em suas colônias, toleram a escravidão e o tráfico humano – e mantemos relações especialmente cordiais com a Arábia Saudita, terra da mais cruel exploração do trabalho escravo. Naquele país, a colaboração entre os proprietários de terras e as empresas petrolíferas americanas, com a entrega de metade do solo árabe às necessidades da prospecção e da pilhagem, aniquila a possibilidade de uma economia agrícola avançada. O senador Owen Brewster contou-nos como o grupo Rockefeller expressou sua gratidão a Ibn-Saud, o déspota saudita, pelo acesso ao solo árabe: fazendo desse rei o homem mais rico do mundo, com 60 milhões de dólares de renda anual.
Como se vê, sabemos como fazer a fortuna alheia! Deu-se há pouco na Alemanha (conforme constatou o governo militar americano, investigando fatos acontecidos na zona britânica6) que os dois respeitáveis comerciantes por trás de uma empresa, a Arbeitsgemeinschaft Bremer Baumwollhändler, teriam lucrado mais de 40 milhões de marcos alemães simplesmente retendo mercadorias no momento da reforma monetária. O nome disso é “exercício da personalidade empreendedora no âmbito da economia” ou ainda “iniciativa privada” – e sob esses títulos uma casta de especuladores, insensível à miséria do povo, transforma bens subtraídos ao consumo em patrimônio de milhões de marcos. Os russos, à sua maneira pouco civilizada, teriam movido um processo sumário contra crápulas dessa natureza, ao passo que nós ainda não juntamos a crueldade necessária para expropriar o patrimônio dos que pilharam e enriqueceram sob a proteção do regime nazista. Essa seria uma ação revolucionária – e, portanto, contrária à “ordem”. “Ordem” não significa produção, distribuição e propriedade dentro de condições sociais de algum modo decentes, a “ordem” não está a serviço de uma genuína renovação da vida econômica alemã. A “ordem” reina quando o “espírito empreendedor” tem livre curso, quando as empresas de construção civil estão a serviço das camadas privilegiadas e a construção de moradias é posta de lado; quando 40% da população não têm acesso ao consumo, exceto quando se trata dos itens de mais estrita necessidade; quando o número dos integralmente desempregados sobe a mais de 2 milhões de pessoas; quando tudo que visa a interesses além do domínio do privado é proscrito como comunista, não americano e por conseguinte não alemão. A despeito disso, há alemães convencidos de que, sem uma reforma social profunda, este país conturbado tomará o rumo de uma nova catástrofe.
A política americana na Alemanha é um escândalo consumado e flagrante. Não estou dizendo mais do que disse o senador republicano Guy M. Gillette7 no rádio, referindo-se à “política míope, irresponsável e estúpida” que as autoridades americanas praticam na Alemanha e que serve aos interesses de nacionalistas e nazistas. Ao lado de Hendrickson, Ives e Pepper,8 o senador exigiu a instalação de uma comissão no Senado americano a fim de investigar os métodos e resultados da assim chamada desnazificação na zona de administração americana na Alemanha. Não há de acontecer nada. A insensata – para não dizer infame – aceitação do militarismo alemão no seio do “front europeu” é assunto decidido, a despeito dos temores europeus, e o renascimento nacional-socialista está em pleno curso. Vão se vinculando harmoniosamente o horror ao comunismo soviético e as manobras simpáticas ao nacionalismo alemão – na forma de leniência e favorecimento a um submundo nazista que tem se mobilizado novamente. Todos aqueles que, a certa altura de 1945 (e já então erroneamente), acharam melhor se esconder, todos eles agora levantam a cabeça sem vergonha, dominando a cena com seu discurso patriótico; e os melhores elementos da nação alemã se encontram no mesmo isolamento em que se viram por volta de 1930. Já ninguém se sente obrigado a assegurar que, no fundo do coração, nunca foi nacional-socialista. Ao contrário, levam vantagem aqueles que o foram e seguem sendo de todo coração. Em vez de servirem à depuração da esfera pública, os processos de desnazificação vão se tornando ocasiões de reverência nacional aos líderes e cúmplices do Terceiro Reich, vão se tornando farsas na mesma medida em que se reduzem a manobras políticas de diversão.
Nada disso quer dizer que eu não tenha em conta a Alemanha e não leve a sério seu direito a resistir à espoliação econômica quando expresso meu horror diante da atitude dos Estados Unidos, essa grande ex-colônia que agora quer tratar a Europa, o berço da civilização ocidental, como se fosse uma colônia; um mero trampolim estratégico contra a Rússia; um amontoado de países cuja política interna pode ser ditada por quem os financia e os arma para que conduzam guerras por procuração. É de se prever que esses países não queiram fazê-lo, e seria um erro fatídico tomar a subserviência geral diante da riqueza americana por uma disposição a deixar a Europa inteira no estado em que ficaram Dresden e Würzburg em nome da dominação mundial dos Estados Unidos.
“O que falta aos povos não é a consciência do abismo que há entre o catálogo dos direitos humanos e a situação atrás da Cortina de Ferro, o que falta é a confiança na sinceridade daqueles que fazem política brandindo um programa de direitos humanos.” Talvez seja esta a frase mais importante já impressa pela revista suíça. Pois o que resta do programa quando chega a hora da política? Da noite para o dia, um país nacional-bolchevique como a Iugoslávia suscita nossa simpatia unicamente por seu desejo de romper com a reorganização russa do Leste e do Sul da Europa. Ao que parece, basta que o comunismo se associe a um separatismo nacionalista (que, no curso da história, também já se revelou fatídico) para que passe a nos agradar.
E não há algo de repulsivo na adulação de renegados comunistas, prontos a depor diante dos nossos committees contra seus camaradas de outrora e contra o país em que depositavam suas crenças, e cuja palavra vale mais que a dos cidadãos americanos que eles acusam dos mesmos crimes de que vão se livrando? Serei eu o único a sentir um mal-estar moral quando os vejo festejando esses tipos, cumulando suas denúncias com ouro, recebendo com indiferença essas megeras stalinistas que vendem a pele de seus irmãos no mercado?
Há algo de errado nisso, como há algo de errado com nossa indignação diante do terror russo, quando nós mesmos proscrevemos um professor do mundo acadêmico e o banimos com mulher e filhos para o deserto econômico – tudo porque, faz vinte anos, ele foi membro de uma organização juvenil que hoje estaria em alguma lista proibida. Não estou exagerando. Mas, por mais que eu reconheça diferenças de grau no que diz respeito à incerteza jurídica, o terror continua a ser o terror e a espionagem conduzida pela polícia secreta segue sendo o que sempre foi – mesmo quando levados a cabo sob pretextos democráticos. Se as coisas continuarem assim, logo não restará nada que possamos reprovar no comunismo: nem sequer no que diz respeito ao exercício livre da ciência pura, que não existe na Rússia, ao passo que entre nós... Ao passo que, entre nós, já em 1946 a revista Business Week podia escrever: “O financiamento à ciência pura por parte dos Estados Unidos se encontra hoje quase inteiramente sob controle do Exército. As necessidades militares norteiam a pesquisa científica [...]. É cada vez mais provável que a ciência pura acabe por se tornar um braço específico e permanente do Exército.” E um físico de renome da Universidade Stanford acrescentava em 1947: “Exército e Marinha empregam tantos cientistas em pesquisas de caráter militar que a pesquisa pura e a docência terminarão por sofrer as consequências [...]. Como o Exército favorece projetos que possam vir a ter valor militar, o conjunto da atividade científica acaba por se realinhar nessa direção.” Não bastasse isso, o presidente do Caltech, o dr. DuBridge,9 publicou há pouco um relatório de noventa páginas em que mostra como a pesquisa pura encontra-se hamstrung (tolhida), manietada pela prática federal de financiar agências cujo único fito é o desenvolvimento armamentista: é o caso do Estrutura Militar Nacional e da Comissão de Energia Atômica. Na hora de competir por verbas contra os poderosos interesses às voltas com a construção de navios, aviões e bombas militares, a ciência não tem como se sair bem – e isso não é tudo. Pois é crescente a pressão para ampliar o imperativo do segredo, estendendo-o da produção de armas ao terreno da ciência pura. Meio excelente, observa o dr. DuBridge, para aleijar a ciência, retirando-lhe as fontes de financiamento ou, melhor ainda, forçando-a a trabalhar em segredo. Não se fala de um terceiro método: a expulsão de cientistas capazes à menor suspeita de falha em suas convicções políticas.
Temo que logo mais os russos nos recriminem pela nossa manipulação estatal da ciência. Tais acusações e contra-acusações perfeitamente escolares são comuns no trato entre Estados. Quanto à arte, só ainda não a “manipulamos” porque ela nos é de todo indiferente. “Arte e política não têm nada a ver uma com a outra”, e por isso Ezra Pound pôde receber o Prêmio Bollingen. É o caso de se perguntar se T. S. Eliot também lhe teria outorgado o prêmio se o prestigioso lírico, em vez de fascista, tivesse sido um traidor comunista...10
O anticomunismo, como arma de agitação moral contra o esforço russo de criar uma aliança oposta à consolidação de dois terços dos meios econômicos e militares da Terra sob égide americana, será impotente enquanto não demonstrar nenhum interesse pela transformação de uma ordem mundial em que 1 bilhão de pessoas passam fome. O comunismo se compromete a sanar essa ordem mundial que o estado atual da ciência e da técnica torna indesculpável – daí provém seu apelo, seu poder de persuasão, e seus métodos crassos e terríveis importam nada ou quase nada aos olhos das massas famélicas, espoliadas e desprivilegiadas do planeta. Enquanto o mundo burguês não tiver nada para opor à promessa comunista além do ideal obsoleto de empresa privada, lucro, concorrência e luta pelo lugar mais alto, além de uma política que se esgota em levar a free enterprise (livre-iniciativa) ao maior número possível de países da Terra – enquanto durar esse estado de coisas, serão baixas as nossas chances de erradicar o comunismo.
Sempre me causa horror a histeria sem peias que uma palavra-fetiche como “comunismo” suscita hoje em dia. Há vinte anos, podia-se pronunciar e escrever (como eu fiz em um discurso sobre Goethe) coisas como: “O novo mundo social, o mundo organizado e planificado que poderá salvar a humanidade de sofrimentos indignos, desnecessários, que ofendem a razão; esse mundo está por vir; pois é preciso criar uma ordem racional que esteja à altura do nível atingido pelo espírito humano – no pior dos casos, ela será criada por uma convulsão violenta; só então a alma, a cultura e a arte poderão voltar a ter lugar legítimo entre nós.” Podia-se pronunciar ou escrever coisas assim e continuar a ser visto como homem de bem, ao menos até certo ponto. Hoje em dia, essas mesmas palavras disparam a ira unânime de todos os campeões da Guerra Fria, dos senhores rubicundos como das senhoras vociferantes, e são suficientes para desonrar uma biografia e uma obra para todo o sempre.
Pouco me importa ser considerado traidor por quem julga que a verdade é não americana. O povo americano merece ouvir a verdade, e creio que esse mesmo povo, profundamente inquieto e angustiado, já a adivinha e pressente.
Nada do que disse acima é de minha propriedade intelectual, não tenho aqui nenhum crédito nem orgulho em jogo. Extempore diz tudo isso e muito mais, e seus editores vão se dando conta de que, “ao contrário do que parece, não são poucas as pessoas que esperam por uma palavra que ouse se opor ao imperialismo econômico da nossa época”. Mesmo assim, a revista suíça merece todo o nosso apoio, para que seus artigos sejam reproduzidos, para que sua atitude firme e notável chegue ao conhecimento de um público maior. Extempore há de encontrar leitores devotos em todo o mundo, onde quer que as boas cabeças estejam fartas e enojadas diante das manchetes estúpidas e da caça às bruxas da imprensa vulgar.
Tradução de Samuel Titan Jr.
[1] Aufbau (Construção) foi uma publicação lançada em 1934 em Nova York por judeus europeus emigrados. Durante os anos da Segunda Guerra Mundial, o jornal teve entre seus colaboradores alguns dos principais escritores e intelectuais alemães e austríacos exilados nos Estados Unidos, como Thomas Mann. (Todas as notas são da Redação.)
[2] John Gilbert Winant (1889-1947) foi embaixador dos Estados Unidos no Reino Unido de 1941 a 1946 e um dos responsáveis pela aliança anglo-americana durante a Segunda Guerra Mundial.
[3] James Vincent Forrestal (1892-1949) foi primeiro-secretário do recém-criado Ministério de Defesa no governo de Harry S. Truman. Morreu depois de cair do 16º andar do hospital onde tratava de uma depressão. A história de que andava de pijama pela rua foi posteriormente contestada.
[4] Karl Liebknecht (1871-1919) foi político comunista alemão, fundador da Liga Espartaquista, junto de Rosa Luxemburgo. Ambos foram assassinados em 15 de janeiro de 1919. As “catacumbas” não existiram: tudo não passou de propaganda nazista.
[5] O senador americano Henry Cabot Lodge Jr. (1902-85) integrava o Partido Republicano.
[6] Depois da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro setores de ocupação pelos países aliados: a zona britânica (Noroeste do país), a zona americana (Sul), a zona francesa (Sudoeste) e a zona soviética (Leste).
[7] Guy Mark Gillette (1879-1973), na verdade, era senador pelo Partido Democrata.
[8] Os senadores republicanos Robert C. Hendrickson (1898-1964) e Irving Ives (1896-1962), e o democrata Claude Pepper (1900-89), todos eles críticos dos excessos do anticomunismo.
[9] O Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), em Pasadena. O físico americano Lee Alvin DuBridge (1901-94) foi seu presidente entre 1946 e 1969.
[10] Em 1949, o poeta Ezra Pound (1885-1972) foi agraciado com o Prêmio Bollingen de Poesia, concedido pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, a despeito de seu notório apoio ao fascismo italiano e da acusação de traição depois da Segunda Guerra. O poeta T. S. Eliot (1888-1965) fazia parte da comissão do prêmio.