Cartaz anticomunista americano dos anos 1950: “Sempre me causa horror a histeria sem peias que uma palavra-fetiche como ‘comunismo’ suscita hoje em dia”, escreve Thomas Mann - CRÉDITO: REPRODUÇÃO DA EXTINTA REVISTA STAG, COM UM FOTOGRAMA DO FILME DR. CYCLOPS, DE 1940
Cartaz anticomunista americano dos anos 1950: “Sempre me causa horror a histeria sem peias que uma palavra-fetiche como ‘comunismo’ suscita hoje em dia”, escreve Thomas Mann - CRÉDITO: REPRODUÇÃO DA EXTINTA REVISTA STAG, COM UM FOTOGRAMA DO FILME DR. CYCLOPS, DE 1940

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UM INÉDITO DE THOMAS MANN

Um ensaio de 1949 e suas lições para 2026

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O escritor alemão Thomas Mann escreveu o ensaio Anläßlich einer Zeitschrift (A propósito de uma revista) em 1949 como resenha de uma pequena publicação suíça que ele admirava por sua lucidez moral e sua coragem de narrar o mundo tal como era. O texto, feito possivelmente para o jornal nova-iorquino Aufbau, acabou não sendo publicado por Mann e só veio à luz décadas depois, em 1997, no volume póstumo Meine Zeit: 1945-1955 (Minha época: 1945-1955). Recentemente, a revista inglesa Equator divulgou boa parte do artigo, com uma introdução do ensaísta indiano Pankaj Mishra. Neste link, a piauí publica a primeira tradução da íntegra do artigo de Mann. A seguir, a introdução de Mishra: 



Em 1951, numa carta escrita em Los Angeles para o ensaísta Erich von Kahler, enquanto tentava por todos os meios deixar os Estados Unidos, onde vivia desde 1938, Thomas Mann (1875-1955) reproduziu uma piada que então circulava entre escritores e artistas alemães. Estavam todos livres para deixar a situação de exílio interno ou externo a que se viram reduzidos durante os longos anos do nazismo, fosse na Europa ou nos Estados Unidos. Contudo, à medida em que o establishment político americano dedicava-se a recrutar ex-nazistas para a Guerra Fria e a perseguir fanaticamente os socialistas em casa, uma nova modalidade de depravação política começou a criar raízes nas duas margens do Atlântico.

A piada registra essa nova realidade sinistra nos seguintes termos: dois amigos cruzam-se no meio do Atlântico, um vindo da Europa para Nova York, o outro na direção oposta. Avistando-se em alto-mar, os dois gritam ao mesmo tempo: “Você perdeu o juízo?”

Aos olhos de Mann, o sujeito a caminho dos Estados Unidos estava “um tantinho mais louco”. Depois da guerra, a Europa Ocidental se convertera numa “miserável colônia americana”, mas Mann confiava que a “mentalidade europeia não chegaria ao nível de infantilismo bárbaro que temos aqui”. Ele se perguntava, tomado de desespero: “Alguém jamais teve que respirar numa atmosfera tão envenenada, tão completamente saturada de baixeza idiota?”

A repulsa de Mann pela cultura política e jornalística de seu país adotivo não tem como não encontrar eco hoje em dia, à medida que a “baixeza idiota” vai se tornando a aspiração geral do segundo governo Trump. Mas vale recordar que um tal ataque de ira era bem pouco típico de um escritor tido como encarnanação da ironia altaneira. Seu “antiamericanismo” chama ainda mais a atenção quando levamos em conta que, dentre os escritores “dissidentes”, Mann foi o mais festejado pela elite americana do século passado. O detentor do Prêmio Nobel apareceu na capa da revista Time em 1934 e recebeu um título honorário de Harvard em 1935. Como residente permanente dos Estados Unidos, ele se dedicou a alertar o público sobre o fascismo, partiu em turnês de palestras, testemunhou diante do Congresso e falou constantemente no rádio contra o Terceiro Reich.

Seu editor, Alfred A. Knopf, saudou-o como o mais perigoso inimigo de Hitler. (O que é um exagero: essa distinção literária cabe ao escritor soviético Ilya Ehrenburg, que animava um Exército Vermelho sequioso de vingança a avançar até Berlim em suas colunas lidas por todos.) Muitos americanos reve­renciavam Mann como o escritor europeu por excelência, dotado de superior seriedade e complexidade intelectual. Ele próprio tinha profunda gratidão pela hospitalidade americana e inúmeras vezes fez o elogio da democracia. Mann tornou-se cidadão americano em 1944.

Mas a súbita morte do presidente americano, no ano seguinte, causou uma mudança radical na percepção de Mann. As intervenções sociais, políticas e culturais de Franklin D. Roosevelt haviam despertado simpatia e admiração entre muitos exilados alemães, fossem eles comunistas, socialistas ou liberais. A seus olhos, Roosevelt representava uma alternativa genuinamente democrática aos líderes fascistas e imperialistas da Europa. A substituição de Roosevelt por um dono de armarinho falido do Missouri, Harry S. Truman, marcou a decadência do libera­lismo americano, das alturas do New Deal ao atoleiro paranoico da Guerra Fria.

O anticomunismo, parasitando uma inflação deliberada das capacidades soviéticas, logo tomou o lugar do antifascismo como credo do establishment americano. Mesmo os vagos sentimentos humanitários de muitos exilados nutriram grossas pastas nos arquivos do FBI; Einstein mereceu cerca de 1,5 mil páginas dedicadas a suas opiniões políticas. Dois dramaturgos de esquerda, Lion Feuchtwanger e Bertolt Brecht, foram atacados tanto por periódicos respeitáveis como pelos tabloides de William Hearst. O jornal The New York Times descreveu o escritor Egon Erwin Kisch como “espião russo”. Em 1949, a revista Life publicou uma galeria de “inocentes úteis e companheiros de viagem” dedicados à constituição de uma “frente comunista”.

Mann estava longe de ser comunista, muito embora – como muitos antifascistas – tendesse a prodigalizar elogios à União Soviética por sua luta decisiva e sanguinolenta contra a Alemanha nazista. Mesmo assim, ele acabou por ser incluído na lista da Life, ao lado de Einstein e Charlie Chaplin. Sua filha Erika Mann (1905-69), que fora informante do FBI, teve seu pedido de naturalização americana repetidamente negado; em protesto, ela cancelou sua solicitação em 1950.

À maneira de George Orwell, que vira a guerra contra Hitler como caminho rumo ao socialismo, Mann nutrira a esperança de que o mundo do pós-guerra se abriria para uma ética cosmopolita, fundada na rejeição da ideologia nacionalista e capitalista. Num ensaio de 1940 intitulado A guerra e o futuro, ele acenava para um futuro voltado “à nova ideia de uma comunidade mundial e de uma restrição às soberanias e autonomias nacionais”. “Nosso exílio e a diáspora de muitas culturas”, escreveu, “são apenas o prelúdio desse novo estado de coisas”. 

Durante a guerra, Mann depositou suas esperanças nos Estados Unidos; a rápida guinada do pós-guerra na direção de um Estado policial foi um choque para ele. Não tinha mais que desprezo pelos campeões americanos da Guerra Fria e via com simpatia aqueles que, de caso pensado, se mantinham a distância, como Jawaharlal Nehru. Numa carta de 1949 a Hermann Hesse (cuja mãe nascera na Índia), Mann relatava seu encontro com o primeiro-ministro hindu em São Francisco: “Um homem encantador, sensível, inteligente – sem dúvida mais inteligente que as pessoas que governam este país.”

Nesse mesmo ano, escreveu o ensaio reproduzido a seguir, sobre a revista Extempore, convicto de que o “terrível declínio moral” dos Estados Unidos era irreversível. Muito do que Mann escreveu continua inatacável em 2026. Os Estados Unidos apoiam os déspotas do Oriente Médio petroleiro, sempre em nome da liberdade e da democracia, ao mesmo tempo que seguem ignorando práticas de banditismo e espoliação disfarçadas de “livre-iniciativa”. A mídia americana segue com seus métodos de “nevoeiro fascista” perante verdades desagradáveis. Os europeus continuam com sua “subserviência” diante da “riqueza americana”. Ao terminar de escrever o ensaio, Mann confiou a seu diário: “Publicá-lo demanda muita reflexão, uma vez que pode causar minha queda neste país.”

Um ano mais tarde, Mann devia se dirigir à plateia de uma reunião no hotel Beverly Wilshire. O evento foi cancelado – mais uma das tentativas de silenciá-­lo. Contando o incidente numa carta a Theodor Adorno, ele acrescentou:

O ódio, o gosto pela perseguição, a demonização de atitudes e opiniões, o silêncio forçado, a hipocrisia sem nome, a mentira e a pose devota, a debilidade insanável e a reticência acovardada de quem sabe que as coisas não são assim, o mero fato de que alguém como [o senador Joseph] McCarthy não tenha como ser neutralizado, que ele possa contar com mais e mais apoio financeiro, que suas técnicas e seus métodos sórdidos [de perseguição de supostos comunistas] tenham se tornado de praxe – tudo isso só faz me encorajar a partir de novo. Mas partir para onde?, você naturalmente perguntará. E você tem razão, não há lugar onde se escape a essas coisas. 

Hoje, são muitos os que partilham da visão de Mann. Muitos exilados e fugitivos perguntam uns aos outros “Você perdeu o juízo?” quando se cruzam em algum lugar da Ásia, da África, da Europa ou da América Latina. Mas o ativismo literário de Mann em suas últimas décadas de vida demonstrou de modo magnífico (como se verá no ensaio abaixo) que a dignidade e a autonomia do espírito devem ser defendidas por todos os meios quando as sociedades são devastadas por forças corruptas e filistinas. Publicações comprometidas explicitamente com um éthos internacionalista e cosmopolita ainda podem servir de refúgio contra as “manchetes estúpidas” e “a caça às bruxas da imprensa vulgar” e ir além dos “slogans vazios e corrosivos destes nossos dias”. Em tempos de extremo desabrigo intelectual e espiritual, elas podem vir a ser um segundo lar.


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É escritor e ensaísta indiano, cofundador da revista Equator.