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BATISMO DE URNA

Um linguista estuda os apelidos na política brasileira
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026

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Aos prantos, Vanessa Silva, de 45 anos, solta o verbo em um vídeo nas redes sociais: “Eu fui tratada como um bolo de merda aqui dentro do Partido Liberal. Isso é inadmissível.” Bolsonarista de longa data, Silva diz que foi barrada na sede nacional do PL, em Brasília, porque há um complô dentro do partido contra os aliados mais ferrenhos de Jair Bolsonaro. Aproveitou para afirmar que essa situação era uma injustiça comparável à que sofreu no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio de Janeiro, que a impediu de usar na urna eletrônica o nome pelo qual é mais conhecida: Negona do Bolsonaro 

Silva foi candidata pelo PL a deputada federal nas eleições deste ano. O TRE barrou seu apelido não por causa da palavra “negona”, mas do uso do sobrenome Bolsonaro. De acordo com o tribunal, isso poderia induzir o eleitor a pensar que Silva tem algum parentesco com o ex-presidente, hoje em prisão domiciliar. Em 2024, quando buscou a vereança no Rio (e não se elegeu), Silva também foi proibida de se apresentar ao eleitor como Negona do Bolsonaro.

Muitos outros candidatos passaram por enroscos similares no registro eleitoral. Houve quem tentasse camuflar o nome desejado no meio do sobrenome, como Bruno Scheid. Ele disputou uma vaga no Senado pelo PL de Rondônia e quis se apresentar como Bruno Bolsonaro Scheid. O TRE barrou o subterfúgio. Scheid recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – e perdeu. 

Até 2024, a Justiça Eleitoral era leniente com o emprego de sobrenomes famosos, prática que foi empregada Brasil afora, como mapeou o linguista Welber Nobre, de 31 anos, da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes). 

Em sua tese de doutorado pela UFMG, Nobre analisou nomes de urna usados em nível estadual em diversas regiões do país. Juntou um imenso volume de dados, a partir do qual criou classificações linguísticas para dar conta da política eleitoral deste país que já elegeu um deputado federal chamado Tiririca. “O nome de urna é a estratégia discursiva e argumentativa mais importante do político, porque o primeiro contato que o eleitor tem é com o nome”, explica o pesquisador. 

A classificação de Welber Nobre parte de duas categorias principais: nomes de candidatos que se limitam a discretas mudanças no que consta em seu registro civil e “nomes divergentes”, que fogem bastante do nome oficial. É nestes últimos que ele concentra o interesse principal da pesquisa. Do total de 5.403 nomes que analisou em eleições entre 2002 e 2022, constatou que 25,3% são divergentes.

No mestrado, Nobre estudou a concordância nominal no português oral de Montes Claros, sua cidade natal, em que o plural nem sempre é empregado na fala cotidiana, em especial nas palavras de uso geral, como “trem”, “negócio”, “povo” e “coisa” (por exemplo: “Uns povo quis bater no irmão dela”). 

Em 2020, durante a pandemia, ele cursou uma disciplina sobre nomes próprios que o encaminhou para outra área de estudos. Aprendeu que nomes são muito mais que meros registros burocráticos. “Até então, eu nunca tinha parado para pensar que o nome próprio poderia ser objeto de um estudo linguístico, gramatical”, diz Nobre. “O nome próprio tem uma fonética, tem uma morfologia, tem uma sintaxe.” Católico, Nobre logo se lembrou de quando Jesus “rebatizou” Simão como Pedro, para sinalizar que o apóstolo seria a pedra de fundação da sua igreja. Há outros casos na Bíblia: Jacó virou Israel, e Saulo virou Paulo.

Também os políticos são rebatizados. O deputado estadual Juliano Franczak, pelo pp do Rio Grande do Sul, transformou-se na urna em Gaúcho da Geral, apelido que vem de sua ligação com a torcida do Grêmio. Neste caso, diz Nobre, a escolha foi por um apelido pitoresco, o que demonstra criatividade no marketing eleitoral. Esse recurso, segundo sua tese, costuma ser mais frequente na Região Norte, onde em 2022 o acreano José Luís Schafer (PDT) elegeu-se pa­ra a Assembleia Legislativa de seu estado com um apelido gaúcho: Tchê. Também no Norte, o militar reformado Milton Rogério Moreira Pinto nas eleições deste ano candidatou-se ao Senado pelo Mobiliza (antigo Mobilização Nacional) com o nome Xuxa do Amazonas. 

Outras mudanças ou acréscimos carregam contextos sociopolíticos. É o caso dos candidatos que adicionam a profissão no nome de urna: professor, doutor, cabo, capitão, delegado, pastor. No levantamento, Nobre constatou que “professor” está mais associado a partidos de esquerda, enquanto “doutor” é mais típico da direita. Títulos militares e religiosos (na maioria cristãos) são mais comuns entre políticos de direita. 

O nome divergente que Vanessa Silva, a Negona do Bolsonaro, foi proibida de adotar se encaixa em uma subcategoria que Welber Nobre define como “oportunismo onomástico”. É o que se verifica quando um candidato sem grande projeção pega carona no capital político de nomes mais vultosos, como Bolsonaro ou Lula. 

Existem também os casos que Nobre identifica como “oportunismo reverso”: candidatos que empregam, de forma paródica, o nome de um adversário político. É o que ocorreu com o Lula do Bem, um médico bolsonarista (cujo nome original é Célio Morais) que se lançou a deputado federal pelo PL de São Paulo, tentando capitalizar às avessas em cima da sua semelhança física com o presidente petista. 

Em Minas Gerais, outro sósia tentou explorar nesta eleição a fama de um presidente estrangeiro. Plínio Vicentin Junior, um piloto de avião de tez avermelhada, cabelo loiro e semblante carrancudo, se transformou em Plínio Trump, com a esperança de desembarcar na Câmara dos Deputados a bordo do Partido Novo. 

Nobre acredita que a criatividade na escolha de nomes de urna tem se esvaído nos últimos anos. O Brasil já foi um país mais bem-humorado, com candidatos a deputado e senador que se registravam como Piu-Piu, Alicate, Jacaré, Riquinho, Xeroso, Tranquilo, Ninguém, Churros, Banha, Zebrinha, Espeto, Pipoca, Bolinha, Borracha e Coxinha, como documenta o trabalho do linguista. Mas ele adverte que, na maior parte das vezes, a criatividade não é eficiente em termos eleitorais. Dos quinze candidatos acima, apenas seis foram eleitos.


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