Michelle em imagem do vídeo no qual desancou Flávio: para aliados de Bolsonaro, o rosto delicado dela encobre um temperamento irascível e pouco solidário com o marido e os enteados - CRÉDITO: REPRODUÇÃO
Michelle em imagem do vídeo no qual desancou Flávio: para aliados de Bolsonaro, o rosto delicado dela encobre um temperamento irascível e pouco solidário com o marido e os enteados - CRÉDITO: REPRODUÇÃO

vultos da extrema direita

COM A CRUZ E A ESPADA

Odiada pela família Bolsonaro, Michelle alça voo solo na política

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Michelle Bolsonaro olhou fixo para a câmera e com voz firme, sem disfarçar a irritação, iniciou o vídeo que logo acenderia um alerta vermelho na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, seu enteado. Trajando uma camisa azul-marinho, com estampa de coração e clichês motivacionais, como “domínio próprio”, “alegria” e “amor”, ela se dirigiu “em especial às mulheres de bem” e começou sua ofensiva. “Para não expor a minha família, fiquei calada por muito tempo”, disse. “Mas tem um limite para o quanto uma pessoa consegue aguentar ataques e mentiras.”

Era quarta-feira, 24 de junho. Michelle se referia às desavenças que tivera com Flávio a respeito da escolha dos candidatos ao governo do Ceará e ao Senado pelo mesmo estado. À frente do PL Mulher, ela defendia a pré-candidatura de Eduardo Girão para governador e de Priscila Costa para o Senado, ambos do PL. O grupo de Flávio, contudo, apostou na aliança com Ciro Gomes, do PSDB, para o governo do Ceará e em outros dois nomes para o Senado, um deles do PL. Foi uma escolha pragmática de Flávio, a fim de conseguir apoio à sua candidatura presidencial. Mas Michelle não engoliu o desprezo à sua opinião. 

Inconformada com o que considerou uma traição, ela gravou o vídeo no qual, durante longos 27 minutos, desancou o enteado. Atacou também os outros filhos de seu marido – Eduardo, Carlos e Jair Renan –, acusando-os de, junto com Flávio, agirem de forma “coordenada e combinada” contra ela. Diante do vídeo, estava a madrasta traiçoeiramente hostilizada pela gangue dos enteados. 

Não parou aí. Sentada diante de uma mesa sobre a qual havia uma taça lilás com água, a escultura dourada de uma mão sinalizando em Libras a frase I love you e uma estrela de Davi, tendo ao fundo uma parede com quadros que pareciam diplomas emoldurados, ela fez outros disparos. Investiu contra os blogueiros Paulo Figueiredo – neto do general João Baptista Figueiredo, o último ditador do ciclo militar – e Allan dos Santos. Ambos vivem hoje nos Estados Unidos, de onde tentam tocar fogo no debate político no Brasil, valendo-se dos contatos que têm com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Condenado pela Justiça brasileira e considerado foragido, Santos já reivindicou ao governo americano o status de asilado político. 

No vídeo, Michelle explicou aos seus seguidores a razão de não apoiar Ciro Gomes. “Ele é inimigo do meu marido. É um dos principais responsáveis por ele estar na cadeia”, disse, lembrando que Ciro “chamou Jair de corrupto várias vezes, e os filhos, de bandidos”. Para deixar claro que sua opinião deveria ter pesado no conchavo cearense, lembrou seu papel na busca do voto feminino para o PL. “[Em 2024] Elegemos 45,8% mais mulheres que em 2020. Foram 1 005 mulheres eleitas.” 

Com uma raiva indomável no olhar, Michelle afirmou ainda que a situação dela junto à família Bolsonaro e aos aliados dos irmãos começou a se deteriorar quando seu marido foi levado de volta para a cela da Polícia Federal, após tentar destruir a tornozeleira eletrônica. “Logo depois desse dia, pessoas que se diziam fiéis ao meu marido, que se gabavam e lucravam por se dizerem bolsonaristas, se apressaram em me atacar, em me humilhar, em dizer que eu estaria – desculpe a palavra – cagando para o meu marido. Alguns desses influenciadores estavam nos Estados Unidos e, de lá, induziam pessoas ao erro e comandavam os ataques gratuitos covardes contra mim.” 

A relação com Flávio, que já era ruim, se deteriorou de vez depois do episódio no Ceará. Negar a vaga a Priscila Costa, candidata que Michelle escolhera, fora uma dupla “traição”: ao pai dele e a ela mesma. “Mas o que aconteceu quando eu voltei para Brasília foi muito pior”, acrescentou. Ela se referia às postagens nas redes sociais em que Flávio a criticou, atribuindo à madrasta a confusão criada no Ceará. Em tom dramático, Michelle afirmou: “Foi uma punhalada.”

Mantendo a expressão de ira, ela deu a sua versão sobre o comportamento do enteado. “Ele foi muito ríspido. Me desrespeitou e me maltratou ao telefone, e eu não tinha feito nada contra ele”, afirmou. “Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Que eu havia chegado ontem e não entedia nada de política. Diante dessa humilhação, [...] entendi que ele não queria o meu apoio e que este era insignificante.” 

Michelle, então, abandonou a linguagem da espada e voltou-se para a da cruz. “Eu já liberei o perdão faz muito tempo. Eu não carrego rancor no coração”, disse. “Eu entrego tudo nas mãos de Deus. Todo o mal que me fazem. É ao meu Deus que essas pessoas prestarão contas. [...] Perdoar não é o mesmo que esquecer ou querer continuar o relacionamento. Posso perdoar de coração e ainda assim reconhecer que aquela relação não é saudável. [...] Meu futuro político está nas mãos de Deus. Ele providenciará tudo.”

O desabafo de Michelle, postado em seu perfil no Instagram, repercutiu imediatamente nas redes sociais tanto da direita, quanto da esquerda. Para Flávio e sua equipe, foi uma perturbação. Aos 44 anos, a ex-primeira-dama, que concorreu nas últimas eleições à vaga de senadora pelo Distrito Federal (tendo como suplente o seu irmão Diego Torres Dourado, o que causou mal-estar entre os políticos do PL) é hoje uma das maiores lideranças femininas do país, principalmente junto aos evangélicos, que representam cerca de 30% do eleitorado brasileiro, algo entre 40 e 45 milhões de pessoas, segundo estimativas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). 

A fala carregada de rancor de Michelle tinha potencial para fazer estragos na campanha do seu enteado. Embora naquele momento Flávio contasse com 64% dos votos dos evangélicos (contra 36% de Lula), o maior empenho de sua campanha era atrair o eleitorado feminino, que representa 53% do total. Naquele mês de junho, quando o vídeo de Michelle atingiu a campanha de Flávio, o Datafolha registrou que a situação do candidato da extrema direita junto às mulheres era muito desvantajosa: 52% das eleitoras estavam fechadas com o presidente Lula, contra 37% que diziam apoiar Flávio. 

O vídeo de Michelle chamando Flávio de desrespeitoso, grosseiro e desleal, tinha, portanto, potencial para devastar a imagem do candidato entre as mulheres, sobretudo as evangélicas. Para complicar, em 25 de junho, um dia depois do bombástico apelo da madrasta, Paulo Figueiredo fez uma live misógina, sugerindo que as mulheres não sabem votar e que deveriam acompanhar o voto de seus maridos. Afrontou abertamente Michelle e o PL Mulher ao dizer que as iniciativas voltadas ao eleitorado feminino não estavam funcionando para a direita.

Era preciso agir rápido para conter a sangria. Logo, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e várias aliadas políticas se empenharam em controlar a fúria de Michelle. Entre elas, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP), suas duas melhores amigas. A deputada federal Bia Kicis (PL-DF) – indicação de Michelle para a segunda vaga ao Senado no Distrito Federal na eleição deste ano – também entrou em campo para tentar baixar a temperatura entre a madrasta e o enteado. Só colocou gasolina na fogueira ao dizer que as brigas, para não prejudicar as candidaturas da direita, deveriam ser travadas internamente, e não nas redes sociais. Foi vista como traidora de Michelle.

Na verdade, pesquisas feitas logo após o episódio mostraram que, embora 62% das mulheres e 45% dos homens tenham dito estar a par da polêmica, a situação entre as eleitoras não tinha sofrido mudança significativa: um maior número delas continuava apoiando Lula, mas os números de Flávio no segmento feminino não haviam despencado.

Por causa de sua declaração pouco solidária, Kicis quase entrou na lista de desafetos da ex-primeira-dama, pois Michelle não gosta de ser contrariada. Essa teimosia, aliada ao seu voluntarismo, fazem com que seja considerada um problema pela tropa de homens que cerca Jair Bolsonaro. Como me disseram alguns dos atuais parceiros e ex-­aliados dele, Michelle é uma pessoa de trato difícil. Se toma uma decisão, raramente volta atrás, atitude que se tornou um dos principais motivos de suas constantes brigas com o marido, com os filhos dele e com os correligionários.

No caso de Flávio Bolsonaro, isso ficou patente. O candidato tentou colocar panos quentes na situação. No dia 23 de julho, divulgou um vídeo pedindo desculpas a Michelle pelos episódios que provocaram um “desconforto” entre os dois e a chamou para integrar a campanha. A estratégia não funcionou. Dois dias depois, em 25 de julho, quando foi realizada a Convenção Nacional do PL de confirmação da candidatura de Flávio para a Presidência, no Mercado Pago Hall, na Arena de Pacaembu, em São Paulo, Michelle não apareceu. Alegou uma enxaqueca paralisante. Sua “presença” na convenção se resumiu a um totem em tamanho real com a imagem dela e do marido e a um vídeo que gravou para ser exibido no evento. 

O vídeo, porém, não transmitiu exatamente a ideia pretendida: ser uma manifestação de apoio a Flávio. Michelle falou muito mais dela mesma, de Jair Bolsonaro – a quem faz questão de se referir publicamente como “meu galego” – e das mulheres que a apoiam no PL Mulher do que de Flávio. Ela só se referiu ao enteado, em poucos segundos, dizendo desejar a proteção de Deus para a campanha dele. 

Integrantes do partido se apressaram em dizer que Michelle estava realmente com uma forte enxaqueca e que, para poder ir a um hospital tratar do problema, precisou inclusive pedir autorização à Justiça para que sua irmã ficasse na casa dela com Bolsonaro. Por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, apenas Michelle e suas duas filhas – Letícia e Laura – podem ficar na casa em que Bolsonaro cumpre prisão domiciliar. Letícia é filha de um relacionamento anterior de Michelle. Laura é filha dela e Bolsonaro, depois que ele, pai de quatro homens, deu “uma fraquejada”, como disse uma vez ao se referir à jovem, hoje com 15 anos. 

Atuais e antigos aliados de Bolsonaro não se surpreenderam com a atitude de Michelle no vídeo. Para eles, o rosto delicado dela é apenas a fachada que encobre o seu temperamento irascível e “pouco solidário” ao marido e aos enteados. “Só o Bolsonaro, que é um velho babão, não entende isso. Michelle nunca foi parceira dele”, me disse um amigo do ex-presidente. “Quantas vezes ela apareceu ao lado dele durante a campanha e mesmo durante o governo? Ele só ficava cercado daqueles milicos. Toda hora ela inventava uma desculpa para não comparecer aos eventos. A não ser naqueles em que seria a estrela.”

A relação conflituosa de Michelle com os correligionários de Bolsonaro é antiga. Vem de antes da campanha do seu marido à Presidência, em 2018. Para começar, ela não deixava ninguém do entorno político de Bolsonaro entrar na casa deles no condomínio em que viviam na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro (no momento, em razão da prisão domiciliar de Bolsonaro, o casal mora em uma casa alugada pelo PL em Brasília, o que pode ser considerado irregular).

Quando Bolsonaro se lançou candidato, Michelle também não permitia filmagens na residência do casal. Com as limitações impostas por ela, as gravações da campanha ocorriam na casa de Carlos Bolsonaro, no mesmo condomínio. Outra solução foi transferir as filmagens para a mansão do lobista e empresário Paulo Marinho no bairro do Jardim Botânico. Michelle costumava frequentar o local, que tem uma vista esplêndida para a Lagoa Rodrigo de Freitas, mas não deixou boas recordações ali. 

Foi nessa casa que ela, ao saber da facada sofrida por Bolsonaro em Juiz de Fora, pediu que o filho de Paulo Marinho, o youtuber André Marinho, conhecido por suas imitações de políticos, a abraçasse e imitasse a voz do marido em seu ouvido. O rapaz assentiu, constrangido – história que ele próprio contou no seu livro O Brasil (não) é uma piada, sobre a campanha eleitoral de 2018. 

Embora fosse suplente na vaga conquistada por Flávio Bolsonaro no Senado naquele ano, Paulo Marinho acabou rompendo com ele e Jair Bolsonaro após a eleição. Depois do rompimento, queixou-se a amigos que Michelle tinha roubado a sua cozinheira, o que foi visto como um sinal de deslealdade. “Nossa empregada estava conosco havia anos, e a Michelle não se envergonhou de tirá-­la de nós”, contou Paulo Marinho para um grupo de amigos. Ele voltou às boas com os Bolsonaro, depois que André Marinho se lançou candidato ao governo do estado do Rio de Janeiro nas eleições deste ano e se aliou a Flávio. 

Na casa de Jair Bolsonaro na Barra, o clima sempre foi tenso. “Michelle não dava nem bom-dia. Nós não podíamos passar da varanda da casa, embora tivéssemos assuntos importantes para tratar com Bolsonaro”, me contou Julian Lemos, que, na campanha de Bolsonaro em 2018, atuou como fiel escudeiro do candidato, ao lado do advogado Gustavo Bebianno (que foi deputado federal pelo PSL). Nas eleições deste ano, Lemos se candidatou a deputado federal pelo PP da Paraíba e apoiou Lula. Hoje, ele tem uma visão muito negativa de Michelle, do ex-presidente e de seus filhos. Em sua página no Instagram, fez pesadas críticas a Bolsonaro e Flávio, que classificou como “o candidato mais despreparado de todos” para assumir a Presidência da República. Isso sem falar das insinuações de corrupção, violência e ligação do candidato com a milícia e o crime organizado. 

Pedi que Lemos me fizesse um relato da sua experiência com os Bolsonaro. Ele contou que conheceu o ex-presidente em 2015. Dois anos depois, junto com o deputado Delegado Fernando Francischini, conseguiu “comprar” o PSL do ex-deputado Luciano Bivar para que Bolsonaro pudesse ter uma legenda para concorrer. “Bolsonaro morria de medo de se filiar a alguma legenda e depois ser passado para trás, já que é muito comum a venda das legendas nanicas para outros candidatos”, disse Lemos.

Na convivência com a família em 2018, Lemos percebeu as relações conturbadas entre todos. Carlos mal falava com o pai, por causa do casamento com Michelle. “Ela nunca foi aceita pela família. É o arquétipo da madrasta odiada pelos filhos do marido, entende? Ela nunca se integrou àquela família, sempre foi a indesejada. E também detestava todos eles”, contou Lemos. Segundo ele, a imagem do casal harmonioso que ela e Bolsonaro tentam construir é completamente falsa. “Olha, o Jair é uma tragédia nos relacionamentos amorosos. Ele é fraco em tudo. Ele é grosso, é estúpido, é mal-educado, é avarento. Tem mau hálito. Nunca foi provedor de mulher”, me disse Lemos. “Então, essa história de casal perfeito, para começar, não existe. Eu até entendo a dificuldade dela nesse relacionamento.”

Na avaliação de Lemos, tudo contribuía para o desconforto de Michelle entre os Bolsonaro. “O Carlos sempre foi estranho. É o nível de estranheza daquele espírito ruim da novela A viagem, que fica perturbando todo mundo”, disse. (Na novela, o espírito do personagem Alexandre, movido por ressentimento e sede de vingança, não para de atormentar os vivos.) Flávio, por sua vez, vivia isolado, “metido com aqueles negócios dele de rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio”, continuou Lemos. Na época, Flávio era deputado estadual e morava em um apartamento gigantesco na Barra da Tijuca, que “claramente não condizia com seus vencimentos” na Assembleia. Além disso, mantinha em seu gabinete a mãe e a irmã “daquele ex-capitão e miliciano que ele condecorou e que seria morto depois, numa troca de tiros com a polícia, na Bahia”. (Ele se refere ao policial militar Adriano da Nóbrega, cuja morte em 2020 até hoje não foi muito bem explicada.) 

Eduardo Bolsonaro era em 2018 deputado federal por São Paulo. “Antes, tinha um empreguinho de escrivão na Polícia Federal [do qual foi demitido neste ano por abandono de cargo] e, pelo que sei, era um tremendo de um preguiçoso. Só gostava de surfar e fazer outras coisas menos lícitas”, disse Lemos. Michelle, por sua vez, “era uma figura simples, vinda da periferia de Brasília”, nas palavras do político. “Ela tinha um Corolla velho que usava para levar a filha dela com Jair para o colégio. Ela não tinha espaço naquela família. A energia é muito ruim. Eles brigam sem parar. Ali, até um touro adoece.” 

Durante a campanha presidencial de 2018, Michelle raramente aparecia. “Ela nunca esteve ao lado do Bolsonaro. Só vai aparecer uma vez, gravando um vídeo na casa de Paulo Marinho”, relembrou Lemos. Apesar disso, a sua desenvoltura diante da câmera impressionou a todos desde o primeiro momento. “Parecia que ela sempre tinha feito aquilo”, me disse Marinho.

Logo depois da vitória nas urnas, o casal participou de uma reunião em São Paulo, na cobertura do advogado Fabio Wajngarten, que trabalhava como assessor de Bolsonaro e seria o seu porta-voz na Presidência. Concluíram que era preciso dar um banho de loja em Michelle, que, como Bolsonaro, não sabia como se comportar no novo ambiente de políticos e empresários. Foi a mulher de Wajngarten que ajudou a repaginar a nova primeira-dama, levando-a até o estilista Ricardo Almeida.

No dia da posse, Michelle surgiu altiva no parlatório, trajando um vestido de seda rosa-claro feito por Marie Lafayette, inspirado em modelos usados por Jacqueline Kennedy e Grace Kelly. Os cabelos longos, tingidos de loiro, o rosto delicado e o sorriso discreto lhe conferiam um ar de princesa da Disney. Sua aparência correspondia à imagem que os eleitores de Bolsonaro esperavam de uma primeira-dama: uma mulher recatada, bonita e companheira. Essa representação foi construída como contraponto à imagem das mulheres de esquerda, retratadas pela extrema direita como “masculinizadas”, “desleixadas”, “sem fé” e “contrárias aos valores da família”. 

Para surpresa geral, na posse, Michelle se dirigiu à multidão em Libras, com a naturalidade de quem parecia ter nascido para aquele momento. Atraiu a atenção, expondo o seu carisma. Sua presença trouxe leveza ao parlatório e contrastou com a tensão permanente de Bolsonaro, com seu sorriso travado, o linguajar chulo e os gestos grosseiros. Contrastou também com a imagem dura da ex-presidente Dilma Rousseff, deposta em 2016, e da anódina mulher de Michel Temer, Marcela Temer. 

No dia seguinte à posse, um dos assuntos na mídia foi a aparição da primeira-dama. Naquele instante, ela se tornou “protagonista da história”, nas palavras de um ex-aliado de Bolsonaro. 

Michelle tinha 36 anos. Até chegar ali percorrera uma trajetória conturbada, bem distante do conto de fadas que encenou na posse do marido. “Ela é uma sobrevivente”, me disse um ex-integrante do governo Bolsonaro. “E todo sobrevivente, você sabe, aprende a se virar. Alguns dão certo. Foi o caso dela.”

Michelle de Paula Firmo Reinaldo nasceu em 22 de março de 1982, em Ceilândia Norte, na periferia de Brasília, quando essa região era a área mais pobre da capital federal, com pouquíssimas ruas calçadas e um longo histórico de violência. Ela vivia com os pais na casa da avó, Maria Aparecida Firmo Ferreira. O pai, Vicente de Paulo Reinaldo – conhecido como Paulo Negão –, viera do Ceará e trabalhava como motorista de ônibus. A mãe, Maria das Graças Firmo Ferreira, mudara de Minas para Brasília ainda pequena e era faxineira. Na mesma casa em que moravam Michelle, seus pais e avó, viviam também dois tios maternos. 

A residência era simples – uma meia-­água com telhado de amianto. Estive lá no começo de agosto. Na parte da frente da casa funciona hoje uma oficina, e os atuais moradores me disseram não ter tido contato com Michelle. Sugeriram que eu falasse com os vizinhos mais antigos. Uma senhora idosa me contou que Michelle e seus pais “eram gente tranquila”. A avó, porém, “era uma arruaceira”. “Ela criava caso e comprava briga com todo mundo na rua”, me disse a senhora. A família deixou o bairro quando Michelle ainda era pequena, e a vizinha não teve mais contato com ela.

A mudança foi para a comunidade Sol Nascente, uma área muito mais degradada que Ceilândia Norte e que é hoje considerada a maior favela do Brasil, depois da Rocinha, no Rio de Janeiro. Lá, os pais de Michelle se separaram. Vicente Reinaldo casou-se novamente e teve três filhos. 

Na favela Sol Nascente, a vida não era fácil. Nessa época, a avó chegou a ser presa por tráfico de drogas, notícia que só foi revelada quando Michelle já era primeira-dama. A mãe também foi detida por falsidade ideológica e se meteu em outra encrenca com a Justiça depois de acertar uma pedra no rosto de um vizinho. Situação ainda pior foi a dos dois tios maternos que dividiam a casa com a família de Michelle. Um deles, Gilberto Firmo, foi preso em 2025, acusado de pedofilia e de armazenar material de exploração sexual infantil. Depois, voltou à cadeia, por causa de roubo de veículos. Ao saber do ocorrido, Michelle considerou o comportamento do tio por pedofilia “vergonhoso” e disse não ter contato com ele. O outro tio, o policial militar João Batista Firmo Ferreira, também foi preso, acusado de integrar uma organização criminosa de milicianos, envolvida com extorsão, grilagem de terras e homicídios na região de Sol Nascente.

Criada num ambiente tão conturbado e próximo da criminalidade, Michelle precisou lutar pela vida por conta própria. Vendeu laranja em sinal de trânsito e trabalhou como jovem aprendiz no supermercado Carrefour, onde chegou a se fantasiar de embalagem de panetone para fazer publicidade do produto. Aos 20 anos, solteira, teve a filha Letícia Firmo, hoje com 23 anos. Nessa mesma época, começou a trabalhar no escritório de Brasília da produtora de vinhos Aurora, onde, com a ajuda de sua bela estampa, iniciou a ascensão na vida e, depois, na política.

Foi na Aurora que, em 2005, ela conheceu o brigadeiro Átila Maia – de acordo com o podcast Michelle, produzido pelo site de notícias UOL. Com o dobro da idade dela, Átila Maia viria a se tornar seu protetor e depois seu amante. O brigadeiro contou no podcast que foi ele quem pagou a primeira viagem de avião de Michelle, para que ela fizesse um curso de sommelier em Porto Alegre. Também a levou à praia pela primeira vez. 

Já passando dos 40 anos e com filhos, Maia achou complicado manter o relacionamento com aquela mulher muito mais jovem que ele. Encontrou, porém, um meio de ajudar Michelle. Em 2007, arrumou para ela um emprego de recepcionista no gabinete de um amigo e deputado federal, Marco Aurélio Ubiali, do PSB de São Paulo, que ficava ao lado da sala de um parlamentar do Rio de Janeiro, então pouco conhecido, chamado Jair Messias Bolsonaro. 

Como o gabinete de Ubiali era pequeno, ele havia colocado um espelho na parede para dar a impressão de amplitude. Bolsonaro, ao ver Michelle refletida no espelho, apaixonou-se e a levou para trabalhar no gabinete dele. Começaram a namorar, e cinco meses depois, ainda em 2007, foram morar juntos. Por causa dela, Carlos Bolsonaro ficou dois anos sem dirigir a palavra ao pai.

Em 2010, depois de convencer Bolsonaro a reverter a vasectomia, Michelle engravidou da filha Laura. Mas não foram tempos felizes. Ela precisou lidar com o desprezo crescente da família dele, até que teve uma crise de depressão, o que a levou a frequentar a Igreja Universal do Reino de Deus.

Nessa época, depois de passar por várias legendas, Jair Bolsonaro tinha encontrado abrigo no PP. Embora católico, percebeu a força dos evangélicos e vislumbrou uma boa oportunidade política caso ficasse colado à bancada deles no Congresso. Para estimular a aproximação, ele aceitou a sugestão do pastor Silas Malafaia de se casar com Michelle numa igreja evangélica. Ela, então, trocou a Igreja Universal pela Assembleia de Deus Vitória em Cristo, de Malafaia, que os casou, em 21 de março de 2013, dia do aniversário de Bolsonaro, em um casarão de festas na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Malafaia contou que, naquele dia, ouviu o marido dizer que, em cinco anos, chegaria à Presidência do Brasil.

A escalada de Bolsonaro nessa direção começou menos de três meses depois do casamento. No dia 5 de junho de 2013, ele participou de um protesto na Esplanada dos Ministérios, organizado por Malafaia e outros líderes religiosos contra o projeto de lei nº 122, mais conhecido como Lei Anti-Homofobia, que criminalizava manifestações de preconceito contra a população LGBTQIAP+. Bolsonaro foi o único parlamentar de fora da bancada evangélica a participar do evento. 

Como relatei em meu livro O ovo da serpente – nova direita e bolsonarismo: seus bastidores, personagens e a chegada ao poder, publicado em 2022, Bolsonaro foi chamado a falar durante o protesto. Fez um discurso curto e contundente, como é do seu estilo. Disse que a esquerda quer “desvirtuar as nossas criancinhas”, que estava havendo perseguição religiosa no Brasil e soltou o seu brado de guerra: “Brasil acima de tudo.” Fez uma pausa, encarou a multidão de fiéis e, numa ação de marketing político que acabou colando, acrescentou: “E Deus acima de todos.” O público religioso vibrou.

A partir daí, abraçou com fúria as pautas conservadoras e da extrema direita, chegando ao momento inominável de saudar o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra ao votar a favor do impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Dois anos depois, apresentou-se na corrida presidencial como “candidato antissistema”, dizendo-se o oposto dos políticos tradicionais. Seu governo foi marcado por uma série de ações controversas e danosas, a maior delas a negligência com a Covid, que fez mais de 700 mil vítimas no Brasil, o segundo país com mais mortes no mundo durante a pandemia. Bolsonaro também encheu seus ministérios de militares, alinhou-se à extrema direita internacional, atacou as instituições democráticas, espalhou notícias falsas, adotou políticas antiambientalistas e contra os indígenas e quilombolas, e tentou um golpe de Estado. Ao final de seu governo, embora o PIB do país tivesse registrado um crescimento médio de 1,5%, a pobreza e a desigualdade atingiram os maiores níveis desde 2012. 

Enquanto Bolsonaro atacava tudo e todos, Michelle se mantinha silenciosa no Palácio da Alvorada, só se manifestando para defender as suas pautas: tratamento para doenças raras e apoio aos deficientes, como os surdos-mudos e os que têm visão monocular. Ainda assim, se meteu em controvérsias. Mandou esvaziar o lago do Palácio da Alvorada para retirar as moedas jogadas ali pelos turistas, o que levou à morte das carpas que viviam no local, por má oxigenação e estresse no transporte. As moedas recolhidas, num total de 2,2 mil reais, foram doadas para uma associação de caridade, segundo ela. 

Michelle também mandou retirar todas as obras de arte e móveis do palácio, por considerá-los de viés esquerdista, como os quadros de Di Cavalcanti e o mobiliário desenhado por Oscar Niemeyer, além das imagens religiosas. Colocou tudo no depósito. Hoje, parte desses valiosos objetos estão espalhados pelos ministérios e tribunais. Mais grave foi o episódio das joias recebidas durante uma visita oficial à Arábia Saudita e apreendidas pela Receita Federal com um assessor do Ministério de Minas e Energia que fazia parte da comitiva presidencial. O assessor afirmou que as joias, avaliadas na época em 16,5 milhões de reais, eram um presente para a primeira-dama. Michelle negou tê-las recebido, e o caso foi encerrado pela Justiça. Hoje, estão guardadas em uma agência da Caixa Econômica Federal. 

Durante o governo de Jair Bolsonaro, ela se ambientou rapidamente às práticas políticas da capital federal. Conseguiu um emprego para o irmão Diego Dourado no governo de Tarcísio de Freitas, outro para sua meia-irmã Geovanna Kathleen Ferreira Lima no gabinete da senadora Damares Alves, e ainda um terceiro para a filha Letícia Firmo na representação do governo de Santa Catarina, em Brasília.

No Palácio da Alvorada, as relações familiares só pioraram. Michelle proibiu a entrada de Jair Renan, alegando que o rapaz atacava a adega e se embriagava. Como não dirigia a palavra a Carlos, limitou ao máximo as visitas dele ao pai. Com Eduardo, as relações eram sempre distantes. Com Flávio eram formais, embora os dois não evitassem interagir.

Foi na campanha presidencial de 2022 que Michelle, segundo aliados do presidente, começou a se descolar do marido e dos enteados e passou a investir no seu projeto pessoal de poder. Ela percebeu a influência que exercia nas mulheres ao viajar de jatinho pelo Brasil na companhia de três nomes importantes da ala feminina da direita: Damares Alves, Celina Leão, e Tereza Cristina (hoje no PP-MS). 

Durante as viagens, Michelle costumava orar com Damares e Celina. Aonde chegava, era ovacionada. Falava de Jair Bolsonaro, tirava foto com as apoiadoras do marido e recebia, em troca, o carinho delas. Apesar disso, sentia-se insegura em determinados ambientes. Ouvi de algumas políticas que frequentaram o Alvorada que Michelle se mostrava interessada em aprender boas maneiras, sobretudo à mesa, e ouvia conselhos com humildade.

Os modos do marido a exasperavam. Certa vez, num evento no Palácio do Planalto, Bolsonaro falou para um grupo de assessores, na frente de Michelle, que estavam querendo “pegar no pé” dos filhos e da mulher dele, como me contou uma pessoa presente. “Tudo bem, a minha sogra é uma estelionatária, respondeu processo por falsidade ideológica”, disse Bolsonaro, com naturalidade. “A avó também andava vendendo umas coisinhas proibidas, na boca de fumo.” E continuou: “Mas ninguém tem que se meter com a minha família, com a minha mulher. É sacanagem. Ela é filha do Negão. O Negão é gente boa. O cearense é gente boa. Não tem que misturar as coisas.” Irritada com a fala do marido, Michelle se retirou do local. Ela mantém uma boa relação com o pai, Vicente Reinaldo, e os três irmãos do segundo casamento dele.

Por causa dessas atitudes, ela evitava ficar perto de Bolsonaro. Tanto assim que, à exceção do Réveillon de 2019, que antecedeu a posse na Presidência em 1º de janeiro, todas as seguintes passagens de ano ela comemorou longe do marido. Dois deles passou na pousada do então ministro do Turismo, Gilson Machado Neto, em São Miguel dos Milagres, em Alagoas, para onde costumava escapar com Damares e Celina Leão. Mas poucos entendem a relação dela com Celina, que gosta de uma bebida, de serestas e chegou a compor uma música junto com Machado Neto, que toca sanfona. 

O conflito entre Michelle e o marido se exacerbou depois da derrota dele nas eleições de 2022. Bolsonaro decidiu que não passaria a faixa presidencial a Lula, prosseguindo com seus planos de dar um golpe de Estado. Quando decidiu ir para os Estados Unidos em 30 de dezembro, antes da posse do adversário, Michelle bateu o pé, dizendo que não iria junto. Preferia ficar no Brasil. A fim de evitar a crise que isso poderia causar aos planos políticos do marido, assessores de Bolsonaro insistiram para que Michelle viajasse. Queriam evitar a imagem do homem que, além de derrotado na eleição, era abandonado pela mulher. “Imagina ela ficar três meses longe do marido. Aquilo ia selar o fim do casamento deles, num momento complicado para ele”, me disse um assessor. Ela viajou.

Bolsonaro e Michelle só retornaram ao Brasil em março de 2023, quando ele já era investigado pela tentativa de golpe de Estado. Valdemar Costa Neto achou que seria bom para o partido que Michelle assumisse o PL Mulher e saísse em viagem pelo Brasil. Ela passaria a ocupar espaços no campo da direita, já que Bolsonaro, por causa das investigações a respeito da intentona do Oito de Janeiro, começava a ter dificuldades para transitar pelo país. 

Com forte ajuda financeira do partido, Michelle assumiu a missão com afinco. Como ela disse no vídeo em que declarou guerra à Flávio Bolsonaro: “Instalamos os diretórios nos estados. [...] Demos capilaridade e representatividade a um movimento que hoje [...] se tornou o maior movimento político partidário de mulheres no Brasil. Nós pintamos o Brasil de rosa. E os resultados vieram.” Nesses eventos, ela costumava falar do “galego”, causando euforia entre as mulheres. 

Pouco se aproveita do discurso de Michelle registrado nos vídeos dessas campanhas. Ela não tem qualquer proposta concreta para o país. Limita-se a defender os “valores da família” e a falar da necessidade de as mulheres ocuparem um lugar maior na política. Fica claro, no entanto, o fascínio que exerce sobre a plateia. O marqueteiro Duda Lima, que em 2024 foi estrategista da campanha vitoriosa de Ricardo Nunes para a Prefeitura de São Paulo e atualmente coordena a de Flávio Bolsonaro, disse certa vez a interlocutores que é difícil explicar a liderança exercida por Michelle. “Não é algo racional. É emocional.”

 Na avaliação de Lima, Michelle transmite uma imagem acolhedora. “Ela tem luz própria”, disse o marqueteiro, que ficou impressionado com o discurso dela no Maracanãzinho, no Rio, na convenção do PL que lançou a candidatura de Bolsonaro à reeleição, em 2022. “Ela não leu. Estava confiante. Fez um discurso que as pessoas adoraram.”

O sucesso político de Michelle incomodou a família Bolsonaro. Principalmente, quando começaram a vir à tona os diversos problemas de Flávio com esquemas de corrupção e se falou do seu despreparo para a governança. Políticos ligados a Bolsonaro passaram a defender, como alternativa a Flávio, a candidatura do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tendo Michelle Bolsonaro como vice-presidente. Ela chegou a fazer em sua casa, em Brasília, uma reunião com o governador, na qual, segundo alguns, disse que aceitava compor a chapa. Bolsonaro se encrespou e proibiu qualquer movimento dela nesse sentido. Para pessoas próximas, contudo, Michelle já disse que não tem pressa de chegar à Presidência da República. “Lula levou anos para chegar lá”, comentou, segundo um interlocutor dela.

Diante da ameaça de uma candidatura Tarcísio-Michelle, os irmãos Bolsonaro e seus aliados trataram de agir. Foi um movimento tão brusco que quase levou o ex-presidente de volta à prisão comum na Papuda, em Brasília. No afã de ser reconhecido como herdeiro do espólio político do pai, Flávio não se constrangeu de divulgar em uma rede social uma carta escrita por Bolsonaro, em julho passado, afirmando que a escolha do pai recaía sobre o primogênito e mais ninguém. Assessores me contaram que a carta era para ser divulgada somente no caso da morte de Bolsonaro. Depois disso, como a Justiça proibira o ex-presidente de publicar em redes sociais e de se comunicar por terceiros, Flávio foi proibido pelo ministro Alexandre de Moraes de visitar o pai por noventa dias.

Michelle negou, no vídeo de junho com ataques a Flávio, que tivesse feito qualquer acerto para sair candidata a vice em uma chapa com Tarcísio. “Espalharam para a imprensa que eu fiquei com raiva porque queria ter sido candidata. Primeiro que esses fofoqueiros vazadores não têm convívio comigo, não me conhecem direito e não sabem o que eu penso”, disse. Michelle não quis falar com a piauí para esta reportagem.

No vídeo, ela chamou as pessoas que a acusaram de conchavar com Tarcísio de “grupo de maledicência coordenado a partir de quem está no exterior”, uma referência a Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. “Alguns deles continuam aparecendo em fotos com o Flávio”, afirmou. “Eles fazem postagens e vídeos retirando do meu nome o nome Bolsonaro, na tentativa de me atingir. Não me atingem. Eu sei quem eu e meu marido somos. Será que eles pensam no que estão provocando na vida da minha filha? [...] Será que, na irresponsabilidade deles, eles imaginam o que estão fazendo com ela? Claro que não. Eles não se importam. Para eles, tudo é política. E uma política que não existe em função do ser humano, esse tipo de política não serve para nada além de egoísmo. É importante entender que eu não mando recado. Quando tenho algo a dizer, digo olhando no olho, co­mo estou fazendo agora.”

Essa determinação de Michelle de ir até o fim nas brigas acaba provocando as tais maledicências de que ela fala. O pastor Silas Malafaia, que mantém uma relação de altos e baixos com a família, procura ficar fora das confusões. Quando perguntei a ele sobre as críticas ao temperamento de Michelle que ouvi de ex-assessores de Bolsonaro, o pastor foi sucinto. “É normal que a ataquem. Ninguém atira pedra em árvore que não dá fruto”, disse. “Bolsonaro deu visibilidade a Michelle, e ela agarrou a oportunidade. Ela tem talento, é evangélica raiz, sabe falar, tem uma boa aparência, tem posicionamentos políticos. Ela ganhou espaço e um voo próprio.”

Malafaia acredita que Michele conquistou um espaço que transcende o mundo evangélico por causa do trabalho que realizou no PL Mulher. “Ela fez um trabalho violento no PL Mulher, que não existia. Levantou um exército de mulheres no Brasil que furou a bolha evangélica.” Quando perguntei a ele sobre o desempenho da atual primeira-dama, Janja, que cantou e dançou com o pastor Kleber Lucas no comício de Lula em São Paulo, em agosto passado, Malafaia ironizou: “A esquerda pensa que evangélico é burro. Que não vai perceber o que é verdadeiro e o que é apenas cena de campanha.”

O pastor Henrique Vieira, da Igreja Batista do Caminho e deputado federal pelo Psol do Rio de Janeiro, pertence ao campo político oposto ao da família Bolsonaro. Durante uma conversa, no ano passado, no escritório dele, no Centro do Rio, pedi que me explicasse por que uma parte significativa dos evangélicos aderiu à extrema direita e o motivo da influência de Michele junto a esse público. 

Vieira colocou café na minha xícara e iniciou sua análise. “Ela aparenta ser mais genuína, mais de raiz evangélica”, disse. “Por ter uma linguagem, um comportamento evangélico e por ter essa pauta moral que capturou o campo evangélico, ela tem muitas chances na política.” Mas Vieira sublinhou: “É importante ressaltar que isso tem a ver com o momento histórico de uma apropriação da fé por essa plataforma política e moral da extrema direita. É nessa rodada histórica do quadro evangélico que ela consegue esse apoio significativo. Mas isso não significa que sempre terá esse apoio.”

Estudioso do assunto, Vieira afirmou que o campo evangélico no Brasil não é uniforme, nem monolítico, embora o protestantismo sempre tenha tido um componente conservador. Esse protestantismo, na reflexão dele, tem sua moralidade extraída de uma leitura da Bíblia conforme a lógica patriarcal. “É uma lógica heteronormativa, que não dialoga com outras perspectivas de mundo. O conservadorismo não é ecumênico, não faz diálogo inter-religioso.”

Ele disse, porém, que é preciso separar o conservadorismo do fundamentalismo e do extremismo. “O conservadorismo organiza a vida daquela pessoa, daquela família, organiza a vida daquela igreja”, observou. “Já o fundamentalismo se traduz como um projeto de poder. Não basta organizar a sua vida, sua família, sua igreja. Isso não é suficiente. É preciso pautar a sociedade com essa lógica moral e teológica.”

Vieira explicou que esse fundamentalismo cristão surgiu no início do século XX, nos Estados Unidos, em resposta à teologia liberal que crescia na Europa, relativizando os textos bíblicos. Acabou ganhando um contorno mais moral e comportamental do que teológico. Alguns pesquisadores chegam a falar de extremismo religioso, que tem duas características: a violência e o uso do Estado para estender a toda sociedade a visão de mundo religiosa. 

Esse extremismo é necessariamente antilaico e antidemocrático. “Para mim, Michelle e Jair Bolsonaro estão no campo que eu chamo de extremismo religioso”, apontou Vieira. “Eles não querem organizar a vida das pessoas, das famílias e da igreja deles: querem organizar o Brasil.” O pastor enfatizou que a frase “Deus acima de tudo”, usada por Bolsonaro, é uma expressão extremista bastante perigosa. “Pensando de forma piedosa e devocional, ela é até bonita. Mas o que Bolsonaro quer dizer politicamente com isso?”, questionou. “Ele não está dizendo isso no quarto dele, orando para Deus. Está dizendo para a sociedade. É um projeto político de sociedade acima de tudo, com a mediação de Deus. Ou seja, um Estado teocêntrico e, na minha opinião, fascista.” Segundo Vieira, é uma visão que coloca Deus acima da Constituição. “É um Deus determinando leis, políticas públicas, orçamento. Dessa forma, a diversidade vai para o ralo, a democracia vai para o ralo, o Estado laico vai para o ralo, outras experiências religiosas vão para o ralo, outros modelos de família vão para o ralo.”

 Vieira afirmou que esse é exatamente o ponto em que Michelle é especialista: “Devocional, piedosa, comovente, comovida.” Em sua opinião, é um comportamento diferente do de Bolsonaro, que é mais escrachado, mais durão. “A Michele fala as mesmas atrocidades que ele, só que com uma lágrima nos olhos, de joelhos, emocionada e orando, num desempenho mais aderente. Mas o conteúdo é perigosíssimo.”

Um dado que chama a atenção numa pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (Iser) sobre religião e vida pública no Brasil é que os fiéis de todos os credos são contrários a que se discuta política em espaços religiosos e, também, que seus líderes permitam a presença de candidatos nas igrejas. Isso, entretanto, não tem impedido pastores evangélicos de tentarem induzir os fiéis a votarem em candidatos indicados por eles. Na pesquisa do Iser, 22% dos entrevistados disseram que na eleição de 2022 seus líderes espirituais sugeriram o voto em Bolsonaro, contra 5% que indicaram Lula. 

Michelle Bolsonaro é o tipo de pessoa que provoca reações extremas: ou é amada, ou é odiada. Entre seus admiradores está a deputada federal Rosana Valle (PL-SP). Em uma conversa no início do ano passado, em um restaurante da cidade, ela afirmou que uma das maiores qualidades da ex-primeira-dama é a atenção que dedica às pessoas. “Ela ouve, ela se preocupa. Nos eventos, costuma ficar do começo ao fim”, disse. E deu um exemplo: em um encontro do PL em Santos, Michelle passou duas horas ouvindo todas as mulheres presentes. Ela também incentiva as pessoas a falar, ressaltou a deputada: “Michelle conta a própria experiência, diz que era tímida e acaba deixando todos à vontade para se expressar.”

No outro extremo, entre as pessoas que a odeiam, está a ex-deputada Joice Hasselmann. Ela contou que teve problemas com Michelle desde a primeira vez que a encontrou. “Eu tinha ido levar a Viviane Senna para conhecer o Bolsonaro, porque queria sugerir o nome dela para ministra da Educação”, recordou. “A Michelle foi extremamente antipática.” 

Hasselmann não poupou as críticas. Ela me disse que Michelle é “grosseira, deslumbrada e fútil”. E que construiu uma persona completamente diferente da que é na realidade. “Aquela imagem de quietinha, de boazinha, é tudo falso. Ela é uma emergente. Passava o tempo todo com o maquiador do lado”, disse, e continuou disparando sua metralhadora giratória. “Inclusive fui eu que paguei o maquiador para ela. Passagem e tudo. E ela nunca me pagou. É uma caloteira.” Já na política, Hasselmann afirmou que Michelle é autoritária e não tem qualquer proximidade com Flávio. A briga a respeito dos candidatos no Ceará apenas escancarou publicamente a guerra que já existia entre eles. “O Valdemar deu uma enquadrada neles, e os dois fingiram que fizeram as pazes. Mas é tudo fingimento, como tudo o que a Michelle faz.” 

Michelle tem hoje um maquiador de estimação, o uruguaio Agustin Fernandez, do qual não se separa. Com ele criou, inclusive, uma linha de cosméticos, a MB, associada à marca que Fernandez já tinha. Entre os produtos lançados estão o perfume Lady M, o hidratante e sérum facial, a paleta de sombras e a esponja de maquiagem MB-Blender. A marca também produz o perfume masculino Jair Bolsonaro, cujo frasco é verde e amarelo.

Fernandez chegou a participar da Igreja Batista da Lagoinha, de André Valadão, em Belo Horizonte. É a mesma que frequentavam o banqueiro Daniel Vorcaro e sua família, e onde era pastor Fabiano Zettel, cunhado do ex-dono do Banco Master. Michelle e Jair Bolsonaro participaram de cultos nessa igreja durante a campanha de 2022. Fernandez também frequentou a Lagoinha Alphaville, em São Paulo, outro templo liderado por Valadão. Mas acabou rompendo com ele, a quem desancou recentemente em um vídeo, dizendo que ficou incomodado na igreja de Alphaville. “Senti que estava entrando numa casa de show sertanejo”, afirmou. No vídeo, postado no seu perfil no Instagram, Fernandez afirmou que pediu a Deus que fechasse a igreja.

Outras questões acentuam as contradições de Michelle junto ao eleitorado de esquerda. A começar por seu discurso fervoroso em prol dos “valores da família”, uma vez que ela se envolveu na juventude com homens casados, foi mãe solteira e agora vive às turras com o próprio marido e os filhos dele. Por isso, esse discurso e a condenação que ela aplica às feministas e mulheres da esquerda são vistos com muita desconfiança pelos progressistas.

A senadora Eliziane Gama, do PT do Maranhão, é evangélica, ligada à Assembleia de Deus, da qual seu pai foi pastor por décadas. Perguntei a ela, em seu gabinete no Senado, o que significava para os evangélicos o fato de Michelle ter um passado nada abonador, de acordo com os preceitos conservadores, mas, ainda assim, ser vista como uma figura virtuosa pelos que a apoiam. Embora seja muito atacada pelos evangélicos de direita no Congresso, a senadora buscou uma explicação baseada na tolerância. 

“Olha”, me respondeu ela, como que buscando a argumentação mais clara. “A máxima da Igreja é o perdão. A pessoa pode ter cometido o maior pecado da vida. Pode ter roubado, matado, estuprado. Pode ter se prostituído, ter sido corrupta. Mas, se o sentimento de arrependimento é genuíno, a pessoa será perdoada”, afirmou. “A igreja acaba fazendo, de fato, o acolhimento. Não é a igreja que vai julgar, que vai condenar. A igreja tem movimentos de levar comida para os presídios. Existe preso que nunca recebeu a visita da família, mas recebe a visita de alguém da igreja. É uma prática do perdão, do acompanhamento, do acolhimento.”

Um político do campo evangélico conservador fez também uma análise pertinente sobre o apoio que Michelle angaria entre as classes mais baixas e os evangélicos. “Eles se identificam com ela. Muitas dessas pessoas também vêm de famílias disfuncionais e, como Michelle, buscaram formas de superar as dificuldades”, disse. 

Na direita evangélica, não é só Michelle Bolsonaro que vem ganhando lugar de destaque. Muitas lideranças surgiram nos últimos anos. Treinadas na igreja, elas acabam tendo um bom poder de oratória e convencimento. “São mulheres com pensamentos próprios, com atitudes próprias. São mulheres que têm liderança, num lugar cheio de macho como é a política”, diz Silas Malafaia, com entusiasmo. “Então, para sobreviver, elas têm que se impor. Elas estão ocupando um espaço que pertence a elas.”

Não deixa de ser curioso que essas mulheres estejam se sobressaindo na política inclusive à custa de ataques contra as feministas. Pois foi justamente o feminismo tão criticado que abriu as primeiras portas para a projeção que elas conquistaram agora. Essa contradição aparece muito claramente no livro Edificando a nação, sobre bases e valores, organizado por Nidia Regina Limeira e André de Sousa Costa, lançado em 2025 pelo PL Mulher, quando Michelle ainda era presidente da entidade. André Costa é coronel reformado da Polícia Militar do Distrito Federal, foi assessor de comunicação do ex-presidente Bolsonaro e é atualmente assessor de Michelle.

No livro, a ex-primeira-dama expõe suas principais ideias nas oito páginas do artigo intitulado Uma política diferente. Michelle afirma, por exemplo: “Eu creio que nós, as mulheres, fomos criadas com um senso de missão que envolve: sermos poderosas na sociedade, fortes espiritualmente, sensíveis emocionalmente, solidárias na dor e estratégicas nos embates – e tão somente diferente dos homens, mas nunca menores ou inferiores.” Em outro trecho, diz almejar “ver no Brasil mais mulheres aspirando e alcançando posições políticas, ocupando cargos no Parlamento e em diferentes esferas de poder, de liderança e de decisão”. 

Ao mesmo tempo, Michelle critica a esquerda e o feminismo com argumentos pedestres: “Não estamos preocupadas com os ataques e pressões das feministas. Somos felizes em função do que escolhemos para nós: escolhemos priorizar o lar, mas isso não significa que não possamos ter nossa vida profissional ou social muito ativa.” Ela prossegue: “Ser feminina, ser mãe, ser esposa, ser amiga [...], amar a Deus e seguir a Cristo em um mundo marcado por ataques à família e à feminilidade, demanda que sejamos fortes, firmemente posicionadas e orgulhosas de nós mesmas. Não temos compromissos com ideologias progressistas.” O discurso vai se tornando mais e mais belicoso: “Essas diferentes visões fazem com que sejamos convidadas para uma batalha contra o feminismo, porque o feminismo é marcado por ‘doces mentiras’, que não nos enganam.”

A hostilidade de Michelle pelas pessoas que pensam diferente pode ser considerada uma das mais brandas do livro. O conjunto de textos de Edificando a nação forma, na verdade, uma apologia ao reacionarismo, ao preconceito, ao liberalismo radical, ao mesmo tempo que é um ataque à esquerda, acusada de querer destruir os valores da família por meio da “doutrinação ideológica das crianças”.

O capítulo mais sectário e intolerante coube ao belga naturalizado brasileiro Jean Marie Lambert, ex-professor da PUC em Goiânia. Intitulado Por falar em aborto, trata a interrupção voluntária da gravidez como uma perversão da esquerda para “legalizar o genocídio”. E acusa o “globalismo”, a Escola de Frankfurt e a ONU de formarem um sistema onde “cada parte puxa outra”. Lambert escreve: “Começa com o LGBtismo, vai para o feminismo, o antipatriarcalismo, o antinatalismo, o negrismo, o indigenismo, transgenerismo, ambientalismo, sanitarismo, veganismo, climatismo.” E encerra dizendo que “os prazeres da cama geram consequências, mas nada que resista a um bisturi com uma legislação permissiva. Eis o carnaval de insanidades a tomar conta. Com o STF de porta-bandeira.”

O STF, claro, sempre teve um peso grande na equação da direita. Tanto que, quando ainda era presidente, Bolsonaro foi buscar André Mendonça e Kassio Nunes Marques, tidos como advogados conservadores para preencher duas vagas na Corte. Os dois, inclusive “o terrivelmente evangélico” Mendonça, estão hoje envolvidos no caso Master. 

Michelle teve participação importante na indicação de Mendonça, que precisou esperar pouco mais de quatro meses para ter seu nome aprovado pelo Senado. À época, a então primeira-dama surpreendeu ao comemorar a aprovação de forma exuberante: gritou, dançou e falou “em línguas” (o que para os pentecostais é uma manifestação do Espírito Santo na pessoa). Em meio à confusão em que o STF se meteu com o caso Master, Mendonça voltou a receber o apoio de Michelle em setembro passado. Ela e Damares Alves saíram em defesa do ministro, depois que colegas seus no Supremo o acusaram de divulgar parte do relatório da Polícia Federal que incriminava Alexandre de Moraes com o objetivo de favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro. 

No comício de Flávio na Avenida Paulista em Sete de Setembro, Mendonça chegou a ganhar um boneco inflável gigante com sua figura. No dia 5 de setembro, Michelle publicou em sua rede social uma mensagem de apoio ao ministro. Chamou-o de “escolhido e ungido do Senhor”. Mas a ex-primeira-dama não compareceu ao comício, alegando que precisava cuidar do marido.

Michelle acabou se tornando uma peça-chave no tabuleiro da direita. Na avaliação de muitos políticos do PL, ela é uma peça até mais importante que Flávio, cujo destino sempre esteve atrelado ao do pai. Se as circunstâncias políticas lhe forem favoráveis, Michelle pode ganhar sua “carta de alforria”, como definiu um observador do PL, e se desprender da família Bolsonaro, seguindo seu próprio rumo e deixando para trás até mesmo o seu “galego”.


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Repórter da piauí, é autora de O Ovo da Serpente – Nova Direita e Bolsonarismo: Seus Bastidores, Personagens e a Chegada ao Poder (Companhia das Letras)