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DO GADO ÀS OVELHAS

A igreja evangélica da família Batista em São Paulo
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026

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“Agora eu entendo por que o crente é chato, né? Porque ele descobre o tanto que é bom e quer que as pessoas que ele ama venham a viver isso.” 

A frase terrivelmente evangélica é de José Antônio Batista Costa, integrante da terceira geração da bilionária dinastia Batista, os donos da JBS. Em um rodízio por diferentes cargos, em várias empresas, ele vai se inteirando dos negócios da família. 

Costa já passou pela operação americana da JBS, comandou a J&F Investimentos e foi diretor executivo de empresas como o Banco Original e a Flora Higiene e Cosméticos. Agora está na presidência da J&F Participações e do conselho de administração do PicPay. Em janeiro deste ano, protagonizou a retumbante estreia do banco digital na Nasdaq, em Nova York, ao lado dos tios Joesley e Wesley Batista, de Eduardo Chedid, diretor executivo do PicPay, e de Anderson Chamon, cofundador da empresa. Ganhou um destaque indesejado na cena porque machucou o polegar ao derrubar, por acidente, o dispositivo que aciona simbolicamente o sino de abertura do pregão.

Um dos herdeiros de um império que se expandiu a partir da criação de gado, Costa deu seu depoimento de ovelha cristã em um vídeo exibido durante sessão solene na Assembleia Legislativa de São Paulo, na noite de 8 de junho deste ano. O evento outorgou ao bispo Bruno Brito – casado com a mãe de Costa, Vanessa Batista – o Colar de Honra ao Mérito Legislativo, a mais alta condecoração da casa. “Bruno, você foi responsável por eu estar aqui, por ter me convertido, por ter conhecido Deus”, disse Costa na gravação.

Fundador da JBS, José Batista Sobrinho, o Zé Mineiro, participou da sessão. Naquela altura com 92 anos, fez questão de realizar um breve discurso, de pé. Arrancou risos da audiência ao resumir a influência que o genro vem irradiando no seu entorno: “É um menino de ouro [...], a família nossa já está quase toda com ele lá, na igreja, já aderiu um bocado de gente. Porque ele conquista mesmo, né? Ele não tem moleza, não.” 

O menino de ouro é o paraibano Elisson Bruno Albuquerque de Brito. Levado pela mãe, ainda criança, para a Igreja do Nazareno, em João Pessoa, ele cresceu no meio evangélico. Estudou teologia e trabalhou em igrejas em Curitiba, Rio de Janeiro e Campinas. Em 2022, Brito e Vanessa Batista, filha de Zé Mineiro, fundaram a igreja evangélica Pura Fé, em São Paulo. 

A bispa Vanessa, como é conhecida entre os fiéis, contou detalhes do encontro entre os dois em um evento em Brasília, na igreja-sede da Sara Nossa Terra, cofundada pelo bispo Robson Rodovalho – aquele que prestou assistência espiritual a Jair Bolsonaro em seus dias no presídio da Papudinha. No testemunho, feito em um palco, ela desfiou uma trajetória pessoal que incluiu dois casamentos infelizes, separações duras e doenças difíceis até que Bruno Brito, na época pastor em Campinas, chegou à sua vida. 

Vanessa Batista soube de Brito em 2014 por meio de sua filha, Andressa Batista, e meses depois o viu pessoalmente durante um chá de panela e em um casamento. Depois de uma festa de Réveillon em Angra dos Reis, ela bebeu demais e, como lembrou no testemunho, pulou no mar só de calcinha e sutiã. Acordou “destruída, com vergonha, querendo sumir do mapa” e telefonou para o pastor. “Ele falou: ‘Você não tá fazendo mal para ninguém. Você tá fazendo mal para você. Você tá se expondo a troco do quê?’”, rememorou ela. E completou: “Ali começou tudo.” 

Vanessa Batista terminou um namoro e passou a dirigir de São Paulo até Campinas para frequentar a igreja onde ele pregava. Ela estava com 50 anos, tinha dois filhos e netos. Bruno Brito tinha 30 anos e, como ela contou se divertindo no palco, apontando para o marido sentado na primeira fila, “era virgem”. O relacionamento dos dois encontrou resistências, tanto entre os Batista como no meio religioso. 

Eles se casaram em 2017. No mesmo ano, dois dos cinco irmãos de Vanessa Batista, Joesley e Wesley, foram presos no tsunami desencadeado pela delação premiada dos executivos da J&F. O casal começou a juntar pessoas para orar por ambos, na varanda de sua casa, em São Paulo. Os encontros foram crescendo, e eles decidiram abrir uma igreja.

A Pura Fé acabou saindo de uma costela da Igreja Batista da Lagoinha, de Belo Horizonte, a mesma que abriria em 2024 a hoje extinta filial Lagoinha Belvedere, comandada pelo enroladíssimo Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro.

 No fim de 2017, Brito foi convidado pelo pastor Márcio Valadão, que comandava a igreja mineira havia décadas, a abrir a primeira unidade do grupo em São Paulo. Ele topou e, depois de passar por três endereços, instalou a Igreja Batista Lagoinha de São Paulo em um imóvel no bairro do Pacaembu. Três anos depois, rebatizou o templo de Pura Fé e comunicou aos fiéis que optou pela mudança porque queria ter autonomia administrativa.

A ruptura veio num período em que a família Valadão ganhava projeção política. André Valadão, filho de Márcio, assumiu a liderança global da Igreja da Lagoinha no fim de 2022, virou um apoiador aguerrido de Bolsonaro e inundou suas redes sociais de pregações lacradoras. Fez uma famosa e infame diatribe, por exemplo, contra o símbolo do orgulho gay, o arco-íris. 

Bruno Brito costuma dizer que mantém total neutralidade política. Mas não consegue se desvencilhar de um contexto evangélico entrelaçado com lideranças da direita mais ferrenha. Várias delas marcaram presença na Assembleia Legislativa paulista durante a homenagem ao bispo, presidida pelo deputado estadual do PL e cantor gospel Marcelo Aguiar, frequentador dos cultos da Pura Fé. Gilberto Nascimento Jr., vereador do PL, fez um discurso emocionado. Ele foi secretário de Desenvolvimento Social do governo Tarcísio de Freitas, e autor de emendas que destinaram verbas para manifestações bolsonaristas na Avenida Paulista, em 2025. É também um fiel que congrega na igreja. Na mesa de honra do evento, estava seu pai, Gilberto Nascimento, deputado federal pelo Podemos e líder da bancada evangélica na Câmara. Já passaram pela Pura Fé políticos como o pastor e deputado federal Marco Feliciano (PL-SP) e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB).

Enquanto a Pura Fé foi se espraiando pelo circuito político, as resistências à igreja na família Batista foram caindo. Vanessa Batista contou em seu desabrido testemunho na Sara Nossa Terra que o muro começou a ceder depois que seus pais, Zé Mineiro e Flora Mendonça Batista, contraíram a Covid e foram intubados. 

O pai aceitou que Bruno Brito orasse por ele e foi extubado quatro dias depois. A mãe recusou orações e permaneceu intubada por onze dias. Quando já se aventava a possibilidade de uma traqueostomia, o bispo conseguiu emburacar no quarto da UTI para orar pela sogra. Depois da recuperação, contou Vanessa, começou “um novo relacionamento” entre a família e o marido. 

Em entrevista ao Pura Talks, o podcast de sua igreja, Bruno Brito disse que a maior validação de seu ministério “não está no dinheiro ou no poder de influência”, mas em ver a família inteira nos seus cultos. Como bem observou Zé Mineiro, está chegando lá. Frequentam o lugar os dois filhos de Vanessa – Andressa (com seu marido, o empresário Ricardo Oliveira) e José Antônio (com sua mulher, Camila Batista) e os seis netos. Também vai à igreja a matriarca Flora Batista, de 90 anos, que a princípio ficou tão indignada com a relação da filha com Bruno Brito que quase deixou de ir ao casamento dos dois. 

Os irmãos mais famosos, Joesley e Wesley, não se converteram, mas aparecem em ocasiões pontuais. Em 2022, Joesley deu uma palestra no RoadShow Pura Fé, evento anual da igreja sobre empreendedorismo. Em março do ano passado, postou no Instagram um vídeo gravado na igreja, em que aparece ao lado da mulher, Ticiana Villas Boas. A legenda explicava: “Este final de semana, dona Flora, nossa mãe, com 88 anos, se formou mais uma vez, agora em teologia. E foi oradora da turma. Que orgulho!” No palco, entre os formandos do Instituto Pura Fé, no curso bíblico livre da igreja, a matriarca leu um discurso em que agradeceu a jornada que a levara até ali – e até o genro. O bispo Bruno Brito publicou nos comentários: “Minha sogra amada!!!”


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É jornalista da piauí