CRÉDITO: LUIGI SERAFINI_1981_(POR INTERCESSÃO DE ALEIJADINHO)
CRÉDITO: LUIGI SERAFINI_1981_(POR INTERCESSÃO DE ALEIJADINHO)

questões etimológicas

POR QUE PIAUÍ?

Inspirados por essa indagação frequente feita por leitores e assinantes da revista, convidamos três escritores estrangeiros para escrever o que lhes viesse à cabeça ao ouvir a palavra piauí. A seguir, os textos do senegalês Mohamed Mbougar Sarr, da americana Lydia Davis e do espanhol Enrique Vila-Matas

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O CANTO DA AVE

Fosse eu lexicógrafo, investigaria esse P, o verdadeiro suspeito, para descobrir a identidade das vogais seguintes

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MOHAMED MBOUGAR SARR

1_Uma das palavras mais fascinantes que conheço é “xibolete”, por ser, ela própria, um xibolete, isto é, uma palavra cuja pronúncia contém um som que somente membros de um determinado grupo conseguem reproduzir. É, em suma, mais que uma palavra-senha, uma palavra de reconhecimento. O significado de “xibolete” nasce do seu próprio uso: num famoso episódio do Livro dos Juízes da Bíblia hebraica, soldados galaaditas utilizam-na para desmascarar os efraimitas, a quem querem destruir. Os homens de Galaad haviam montado barreiras nas margens do Rio Jordão, que os seus inimigos buscavam atravessar. Quando um fugitivo de Efraim dizia: “Deixem-me passar”, a gente de Galaad perguntava: “És efraimita?” Se ele respondesse “Não”, diziam-lhe: “Então diz xibolete!” E ele dizia sibolete, porque não conseguia pronunciar de outro modo. Então o agarravam e o degolavam. O xibolete foi muitas vezes usado ao longo da história como arma de guerra, como armadilha para apanhar e massacrar populações de outro grupo. 

Esse uso funesto e sangrento do xibolete não é, obviamente, o que me interessa aqui: fascina-me tão somente o segredo dentro da linguagem, a ideia de haver numa palavra um som que também seja um sentido (uma coincidência em que talvez se manifeste, supremamente, a poesia), e de esse sentido servir para nos reconhecermos com toda discrição em torno de um pertencimento, de um sonho, de uma alegria, de uma solidão, de uma esperança, de um amor ou de uma bizarrice. A mim parece evidente que piauí é um magnífico xibolete. Resta saber do que e para quem. Essa revista preserva algo de essencial e teve a genialidade de esconder o seu segredo à vista de todos, dentro do próprio nome. Talvez se devesse promover um grande encontro de todos os seus leitores, e até de pessoas que não a leem, e pedir-lhes para dizer piauí. Com alguma sorte, parte do grande segredo poderia então ser desvendado. Talvez descobríssemos que algumas pessoas pronunciam esse nome de um modo peculiar, diferente, e, a aprofundar-se a investigação, veríamos que elas têm em comum, sei lá, um amor delirante por um vinho raro, um conhecimento avançado da filosofia lacunar de Leucipo, uma paixão pelos tratados eróticos preservados nos manuscritos esotéricos de Timbuktu ou uma aguerrida curiosidade pelos últimos segredos de Jorge Luis Borges.

2_O reflexo, ao ver ou ouvir a palavra piauí, é interrogar essa suspeita, ou irônica, abundância de vogais. Pode-se fazer uma combinatória alfabética: examinar e permutar sua ordem; pode-se devanear na sensação de instigante leveza que elas criam; também é possível dissertar sobre a flexibilidade labial que elas exigem. Claro está que todo leitor de poesia, a essa palavra, irá pensar no poema de Rimbaud, Vogais (Voyelles), o que não é uma falsa pista se quisermos refletir sobre a simbólica cromática e a sua gnose. O que me intriga, porém, não são as vogais, mas esse P na abertura da palavra, única consoante, solitária e por isso mesmo visível, e que obriga os nossos lábios a se tocarem já de início, quando queríamos nos entregar à alegre sensualidade das vogais que os mantêm todo o tempo entreabertos. Quero ser claro: o profundo mistério dessa palavra reside na sequência cifrada e improvável de vogais que produz, no entanto, esse som tão claro, tão onírico e melodioso; mas a chave do mistério, a meu ver, não pode estar senão nesse P – que, aliás, lembra graficamente uma chave, uma chave em pé. Basta tirar essa letra para o efeito ser outro: “iauí” pode até ser adorável, mas mais parece uma onomatopeia, se não um borborigmo. Ponha-se o P: tudo ganha vida e se enche de substância; o pipiar inarticulado se torna linguagem, se não a potente palavra de uma língua esquecida. Talvez o nome de uma divindade. Talvez uma das mil maneiras de se dizer o amor nessa língua. Fosse eu lexicógrafo ou antropólogo da linguagem, investigaria esse P, o verdadeiro suspeito, para descobrir a identidade das vogais seguintes. 

3_Citei, há pouco, o nome de Borges. Ele escreveu, em colaboração com Margarita Guerrero, um livro chamado, a depender da edição, O livro dos seres imaginários ou Manual de zoologia fantástica. Ambos são belos; prefiro o segundo, muito embora a palavra “zoologia” exclua criaturas não pertencentes ao mundo animal (os djinns ou os demônios de Emanuel Swedenborg, por exemplo). De resto, o Manual contém ilustrações não retomadas em O livro dos seres imaginários na sua versão original. Mas isso é outra história. Piauí, tenho uma hipótese, poderia pertencer ao manual da zoologia fantástica. Poderia integrá-lo enquanto criatura em si, enigmática e indescritível; mas também poderia integrá-lo enquanto traço de uma criatura inconcebível mencionada no manual, ou removida, por algum motivo, do fabuloso bestiário. 

Há, no Manual de zoologia fantástica, algumas aves maravilhosas, pertencentes a diferentes culturas e mitologias: a Fênix, o Simorḡ, o pássaro Roca ou o Alicanto, entre outras. Imagino um ser metafísico que seria a sua monstruosa e perfeita síntese: um Piauí – essa seria a sua denominação genérica e, por metonímia, o nome do seu canto. O Piauí cintilaria ouro ou prata na noite, seria imortal, estenderia sua envergadura do Brasil ao Senegal, voaria para além da linha de Kármán, quer dizer, no espaço, conheceria todos os porvires, teria memória de todos os passados e suscitaria o temor até dos mais antigos deuses. O seu canto, que ele só entoaria uma vez por século, levaria, numa melodia tão doce e melancólica que destoaria do aspecto aterrador da criatura, um número insano de profecias, uma para cada ser vivo da Terra. Imagino, por fim, que é da sede da revista que leva o seu nome, ou do ponto mais alto do seu estado homônimo, ou do lugar mais sagrado de uma comunidade indígena da Amazônia, que melhor se faz ouvir o lendário e apocalíptico (no sentido de revelação) canto do Piauí. 


Tradução de Dorothée de Bruchard.


A MISTERIOSA PIAUÍ

Não sei qual é a palavra brasileira ou portuguesa para o som que o gato faz 

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LYDIA DAVIS

Eu ouço as palavras na mente quando as vejo na página. Quando vejo essa estranha (para mim) palavra piauí, eu a escuto, da melhor maneira que posso, pronunciada de uma maneira que acredito que possa ser brasileira, mas que, na realidade, pode não ser. Neste momento estou dando a ela duas pronúncias alternativas: “pi-au-í” e “pi-ôu-í”. Algo que me incomoda um pouco, ou atrapalha a minha leitura, quando estou lendo, é não saber qual deveria ser o som da palavra. Também me incomoda um pouco quando uma palavra não tem nenhum sentido (para mim), tal como piauí. Gosto de saber o que significam as combinações de letras. Isso inclui os nomes próprios. Para mim, os sobrenomes ingleses em geral são fáceis de compreender, tal como meu segundo nome, Brooks, uma redução, feita há muitas gerações, de Broadbrooks (riachos largos) – um sobrenome baseado num lugar, numa característica marcante da paisagem. Mas os nomes árabes, por exemplo, são misteriosos para mim, até eu pesquisar – são apenas sequências de letras. Agora pesquisei o nome de um político americano, Abdul El-Sayed, e seu sobrenome deixou de ser uma sequência de letras. Ele significa “o senhor, o amo”. E isso me dá o significado do sobrenome de um escritor palestino que admiro, Edward Said, pois Said é uma variação de Sayed. 

Na última cidade onde morei, há vinte anos, havia uma biblioteca que eu costumava frequentar. Aliás, foi numa visita à biblioteca, uma casa toda de tijolos na rua principal, que vi pela primeira vez a casa, também de tijolos, embora pintada de amarelo, e também na rua principal, que nós compramos pouco depois e para lá nos mudamos. Eu costumava pegar emprestado livros da biblioteca, e também filmes. Fiquei conhecendo a diretora, Susan, e no fim acabei trabalhando com ela, criando ali uma série de leituras públicas. A biblioteca ficava numa casa que pertencera a um dos primeiros médicos da cidade e sempre promovia uma venda anual de livros no gramado da frente, coincidindo com o Memorial Day – um evento no mês de maio que envolvia a cidade toda, incluindo um desfile de bandas de música marchando pela rua principal, passando em frente à biblioteca e à nossa casa. Costumávamos ficar na frente da casa assistindo ao desfile e sorrindo com prazer ao ver as bandas de música dos ginasianos que tocavam com tanta dedicação, mas sempre um pouquinho desafinados. Daí seguíamos atrás do desfile até o cemitério, nos arredores da cidade, onde havia alguns discursos e uma saudação, com três homens dando uma salva de três tiros de rifle, e depois mais apresentações de bandas escolares. Daí retornávamos para a cidade e íamos para a biblioteca ver os livros à venda. Voltávamos então para casa, cada um trazendo uma pequena pilha de livros, sentávamos no terraço dos fundos, ao Sol, com aquele tesouro de livros inexplorados, e começávamos a folhear e ler alguns trechinhos aqui e ali.

Mas o que eu realmente pretendia dizer, ao falar da biblioteca, é a respeito dos nomes – que quando nós, na família, falávamos sobre a biblioteca e a diretora, Susan, não usávamos o sobrenome dela, que aliás eu mal recordo agora e não vou revelar, por motivos de zelosa discrição. Se nos referíssemos a ela pelo seu nome e sobrenome, Susan H., nosso interlocutor não saberia de quem estávamos falando. Em vez disso, nós a chamávamos de “Susan da biblioteca”. E assim, todos nós sabíamos quem era. Depois de um longo tempo nos referindo a ela dessa maneira, percebi que havíamos criado um sobrenome para ela. Para nós, ela não era Susan H., mas sim “Susan Da-Biblioteca”. Tal como Janwillem van de Wetering (do curso d’água), ou François de La Rochefoucauld (da rocha dos Foucauld). Tal como um ancestral das Ilhas Britânicas do meu ancestral de Massachusetts, chamado Obed, era Obed Da-Área-dos-Riachos-Largos. Depois que me dei conta de que tínhamos criado um sobrenome mais útil e prático para a Susan Da-Biblioteca, percebi que estamos sempre criando sobrenomes mais úteis – sempre que identificamos alguém, por exemplo, como “Rosária Do-Cabelo-Vermelho” ou “David Marido-da-Rosária”. Gosto de compreender as coisas e ver que elas fazem sentido para mim. Agora os sobrenomes, de modo geral, já fazem mais sentido para mim, e eu estava certa de que conseguia compreender a maioria dos nomes e porque foram dados a alguém.

Mas, voltando ao nome piauí, ele me incomoda um pouco porque não sei o que significa. E continua me incomodando quando fico sabendo que é o nome de um estado no Nordeste do Brasil, pois, mesmo que isso seja verdade, essas letras enfileiradas também têm que significar algo, por si mesmas. Talvez esse estado tenha recebido o nome de uma pessoa, ou talvez a palavra provenha de um nome indígena que designa alguma característica natural da paisagem desse lugar do Nordeste. Não vou (ainda) pesquisar o que significa o nome em si. Estou pensando em províncias que ficam ao Norte de onde estou, províncias do Canadá. Uma delas é Ontário. Mas ainda não sei por que Ontário se chama assim. Alguém mencionou que talvez os fundadores da revista piauí admirassem essa palavra devido às suas muitas vogais, pois quatro das cinco letras são vogais. Eu associo duas palavras (até agora) com o nome piauí. Uma delas é um sobrenome, Piaf, o nome da cantora francesa Edith Piaf. Não era, na verdade, um sobrenome de família, mas sim um apelido significando “pardal” na gíria francesa, pois ela era tão pequenina e (no início) tão nervosa. Minha outra associação com piauí é puramente relacionada com o som e o número de vogais dessa palavra tão curta, e essa associação é com a palavra inglesa meaow, o som que o gato faz quando não está sibilando agressivamente, nem ronronando – aliás uma palavra que agora mesmo tive dificuldade para escrever corretamente, pois eu quis amontoar mais vogais dentro dela do que ela já tem, fazendo algo como “meoaw” – ou então transformá-la na palavra francesa miaou, que também tem muitas vogais, tantas quanto o nome piauí, apesar de que todas as vogais são diferentes, o que é melhor ainda. As palavras francesas para as vozes dos animais são diferentes das palavras inglesas, como se os animais franceses fizessem suas vocalizações em francês e os animais americanos e ingleses fizessem em inglês. Não sei qual é a palavra brasileira ou portuguesa para o som que o gato faz, tenho certeza de que também é uma palavra diferente, mas não vou procurar neste momento.

Meu último pensamento, porém, quando fico sabendo que o nome piauí também é o nome de um estado no Nordeste do Brasil, é que dar nome a alguma coisa (tal como uma revista) segundo alguma coisa ou alguém, tal como damos um nome a uma criança recém-nascida, tão preciosa para nós, o nome que lhe foi “dado” – seu given name, como dizemos em inglês – muitas vezes homenageia ou faz lembrar aquela coisa ou pessoa, assim como o primeiro nome da Piaf, Edith, lhe foi dado em homenagem a uma enfermeira britânica, Edith Cavell, que foi executada na Primeira Guerra Mundial por ajudar soldados franceses a escapar do cativeiro alemão. Assim, estou imaginando que a revista piauí talvez tenha recebido esse nome não só devido ao prazer causado pelas numerosas vogais, mas talvez também em homenagem ao próprio lugar, esse estado do Nordeste. Me agrada pensar assim, mesmo que não seja verdade, pois gosto de lugares do Norte, assim como gostava o muito admirado (por mim) pianista Glenn Gould. 


Tradução de Isa Mara Lando.


A PICARETA DO PIAUÍ 

O paranoico sempre acerta na mosca, sem importar para onde atira

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ENRIQUE VILA-MATAS 

No ano passado, exatamente nesta época, tive um surto de paranoia que me levou aos píncaros do mais extremo terror. O pânico surgiu na minha mente quando, já internado num quarto individual e à medida que ia recuperando a consciência depois da cirurgia, tive a forte sensação de que, não importava o que eu fizesse (e era pouco o que podia fazer, conectado à infusão de soro), não sairia de lá com vida: primeiro torturariam a minha mulher, e depois acabariam comigo. 

Não foi uma voz externa que me informou a respeito, mas algo parecido ao eco de uma voz distante produzido no meu próprio cérebro. Santo Deus, pensei meio infantilmente, justo agora que ela e eu começávamos a nos divertir para valer. E uma sensação de que a alegria de viver acabara de vez e para sempre foi ficando insuportável. 

Exatamente um ano depois, recordo com a máxima precisão aquele extremo terror que tomou conta de mim e logo vi que, na sua totalidade, por mais que tentasse manter intacta a sua intensidade, eu nunca conseguiria transmitir através da escrita. 

Já se passou um ano, e continuo recordando perfeitamente a luz noturna muito profunda, imbatível, que entrava pela janela aberta do quarto e as vozes que através dela começaram a chegar do andar de baixo, que interpretei empenhadas em animar o assassino a logo dar cabo de mim. 

O assassino. Não tardei a ouvi-lo subir devagar, muito lento, degrau a degrau, pelas escadas que ligavam o andar de baixo ao corredor onde ficava o meu quarto. Por três vezes estivera a um triz de parar diante da minha porta e abri-la, mas nas três ficara na metade do caminho. 

— Atreva-se de uma vez — cheguei a dizer, cansado da sua hesitação. 

Finalmente, entrou um homem de meia-idade, um enfermeiro de inconfundível sotaque andaluz e ar de poucos amigos, de jaleco branco, sem arma assassina à vista, mas carregando uma pequena caixa preta cheia de comprimidos. Ostentou uma falsa gentileza ao apontar para o copo d’água com o qual me instou a ingerir uma pílula de Tacropiauí. 

Tacropiauí, repeti comigo para confirmar que, de fato, aquele nome beirava o inverossímil, embora eu não tivesse outro remédio senão acreditar nele, pois estava impresso na lateral da caixa preta que continha as pílulas. Além disso, Tacropiauí era um nome que de certo modo guardava uma leve semelhança com o Tacrolimus que eu tomava e ainda tomo para evitar a rejeição do meu corpo ao meu rim transplantado, o rim que a minha mulher me doou. 

Agora, dizer Tacropiauí não era o mesmo que dizer Tacrolimus, havia uma boa distância entre as duas palavras, e isso não me ajudava nem um pouco a aplacar a paranoia de que tinham me sequestrado com o propósito de pedir um resgate e depois, mesmo que fosse pago, me executarem. 

Como se sabe, o paranoico sempre acerta na mosca, sem importar para onde atira. E o que eu comecei a perceber é que tinha acertado bem na mosca ao descobrir, entre outras coisas, que planejavam me envenenar com Tacropiauí, que talvez fosse, nunca se sabe, o nome secreto do fentanil. 

Claro que olhando bem, as coisas para o meu lado não estavam tão ruins como eu pensava, e naquele exato momento a minha pragmática esposa, longe de se encontrar na antessala da tortura, estava negociando o meu resgate com aquele bando de crápulas reunidos no andar de baixo. 

Tentei relaxar, abalando o enfermeiro, o potencial assassino. Para que ele entendesse que eu não estava no mundo da lua e que já sabia muito bem o que pretendiam fazer comigo, perguntei se em algum momento ele tinha mesmo achado que eu seria inocente a ponto de deixar as minhas impressões digitais naquele copo criminoso. 

– Como assim, criminoso? Se não quiser perder o rim que lhe resta, engula essa pílula de uma vez – disse o enfermeiro, mostrando-se muito racional, sereno, inocente, mas ao mesmo tempo aproximando ainda mais o comprimido dos meus lábios, como se pretendesse enfiá-lo violentamente pela minha boca adentro. 

Senti medo, terror, frio na alma até aquele gelo que dizem acompanhar eternamente algumas pessoas, pois afinal de contas cada qual possui a sua própria eternidade.

Frio e depois uma onda de calor, um instinto de sobrevivência. Reagi. E, para confundir o enfermeiro e minar a sua concentração naquela ideia fixa com a pílula e o seu veneno, perguntei como se chamava. Como se chama o quê?, perguntou. O senhor, eu disse, qual o seu nome? Ele espiou a caixa de Tacropiauí com o rabo do olho e pareceu encontrar ali a sua inspiração: 

— Piauí. 

Pedi para ele repetir. Piauí, repetiu. Eu entendi Paulí, mas ele me corrigiu de bate-pronto. Piauí. Pensei em perguntar se o seu primeiro nome era Tacro, mas achei que ele já estava tão alterado que preferi não cutucar, e não disse nada.

Seguiu-se um longo silêncio, como se ambos estivéssemos refletindo sobre o que estava acontecendo. E o silêncio só foi quebrado quando ele fez questão de dizer que “por bem ou por mal” eu ia engolir o seu Tacropiauí. Eu já ia lhe perguntar por que ele não me matava diretamente, por que não tirava uma picareta da manga, como aquela que matou Trótski, e não me partia a cabeça ao meio. Mas nesse momento vi com surpresa que o sujeito, exasperado, desistia de continuar no quarto e se retirava batendo a porta. 

Pouco depois, eu já o ouvia dizer a todos que pareciam cruzar com ele no andar de baixo que era só uma questão de tempo para eu acabar cedendo. 

Cedendo? Será que o Piauí achava mesmo que eu me resignaria a ser envenenado com a sua pílula? 

A noite toda ouvi pássaros passando. 

Comentei isso com o Piauí quando ele voltou ao meu quarto com as primeiras luzes, às sete da manhã. Afastou as cortinas, e eu esperei apenas alguns segundos para lhe dizer que me preparara a noite toda para não me resignar a morrer como um cão e, se fosse o caso, pelo menos tentar esbofeteá-lo quando o visse avançar com sua picareta em riste com a intenção de me eliminar. 

Se fui ousado ao lhe dizer isso, não fui nem um pouco ao ocultar a minha tragédia de fundo, o verdadeiro drama que condicionara a minha noite e que lembrava aquele “não tenho palavras” que costumamos dizer nos velórios. Porque o núcleo central da minha tragédia não era outro senão este: depois de horas e horas de busca e apesar da minha larga experiência como escritor, eu não encontrara em toda a noite nenhuma frase digna para dizer antes da minha morte. 

Depois de afastar as cortinas, o Piauí entreabriu a porta, e através dela não tardou a entrar a minha mulher. Sorridente. Eu não podia acreditar. Estava sã e salva, e sorrindo cada vez mais. Achei ridículo lhe dizer que eu tinha sido sequestrado, e mais ridículo ainda alertá-la de que planejavam torturá-la. Eu lhe disse, com indisfarçável felicidade, que estava saindo de algo que entendia ser uma “realidade paralela” e que começava a perceber que ia aterrissando na realidade sem mais.

O Piauí nem se alterou ao ouvir aquilo, deve ter interpretado as minhas palavras como – valendo-se de um direito conquistado – mais uma prova da minha instabilidade mental. A minha mulher, por seu turno, chegou mais perto de mim e perguntou para que eu queria voltar à realidade, quando sabia muito bem que era fraudulenta e se esfacela, permitindo que a dúvida e o enigmático se infiltrem. 


Tradução de Sérgio Molina.


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Escritor catalão, publicou, entre outros livros, Esta bruma insensata (Companhia das Letras)

Lydia Davis, escritora americana, tradutora e professora da Universidade de Albany. Autora do livro The Collected Stories of Lydia Davis, publicado pela Farrar, Strauss & Giroux.

Escritor senegalês, é autor de A mais recôndita memória dos homens (Fósforo)