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A VIDA É UMA CANÇÃO

As compositoras que vendem músicas personalizadas
CRÉDITOS: ANDRÉS SANDOVAL_2026
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Em março de 2020, no início da pandemia, Mariana Schumacher, de 31 anos, foi demitida de seu emprego de barista em uma cafeteria de Porto Alegre. Decretado naquele mês para conter o contágio da Covid, o isolamento social bateu duro no setor de serviços, e a carioca que se mudara para o Rio Grande do Sul no ano anterior sofreu as consequências. Sua mulher, a gaúcha Vivien Kaminski, de 37 anos, tentou tranquilizá-la. “Eu ainda estou empregada. Tira esse tempo para pensar em algo que tu consiga fazer de casa.”

De imediato, Schumacher pensou em fazer bolos de banana para vender. Sim, só de banana, mas essa não era a parte mais estranha desse plano: ela não sabia – e ainda não sabe – fazer o bolo. “Foi uma ideia que durou 15 minutos”, recorda. Kaminski lhe deu mais um conselho sensato: “Faz algo que tu não precisa aprender.”

Formada em artes visuais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Schumacher trabalhou, durante o curso, na produção do Conversa Acústica, projeto hoje inativo que convidava artistas independentes para se apresentarem na faculdade e depois bater um papo com o público. “A gente inclusive chamou o Chico Chico, o filho da Cássia Eller”, lembra, orgulhosa. 

Num desses eventos, em meados de 2016 ou 2017 (ela não se lembra bem), um artista convidado contou que certa vez deu uma música de presente a uma pessoa. “Eu meio que guardei essa ideia”, conta a artista.

A ideia guardada foi posta em prática um mês depois de sua demissão: Schumacher criou o Canta Minha História, empreendimento que oferece canções sob encomenda, baseadas em histórias pessoais do cliente. “Ela começou a vender músicas por 80 reais, gravando direto no celular, dentro do box”, recorda Kaminski. Na falta de um estúdio, o banheiro virou sala de gravação por ter a melhor acústica do apartamento. Schumacher conversava com a pessoa, depois escrevia a letra e compunha a música em um violão, instrumento que toca desde os 10 anos.

Já no primeiro mês, Schumacher conseguiu vender vinte músicas, o necessário para bater o salário que ganhava na cafeteria. Os primeiros a recorrer ao serviço foram familiares e amigos, que ajudaram a impulsionar o negócio. Hoje os clientes chegam por anúncios e pelas redes sociais. As requisições mais frequentes são canções sobre amor, a chegada de filhos e a perda de pessoas queridas ou animais de estimação. Também há quem deseje reconquistar um antigo par romântico oferecendo uma música de presente, mas é mais raro. 

No mesmo ano de 2020, Kaminski também perdeu o seu emprego de designer em uma agência de marketing e decidiu se unir à mulher no Canta Minha História. Ajudou a criar a identidade e a divulgação digital do negócio, que desde então já produziu mais de novecentas músicas originais. 

Em 2022, as duas profissionais da canção personalizada se casaram. Em abril do ano seguinte, mudaram-se para o Rio de Janeiro, pois Mariana Schumacher queria viver perto de sua família. Desde então, a mágica acontece em um estúdio construído no apartamento que alugam na Barra da Tijuca. O aumento da demanda exigiu mais investimento na qualidade do som. O casal firmou uma parceria com um amigo de Porto Alegre que faz a mixagem e incrementa o arranjo das canções. “Mari grava a voz e o violão, e aí ele grava os demais instrumentos”, explica Vivien Kaminski. 

O gênero de cada música é decidido com base nas referências fornecidas pelo próprio cliente. Depois, Schumacher estuda a melodia, harmonia e arranjo para que a canção dialogue com o universo emocional de quem encomenda. O estilo da maioria das composições é a MPB. “Temos uma maior identificação com esse gênero, e o público também nos enxerga assim”, diz Kaminski. Mas elas também fazem pop, samba, reggae, sertanejo e rock (mas não heavy metal). Alguns clientes pedem a inclusão de suas histórias musicadas na plataforma Spotify.

Kaminski se encarrega da parte administrativa. Recebe os clientes, explica as etapas do processo e informa os preços, que hoje ficam entre 2,7 mil e 5,6 mil reais, conforme o formato da produção e os serviços complementares contratados, como a edição de um vídeo com fotos e outros registros da vida do presenteado. Kaminski também conversa sobre o que a canção deve dizer à pessoa presenteada. Mas é Schumacher que mergulha mais fundo nas experiências do cliente. Ela diz que, para compor, precisa “vestir o sentimento da pessoa”. “Eu estou sentindo no corpo os efeitos disso. É como se eu tivesse alugado uma parte de mim para as pessoas”, explica.

Algumas histórias cobram um alto preço emocional. Foi assim com a mãe em estágio terminal de câncer que desejava deixar uma mensagem para a filha. “A Mari começou a chorar no meio da gravação”, lembra Kaminski. Por isso, quando termina uma composição, Schumacher costuma dar uma caminhada para espairecer. 

Desde o ano passado, o Canta Minha História vem enfrentando um concorrente difícil: a inteligência artificial. Com o acesso ilimitado a essas ferramentas digitais, o mercado para composições personalizadas encolhe. Schumacher acredita que as canções que faz por encomenda exigem um atributo que a máquina não tem: a emoção humana. “Há nuances que o ChatGPT não capta”, diz. Ainda que domine a métrica e a rima próprias de uma letra de canção, a inteligência artificial “deixa a desejar na sensibilidade”, e por isso seria incapaz de “perceber o que é essencial para a história”. 

No entanto, a crise é real. No contato com outros profissionais do ramo, as criadoras do Canta Minha História percebem uma crescente insegurança. “Todo mundo está buscando outras fontes de renda”, conta Kaminski. Elas mesmas buscam alternativas, embora não pretendam abandonar a música. O casal criou o Desenha Minha História, que oferece outra forma de arte feita a partir de histórias particulares: Kaminski – que tem paixão pelo desenho – transforma as narrativas que ouve dos clientes em pequenos mapas cheios de elementos personalizados.

O casal também passou a compartilhar seu cotidiano no Instagram, na esperança de cavar um espaço no concorrido mundo dos influenciadores digitais. O plano é converter o perfil na rede em atividade principal, mantendo o equilíbrio com seus outros ofícios. “Queremos cuidar mais da gente”, diz Schumacher. Quem sabe, até aprendam a fazer bolos de banana juntas.


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É estagiário de jornalismo na piauí