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Tatiane de Assis piauí_242 05 Nov 2026
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Bernardo Mosqueira tinha 19 ou 20 anos quando visitou o apartamento de Ney Matogrosso, no bairro carioca do Leblon. Ficou curioso com a coleção de arte do cantor. Uma tela, em especial, fisgou seu olhar: um retrato pintado pelo goiano Siron Franco.
Nesse quadro feito em 1978, Ney aparece ao centro, contra um fundo verde-petróleo, com a maquiagem branca que remete à sua imagem na capa do álbum Água do Céu – Pássaro. Em seu peito, está a figura de um coração entre duas cruzes, do qual parte, em diagonal, uma cicatriz que segue até a parte de baixo da tela.
Naquela visita à casa do intérprete de Homem com H, foi semeado o projeto de uma exposição que Mosqueira tentou organizar em 2017, mas só conseguiu realizar neste ano. A mostra Ney Matogrosso: eu prefiro ser tinha data prevista de encerramento em outubro, mas o sucesso de público levou a prorrogação até o dia 7 de novembro, no espaço cultural Solar, no Rio de Janeiro.
Homenagem aos 85 anos do cantor, a exposição reuniu 66 obras de 46 artistas. A seleção foi feita por Mosqueira e mais dois curadores, Matheus Morani e Pablo Léon de la Barra. O retrato que fascinou Mosqueira, contudo, não foi incluído. “O empresário do Ney me disse que ele não gosta de emprestar as obras da sua coleção, pelo fato de já terem perdido um trabalho”, explica o curador, hoje com 38 anos.
Na época em que conheceu Ney Matogrosso, Bernardo Mosqueira ainda não tinha descoberto sua vocação para as artes: estudava engenharia mecânica na UFRJ. Tinha interesse pelas disciplinas mais teóricas da faculdade, mas achava que a especialização técnica não permitia que ele explorasse sua capacidade crítica. Para atender a essa inquietude, ele se juntou ao Laboratório Tupinagô de Arte e Ciência, um projeto criado pelo médico psiquiatra Vitor Pordeus para unir teatro, arte e saúde mental. A inspiração vinha do Grupo de Teatro Tá Na Rua, de Amir Haddad, que ocupava a rua com improvisos teatrais.
Ao mesmo tempo, Mosqueira fez um curso sobre arte e filosofia na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Quando a artista plástica e professora Anna Bella Geiger pediu à turma que fizesse uma análise crítica de alguma exposição, o futuro curador escreveu sobre a instalação Antônio Conselheiro não seguiu o conselho, de David Cury, que estava no MAM do Rio naquele ano de 2009. “Ele escreveu à beça”, lembra a artista, que leu todo o texto para a turma. Geiger se converteu em uma espécie de madrinha do curador em formação.
Nessa transição para a crítica de arte, Mosqueira trocou a engenharia pelo curso de jornalismo da UFRJ. “Eu acreditava que crítico era quem escrevia no jornal”, conta. A mudança de curso, associada à sexualidade de Mosqueira, levou a uma crise com os pais: “Na mesma época em que eu disse que não ia mais fazer engenharia, contei para eles que eu era gay.” A situação se resolveu mais tarde com os pais, que acabaram apoiando a estreia do filho como curador.
A primeira mostra concebida por Mosqueira – Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome – foi montada em 2010 dentro de uma casa que sua família tinha comprado no Jardim Botânico, no Rio, e que estava por ser reformada. Chamou atenção pela brevidade – só três dias em cartaz – e pela grande quantidade de artistas, com 48 nomes. O longo título juntava duas frases de Perto do coração selvagem (1943), primeiro livro de Clarice Lispector. A escritora e Carlos Drummond de Andrade são os dois autores preferidos do curador.
De 2011 a 2015, Mosqueira foi um dos curadores da Galeria de Arte Ibeu, no Rio. “Era um espaço muito importante, onde Hélio Oiticica, Anna Bella e Ernesto Neto fizeram suas primeiras exposições”, diz. Depois, tornou-se cofundador do Solar dos Abacaxis, que deu vazão a algumas das propostas mais experimentais da arte carioca. Em 2025, o espaço passou a se chamar apenas Solar, por decisão de Mosqueira, diretor artístico, e de Adriano Carneiro de Mendonça, diretor executivo. Nessa altura, o curador já não morava no Brasil.
Radicado em Nova York desde 2019, Bernardo Mosqueira concluiu em 2021 seu mestrado no Bard College, importante escola de curadoria dos Estados Unidos. No mesmo ano, fez parte do time curatorial da Trienal do New Museum, exposição periódica que reúne artistas iniciantes de todo o mundo. Encerrada a Trienal, ele se tornou, no New Museum, curador de arte latino-americana, cargo vinculado ao Instituto de Estudos de Arte Latino-Americana (Islaa).
Neste posto, ele está tentando sacudir a própria ideia de arte latino-americana. Nos últimos três anos, tem vindo ao Brasil a cada três meses, a fim de se dedicar à direção artística do Solar. E agora está organizando para 2030 uma grande empreitada: um festival de arte latino-americana, que deverá se chamar Una.
“Uma das coisas mais essenciais do meu trabalho é que tenho uma atração muito maior pelas contradições do que pelas categorias”, afirma. Um bom exemplo é a mostra individual de Dan Lie que ele organizou no New Museum, em 2022. “Lie não quer mais que se diga que nasceu no Brasil”, conta Mosqueira. Segundo o curador, agora Lie demonstra mais interesse na própria ancestralidade indonésia e está agora explorando também sua relação com elementos naturais que não cabem em nenhuma nacionalidade, como “fungos, plantas e seres inominados”.
O pendor para discussões difíceis está entre as qualidades que Mosqueira julga essenciais para o seu ofício. Mas o curador também encara com naturalidade o lado mais prático da profissão, como buscar patrocínio para as exposições. “A pureza é um mito”, diz.