CRÉDITO: ACERVO PESSOAL - O pai da autora, Vicente Caetano da Silva (à dir.), em Curitiba, em 1955: ele cultivava uma horta, gostava de faroestes, sonhava com uma família grande e conseguiu ter seis filhos
CRÉDITO: ACERVO PESSOAL - O pai da autora, Vicente Caetano da Silva (à dir.), em Curitiba, em 1955: ele cultivava uma horta, gostava de faroestes, sonhava com uma família grande e conseguiu ter seis filhos

intermitências do coração

MEUS MORTOS

Uma reação ao esquecimento

28 min de leitura

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Penso pouco no meu pai. Por isso, quando, em uma sequência de dias, me vi lembrando dele, procurei uma explicação. Por que ele estava “voltando”? Percebi que a resposta estava no calendário. Naqueles mesmos meses do início do ano, mas em 1985, meu pai adoeceu, procurou médicos e recebeu o diagnóstico de câncer. Aproximava-se o dia em que sua morte completaria quarenta anos. Ativada por um mecanismo que não sei explicar, minha memória identificou a data e desenterrou lembranças daquele período doloroso, que culminaria na sexta-feira de março em que ele morreu. 

É muito tempo sem ele. Instalou-se em mim uma angústia que só consigo descrever usando as perguntas que me fiz insistentemente: Estou esquecendo meu pai? Ele ainda existe na minha vida? Ao deixar de pensar nele com frequência, estou “matando-o” definitivamente? Naqueles dias, tive medo de deixar que desaparecesse no esquecimento uma pessoa que amei tanto.

Não se trata de luto tardio. O luto pelo meu pai foi uma estrada que percorri como pude quando tinha 18 anos. Quarenta anos depois, encaro um momento de perplexidade que não é especialmente doloroso, mas pode influenciar a forma como lidarei com os próximos anos da minha vida.

A questão que coloco é sobre o espaço reservado aos nossos mortos depois que o período de luto passou. O que fazer com eles depois de tantos anos? O que resta deles? A construção de uma resposta é uma experiência pessoal, mas totalmente embebida nos valores do lugar e do tempo em que vivo, ou seja, não consigo chegar a ela olhando só para dentro de mim.

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A filósofa britânica Mary Midgley escreveu que “todo raciocínio é movido pelo sentimento e todo sentimento sincero implica algum raciocínio como base”. Me pergunto se há estopim mais poderoso do que a morte para sentimentos e pensamentos. Um ser amado que não existe mais. Não há o que fazer, não há como voltar o tempo. Resta a lembrança dele ou, colocando de outra forma, restamos nós e o que lembramos dele. A existência de meu pai depende de mim e de outras pessoas que o conheceram. Quando essas pessoas e eu estivermos mortas, a imagem, a voz, a personalidade dele também morrerão outra vez e definitivamente. Dá para colocar a situação assim, dentro de um plano analítico. No plano íntimo, essa situação tão direta e clara ganha nuances. 

Ouço pessoas dizerem que se lembram todos os dias de uma pessoa falecida: o pai, a mãe, o filho ou a filha, o companheiro ou a companheira. Que até conversam com ela. Dá para perceber que, com a intensidade e constância da lembrança, criam uma segunda existência para a pessoa que perderam. Não é meu caso, e me senti uma traidora por talvez não estar “fazendo nada” por meu pai (a morte da minha mãe é bem mais recente e aconteceu depois de um longo período com Alzheimer, o que fez de sua morte uma experiência de luto diferente). 

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Entendo que quem morreu continua existindo na nossa memória e na nossa constituição afetiva. Mas o tempo que avança enterra as lembranças sob muitas camadas de dias e vivências, a ponto de não sabermos mais se elas ainda estão lá nem como acessá-las. 

Marcel Proust descreveu a situação de que falo como “perturbações da memória” ligadas às “intermitências do coração”. A pessoa enlutada se distrai com as pequenas aventuras do dia a dia, se esconde da dor e propositalmente “esquece” porque precisa fazer isso para tolerar a perda, para não pensar na finitude. Simplesmente para seguir vivendo. Mas o coração se descuida e, de repente, nos intervalos, ou nas intermitências, como preferia Proust, emerge então a memória que nem sabíamos guardar. Foi assim com o narrador de Em busca do tempo perdido, quando, mais de um ano depois da morte da adorada avó, lembrou-se dela ao entrar no quarto do hotel à beira-mar onde tinham estado juntos no verão anterior e encarou, com toda a dor que vinha evitando, o fato de ela não existir mais. 

O narrador de Proust parece aliviado por parar de fingir que nada havia mudado em sua vida, mas lamenta a dificuldade para acessar as lembranças que guardou. “Em todo caso, se [as memórias] permanecem dentro de nós, na maior parte do tempo ficam em um domínio desconhecido onde não têm nenhuma utilidade”, escreve.

Foi uma intermitência do coração que me fez lembrar do meu pai insistentemente naqueles dias que correspondiam a outros, quatro décadas antes, quando ele sofria com os sintomas provocados pelo tumor maligno no cérebro. 

Agora me pergunto como mantê-lo aqui. Como as pessoas carregam seus mortos? Vou atrás de algum livro que traga registros de experiências e questionamentos como os meus. Sempre se encontra algum consolo nos livros. O resultado é uma pilha de títulos recém-comprados e outros já lidos e que recuperei. Passei meses lendo páginas sobre a morte.

Leio passagens que me ajudam, mas nada que foque totalmente nessa convivência tardia com mortos antigos. Exploro livros sobre o luto, sobre a angústia diante da mortalidade e sobre a morte no Ocidente. Em alguns, há algo a aprender, em outros há poesia. Mas eles não falam sobre o que resta depois de ter passado tanto tempo da morte. Até porque o luto foi desidratado nas últimas décadas e tem data de validade. Uma data que não está escrita em lugar algum, mas que a sociedade recomenda que dure pouco, sob o risco de ser vista como doença (doença que foi chamada por Freud de melancolia).

O que encontrei nos livros é o suficiente para saber que não estou sozinha. Aqui estão alguns desabafos que anotei:

  • O historiador Boris Fausto, sobre as visitas ao cemitério que fazia para se sentir próximo da esposa que falecera: Com o correr dos anos, as visitas já não me causam tanto impacto. Mantenho-as sem rigor de datas, cuido da lápide, levo flores, mas a memória da Cynira deslocou-se para outras paragens, paragens de sonhos [...]. Às vezes, as visitas se assemelham ao cumprimento de uma obrigação burocrática. Nessas ocasiões o sentimento de culpa aflora.

  • Carlos Drummond de Andrade chamou de “cemitério de bolso” sua experiência: Do lado esquerdo carrego meus mortos/por isso caminho um pouco de banda.

  • Outro poeta, Giuseppe Ungaretti: Cessai de matar os mortos/Não gritai mais, não gritai/Se quereis ainda ouvi-los,/Se esperais não perecer.

  • O também italiano Giovanni Papini, no Dia de Finados de 1942: Não sinto e não pratico o culto totalmente materialista e exterior, que consiste em chegar junto a um pedaço de mármore onde só há poucas palavras e algumas relíquias invisíveis do corpo não mais vivo. Os mortos estão ainda vivos, mas apenas de dois modos: na segunda vida, para aqueles que têm fé, e no espírito dos sobreviventes, na nossa lembrança quente e presente. Morremos uma segunda vez, na Terra, quando morrem todos os que nos amaram.

A segunda morte, aquela que acontece quando ninguém mais se lembrar de nós, é mencionada por vários autores com variações. Como nesta frase, tão delicada, de Elias Canetti: “As almas dos mortos estão nos outros, ou seja, naqueles que ficaram, e ali elas lentamente se extinguem por completo.”

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O historiador francês Philippe Ariès, ao traçar a evolução dos sentimentos e costumes em relação à finitude na obra O homem diante da morte, registra relatos de sobreviventes que temiam que a pessoa amada fosse esquecida, entre elas o poeta Alphonse De Lamartine, autor destes versos que jogam tristemente com as palavras: “De todos que te amaram, não resta mais quem te ame?” 

O esforço para prolongar a memória dos que partiram antes de nós não deixa de ser uma tentativa de oferecer a eles a eternidade. Como se eternidade existisse para o ser humano. Faz sentido, isso sim, pensar em sobrevida, em um prolongamento da existência para além da vida do corpo, já que é possível que o nome e a história de alguém sobrevivam à morte física.

Todos os autores que li nesse período de busca afirmam que vivemos tempos de rejeição e supressão do luto. A morte se tornou, com o avanço da ciência, um fracasso. Não mais um evento natural, mas um acidente da doença que deveria ter sido vencida no leito do hospital. Nesse contexto, o luto é malvisto e deve ser enfrentado com discrição e rapidez. Exceção é aberta para as mortes violentas, que ocorrem em circunstâncias excepcionais; nesses casos, se espera até reações emocionais seguidas de demonstração de inconformismo. 

Se persistir, a dor do luto passa a ser tratada como enfermidade que demanda terapia e medicação. É a “pornografia da morte”, termo utilizado em 1955 pelo antropólogo britânico Geoffrey Gorer. Foi ele quem disse que a morte e o luto passaram a ser tratados com o mesmo decoro que um dia foi reservado ao sexo: a sociedade se sente desconfortável diante das emoções dos enlutados e por isso elas devem ser escondidas o mais cedo possível. A morte substituiu o sexo como o tema do qual não se fala diante das crianças. 

O luto deixou de ser uma experiência da comunidade para se tornar uma vivência individual e totalmente interiorizada, já que os sinais externos foram sendo abolidos pouco a pouco. 

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A foto mais bonita que guardamos do meu pai: ele, homem jovem de cabelo bem penteado, caminha com um primo em uma rua de Curitiba, ambos trajando terno e gravata. Ele tem uma fita preta e larga colocada sobre a lapela do paletó, símbolo do luto pela sua primeira esposa, que havia acabado de morrer de câncer. Assim, informa até os desconhecidos que cruzavam com ele naquela rua que carrega um luto, que alguém amado por ele havia morrido recentemente. 

Esta foto é do início dos anos 1950.

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A morte como uma falha, um lapso, uma pisada na bola. Deve vir daí o modismo que cresceu entre bilionários de buscar a longevidade extrema, se não a imortalidade: eles parecem nos dizer que, com abundância de recursos, o equívoco será domado, corrigido, superado. 

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Segundo Philippe Ariès, a partir de meados do século XIX começou a se formar o padrão de sensibilidade coletiva atual, que cultiva os afetos e os sobrepõem à conveniência da vida cotidiana e às regras sociais. A exaltação da afetividade tornou mais dolorosa a separação provocada pela morte e os seres humanos passaram a compensar a dor com o cultivo de lembranças e com o que Ariès chama de “qualquer forma mais ou menos exata de sobrevida”. Surgiu daí o culto da lembrança (em obituários, visitas a cemitérios, pinturas, fotos, túmulos) e abriu-se espaço para as tentativas de contato com os mortos. O livro dos espíritos, de Allan Kardec, foi publicado em 1857 e sistematiza a doutrina do espiritismo. Nas décadas seguintes, espalhou-se a partir da Europa um grande interesse pela invocação de espíritos. 

A valorização dos sentimentos desaguou no temor às perdas. “As diversas crenças na vida futura ou na vida por meio da lembrança são, de fato, as respostas à impossibilidade de aceitar a morte do ser querido”, diz Ariès.

Outro francês, o sociólogo Didier Eribon, cita e discorda de Ariès no livro em que relata a morte de sua mãe (Vida, velhice e morte de uma mulher do povo). Ele se refere às cerimônias fúnebres como “ostentação do luto e da dor” e está confortável com o desaparecimento de todas elas. Eribon evita funerais – evitou inclusive o da própria mãe – e nunca visita cemitérios. 

Grupos humanos que vivem juntos têm necessidade de continuidade e de transmissão de história para que criem uma identidade compartilhada. Isso vale para famílias e para comunidades. Nos dois contextos, os mortos têm um papel. Com suas histórias pessoais, questionam as grandes narrativas constantemente reescritas conforme conveniências passageiras. Para as vítimas de mortes violentas, de genocídios e guerras, e para os grupos que foram apagados pela sociedade, como muitos povos indígenas, a lembrança é uma necessidade política, é uma forma de resistência. Lembrar os seus mortos é lhes fazer justiça. Esquecê-los é matá-los novamente, é ser conivente com os agressores. 

Nos projetos de extermínio de um determinado grupo de pessoas, o filósofo francês Paul Ricoeur identificou a circunstância excepcional e dolorosa em que a morte é “mais real que a vida”. 

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A forma como lidamos com o nosso desaparecimento, seja no plano individual ou coletivo, é intrínseca à civilização em que estamos mergulhados. Como nos nascimentos e casamentos, como na nossa relação com o sexo, os ajustes vão sendo feitos gradualmente. Por isso, só os mais velhos percebem mudanças significativas. 

A urbanista francesa Marion Waller nota que, nas últimas décadas, o avanço do pensamento laico na sociedade enfraqueceu o papel dos ritos e dos mitos. Isso produziu um impacto nas práticas tradicionais de homenagem e lembrança dos mortos, como aquelas em que se rezava ou se falava do falecido durante o velório ou à beira do túmulo. Waller, encarregada de assuntos funerários da prefeitura de Paris (lá, eles são municipais), defende a ideia de que os ritos funerários – que ela chama de “cuidado com os mortos” – são essenciais para manter unida uma sociedade e que, por isso, merecem ser tratados com atenção. 

Na cultura brasileira atual, os funerais são simples e cada vez mais rápidos. A única tradição mantida é a do velório do corpo presente. Falando sobre a França, Waller descreve um cenário parecido e diz que essa simplicidade extrema revela uma incapacidade de estar à altura do evento, ou seja, a morte: “A consideração dedicada ao falecido, os relatos que construímos sobre sua vida são formas de atribuir importância a cada existência, de lhes dar sentido [...]. É aí que os rituais funerários encontram uma de suas razões de ser. Ao negligenciarmos o momento da morte, ferimos os vivos.”

Essa é uma constatação feita por vários dos autores que li nesse período de busca: que, para afastarmos a morte, nós nos afastamos de nossos mortos. 

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Além dos funerais, alguns povos definiram uma data anual para que os falecidos sejam lembrados: o Dia de Finados, para os católicos, e sua versão mexicana, o Dia dos Mortos; o Qingming, dos chineses; a Parentalia da Roma antiga; os rituais budistas; o Quarup dos indígenas do Xingu, para citar alguns. 

Suponho que a celebração anual tenha sido uma solução encontrada para a angústia que agora me aflige. Em diferentes lugares e épocas, as pessoas devem ter se perguntado: vou viver como se ele (ou ela) nunca tivesse existido? Devo me esforçar para lembrar dele (ou dela) todos os dias? 

Os mitos que várias culturas construíram e cultivaram sobre a vida após a morte funcionam como uma ponte entre o aqui e o além. Conectam o enlutado a algo maior que a vida biológica e tornam a separação mais tolerável. Os mitos surgem como uma negação da finitude e acompanham a humanidade desde sempre.

Waller diz que, embora o indivíduo tenha o direito de optar por um funeral sem ritos ou mitos (por ser irreligioso, agnóstico ou ateu), a despedida é esvaziada para os amigos e familiares. A despedida se dilui em pensamentos vagos e memórias individuais. Cada um tem que lidar com a perda de forma solitária. 

Os funerais refletem o enfraquecimento de crenças coletivas. Com a morte de uma pessoa amada, um homem ou mulher do século XXI pode sentir falta de um ritual de despedida, mas, ao tentar vivenciá-lo, talvez não encontre o conforto buscado por já estar muito distanciado dos simbolismos e das palavras que se utiliza nessas horas. Eu, criada no catolicismo, encontro tranquilidade e consolo lembrando da mãe e do pai no Dia de Finados? Não.

Outra frequentadora de cemitérios por obrigação profissional, a rabina francesa Delphine Horvilleur escreveu um best-seller sobre o tema intitulado Viver com nossos mortos. Em entrevistas, ela afirma, com sua voz doce e a fluência de boa contadora de histórias, que falar da vida dos mortos abre uma passagem que aproxima a nós, os vivos, deles, os mortos. No judaísmo, o sepultamento inclui um momento dedicado a contar a vida do falecido, o que, segundo ela, reaproxima os parentes enlutados da pessoa que será sepultada. 

A forma como se lida com a morte atualmente contribui para o deserto ritualístico que se segue ao falecimento. Pode parecer óbvio em um contexto em que não se acredita na vida eterna ou no purgatório: por que ritos post mortem se não há mais nada? Em um ambiente secular, os ritos conectados ao luto têm a função de pacificar os vivos enlutados. Podemos supor que os ritos de lembrança, por sua vez, pacifiquem os vivos que temem o esquecimento total, o fim definitivo após o fim físico.

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Waller e Horvilleur refletem sobre o que se passa no cemitério como reflexo de características das sociedades ocidentais influenciadas pela laicidade, com famílias menores e menos senso de comunidade, menos apego a ritos compartilhados. Pode ser. Mas para a questão do que fazer com os nossos mortos, o cemitério ou o túmulo tem pouco significado, ainda que os grandes memoriais para vítimas de mortes violentas ou trágicas realmente nos façam pensar neles – me vem à mente o painel com os nomes dos 649 soldados argentinos mortos nas Malvinas, na Praça General San Martín, em Buenos Aires, que me impactou fortemente. Fora desse contexto, é como disse Walter Benjamin, que tem um bonito memorial em sua lembrança na vila de Portbou, na Espanha, onde morreu: honrar a memória das pessoas anônimas é uma tarefa mais árdua do que honrar aquela das pessoas célebres. 

Em uma ocasião, meu pai demonstrou sensibilidade em relação ao abandono dos túmulos por parte dos familiares. Visitávamos uma cidade pequena onde ele havia vivido quando muito jovem. Ele quis ver o cemitério onde estavam sepultados alguns parentes. Enquanto caminhávamos entre os túmulos de pessoas desconhecidas, notou alguns que pareciam abandonados e disse que era terrível que não houvesse nenhum familiar disposto a se ocupar da manutenção. Ele me pareceu realmente consternado com aquela visão de abandono, e eu, com 11 ou 12 anos, interpretei aquilo co­mo uma informação muito clara: meu pai esperava que seus familiares não abandonassem seu túmulo. 

Quando eu quis saber como os livros tratavam a cobrança que me faço sobre como continuar honrando a memória do meu pai morto há tanto tempo, busquei títulos que pareciam ser fontes promissoras de respostas. Não foi bem assim. Os autores falavam sobre o relacionamento da sociedade com a morte, sobre os rituais funerários, sobre a negação da morte e a busca pela eternidade. Nenhuma dessas é a questão que eu me coloco, uma questão pessoal e íntima, mas que acredito que não seja só minha. 

As leituras não foram perdidas. Quanto mais se reflete sobre a morte, menos assustadora ela fica.

Surpreendi-me com uma ideia que se repete: a do diálogo com os mortos. Marion Waller afirma que “em vez de nos esforçarmos para nos desapegar e focar no esquecimento, podemos dar mais espaço aos mortos em nossas vidas e em nossas cidades”. A rabina Delphine Horvilleur propõe “aprender a viver com os mortos”. A filósofa Vinciane Despret mostra confiança em um diálogo com os mortos. Ela não desacredita aqueles que afirmam ouvi-los de alguma forma e cujas experiências registrou no livro Um brinde aos mortos. Essas pensadoras afirmam que, se não forem esquecidos, os mortos têm uma segunda vida, não no Paraíso, mas aqui mesmo, onde podem nos acompanhar e “ajudar a viver”.

Voltando a Horvilleur: “Nada é mais perigoso do que fazer os mortos falarem. Mas nada é mais sacrílego do que fazê-los silenciar.” Ela explica que as pedrinhas que os judeus colocam sobre os túmulos falam da força da memória: “Evocam o lugar inalterável que aqueles que se foram ocupam na vida dos que sobrevivem. [...] A pedra fala de uma filiação, real ou fictícia, mas sempre verdadeira.” 

Me pergunto se é possível que a minha memória de meu pai, quarenta anos depois, seja fiel à complexidade de sua existência, já que, com o passar do tempo, as cenas lembradas, as histórias que conto sobre ele, as frases que ouvi vão se resumindo a algumas poucas, sempre refeitas pelo meu cérebro. Além disso, há muita coisa que não sei sobre ele, desde informações sobre sua vida até como se sentiu em situações importantes. Na melhor das hipóteses, conheço bem o pai e apenas um pouco o homem que ele foi. Sei que essa é uma situação comum nas famílias. 

Chego à conclusão de que somos, meus irmãos e eu, a memória encarnada dele, uma vez que sua vida e sua história, sua personalidade e seu caráter, são partes constitutivas de quem somos. Somos o prolongamento da vida do nosso pai, como todos os filhos são.

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Falta à minha busca este apelo característico das dúvidas expressadas em voz alta: a crença de que há uma resposta certa a ser encontrada e que ela será redentora. Busco mais a reflexão do que a resposta certa. Não creio que ela exista, que haja algo como a solução de uma charada, pois a morte dos pais e a passagem do tempo se inserem com naturalidade na trajetória dos seres humanos. Diante da inevitabilidade, é como se a natureza me dissesse: faça com seu pai o que quiser, ou não faça nada. 

O que busco, talvez, seja expressar meu espanto. Permitir-me ser ingênua e surpreender-me com o que é natural: as perdas, a sobrevivência às perdas, a vida que segue sem uma pessoa que amamos. Quantos já se espantaram em silêncio com essa trajetória da vida! Amantes enviuvados, filhos órfãos, amigos jogados na solidão. Todos nós descobrimos a morte. 

O ensaísta francês Roland Barthes, no diário que escreveu no primeiro ano depois da morte de sua mãe, registrou, em abril de 1978, que não escrevia para se lembrar, “mas para combater a dilaceração do esquecimento na medida em que ele se anuncia como absoluto. O – em breve – ‘nenhum rastro’, em parte alguma, em ninguém”. 

Em alguns momentos, ele se pergunta se um monumento à mãe, como um mausoléu no cemitério da cidade natal da família, ajudaria. 

Em novembro de 1977 – a mãe de Barthes havia morrido um mês antes –, ele se apavora com o “caráter descontínuo do luto”. Com isso, reconhece que a vida segue e se sobrepõe à dor da perda. Teme estar esquecendo a mãe. Dois dias depois, registra: “Poder viver sem alguém que amávamos significa que a amávamos menos do que pensávamos?” Barthes se angustia com a constatação de que pensa cada vez menos na mãe e que o mundo segue, sem que dela fique rastro. O esquecimento “inexorável”, termo que ele usa, significa o desaparecimento da mãe. Ao mesmo tempo, diz não se incomodar com seu próprio desaparecimento: “Que me importa durar para além de mim mesmo, no desconhecido frio e mentiroso da História, já que a memória de mamãe não durará mais do que eu e aqueles que a conheceram, e que morrerão por sua vez?” 

Penso que ao nos fazer confrontar a mortalidade, inicialmente de forma dolorida e, quem sabe mais tarde, de forma resignada, o desaparecimento das pessoas que amamos nos prepara para o nosso próprio desaparecimento; nos posiciona no fluxo da existência (nascer, crescer, envelhecer, morrer) e faz parecer natural que também nós desapareçamos. Afinal, não foi assim com quem amávamos e julgávamos tão importantes? 

Como Barthes, sinto que meu desaparecimento futuro não me incomoda. Tento imaginá-lo – após minha morte, segue a vida de meus filhos, amigos e sobrinhos, pouco a pouco me torno um nome citado raramente e depois desapareço no esquecimento de um mundo que, de qualquer forma, já não me dirá nada porque não é aquele no qual vivi. Noto que pessoas muito idosas frequentemente demonstram estar apartadas do mundo em torno delas e com o qual não se identificam. Comigo também será assim. São apegos distintos: um diz respeito à lembrança do meu pai; outro, à minha própria existência. Tenho compromisso com a lembrança do meu pai e entendo, com tranquilidade, a inexorabilidade do meu próprio desaparecimento.

O mundo se renova constantemente. O meu mundo é formado por um conjunto de pessoas, sendo que algumas chegaram cedo e outras surgiram recentemente. De outras, só conheço as obras que admiro. Cada uma que morre leva consigo um pedaço do meu mundo. Se todos se forem antes de mim, meu mundo terá acabado, ainda que eu continue aqui. Seria terrível. O último da tribo é sempre uma figura triste, cercada pela mais completa solidão.

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As frases mais tocantes sobre a morte são ditas por aqueles que resistem a ela, por aqueles que não aceitam o desaparecimento de pessoas que fazem parte de suas vidas. Enquanto a resignação produz calma e silêncio, o inconformismo gera argumentos, atiça a memória, faz barulho. É verdade que Julian Barnes, escritor que aprecio muito, fez um livro inteiro sobre a dificuldade em aceitar sua própria finitude. Achei chato e repetitivo. A paixão por si mesmo não emociona.

Já Elias Canetti pensava na morte em termos universais e políticos. Tendo presenciado as carnificinas das duas guerras mundiais do século XX, defendia que não aceitar a morte era uma questão de honra. Ele se propôs a resistir à divisão da humanidade em pessoas presentes e pessoas mortas. Ao longo de muitos anos, reuniu anedotas e reflexões sobre a morte (“Estou tão cheio dos meus mortos que mais ninguém pode morrer, pois já não há mais espaço dentro de mim.”). A certa altura, escreve que as armas para resistir (e portanto manter os mortos junto com os vivos) são três: a memória, ler e escrever. 

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Do meu pai não guardo nenhum objeto. Da minha mãe, tenho uma blusa que ela usou muito (é fácil revê-la mentalmente vestindo esta túnica simples em tons pastel) e um pequeno véu negro de renda muito fina que nunca a vi usando porque era de seu tempo de juventude, quando mulheres católicas ainda cobriam a cabeça em algumas cerimônias religiosas. Também guardo duas peças de roupa que ela fez para mim (minha mãe era costureira). 

Entre a ausência de lembranças materiais de meu pai e os pedaços de tecido transformados em relíquias da minha mãe, prefiro a primeira situação. 

São peças bonitas as que guardei da minha mãe e que mantêm um pouco da doçura e da feminilidade dela. Mas em torno do objeto transformado em relíquia se desenvolve uma necessidade de culto, de cuidados e atenção, um apego ansioso e que vai se tornando desconfortável. 

Não me preocupo com o que farão dos meus objetos quando eu morrer; eu mesma posso providenciar o desaparecimento de todos eles para que não “fiquem”. Mas daquilo que pertenceu à minha mãe preciso cuidar e providenciar um fim digno.

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Memória e identidade se confundem. A lembrança que tenho do meu pai se junta a um punhado de outras também fundamentais e define quem eu sou. Me agarro à lembrança das pessoas que foram importantes para mim como forma de me agarrar a elas, de não as perder. Se as perder, perco um pouco de mim mesma. 

De meu pai, tenho a memória de um rosto, uma voz, um sorriso, de poucas frases e de alguns trejeitos, de trechos de uma biografia. Para trazer essas lembranças de volta, preciso me concentrar. A voz quase me escapa. É uma lembrança fugidia, como as imagens do sonho que recordamos no momento que despertamos e que, ao colocarmos os pés no chão, desaparecem. As reminiscências às vezes são memórias emprestadas de outras pessoas, são peças de imaginação ou ficção. Escreveu o historiador e filósofo italiano Paolo Rossi: “Voltar a lembrar implica um esforço deliberado da mente; é uma espécie de escavação ou de busca voluntária entre os conteúdos da alma.” 

Uma manhã, no Centro de Curitiba, cruzei por acaso com uma mulher que havia sido nossa vizinha em uma cidadezinha do interior do Paraná. Na rápida conversa que mantivemos na rua movimentada, ela me disse que tinha boas lembranças de minha família e citou uma história sobre meu pai: bem no início dos anos 1970, como sua família não tinha um aparelho de tevê, ela e a irmã espiavam com grande interesse pela janela o aparelho ligado em minha casa. Quando meu pai notava as adolescentes, mandava que nos afundássemos no sofá para não atrapalhar a visão das duas. Fazia isso discretamente, para evitar constrangê-las. 

Ele foi tão discreto que nem percebi o que estava acontecendo. Ou simplesmente esqueci. Lembro que a posição da tevê de fato permitia que Rose e Vera enxergassem as imagens se estivessem na janela da cozinha da casa delas. Lembro que havia naquela cozinha um banco-caixa de madeira muito comum nas moradias da cidade, onde se guardava lenha. É provável que as jovens ficassem de joelhos nesse banco tentando ver tevê conosco. 

Nesse caso, empresto a memória da Rose para construir uma narrativa que diz um pouco sobre meu pai. 

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A história da vida de uma pessoa é um jogo de revelação e encobrimento, de manifestação e ocultação. Segundo Martin Heidegger, cada presença é “somente vestígio, degeneração, olvido”. Como se faz para não esquecer alguém? Seria necessário viver voltada para o passado (vestígio) e ainda assim viveríamos uma fantasia (degeneração). Por sua vez, o esquecimento também estrutura e organiza nosso pensamento. 

Para alguns povos africanos que praticam a relação com os ancestrais, uma pessoa ainda vive após a morte física se for lembrada. Assim, continua tendo influência no plano dos vivos – o que, do ponto de vista psicológico, me parece fazer todo sentido. 

Vinciane Despret encara como respeitável uma pessoa que diz conversar com um morto ou uma comunidade que julga necessário tomar certos cuidados para acalmar os que deixaram esta vida. Afinal, diz ela “a ideia de que os mortos não têm outro destino, senão a inexistência” é nova na história do ser humano. No mundo europeu e materialista de onde ela fala, a regra é: depois da morte de uma pessoa próxima, os que ficam fazem o “trabalho de luto” e “o morto não tem outro papel a não ser se fazer esquecer”. Despret se revolta com esse destino definitivo que se dá aos falecidos, quando ela diz que “se não cuidarmos dos mortos, eles morrem de fato”. 

Ainda que eu nunca tenha buscado falar com meu pai depois de sua morte, nem na forma de monólogo interior, nem de diálogo mediúnico, entendo aqueles que fazem ritos para os ancestrais, como os japoneses que cumprimentam diariamente o familiar falecido na foto colocada no oratório doméstico, o butsudan. Despret diz que a existência dos mortos não depende de nós (não?) e que nos cabe oferecer-lhes “mais” existência no sentido de um suplemento biográfico, de um prolongamento de presença, de outra existência. Esse trabalho da nossa parte permitiria ao morto influenciar mais um pouco a vida dos vivos.

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Se imagino uma existência prolongada para meu pai, sinto alívio. Se ele pudesse nos ver, saberia que sua preocupação com o futuro dos seis filhos não se confirmou (éramos todos estudantes muito novos quando ele morreu) e que seguimos falando dele com orgulho e amor, quarenta anos depois. 

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Suponho que, nos próximos anos, alguém com a mesma inquietação que eu começará sua busca recorrendo a arquivos digitais. Reverá vídeos, buscará fotos. Seu ponto de partida será, portanto, externo a si mesmo. Estará nos registros iconográficos, talvez guardados na nuvem. Até pouco tempo, apenas filhos de figuras públicas tinham essa possibilidade, através de filmes e reportagens que mostravam seus pais em situações oficiais ou trabalhando. Não era, portanto, a pessoa que estava ali, mas o personagem. Agora todos somos constantemente filmados e fotografados em situações domésticas e íntimas, e nossas vozes estão em áudios compartilhados entre familiares. 

Ferramentas de inteligência artificial alimentadas com informações sobre o falecido permitem diálogos coerentes. Criam a ilusão de continuidade e afastam a pessoa enlutada da realidade. São recursos tentadores e talvez até naturais para quem está crescendo no mundo digital. Para mim, filha de outro mundo, são assustadores. Imagino essas experiências como carregadas de melancolia, doloridas pela ausência de materialidade, incapazes de preencher o vazio que é “o verdadeiro oposto do significado da vida”, nas palavras da escritora americana Joan Didion.

A minha inquietação deve estar relacionada à temporalidade que cerca a morte de meu pai. Essa temporalidade se apresenta de várias formas: no tempo transcorrido desde a morte dele, que cobre a maior parte da minha vida; na minha idade que avançou me tirando da posição de filha, jovem e enlutada para me transformar em mãe, mulher madura e acostumada com a ausência dele; no enfraquecimento das memórias que guardo dele e que eram muitas e agora são poucas. 

O tempo conspira para me afastar do meu pai e, ainda assim, aqui estou empenhada em não me afastar dele, em não o deixar desaparecer. Aqui estou buscando uma forma de manifestar meu amor por ele.

O desejo de lembrar e celebrar a vida de meu pai me vincula a ele e ao que ele manifestou considerar respeitoso quando me disse, naquele cemitério que visitamos quando eu era criança, que considerava muito triste que algumas famílias não se lembrassem de seus mortos. Ser lembrado era um desejo dele. Por isso, de certo modo, emana dele este meu desejo de lembrá-lo de uma forma ativa. Faz sentido atender um desejo de quem não está mais aqui? Certamente me faz bem pensar que não vou decepcioná-lo – um compromisso entre duas partes é real mesmo que uma delas não exista mais. Pelo menos para mim é assim. 

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Quero honrar o problema que identifiquei. Não se trata de construir uma hipótese, mas de trazer alguma clareza a partir da inquietação, de abranger uma presença e um amor que não acaba nas nossas vidas mortais. Pensar este tema e escrever este texto é um experimento. 

Gosto quando Philippe Ariès diz que a morte não é apenas a separação do outro. É também “abordagem maravilhosa do insondável”. Com base na minha experiência dos últimos meses, enquanto escrevia este texto, afirmo que abrir um espaço para o morto não significa trazer tristeza, mas explorar o insondável que evitamos no dia a dia com medo de sentir dor. Nos versos do poeta Fernando Moreira Salles[1]: Às vezes/esqueço/dói mais/se não lembro.

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Tento levantar mais informações sobre a vida de meu pai: em que cidades viveu, em que escolas estudou, em que ano migrou com sua família de Minas Gerais para o Paraná. Há grandes lacunas. Percebo que, de algumas experiências, ele nunca falava nem nos ocorria perguntar. Sei que nasceu em 1913 em um pequeno município (Cachoeira de Minas), mas não sei qual era a fonte de sustento da família. Estava no Paraná na década de 1940, vivendo com os pais e os irmãos em cidades que se formavam ao redor das plantações de café. Meu pai, Vicente Caetano da Silva, cresceu em um Brasil rural, onde havia poucas escolas e poucos empregos. 

Ele era um senhor baixinho, de cabelos lisos e pele branca, que fumava cigarros de palha e passava o tempo livre lendo jornais e revistas. Em casa, cultivava uma horta e mantinha um galinheiro. Gostava de filmes de faroeste, especialmente aqueles com John Wayne no elenco. Sonhou com uma família grande e conseguiu ter seis filhos, apesar de ter se tornado pai apenas aos 45 anos. Teve profissões modestas, como operário na construção de estrada e empregado de fazenda, até que o patrão o levou para trabalhar em uma agência bancária. Foi o que ele fez nos 30 anos seguintes, com muito orgulho. O que será que aquele patrão, fazendeiro que também era banqueiro, viu no meu pai para se arriscar a colocá-lo atrás de um balcão?

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Buscar sempre novas informações é um vício meu, a forma como um jornalista lida com uma questão mal resolvida. Deparo-me então com o filósofo coreano Byung-Chul Han, que me joga um balde de água fria: “Dados e informações não possuem força simbólica.” Segundo o raciocínio dele, é de simbolismo que pessoas com a minha inquietação precisam. Para ser exata, Byung-Chul Han escreve que é disso que toda a humanidade precisa: de ritos que funcionem como âncoras, para que não sejamos levados pelo fluxo do tempo – e, junto conosco, os que morreram antes de nós. Ele argumenta que os rituais, tão negligenciados atualmente, estabilizam a vida e fazem um contraponto à velocidade e à falta de substância do mundo mediado pela tecnologia. 

Em um mundo ritualístico, simbólico, os mortos têm seu lugar e ninguém precisa procurá-los ou se preocupar com eles. Sempre foi assim que as sociedades se ancoraram. Mas não é mais.

Perto dos 60 anos, eu me vejo me aproximando da minha própria extinção. O meu fim corresponde ao fim da memória do meu pai. É o fim de uma história, de uma narrativa, de um pequeno mundo. Humildemente, reconheço a inutilidade da minha angústia. Se me dou ao trabalho de escrever sobre ela é porque acredito que outras pessoas devem senti-la em algum momento e se perguntar, como eu me pergunto, o que fazer com os nossos mortos. 

Meu pai morreu em 1985, um mês antes do presidente Tancredo Neves. No calendário muito particular que cada um de nós compõe, misturando experiências pessoais com fatos históricos, me recordo que a então chamada Nova República, surgida após os militares deixarem o poder, nascia naqueles dias em que meu pai lutava contra um câncer. Quando ele morreu, aos 72 anos, em um quarto de hospital em Curitiba, Tancredo Neves estava hospitalizado em Brasília.

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Penso pouco no meu pai – este foi o ponto de partida. Vejo agora que a forma de pensar em alguém morto há muito tempo é singular, não se encaixa no nosso padrão mental de “pensar em alguém”. Não faz sentido me perguntar, em pensamento, se ele almoçou ou se está desconfortável com o dia calorento, como me pergunto sobre os meus filhos quando estão longe de mim. Não posso me preocupar com meu pai, fazer planos de vê-lo ou anotar algo que preciso dizer a ele. Só posso falar um pouco dele com meus irmãos, com meus filhos. É o que basta. 

Os vestígios de alguém que é parte constitutiva da pessoa que sou colam na minha pele a cada lembrança e me fortalecem, me dão consistência. “Aquele que é nomeado permanece vivo”, anotou Elias Canetti em suas ruminações sobre o fim da vida. Meus mortos seguem aqui comigo e em mim.


[1] O poeta é irmão do fundador da piauí.

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jornalista e mestre em comunicação pela Universidade de Westminster, publicou Quem vai cuidar dos nossos pais? (Record).