Integridade: as pessoas não têm noção de como familiares podem ser cruéis nem imaginam os efeitos duradouros que a humilhação provoca na psicologia de garotos e garotas LGBTQIAPN+ - CRÉDITO: O AGORA E O DEPOIS_TARCÍSIO VELOSO_2024
Integridade: as pessoas não têm noção de como familiares podem ser cruéis nem imaginam os efeitos duradouros que a humilhação provoca na psicologia de garotos e garotas LGBTQIAPN+ - CRÉDITO: O AGORA E O DEPOIS_TARCÍSIO VELOSO_2024

questões sociais

O NEVOEIRO

Sobre a dignidade queer no Brasil de hoje

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Há tantos moleques que vão nascem

Com uma asinha quebrada

E eu quero que eles voem, companheiro

Que a sua revolução

Dê a eles um pedaço de céu vermelho

Para que possam voar.

Pedro Lemebel

Em memória de Caio Borges

Quando eu tinha 24 anos e era estudante de jornalismo, certa noite assisti na universidade à palestra de um jovem pesquisador e fiquei encantado por ele. Uma semana depois, fomos a um encontro e, em pouco menos de um mês, começamos a namorar. Desenvolvemos depressa uma intimidade profunda, que implicava dos dois lados uma vontade genuína de cuidar um do outro. Qualquer pessoa que já tenha se apaixonado deve ser capaz de entender o que estou dizendo. Eu queria enchê-lo de presentes, elogios, beijos. Que ele se alimentasse bem e se sentisse feliz. 

Ao fim de um dia que eu sabia ter sido estressante para ele, nos deitávamos para dormir, e eu ficava atento ao seu sono. Meu namorado se revirava e batia as pernas, tendo sonhos agitados. Eu sussurrava no seu ouvido: “Deita aqui, meu amor.” E ele recostava a cabeça no meu peito. De manhã, durante o café, ele dizia que só tinha conseguido dormir bem depois de ter se recostado em mim. Eu ficava orgulhoso e feliz por ter ajudado o meu pequeno a descansar. 

Um homem gay próximo de nós foi diagnosticado com câncer. Como era casado, ele pôde contar com a companhia do marido nas internações e em sessões de quimioterapia. Eu escutava os relatos do tratamento com um aperto no coração, me colocando no lugar do marido dele. Olhava para o meu namorado, tão bonito e saudável, e imaginava como seria vê-lo num leito, negociando com a morte. Junto da melancolia, vinha o medo: se o meu pequeno adoecesse amanhã, dificilmente eu seria autorizado a acompanhá-lo no hospital. Sem um documento que atestasse a nossa relação, precisaria contar com a boa vontade de enfermeiras e médicos, num país em que ser homossexual ainda é considerado algo abjeto por tanta gente. 

Eu o convenci a assinar uma certidão de união estável para ser meu dependente no plano de saúde da empresa em que trabalho. Fomos ao cartório, numa tarde qualquer, e apresentamos nossos documentos. O tabelião não questionou o fato de sermos dois homens. Assinamos os papéis, saímos para almoçar e, ao chegar ao escritório, entreguei a certidão para a empresa providenciar a inclusão dele no plano de saúde. O processo foi resolvido sem dores de cabeça. Quando ficou pronta a carteirinha dele, respirei em paz, sabendo que o meu pequeno seria bem tratado caso quebrasse uma perna ou tivesse uma infecção alimentar. Se, por alguma razão, eu precisasse ser internado, os médicos não poderiam impedi-lo de me acompanhar por sermos um casal de homens. Se tentassem, teriam que responder pelo crime de homofobia, já que, desde 2019, o Supremo Tribunal Federal determina o enquadramento de condutas homofóbicas nos crimes previstos na Lei do Racismo.

Não sofremos nenhum acidente ou qualquer problema de saúde que nos levasse à internação. Terminamos o namoro e seguimos nossas vidas, saudáveis. Algum tempo depois, saí com amigos gays para comemorar em Ipanema o aniversário de um deles. Quando atravessávamos a rua, a caminho da boate, uma moto passou varada e atropelou o aniversariante. Os bombeiros chegaram rápido. Logo estávamos todos na porta de um hospital municipal. Meu amigo acidentado foi levado para a emergência, e o namorado dele ficou ali na calçada conosco, à espera de notícias. Sua entrada não foi permitida porque ele não tinha como comprovar a relação afetiva com o acidentado.

Quando voltei para casa, de madrugada, a cena do corpo do meu amigo girando no ar e caindo no chão perturbou o meu sono. Quanta angústia senti me lembrando do desespero do namorado dele, que andava de um lado para outro procurando ajuda, um pouco de água e panos limpos para estancar o sangue que escorria pelo rosto do seu amado. E que vontade de chorar eu ainda sinto ao pensar que o namorado passou a madrugada naquela calçada, impedido de entrar no hospital e conferir se estavam tratando bem o companheiro. Naquela noite, mandei uma mensagem ao meu ex-namorado, pedindo que tomasse cuidado ao atravessar as ruas e, por favor, me avisasse se um dia sofresse qualquer acidente. Ainda tenho cuidado e carinho por ele. 

Crescemos à luz de conquistas que nos fizeram acreditar que pessoas como nós poderiam ser tratadas com dignidade no Brasil. Eu tinha 14 anos quando soube, também pela tevê, que casais homossexuais poderiam se casar. Com 16, descobri que dois homens poderiam adotar filhos, e passei a imaginar a família que construiria quando fosse adulto. Aos 19, comemorei que pessoas transexuais finalmente teriam documentos que refletissem suas identidades de gênero. 

Na noite de 4 de outubro passado, o domingo do primeiro turno, eu assistia pela tevê ao anúncio dos senadores e deputados eleitos quando recebi uma mensagem daquele casal de amigos. Eles me contaram que, consternados com o avanço da extrema direita no Legislativo, decidiram assinar uma certidão de união estável o quanto antes. Como eu, estavam apreensivos com a possibilidade de perdermos as nossas garantias legais. 

Passei os dias seguintes tentando compreender se o meu medo de ser impedido de casar e adotar uma criança tinha fundamento. Me afastei do pânico das redes sociais para buscar respostas na literatura e nos estudiosos. Não foi agradável para mim saber pelo advogado e cientista social Renan Quinalha, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que existe, sim, uma ameaça concreta, com toda certeza, aos direitos que vi nascer. 

Todos esses direitos são reconhecidos e amparados por decisões da Justiça, mas não estão garantidos por uma legislação específica aprovada pelo Congresso. São direitos provisórios, frágeis, que podem ser revertidos pela maioria de parlamentares conservadores que tomará posse em fevereiro. Se Flávio Bolsonaro chegasse à Presidência seria ainda pior, porque ele poderia indicar pelo menos dois ministros ao STF e obter ali maioria para reverter decisões tomadas previamente pela Corte, como a que reconhece a união homoafetiva como uma entidade familiar, com os mesmos direitos da união heteroafetiva. 

Do outro lado da cidade, meu tio enaltecia os resultados do primeiro turno: a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula e a eleição dos senadores Carlos Jordy e Carlos Portinho pelo Partido Liberal no Rio de Janeiro. Ele compartilhou vídeos no Instagram comemorando o fim da “ideologia de gênero” e a preservação da família conservadora. Publicou fotos tiradas em uma igreja evangélica e, na legenda, disse que suas orações estavam sendo ouvidas. Considerando a vantagem de Flávio Bolsonaro sob Lula no primeiro turno, ele entendeu que o Brasil estava caminhando para a salvação divina. 

Crescemos na mesma casa. S. é o irmão caçula da minha mãe e tinha 15 anos quando eu nasci. Aquela família cristã e de valores conservadores do subúrbio carioca foi tomada pelo desespero ao perceber que o novo membro da família dava sinais de ser mariquinha: eu não tinha pulso firme, falava fino, gostava de Xuxa e de brincar com as bonecas das primas. Meu tio foi o mais cruel. Não desperdiçou nenhuma oportunidade de me envergonhar diante dos seus amigos e parentes. De modo que saber do seu apoio a Jair Bolsonaro em 2018 não foi uma surpresa para mim. Como o ex-militar que tentava chegar à Presidência naquele ano, meu tio também preferiria que um filho morresse num acidente a vê-lo beijar outro rapaz. 

Com base no que sei a respeito dele depois de anos de convivência, posso dizer que meu tio teria invadido algum dos prédios dos Três Poderes se estivesse em Brasília em 8 de janeiro de 2023. Ele é um homem movido por um desejo de destruição, o que entendi em 2018, vendo seu rosto enfurecido ao falar do tal kit gay que, acreditava ele, a esquerda pretendia oferecer às crianças nas escolas. O ódio também aparecia no seu cenho franzido quando ele se referia aos beneficiários do Bolsa Família como “um bando de vagabundos, que não levanta o rabo para procurar emprego porque o governo dá moleza”. 

Depois que Jair Bolsonaro foi eleito, o ódio que eu sentia por S. desde a infância só cresceu, alimentado por mim com bastante lucidez. Também sentia desprezo por sua ignorância: como um homem adulto podia se deixar ludibriar por um político intelectualmente tão limitado? Por que meu tio continuava compartilhando no Facebook conteúdos homofóbicos, quando já sabia que tinha um sobrinho gay? Ele não pensava que poderia me afetar? Ou pensava, mas queria justamente isso?

Em abril de 2019, minha mãe morreu, e S. foi quem resolveu os trâmites do enterro. Reconheceu o corpo, providenciou o caixão, reservou uma bela capela para o velório. Passei a vê-lo com um pouco de afeto. Não seria fácil amá-lo, por causa de nossas visões de mundo tão diferentes, mas pensei que poderia tentar, como forma de agradecimento ao que ele fez na despedida da minha mãe. 

Semanas depois, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, anunciou um corte de 30% nas verbas discricionárias das instituições federais de ensino. Eu era aluno da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (ufrrj), uma faculdade sucateada da Baixada Fluminense, e fui ao Centro do Rio para uma manifestação contra o governo. Ao voltar para casa, vi uma publicação de S. no Facebook, dizendo que os estudantes que protestavam eram um bando de vagabundos que se reunia nas universidades para se drogar, não para estudar. Eu o enfrentei, nós discutimos, e decidi mantê-lo fora da minha vida. Não tenho qualquer obrigação, moral ou legal, de manter contato com um homem que detesta a minha identidade só porque ele foi irmão da minha mãe. 

Acontece que família não é coisa simples. O sociólogo francês Didier Eribon, à luz da própria experiência de rompimento radical com os pais e irmãos, escreveu que, ao tentarmos nos desvencilhar da nossa teia social original, descobrimos que ela é parte essencial de quem somos. Podemos tentar anular a ligação com o passado, mas é bom saber que será um esforço ingrato. Quanto mais nos dedicarmos a superar o vínculo familiar, mais seremos tomados pela melancolia. 

Senti culpa nos seis anos em que me mantive longe do meu tio. Acho que posso dizer que também experimentei, em alguma medida, tristeza. Ele não facilitou as coisas. Durante o governo Bolsonaro, continuou defendendo o presidente negacionista quando milhares de brasileiros morriam na pandemia, quando a imprensa denunciou que o desmatamento estava aumentando, quando imagens de crianças indígenas morrendo de fome começaram a circular na internet. Nem as fotos de pessoas recolhendo ossos para comer o comoveram. Importante para o meu tio era que, na escola de sua filha, os meninos e as meninas usavam banheiros diferentes e não havia nenhuma travesti entre as professoras.

Precisei reencontrar S. meses atrás para conversar sobre o adoecimento de um familiar. Me surpreendi ao ver como sua filha tinha crescido. A adolescente de 14 anos, alta e de cabelos fartos, me olhou esperando ser tratada com o carinho que eu lhe dava quando pequena. Fiquei envergonhado por não saber corresponder. Eu costumava ser o seu primo favorito. Colocava-a nos ombros para passear, mesmo quando já estava grande e pesada. Na última vez que nos encontramos ela tinha 8 anos, e bastou eu citar Cinderela para iniciarmos uma conversa. Não sei o que poderia lhe dizer agora. 

No dia do reencontro, vendo o meu tio de perto, um homem de carne e osso, senti outra vez que podia amá-lo. Consigo enxergar bondade nele. Se estivéssemos na rua e alguém me ofendesse por ser gay, acho que ele me defenderia. Deve haver uma maneira de conciliar o afeto com as discordâncias políticas, pensei. Temos compreensões diferentes sobre temas como a segurança pública. Para ele, quer dizer armar a população e dizimar marginais, ao estilo do que a Polícia Militar do Rio fez no Complexo da Penha em outubro de 2025. Para mim, o termo tem um sentido mais amplo. É claro que quero um país menos violento. Sou filho de um homem negro que foi assassinado a tiros. Mas minha compreensão de segurança se estende à moradia, alimentação, saúde e educação.

Então, chegamos ao domingo do primeiro turno e às publicações de S. nas redes sociais celebrando a extrema direita. Me vi outra vez como o menino que ele espezinhava dentro de casa. Com o rosto e os olhos ardendo, pensei que não podia sentir afeto por um homem como esse. Me deitei aflito, enojado, decidido, uma vez mais, a encerrar de vez o contato com ele. Não há chance de mantermos uma convivência civilizada. Não seria possível nos sentarmos à mesma mesa para a ceia de Natal sem que o meu estômago embrulhasse.

Quando sua filha nasceu, eu tinha 13 anos e a peguei no colo pela primeira vez. S. colocou as mãos embaixo dos meus braços, temendo que eu a derrubasse. Creio que uma das coisas que me faz apegar à raiva é saber que, para pessoas como o meu tio, gente como eu nunca deveria sentir a alegria que ele sentiu ao encarar o rosto de um bebê e atestar que aqueles olhos pequenos e espertos eram os olhos da sua filha.

Não acredito que seja possível compreender o Brasil contemporâneo sem considerar a força esmagadora do ódio às pessoas LGBTQIAPN+, principalmente às transexuais. Tenho certeza de que brasileiros como o meu tio se preocupam com o endividamento, a precariedade dos hospitais públicos e os preços dos alimentos. No entanto, estou convencido de que muitos deram seus votos a candidatos da extrema direita porque estes se comprometeram a reestabelecer o que entendem por ordem moral: a proteção das crianças e dos adolescentes contra a assombrosa “ideologia de gênero”.

Na eleição de outubro, Nikolas Ferreira (PL-MG) se tornou o deputado federal mais votado da história do Brasil. Recebeu 3,1 milhões de votos, mais que o dobro que obteve em 2022, na primeira vez que concorreu ao cargo. No seu segundo mês na Câmara dos Deputados, Ferreira subiu à tribuna no Dia da Mulher com uma peruca feminina loira para protestar explicitamente contra as transexuais. Embora acumule episódios de transfobia explícita, até hoje o deputado só foi condenado a pagar indenização uma vez, à deputada Duda Salabert (Psol-MG) – e seguiu agindo com ultraje no Congresso e na internet. Seu longo histórico de infâmias inclui a exposição na internet, quando ainda era vereador, de uma adolescente transexual que usou o banheiro feminino da escola em Belo Horizonte. 

O segundo deputado federal mais votado nas últimas eleições, Lucas Pavanato (PL-SP), também se tornou popular à custa de ofender travestis, na internet e na Câmara Municipal paulista, quando era vereador. A Justiça Eleitoral nunca o condenou por qualquer acusação, embora não faltem provas do seu empenho em depreciar pessoas queer.

O que torna Ferreira e Pavanato – e Bia Kicis, Damares Alves, Michelle Bolsonaro – heróis para brasileiros como o meu tio é a crença de que eles participam de uma missão comum. Para S., a política é dicotômica por essência, uma questão de vida ou morte: vida para aqueles que se parecem com ele, morte aos diferentes. Com isso, não quero dizer que o meu tio é um assassino em potencial. Prefiro crer que S. é incapaz de matar alguém que seja “diferente” – embora acredite que, se ele visse uma travesti ser maltratada, negaria socorro. O que meu tio quer, e disso tenho certeza, é acabar com a vida pública de pessoas como eu. Voltar ao tempo em que dois homens de mãos dadas na rua era uma cena inaceitável para a maioria da população.

Se pessoas como meu tio olham para fora do Brasil, encontram razões para ter esperança. Transexuais são os alvos imediatos dos líderes da extrema direita.

Nos Estados Unidos, com o retorno de Donald Trump à Presidência, os documentos dos cidadãos deixaram de fazer referência à “identidade de gênero”. Mulheres transexuais foram transferidas para presídios masculinos, e o governo americano cortou o orçamento de instituições que oferecem tratamento médico a jovens queer. 

Quando era primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, outro herói do clã Bolsonaro, proibiu o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essas pessoas podiam fazer apenas uma união civil, mas não adotar crianças. Orbán também proibiu referências a pessoas homossexuais e transexuais em livros, filmes e séries para menores de 18 anos. Multou livrarias que expusessem romances gays em vitrines. Prometeu usar ferramentas de reconhecimento facial para identificar e punir quem participasse de paradas de orgulho. O governo de Péter Magyar, que venceu Orbán nas últimas eleições, começou a reverter parte dessa legislação, mas ainda não restabeleceu integralmente os direitos afetados.

Há dois anos, o Peru classificou identidades trans como transtorno mental – os movimentos sociais reagiram, e a classificação foi cancelada. Lá, casais do mesmo sexo ainda não podem se casar nem assinar união civil. 

Na liderança da Itália desde 2022, Giorgia Meloni é declaradamente contra o casamento igualitário e à adoção por casais homoafetivos. Ela determinou que os cartórios parassem de registrar crianças com dois pais ou duas mães, e pediu a anulação de certidões de nascimento com duas mães. O país não assinou a declaração europeia pela promoção de políticas para a comunidade LGBTQIAPN+, pois Meloni entendeu que o texto tratava de “ideologia de gênero”. 

Ao assumir a presidência do Chile, em março passado, José Antonio Kast revogou a norma que obrigava as escolas a terem protocolos para acolher alunos trans. 

Javier Milei, na Argentina, proibiu a hormonização e a cirurgia em pessoas trans menores de idade. A Justiça suspendeu a decisão um ano depois, mas me pergunto quantos jovens argentinos não passaram aqueles meses se olhando no espelho e se sentindo inadequados, sem poder reclamar ajuda a ninguém, pois era o presidente do país que estava contra eles.

Vários filósofos e sociólogos escreveram a respeito da dignidade humana. Para mim, uma das compreensões mais belas, por causa da sua simplicidade, é do filósofo renascentista Giovanni Pico della Mirandola (1463-94): a dignidade reside na liberdade de cada um para dar forma a si mesmo. Só vivemos com honra se pudermos ser quem somos. 

Há também a reflexão de Hannah Arendt, mais conhecida. Foi nela que me concentrei nos dias seguintes ao primeiro turno, na mesma Arendt mencionada no debate do STF em 2019 que terminou com a equiparação da LGBTfobia ao crime de racismo. 

Em seu clássico Origens do totalitarismo, de 1951, a filósofa alemã escreveu sobre a perda de dignidade ao refletir so­bre os apátridas. Com o fim da Primeira Guerra Mundial, milhões de pessoas ficaram sem ligação com qualquer Estado, sem pertencer a uma comunidade política e, portanto, sem quaisquer direitos: armênios, russos que não aderiram à Revolução de 1917, judeus, romenos. Nenhum país sabia o que fazer com eles. Não podiam deportá-los, pois outro governo não aceitaria recebê-los, muito menos integrá-los. Na época já se falava em direitos inalienáveis do homem, mas então surgiram esses indivíduos sem cidadania, carentes de alguma autoridade capaz de protegê-los. Para Arendt, a maior desgraça de cada uma daquelas pessoas foi perder o lugar que tinha no mundo: a casa, a cidade, a teia social.

Conheço garotas e garotos brasileiros que poderiam ser comparados a apátridas. Eles foram rejeitados por suas famílias, perderam a teia social de origem, e agora moram em casas de acolhimento, ou dividem as contas com amigos que viveram traumas parecidos. Não as conheço, mas sei que há milhares de mulheres transexuais morando nas ruas porque as famílias as rejeitaram. Apesar da desgraça pessoal dessas moças, uma jurisprudência garante que elas sejam tratadas com respeito pelas instituições públicas quando procuram serviços de assistência social ou de saúde. 

O plano de acabar com tal jurisprudência é uma perversidade. Não há outra maneira de descrever a intenção da bancada fundamentalista que já ocupa o Congresso. É perverso impedir que uma mulher transexual seja chamada pelo nome social. É perverso proibir que o sistema público de saúde ofereça tratamento hormonal e psicológico para um garoto transgênero, obrigando-o a viver num corpo que não corresponde à sua identidade. Causa dor, angústia, pensamentos suicidas. O grau máximo da perversidade dessa gente, a meu ver, é tentar acabar conosco por meio da solidão. Anular qualquer chance de pertencermos a uma família. Primeiro, expulsando os filhos de casa. Depois, se opondo aos seus desejos de casar e ter filhos. 

O pensamento de Arendt sugere que a dignidade depende do espaço público. Liberdade para andar nas ruas, falar e agir diante dos outros, ser reconhecido como um sujeito único: sem isso, não há humanidade. A natureza humana, o cerne de qualquer indivíduo, é golpeada quando uma menina trans é impedida de usar o banheiro correspondente à sua identidade de gênero. A humanidade de um amigo meu foi ferida quando tinha 21 anos e, na saída de uma festa, no subúrbio carioca, quatro homens o surraram, quebrando seu nariz. 

Fiquei incomodado na primeira vez que entrevistei o escritor francês Édouard Louis, em 2024, e ele comparou o seu projeto literário ao do escritor italiano Primo Levi (1919-87). Judeu, Levi conseguiu sair vivo do campo de extermínio de Auschwitz e, anos depois, escreveu sobre a crueldade do regime nazista. A experiência de Louis, décadas depois, foi deixar a pequena comuna francesa onde teve uma infância pobre e marcada pela homofobia. 

Agora que recorro a Arendt, o paralelo não me parece absurdo para refletir sobre a condição de transexuais e homossexuais no Brasil. Embora não haja aqui um programa deliberado de extermínio das pessoas queer, como houve para os judeus na Alemanha nazista, são as guerras, exemplos maiores da perversidade humana, que oferecem o léxico preciso para descrever o perigo que se apresenta para nós: desmoralização, desumanização, perdas jurídicas, ataques e morte. 

Às vezes me pergunto se a melancolia que sinto em relação à homofobia tem raízes no presente ou nos traumas infantis. Tenho medo do meu futuro ou piedade do meu passado? A literatura e o cinema têm culpa? Assisti a incontáveis filmes e novelas e li vários romances em que os homens enfrentam problemas porque gostam de homens. Eu quis assinar a declaração de união estável com o meu namorado porque corríamos um risco real de ficarmos desacompanhados num hospital, ou porque o temor foi plantado na minha imaginação pelas obras de artes? 

Suspeito da melancolia que impregna a literatura e o cinema porque circulo em espaços amigáveis à homossexualidade. Trabalho numa empresa que tem pessoas queer no quadro de funcionários. Todos os meus amigos são LGBTs, ou mulheres heterossexuais progressistas. Nos últimos anos, sofri apenas dois episódios de homofobia explícita. 

Certa noite, fui a um bar no Rio. A fila do banheiro feminino estava grande, e no banheiro masculino havia duas cabines vazias. Vi uma moça contorcendo as pernas, esperando a vez de usar o reservado. Sugeri que ela usasse uma cabine no banheiro masculino e me ofereci para vigiar a porta. Ela agradeceu, mas, quando deu um passo na direção do banheiro masculino, um homem apontou o dedo na minha cara e disse que mulher devia usar o banheiro feminino, e homem, o masculino. “Viado não manda aqui”, ele gritou, sujando meus óculos com os seus perdigotos. Eu e a moça percebemos que não era seguro argumentar. Pedi licença e fui para perto dos meus amigos. O homem me seguiu e fixou o olhar em mim. Me encarou até eu sentir medo suficiente para ir embora. Me despedi dos meus amigos e fui para casa, segurando o choro.

Outro episódio, mais sutil, aconteceu em Recife, ano passado, enquanto eu fazia uma reportagem. Ao me cobrar a conta do almoço, o garçom de um restaurante perguntou, diante da pessoa que eu tinha acabado de entrevistar: “Tu é frango, é?” Não entendi a pergunta. Ele abriu um sorriso jocoso e apontou para a minha orelha esquerda. Toquei e senti o meu brinco, uma pequena argola dourada, e ri constrangido. Respondi a ele que sim, que eu era bicha, e ao escutar esta palavra o garçom recolheu o sorriso.

Uma vez, quando apurava o perfil jornalístico do comentarista de Carnaval Milton Cunha, no Rio, vi um homem abordá-lo com o braço esticado, pedindo uma selfie com ele. Cunha se recusou a posar, pois estava ocupado gravando um programa de tevê, e deu as costas. O homem desfez o sorriso e murmurou: “Viado de merda.” No mesmo ano, testemunhei os produtores de um festival de música se dirigirem à cantora Liniker pelo pronome masculino. Ela os corrigiu, constrangida, e eles se desculparam. Quando Liniker deixou o camarim, os produtores cochicharam absurdos que não vou reproduzir aqui.

Eu vivi e testemunhei os ataques e voltei para casa sem nenhum arranhão. Não fui estúpido de pensar que a homotransfobia tinha acabado no Brasil, mas cheguei a acreditar que havíamos conseguido estabelecer um limite para a violência e a injúria, de modo que a literatura e o cinema poderiam se ocupar retratando triunfos e alegrias. Talvez os escritores e cineastas estivessem enxergando o mundo com mais nitidez que eu.

Outro exemplo da minha ilusão. Na tarde em que entrevistei o escritor João Silvério Trevisan, deixei seu apartamento em São Paulo pensando, com certa comiseração, que ele era um senhor ressentido. “A esquerda tem uma tendência a virar igrejinha”, disse Trevisan. “Sinto de longe cheiro de dogma.” O comentário surgiu enquanto o escritor falava de uma compreensão dominante na esquerda ortodoxa de que as questões de identidade são menos importantes que a luta operária. Na visão de Trevisan, aqueles que são chamados “identitários” viraram bodes expiatórios para a esquerda justificar a ascensão da extrema direita. 

Trevisan era um homem de 80 anos quando me deu a entrevista. Eu, um fedelho presunçoso de 26 anos, crente que aquela esquerda mencionada por ele não existia mais. 

Três dias antes do primeiro turno das eleições, assisti a Elefantes na névoa, filme do diretor nepalês Abinash Bikram Shah. A história se passa num vilarejo no Nepal cercado por uma floresta habitada por elefantes selvagens. Um grupo de mulheres transexuais convive ali, como uma família, em aparente tranquilidade com a vizinhança. Um dia, a travesti mais jovem da família some. A mãe do grupo, a travesti Pirati, se desespera para tentar encontrar a filha. 

Uma tarde, a polícia bate à porta de Pirati para dizer que há um corpo queimado à espera de reconhecimento no necrotério do vilarejo. Ela corre para lá, mas, ao chegar, é impedida de ver o corpo. Os funcionários dizem que apenas familiares têm autorização para entrar. Pirati explica que aquela jovem era sua filha travesti, pois a mãe biológica a tinha rejeitado. Se ela não puder ver o corpo da garota, não haverá mais ninguém. O médico legista não se comove. Sem ajuda da família biológica da morta, Pirati não consegue velar nem enterrar a filha.

“O debate sobre vidas travestis não é um debate sobre direitos humanos”, me disse Sofia Favero, deputada estadual eleita este ano pelo Psol paulista. Ela é transexual e uma acadêmica respeitada pelos estudos sobre infância e gênero. “A questão é mais complexa, pois trata de pessoas que sequer são vistas como humanas. Elas não estão nos serviços e nos comércios. Não conseguem emprego. Eu fui impedida de atuar como psicóloga porque as famílias não querem uma psicóloga trans. Conheço enfermeiras que são rejeitadas por pacientes, pois as pessoas se recusam a serem tocadas por uma travesti.”

Favero, 33 anos, nasceu em Aracaju e lidou com a relutância da família para aceitar sua transexualidade. Uma tarde, sua mãe, costureira, assistia a um programa policialesco que transmitia imagens ao vivo de uma travesti pendurada no 23º andar de um prédio. A moça, uma prostituta, havia escapado pela janela do apartamento de um cliente que a ameaçou de morte. O apresentador do programa gargalhava diante das imagens: “Olha lá, o cara vai pular.” A mãe de Favero disse: “As pessoas não tratam vocês como seres humanos”, e, depois daquele dia, acolheu a filha. 

Favero tem na ponta da língua exemplos de brutalidade extrema que aconteceram no Brasil recentemente e, creio que não seja exagero dizer, foram ignorados por nós. Em junho de 2015, Laura Vermont, uma travesti de 18 anos, voltava para casa sozinha à noite, quando foi abordada e espancada por cinco homens que bebiam em um bar na Zona Leste paulista. Testemunhas ligaram para o 190. Dois policiais atenderam à ocorrência. Em vez de ajudar a garota, deram outra surra e atiraram nela. A violência levou Vermont a morrer por traumatismo cranioencefálico e insuficiência respiratória.

Em janeiro de 2019, a travesti Quelly da Silva, 35 anos, foi assassinada por um homem de 20 em Campinas. O assassino abriu o tórax de Quelly e arrancou o coração. Aos policiais, justificou o ato dizendo que Quelly “era o demônio”. 

Em outubro de 2025, Alice Martins Alves, de 33 anos, deixou um bar em Belo Horizonte sem pagar a conta de 22 reais. Dois funcionários do estabelecimento a perseguiram e cobraram a quantia com socos e chutes que quebraram as costelas de Alves e perfuraram o intestino. Ela morreu no hospital. Um homem foi acusado por homicídio qualificado. A juíza do caso, Ana Carolina Rauen Lopes de Souza, entendeu que o assassinato não poderia ser classificado como feminicídio e não envolveu crueldade. “Ainda que o fato cause indignação, não vislumbro comprovação de que Alice tenha sido agredida em razão da sua condição de mulher trans”, disse Rauen. 

Não consigo ler a declaração da juíza sem pensar no que a filósofa americana Judith Butler escreveu a respeito do luto. Na visão de Butler, a possibilidade de ser chorada na morte é o que faz uma vida ser uma vida. Quando uma criança nasce e a família celebra, pressupõe-se que sua morte será chorada. Pois há amor, e haverá saudade. O luto é uma maneira de afirmar que uma pessoa importa. 

A Justiça de Belo Horizonte não enxergou Alice como ela era, uma mulher transexual vulnerável à transfobia arraigada na sociedade. Impediu que a morte dela fosse chorada como a morte de uma mulher. O que mais me atormenta é a negação da crueldade por parte da juíza. Como não há crueldade em uma mulher ser espancada até ter o intestino perfurado? 

Conversei com Favero duas semanas depois do primeiro turno das eleições e dividi com a deputada um incômodo: Lula não havia até então verbalizado qualquer apoio ou defesa das pessoas transexuais e homossexuais durante sua campanha. No outro lado, a extrema direita estigmatizava essas pessoas para conseguir votos conservadores. Há um projeto explícito de eliminação da identidade e da cidadania dos LGBTQIAPN+, mas não um projeto de defesa. Se não for a maior liderança do campo progressista, quem vai assumir que as travestis estão entre os grupos mais vulneráveis da população? Que essas mulheres, na maioria, estão destinadas à pobreza, à humilhação, à violência e à prostituição? 

Para a minha surpresa, Favero não compartilhava o incômodo. “É difícil iniciar esse debate sem dar munição para os fundamentalistas religiosos. Sinceramente, não vejo como isso poderia nos beneficiar”, disse a deputada. “A extrema direita coloca as pautas na mesa. Para a gente, resta se defender. Eu queria poder fazer com que os conservadores, que se sentem autorizados pela igreja a serem odiosos, entendessem que a raiva deles não é dirigida a um inimigo distante. Eles estão sendo odiosos com vizinhos, primos. Como apontar a perversidade deles de modo eficiente? É o desafio.” 

A deputada federal Erika Hilton, reeleita pelo Psol nas eleições de outubro como a mulher mais votada da história da Câmara, se lembra de ter pedido ao presidente Lula que não se esquecesse da comunidade LGBTQIAPN+ ao elaborar o projeto de governo para a reeleição. O petista não se esqueceu, mas apresentou propostas menos detalhadas do que na campanha de 2022. O programa daquele ano afirmava: “Não haverá democracia plena no Brasil enquanto brasileiras e brasileiros continuarem a ser agredidos, moral e fisicamente, ou até mesmo mortos por conta de sua orientação sexual.” No plano para o quarto mandato, Lula suprimiu propostas específicas para a saúde, educação e inserção de pessoas queer no mercado de trabalho.

Hilton atendeu ao meu telefonema no dia seguinte à promulgação da Emenda Constitucional que aboliu a escala 6x1. Estava cansada da noite anterior no Congresso, mas ainda enérgica, pensando nos desafios que enfrentará daqui para a frente. “Nos últimos quatro anos, não avançamos nada na consolidação dos direitos da população LGBT no Congresso, e não avançaremos no próximo mandato. A violência será ainda maior”, disse. A esperança de Hilton, àquela altura, era que Lula ganhasse a eleição e, no último mandato, fosse mais radical ao tratar das pautas queer. “Ele pode deixar os caminhos abertos para nós”, disse a deputada.

Não é difícil imaginar que o silêncio de Lula foi uma estratégia de campanha. Parte da esquerda ainda opera com a lógica de que as questões de identidade são menos urgentes. A posição foi defendida em abril pelo ativista social Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como Galo de Luta, que ganhou notoriedade ao encabeçar a paralisação nacional dos entregadores de aplicativo na pandemia. Em um podcast, Galo disse, estúpido e injurioso: “Por que eu, que sou motoboy, tenho que defender quem quer dar o cu?” Eu me pergunto como Galo recebeu a notícia do fim da escala 6x1, a conquista trabalhista mais importante da história recente do país, sabendo que a proposta chegou ao Congresso graças aos esforços de dois políticos declaradamente queer: Erika Hilton e o ex-balconista de farmácia Rick Azevedo, agora eleito deputado federal pelo Psol do Rio.

Hannah Arendt afirmou que, quando o mundo obscurece, as pessoas deixam de pedir qualquer coisa à política além da consideração por seus interesses vitais e sua liberdade pessoal. Vi o argumento de Arendt se materializar nas semanas anteriores ao segundo turno. Meus amigos queer foram a manifestações e tentaram convencer familiares a votarem em Lula, usando como argumento a própria vida. Atuaram movidos pela consciência de classe, o respeito ao ensino público e ao Sistema Único de Saúde, mas, sobretudo, conscientes do perigo que a eleição de um bolsonarista representaria para nós.

Liguei para vovó e pedi que ela votasse pensando no meu direito de ser pai. Ela falou que eu exagero, que o preconceito não é tão duro quanto digo. Enviei mensagens para alguns tios (não para S.), pedindo que pensassem em mim no dia da votação. “Não quero brigar com o senhor. Só quero ter o direito de construir a minha família também”, escrevi ao outro irmão da minha mãe, com quem tenho boa relação. Ele não me respondeu.

Fiquei mais angustiado ao perceber que sou incapaz de fazer a minha família acreditar no que digo. Enviei as fotografias dos brasileiros pobres recolhendo carcaças durante a pandemia: “Isto é o bolsonarismo.” Eles se dizem preocupados com as crianças, mas uma ministra de Bolsonaro tentou impedir o aborto de uma menina de 10 anos que foi estuprada. Eu disse: “Lembra, vó, que no ano passado a PM arrancou a cabeça de um garoto na operação da Penha? A senhora imagina o que é enterrar o corpo de um filho sem cabeça? É nisso que Bolsonaro acredita.” 

Como foi difícil terminar cada conversa e sem ter conseguido mexer com as convicções deles.

Me consolava ver fotos e vídeos de amigas caminhando de mãos dadas com as namoradas nos atos de defesa à democracia. Uma dessas amigas tentou suicídio há pouco mais de um ano, quando entendeu que era lésbica e temeu a rejeição das pessoas que ama. Na noite em que a visitei no hospital, fui um pouco duro ao segurar sua mão e dizer que ela nunca deveria repetir aquele erro. “Se você não ficar viva, meu filho não vai ter tia. Você é a minha família. Você vai ser a família do meu filho.” 

Não tenho esperanças de que meu tio, nem os deputados e senadores que o representam reconheçam que eu e meus amigos somos dignos de direitos e respeito. Eles vão morrer obcecados pelos fantasmas da “ideologia de gênero” e a fantasia de uma invasão dos banheiros femininos por homens vestidos de mulher. No entanto, não quero – e acredito que não devo – deixar de esperar uma resposta do campo progressista. Ainda que Lula tenha sido reeleito, a sarjeta está aberta no Congresso. Temo que a violência se intensifique. É indecente se dizer preocupado com os direitos humanos, mas não falar em voz alta a palavra “travesti”. Deve haver outra atitude, além do silêncio, diante de uma cultura na qual travestis têm seus corações arrancados. 

Em setembro, fiquei esperançoso ao saber da notícia de que a Justiça de Santa Catarina condenou os pais de um garoto então com 17 anos a pagarem uma indenização de 100 mil reais ao filho. O homem e a mulher aviltaram o menino, expuseram-no nas redes sociais e o ameaçaram de morte quando souberam do namoro dele com outro rapaz. Emanuel Roque foi resgatado da casa da família por conselheiros tutelares e morou num abrigo por quase um ano, até fazer 18 anos. Então, se mudou para a casa de parentes do namorado, em outra cidade.

Sei, com base na minha experiência pessoal com a homofobia parental, que Roque passará o resto da vida com o coração ferido. Ele foi ameaçado com um revólver pelo próprio pai, o homem que o criou e, presumo, em algum momento disse que o amava. Ainda que um dia lhe peçam perdão, o filho nunca se esquecerá de que foi a revelação da sua identidade que iluminou a face mais perversa dos pais. 

Na entrevista ao Fantástico sobre a decisão da Justiça, Roque chorou lágrimas pesadas falando do passado. A indenização não vai fechar a ferida pessoal dele, mas foi um gesto decente do Estado. É como se a Justiça tivesse olhado o garoto nos olhos e dito que ele é uma pessoa digna de viver, ser respeitada, e que o erro está no lado dos pais dele.

Chorei pensando na tristeza de Roque, mas também fiquei feliz com o precedente aberto pela decisão da Justiça. As pessoas não têm noção de como pais, avós e tios podem ser cruéis. Não imaginam os efeitos duradouros que a humilhação provoca na nossa psicologia. Mesmo depois que a vida melhora, ainda nos pegamos olhando para os outros na rua com desconfiança e medo de nos agredirem por perceberem a nossa diferença.

Meus avós deixaram de me rejeitar. Minha mãe, antes de morrer, também. Ainda assim, se pudesse voltar no tempo, eu gostaria que eles tivessem respondido pela maldade na Justiça. Eu tinha 14 anos quando fui isolado da sociedade, estapeado na cara e obrigado a ouvir da minha avó que ela preferia me ver morto. Foi perverso. Estou há mais de uma década recorrendo à literatura, à psicanálise e, sobretudo, às amizades queer para reconstruir a minha dignidade e entender que sou um homem merecedor de amor. 

Minha avó me ligou num domingo entre os dois turnos da eleição para saber de mim. Contei que tinha ido à praia com um amante, e ela disse: “Cuidado, Thallys, pelo amor de Deus.” Ela deu ênfase a essa palavra, cuidado, sempre que nos falamos no período eleitoral. Costumo dizer que ela não tem com o que se preocupar, pois sei que vou tirar o seu sono se assumir os meus temores.

Por isso não assumi que senti medo na praia. Estava deitado na areia, protegendo os olhos do Sol com um livro de Toni Morrison. Então virei de barriga para baixo e pedi que o meu amante reforçasse o filtro solar em mim. Ele besuntou minhas costas, braços e, por último, deu um beijo no meu pescoço. Na mesma hora olhei em volta, para os cinco casais heterossexuais que nos cercavam. Eles não reagiram ao beijo, mas o meu coração acelerou mesmo assim. 

Vovó voltou a me ligar dias depois para contar que meu avô tinha tido uma noite de sono agitada. Sonhando, disse em voz alta que alguém estava me perseguindo. Ela o abraçou, acariciou os cabelos suados e disse que eu estava seguro em casa. Em outro momento da noite, ele perguntou: “Como vai ser o Natal? Será que eles vão quebrar tudo?” Estava pensando em mim e no meu tio S. Eu disse que não quebraremos nada, não vamos brigar, não voltaremos a nos falar. “Mas precisa ser assim, meu filho?”, perguntou vovó, e eu respondi que sim. Não tenho vergonha do meu ressentimento. Tirar S. da minha vida será uma amputação dolorosa, mas lidarei com isso. Graças a ele, sei suportar a dor desde pequenininho.

Imagens bonitas surgiram durante a campanha de Lula e depois de sua vitória: as ruas tomadas por brasileiros de todas as idades, crianças indígenas correndo e empunhando bandeiras com o nome do presidente, amigos e desconhecidos chorando abraçados. Lula, em rede nacional, obrigando o adversário a se desculpar pela piada sobre o dedo que ele perdeu quando era metalúrgico. São imagens que trazem orgulho e graça à vida depois das semanas que passamos temendo pela democracia. 

A imagem da eleição que quero guardar é a de Lula beijando o rosto de Erika Hilton. A deputada estava assistindo à apuração dos votos junto com o presidente e sua equipe em um hotel em São Paulo. Quando a vitória foi anunciada na tevê, com todo mundo festejando na sala, Hilton ligou a câmera do celular para gravar um vídeo que começa com ela dizendo: “Eu nunca duvidei, presidente.”

Lula, então, aparece na imagem, segura o rosto da deputada com firmeza e lhe dá um beijo na bochecha com tanta força que deixa o rosto dela um pouco desfigurado. Depois que ele sai de cena, Hilton repete, sorridente: “Eu nunca duvidei, presidente.” 

Um presidente beija o rosto de uma travesti. É uma imagem para guardar. 


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Repórter da piauí, é autor do livro Filho (Companhia das Letras)