despedida
Maria Cecilia Marra piauí_242 05 Nov 2026
3 min de leitura
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Ao longo de mais de vinte anos, com muita frequência, o assunto das minhas mensagens para ele era “socoooorrro”, sempre cheio de vogais e consoantes repetidas, sempre em caixa alta e nem sempre desesperado ou urgente. Muitas vezes, o berro exagerado colocado na linha do assunto do e-mail servia apenas para divertir: eu sabia que arrancaria um sorriso quando ele abrisse a caixa de mensagens.
Conheci Caio Borges em 2003. Na verdade, já estava de olho no trabalho dele muito antes e, naquele ano, consegui seu contato e o convidei para colaborar com a revista que eu dirigia na época. A proposta era de exclusividade: ele só poderia fazer para nós aquele estilo lindo de ilustração de que eu gostava tanto, e para nenhuma outra publicação. Caio aceitou na hora, sem ver problema algum na condição imposta. Não fiquei surpresa: além de talentoso, Caio era versátil. O que era um único estilo para quem sabia fazer qualquer estilo, todos perfeitamente? Começou assim uma parceria que eu daria muito, mas muito, para não ver se encerrar.
Só para a piauí, Caio fez 33 capas, centenas de ilustrações, esboços, testes, tentativas, pinguins, vinhetas e desenhos para cartazes de eventos variados, além da extensa coleção de carinhas de colaboradores, que estrearam como um presente para mim em Questões de forno e fogão, o desaparecido blog de culinária da piauí. As carinhas que Caio criou viraram uma espécie de distintivo de honra para os colaboradores, e muitos, quando escrevem pela primeira vez para a revista, perguntam: “Vou ganhar uma carinha?”
Trabalhar com Caio sempre foi um prazer, mesmo nas tarefas mais difíceis e demoradas, aquelas cheias de versões e ajustes, como aconteceu com a capa A lamentação autocrata (piauí_236, maio), inspirada na obra do pintor medieval italiano Duccio di Buoninsegna, que chegou a quase trinta versões, com seu elenco mudando de lugar, de posição e de expressões. Nas nossas conversas, nunca faltou humor. Eu podia dizer qualquer coisa, pedir ajustes, mudanças, alterações, sem me policiar por receio de ofender ou de ser mal interpretada. A confiança era mútua.
Já há algum tempo, Caio vinha dedicando mais tempo às telas e aos pincéis e, no começo deste ano, me perguntou se eu aceitaria participar de uma conversa que aconteceria na galeria em que estava expondo. Não gosto de aparecer, sou introvertida, traço de personalidade que é útil na minha profissão de direção de arte: quem deve aparecer e brilhar são os artistas que aceitam meus convites. Caio me conhecia muito bem, e o convite já veio com uma absolvição embutida. Escreveu que não ficaria triste se eu não fosse, que entenderia.
Felizmente, fui capaz de perceber que o tamanho dele na minha vida profissional merecia que eu superasse a introversão e aceitasse o convite. Fui e pude falar da minha admiração, da minha gratidão. Contamos juntos a nossa história. No encontro, conheci Olga, sua mãe. Abracei o Caio, sempre tão doce, gentil, carinhoso, colorido, sorridente, e fui embora feliz. Não sabia que estava me despedindo dele. Caio morreu no dia 15 de outubro, aos 51 anos.