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TRÊS POEMAS

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UMA DOENÇA

Há doenças piores que as doenças.
– Fernando Pessoa

I
Há doenças que são mais que doenças,
que não apenas são à vida infensas
como oferecem algumas recompensas

que tornam mais urgente e mais difícil
o já por vezes inviável ofício
de habitar o íngreme edifício

do não-se-estar-conforme-se-devia
e administrar a frágil fantasia
de que se é o que ninguém seria

se não tivesse (insistentemente)
de convencer-se a si (e a toda gente)
que não se está (mesmo estando) doente.

II
O mundo está fora de esquadro.
Na tênue moldura da mente
as coisas não cabem direito.

A consciência oscila um pouco,
como uma cristaleira em falso.
Em torno de tudo há uma aura

que é claramente postiça.
O mundo precisa de um calço,
fina fatia de cortiça.

III
Nenhuma posição é natural.
Qualquer ordenação de pé e mão
e tronco é tão-somente parcial

e momentânea, uma constelação
tão arbitrária e pouco funcional
quanto a Ursa Maior ou o Escorpião.

Nenhuma é estritamente indispensável.
Nenhuma é realmente lenitiva.
Nenhuma é propriamente confortável.
Apenas uma é definitiva.

GAZEL

Também a verdade nos cansa,
não liberta nem salva: cansa.

É o cansaço dos que cansaram
da obrigação da esperança.

Em casos assim, a razão –
essa almanjarra de faiança

numa beira de aparador
à mercê de mão de criança –

precisa ser bem resguardada
lá onde a vista não alcança.

E coloque-se em seu lugar
coisa mais dura, de sustança,

capaz de melhor resistir
à vida e sua intemperança.

NOTURNO COM AR CONDICIONADO

O tédio infinito dos hotéis
de três estrelas, tardes que se estendem
em direção a noites povoadas

por dois ou três garçons indevassáveis
num bar onde nenhum turista húngaro
cochila diante da tevê autista

em que uma locutora silenciosa
exibe a três poltronas de pelúcia
duas fileiras de dentes de carnívora.


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Paulo Henriques Britto é escritor e tradutor. Seu livro de poesia mais recente é Formas do Nada, lançado pela Companhia das Letras