poesia
Zulmira Ribeiro Tavares Fev 2011 16h14
3 min de leitura
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Telefona-me a horas mortas
e em tempo de frio.
Estarei hibernando como as marmotas
ainda que cave meu abrigo sob edredons
fêmea que sou de um outro hemisfério.
Meu celular,
pequeno como o lóbulo de minha orelha,
ficará aberto o tempo em que as marmotas dormem
no subsolo do mundo.
E no celular que te envio,
do tamanho da unha de teu polegar,
digita o meu número,
acessa o meu nome.
Três coisas nela são frias:
– o dedo dos pés
– a ponta do nariz
– o bico das tetas.
De quente ela traz o hálito
… e ofega.
O que tem de quente
e o que tem de frio
fazem as duas metades da noite.
Ela espanta as dores do mundo
e acende as luzes da cidade.
Um poema escondido atrás de caixas
como ratos espreitando por baixo de fogões.
É um poema, e o seu pelo docemente cai
ao sopro do veneno que os homens põem
no coração das coisas.
Não são os homens da Prefeitura
chegando com suas pérolas confeitadas
que matam dentro do doce – Ouça
o poema uma vez e outra
como ratos miúdos e prolíficos
sujos da miséria de seus ventres envenenados
ao morrer.
Viveu a dura vida –
a dura vida calada.
Como um sapato vazio
sem cadarço viveu.
Um sapato cambaio
à deriva
sem ele dentro. Viveu
fora de si
a dura simples vida.
Descalçou-se para dormir
na pedra. Sem um ai –
um som de queda.
O que me intriga na vida
É ela não ter agenda própria.
Escrevo eu em uma agenda
Ela por cima escreve a sua.
Por isso eu gosto da vida.
Porque não se leva a sério.
Porque me atraiçoa.
Como um compasso
as pernas de aço abertas
Primeiro uma perna no chão
a outra perna na barra
Depois a troca das duas
pontas da sapatilha
Com os pés em ponta ela faz
aquilo que ele lhe ensina
O compasso nas mãos que o seguram
se abre e desenha um círculo
No umbigo ele a beija com a língua
como ajusta um parafuso
Sem exasperar a pressão
insiste e abre caminho
Avança seguro e cego –
na reta o ponto de fuga
Depois com mãos que arquejam
desenha a planta do mundo.
Prendeu a roupa no varal
e do outro lado dos lençóis
o mundo.
Esconde-se no branco lavado.
Não quer que o mundo, os outros a revelem
no sol que a incendeia.
E o seu nome é Radiância.
Quem o deu foi o doutor do Abrigo
sabedor dos que trazem na matalotagem
assombramento e luz.
Tendo por nome de chegada Cipriano
vindo da Paraíba ele
para São Paulo – Hoje
…Radiância ela,
no lusco-fusco das esquinas
Rainha.