impressões de viagem
Nuno Ramos Fev 2013 09h20
14 min de leitura
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Lagoas verde-esmeralda entre dunas beges; estranhos tucanos de penas pintadas uma a uma; o farol no meio da areia com uma lua atrás; uma assinatura imensa no canto direito de cada parede. Completaram as pinturas na parada do ônibus (não estavam prontas na ida); parecem ingênuas em suas cores fortes e pinceladas aparentes. É a mim que se dirigem. Sou um turista, no entanto, e nada teria sido feito para mim – devia estar aqui como um mosquito vindo da mata, compartilhando, cheio de interesse, uma vida que não é a minha. Mas carrego minha bandeira comigo. É óbvio que sou um turista, digo isso por todos os poros, espécie de idiota endinheirado, mimado por todo mundo, com uma carteira evidentemente cheia. Turistas alardeiam aquilo que são – não combinam as cores que vestem, misturam xadrez com listrado, comem e bebem demais, falam alto, usam chapéus que não usariam em seus lugares de origem. Como indicam as roupas folgadas, são trabalhadores fora das garras do trabalho, gritando na cara de todo mundo o privilégio de seu ócio. Estes dias são nossos.
Quando viajava na década de 70, mochila nas costas, ainda adolescente, éramos hippies, éramos estranhos, cabeludos ou maconheiros, mas não éramos turistas. Ninguém nos chamava – Ei, turista!, como o menino me chamou da margem do açude, ali, no meio do nada, enquanto eu remava sozinho na canoa – Ei, turista!, e eu, ridículo como um turista, devolvi na lata – Você estuda? Sim, ele estuda, é claro que estuda, o que mais ele faria?
O pôr do sol é carregado de turismo; as estrelas idem; não há um metro de natureza que não esteja impregnado dessa qualidade. Chegamos. Que bom. Aqui estamos. Mas será? Falam o que queremos ouvir e comemos a comida que é ainda a deles mas também já é a nossa (uma seleção de ingredientes típicos). A paisagem que vemos foi cuidadosamente selecionada e já não há moeda local para nós. De novo: quando viajava na década de 70, saíamos da grana-São Paulo para a grana local, onde éramos ricos. Hoje, há uma moeda-turista cobrindo tudo e todos, e o peixe na palhoça vale o mesmo que no Genésio, na Vila Madalena. Carregamos nos pés e na roupa, espalhando com nossos gestos, exatamente aquilo que queremos deixar para trás. Como as civilizações hispânica e portuguesa da origem da colonização, contaminamos, com nossa simples presença, tudo deque nos aproximamos. Mas, diferentemente delas, somos também contaminados. Exigem de nós alegria e passeios na duna, gritos antes do mergulho, crises de meia-idade e projetos de mudar completamente de vida – em meio, é claro, à grande exigência subliminar: o consumo despreocupado, constante, sem grilos. É ele que nos irmana ao irmão distante. O átomo de etnólogo que moraria ainda num turista fenece aí. Querem demais dele, o tempo todo. Seu objeto (os habitantes locais, a comida, as paisagens) move-se à sua volta, e quase não tem gravidade própria.
A homogeneização do mundo é o grande mal-estar de uma viagem – viajar sem sair de onde já se estava. A primeira etapa dessa homogeneização, trágica e espalhada em tudo, pois feita por baixo, começa pelo mundo físico: é tudo uma imundície. Andávamos por uma praia em Marajó. A maré estava baixa, linda, e ouvíamos sons assustadores vindos da mata. Caminhávamos sozinhos, sem guia. Temíamos vagamente pelas crianças (já enormes). Em suma: achávamos que desbravávamos algo, uma desajeitada família paulista abrindo sua picada particular em plena Amazônia. Por isso foi tão chocante, na curva seguinte, deparar com o mar de garrafas PET de 1 ou 2 litros e as milhares de latas de refrigerantes e os vasilhames de xampu e as carcaças dos eletrodomésticos mais diversos, numa quantidade digna das enchentes de São Paulo – como se fosse o pátio pantanoso de alguma Casas Bahia de pesadelo. Como chegaram lá? Pela maré? Um megashow escondido na mata? O lixo está em toda parte, verdadeiramente universal e democrático, unindo o país de alto a baixo. É dessa forma que o desastre urbano, sem descanso nem exceção, que assola o país há décadas e só piora e piora nas grandes cidades, parece repicar nas pequenas comunidades e nos rincões mais isolados, como que coado aos poucos. Se na década de 70 havia, em cada cidadezinha, um Banco do Brasil e uma Casas Pernambucanas, hoje há plástico (e, em menor quantidade, alumínio) boiando, misturado à areia, preso nas folhas, no alto de uma palmeira que já não há.
O lixo é exatamente isso: uma forma extrema do Mesmo. É a identidade profunda que une a metrópole de onde partimos ao ponto distante a que chegamos depois de horas e horas de viagem. A diferença é que nas grandes cidades, onde o ciclo da mercadoria é algo cotidiano, sua origem se mostra: nasceu ali mesmo. Nas localidades mais distantes, hipoteticamente poupadas do fluxo insano de tantos produtos, o lixo parece verdadeiramente caído do céu, como uma dádiva perversa. Entre raízes, caranguejos, lama sólida, à revelia de tudo e de todos, chegou ao fim de sua odisseia, naturalizando-se de vez. Foi quase com carinho que certa vez reparei num fiapo de lata de Coca-Cola, fino como um pedaço de papel, preso à ponta do chifre de um búfalo. Parecia uma folha seca, mas com o logotipo fatal impresso.
Caminhávamos havia mais de duas horas. Já ouvíamos o som da cachoeira no meio da mata, no interior de Minas Gerais, quando, vindo não sabíamos de onde, um guia apareceu, oferecendo seus serviços. Por alguns reais, disse ele, contaria para nós o discurso do lugar. Há discurso em toda parte. Ninguém mais fica quieto. Os habitantes locais já não têm um corpo tão diferente do nosso, subnutrido e talhado pela lida com a natureza, e vestem-se como se vestem os pobres em nossas cidades de origem. Mas falam. Como falam. Falam muito mais do que falavam na lembrança que tenho de minhas viagens antigas. São, de alguma forma, guias espontâneos, tentando justificar o acesso à moeda-turista – porque ninguém mais atravessa uma foz de rio numa canoa e dá uma graninha do outro lado para o pescador imemorial que tecia sua rede. Não, você se meteu num Passeio, que tem um horário e um percurso – e, é claro, um discurso juntando tudo.
Foi assim que os impessoais hotéis viraram pousadas, ninhos personalizados com verdadeiras filosofias de vida, irradiando sentido desde a decoração na parede da recepção à capa do cardápio, desde a música de fundo às frutas selecionadas para o café da manhã. Uma espécie de fanatismo semiótico irradia em torno do turista, numa diferenciação postiça, indiferente, que pode tornar-se infernal. Cada minúcia quer dizer algo – você está no meio de uma coisa muito importante, que deve incluí-lo e, se possível, trazê-lo de volta no ano que vem. Atenção, diz o formato em fruta da chave de seu quarto, aqui não queremos filisteus. Aqui amamos os animais. Queremos energia renovável. Aqui corremos 12 quilômetros todos os dias; não ficamos na rede espreguiçando; somos saudáveis e radicalmente contra a mão de obra semiescrava na China. Assim, um misto de faixa de consumo (do ponto de vista genérico, estatístico, de algum gerente de marketing) com grandes temas políticos te envolve por todos os lados e vai te deixando maluco. Como a primeira parte é a que está valendo (é como consumidor que você está sendo tratado), a segunda, os grandes temas humanos, tem a verdade daquela onça impressa na toalha de banho. Cuidado, diz a telha ecológica que cobre sua cabana. Nós, nesta pousada, estamos atentos. Com a situação das crianças na China. E das mulheres na Índia. E dos índios no Mato Grosso. E assim por diante.
Há uma constante em viagens: ouvir as histórias das pessoas. Hóspedes, claro, reúnem-se para um último copo depois do jantar, e podem entrar madrugada adentro contando peripécias. Mas é improvável. Ninguém quer encontrar o próprio duplo numa viagem, e há deveres demais a cumprir logo pela manhã. O profissional das histórias pessoais, das grandes iluminações, da grande ruptura, é o dono (ou dona) da pousada. Espécie de convertido, tendo acesso todos os dias, a cada minuto, às mesmas delícias que nós, pobres turistas, contemplamos duas semanas por ano, guarda algo de um iluminado budista. Sim, ele deu um jeito. Teve a coragem que não tivemos. Rompeu com tudo. Na verdade, deve esconder que pertence ao mundo do trabalho aqui, com toda a violência do de acolá. Quando a porta da cozinha se abre inadvertidamente, sua voz tem uma estridência lá dentro que não conhecíamos cá fora. Parece… a voz de um chefe!
Na sua condição de hiperconsumidor, claro que o turista tem direitos. Mas é preciso cuidado. Não foi atrás da diferença que ele veio? Não declarou seu fastio com relação ao mundo que deixou para trás? Não será essa diferença que alimentará suas histórias na volta? Então não reclame das pequenas rãs dentro do vaso sanitário. Ele foi posto num mundo encantado, onde finge não ser o que é: um sujeito medroso, querendo tevê. Agora aguente. O turista, também ele, cumpre um dever. Há algo masoquista em comer a comida local, fazer esportes radicais, tolerar aquele calorão. O mundo do trabalho, é claro, já invadiu seu paraíso: é preciso acordar cedo, é preciso comer não sei o quê, é preciso, é preciso. O pacote que contratou agora o persegue. A cada minuto, setas, placas, fitas de proteção, vozes gravadas – Cuidado, muito cuidado – dirigem seus passos, seus gestos, sua atenção.
Não chegou ainda ao Brasil a privatização jurídica que vem assolando as sociedades desenvolvidas, em especial os Estados Unidos, fazendo de cada cidadão um potencial acionador jurídico do próximo (espécie de versão privada, visando ao lucro, da delação constante, de cidadão contra cidadão, mas valendo-se do aparelho repressivo estatal, que medrava no dia a dia socialista). O turista não é visto, assim, como um adversário perigoso que possa processar quem o recebe. Há muito espaço, ainda, para a conversa, que deve equalizar certa decepção entre o real e a foto na internet. O grande argumento, do ponto de vista dos proprietários e prestadores de serviço, é: o que você esperava? Se não aguenta uma muriçoca, não seria melhor ficar no Guarujá?
Mimado por todos e por tudo, o turista, por outro lado, é essencialmente culpado, um fresco que não está à altura do que tem pela frente. Mesmo que o que tenha pela frente seja um rato caminhando calmamente pelo pátio onde ele toma café da manhã. Assim, a miséria e a derrisão nacionais vão aos poucos ganhando certa aura de autenticidade, de fuga à modorra cosmopolita. Passeios na favela são o extremo disso.
As filas, como o lixo, são outra forma contundente do Mesmo. Nelas, o turista lembra que é legião, que tudo está cenografado para ele, que não é o primeiro nem será o último a pisar ali e que muita água rolou entre a autenticidade local, que procura e pela qual pagou, e sua singularíssima pessoa. Seu instante, assim, não pode ser tão mágico, já que hordas o antecederam e o sucederão, e todos os dias o milagre do salto daquele golfinho se repete. A ilusão primária da mercadoria (parecer única) se desfaz diante de uma fila.
Há algo verdadeiramente monstruoso em sermos tantos, apanhados numa mesma função ou desejo, e o trânsito cotidiano é provavelmente o lembrete minucioso dessa sina. No caso de uma viagem, mais do que a disfunção entre mercadorias em situação ideal (carros que alcançam 100 quilômetros por hora em poucos segundos – num autódromo) agora postas no mundo real (o mesmo carro preso no trânsito, onde não percorre mais do que alguns quilômetros, às vezes metros, por hora), há, como no caso do lixo, retorno brusco à situação de origem, como se a metrópole fosse transplantada subitamente para a duna. E, de fato, é exatamente isso o que foi feito, já que é o laço evidente entre as duas que as filas, como o lixo, revelam.
A defasagem brasileira, eterna e minuciosa, entre demanda e oferta de serviços básicos está em toda parte, e invade sem obstáculo o mundo do turismo. Também os ociosos não cabem neste mundo. Há fila para comprar fitinhas; há fila para tomar o barquinho; há fila para fazer xixi numa parada de ônibus no fim do mundo.
Em Tintim no País do Ouro Negro, os irmãos Dupond e Dupont perdem-se no deserto a bordo de um jipe. Assustados, encontram afinal marcas de pneu na areia, que passam a seguir, na esperança de topar com alguém. Mais à frente, novas marcas, até serem tantas que eles têm a impressão de estar numa rodovia movimentada – mas sem jamais encontrar outro carro. Claro que andavam em círculos (imagem perfeita para a circularidade, de imagem e de expressões linguísticas, “E digo mais…”, que rege a relação dos dois policiais). O episódio descreve bem, embora às avessas, a ansiedade do turista – quer afastar-se da rodovia comum e alcançar suas próprias marcas, mas seu trajeto é circular. Ele é a rodovia de que foge; ele mancha a duna com seus pneus; ele próprio esteve lá antes. Ele é legião, não está nunca sozinho. (A beleza das praias de maré radical, como as do Ceará ou Maranhão – 200, 300 metros de movimentação –, é que a cada seis horas caminhamos por elas como se fôssemos os primeiros a pisá-las.)
“A vida social consiste em destruir o que lhe confere seu aroma.” A frase é de Lévi-Strauss, num célebre capítulo de Tristes Trópicos, “Um copinho de rum”. Durante uma permanência forçada nas Antilhas e numa situação comparável à de um turista, ele reflete sobre o sabor complexo do rum fabricado com impurezas, através de um processo arcaico e superado de refinamento, em “velhas cubas de madeira coalhadas de detritos”, absolutamente superior àquele fabricado em “reservatórios de esmalte branco e torneiras cromadas”. O tema fornece uma boa entrada para a ambivalência da posição do etnólogo, revolucionário em sua própria sociedade (favorável a processos modernos de refinamento), mas conservador naquelas distantes que frequenta e estuda à procura das tais impurezas.
Talvez o tema de fundo desse grande livro seja a indiferenciação ameaçadora – desde o pôr do sol, descrito nesses termos logo no início, à floresta na qual Lévi-Strauss se perde e à própria estrutura social das tribos que frequenta. Presente aqui como em nenhuma outra parte de sua obra, essa indiferenciação originária, com a qual o narrador depara, é uma espécie de parti pris poético, um mito de origem e um “outro” que a teoria deve vencer. É ela que as aproximações estruturais, como a imagem numa foto que se revela, vão aos poucos preenchendo, relacionando, conquistando, até alcançar um termo e proporção comuns. Daí que, como em tantos outros projetos modernos (Picasso, Giacometti), o arcaico e o primitivo saiam do trabalho de Lévi-Strauss de tal forma próximos de nós, fortalecidos numa presença que não supúnhamos – postos num mesmo sistema de proporções e escalas, são nossos, agora.
As dualidades de base, que vencem essa dispersão indiferenciada da natureza e do social (puro/impuro, arcaico/moderno, local/universal, urbano/rural etc.), parecem ter perdido completamente o sentido hoje. Não tanto como os pós-modernistas supunham – o congelamento do real em paródia e imagem –, mas de uma forma mais profunda e perversa, de amálgama literal, físico (lixo) e comportamental (filas, discurso) entre esses opostos, a ponto de torná-los indiferenciados. A vida social, assim, não destruiu propriamente o aroma, mas apaziguou-o num todo, como um buraco negro que tudo prendeu e de onde nada retorna – nem verbo, nem luz. Podemos transitar entre extremos e matizes, tonalidades e catalogações as mais diversas, mas não escapar de uma espécie de menu que já supunha nossa movimentação. Viajar é nunca sair desse todo. Esse amálgama e esse todo é que cabe à cultura contemporânea desfazer – através de susto, espanto, curto-circuito. O singular – esta unha, este pé, esta duna, este pôr do sol – é sua meta.
Sinto desde pequeno verdadeira aflição por tevê ligada de dia – e em especial por programas de auditório nesse horário. É como se o aparelho não vencesse os demais objetos da sala, que ficam ali testemunhando meu tédio e minha tristeza. De noite só a tevê brilha e o sofá é meu, vou dali para a cama e o sono. Além disso, o que se passa lá dentro também me aflige de dia, por ser contíguo demais à vida exterior. À noite, a lanterna televisiva irradia como um farol, mesmo com a luz da sala ligada, sobrepondo-se ao cansaço e ao recolhimento. Por mais besta que seja o apresentador de telenotícias, para mim ele está no seu direito – o dia já se foi, agora vamos falar dele.
Há uma espécie de pozinho de pirlimpimpim mimético que a noite polvilha sobre tudo – estamos protegidos, a vida já não está propriamente lá, ganindo, chamando e chamando. De dia seria melhor a apresentadora infantil afinal crescer e envelhecer, a divulgadora das receitas de culinária esganar seu papagaio, a reportagem rural mergulhar no pantanal que filma. De dia, o que vai na tevê é parecido demais com o que está fora dela, faltando aquele recuo que permite a representação e a mímesis. O pesadelo de estar lá dentro do aparelho, preso naquele cenário, falando daquele modo afetado, fazendo aqueles gestos estranhos, vestido daquele jeito ridículo, e ainda sem poder mudar, congelado numa aparência perene (é quase chocante ver uma pessoa-tevê envelhecida, muito pior que uma pessoa-cinema), se faz então presente para mim.
Isso tudo para dizer que acordar numa pousada é às vezes estar dentro de um programa diurno, um bigbrother infindável, com tarefas e ralis e intimidade devastada. Pedro Bial ou Ana Maria Braga dariam grandes donos de pousada.
Mas há uma duna diante de mim – garanto. O vento bate. Há sal em minha boca. Olha ali – uma cabra. Béé. E aquela micose na unha do pé começa a ir embora. Estou aqui de um modo que não estaria em São Paulo. Não é bem que descanse, pois chego ao final da viagem absolutamente exausto. Mas o ponteiro se apagou um pouco dentro de mim, a marretada do real ficou mais cômica, levo menos a sério o que parecia imenso e alguma coisa mais difusa e imediata se deixou tocar. Acho que foi aquela andada na praia, cedinho – a maré estava baixa, a areia dura e não encontrei ninguém. Pequenos siris recolhiam-se, as garrinhas para cima, espantados com minha caminhada. A palavra enguia soava em meus ouvidos. O sal das ondas durava no ar e um círculo de gaivotas me seguia. Cantei baixinho. Eu não sabia aonde estava indo.