poesia_FABRÍCIO CORSALETTI

VESTIDO DE BATALHA

Viva a sopa de lentilhas, sem ela não há poetas
Imagem Vestido de batalha

3 min de leitura

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IMITAÇÃO DE CUMMINGS

eu amo você
por sua boca e por seu canino direito
pelo seu modo de morder as
palavras enquanto fala

eu amo você
por suas mãos grandes, independentes
por sua camiseta de renda emprestada
e pela maravilha dos seus olhos sem drama

eu amo você –
a flor adivinha o seu dia de vida?
a nuvem se agarra a uma ilusão?
prefiro uma rosa a viver para sempre

HOMENZINHOS DE CHAPÉU FEDORA

eu acredito que meus erros
formam um beco sem saída
onde fui dar fugindo dos gângsters
do meu desespero e antes que eu possa
retornar à avenida onde passeiam
as mulheres de saia
surgem os homenzinhos de chapéu fedora
com metralhadoras
apontadas para mim

o suor me encharca a camisa
e mal consigo respirar

eu levo a insônia a sério

FOTO

Inacinha em vestido de batalha
mostra como a perneira

casava com a alpercata –

grávida de oito meses
foi alvejada na nádega direita
por um soldado da volante
de João Bezerra

Gato com quem vivia
tentou carregá-la nas costas
mas abandonou-a e fugiu com medo
de também ser preso

na tentativa de resgatá-la
matou treze no caminho

–

chegou a cogitar a hipótese
de sequestrar a mulher do sargento
para fazer uma troca

–

um tiro na coluna vertebral
deixou Gato paralítico
da cintura para baixo
três dias depois ele morreu

Inacinha casou com um policial
apelidado Pé na Tábua
porque tinha o hábito de dirigir
em alta velocidade

na prisão deu à luz
um bebê que não resistiu

como era menor de idade
não enfrentou nenhum processo
judicial

Inacinha em seu vestido de batalha
tem me dado forças
para ser o que eu quiser

ODE À SOPA DE LENTILHA

1
viva a sopa de lentilha
sem ela não há poetas

viva a sopa de lentilha
que tem sustentado a mim
e a Angélica Freitas

viva a sopa de lentilha
que nos mantém longe dos vícios
que o dinheiro traz

viva a sopa de lentilha
que mostra que todo poeta
é um monge em potencial

viva a sopa de lentilha
que já me valeu um prêmio literário
recebido com terno emprestado
e a barriga cheia de sopa
de lentilha

2

em outros tempos vivi dias mastroianni
bebi dois carros na Vila Madalena
estive em Londres com Maria Flor
e em Paris com Mariana Rocha

mas agora que não trabalho fora
que pago as contas com o que a poesia dá
não posso mais sair de casa
senão a sopa queima

3

seguindo a moda Emily Dickinson
comprei um avental com bolso
onde os poemas aguardam
enquanto pico a cebola

4

é a sopa de lentilha
e não a leitura dos jornais
que me faz sonhar
com um mundo melhor
isto é, livre da sopa de lentilha

é a sopa de lentilha
e não a vontade de chegar aos cem anos
que me afasta do álcool
dos arrastões nos restaurantes
e da gordura trans

etc.

por isso disse e repito

viva a sopa de lentilha
viva o macarrão sem molho
e viva a sopa de lentilha


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É poeta e tradutor. Publicou Esquimó e Baladas pela Companhia das Letras