questões & negócios literários
Michel Laub Out 2013 10h11
33 min de leitura
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Às vezes viajar é ótimo, às vezes é um pesadelo. Eventos de literatura são a mesma coisa. Tenho participado de uns trinta por ano. Não me queixo: faço porque quero, fico feliz que leiam minhas coisas e tenham interesse no que digo. Há escritores com agendas mais e menos cheias que a minha. Poucos não têm agenda além de escrever. Tenho consciência de que afundaria em neurose se ficasse apenas em casa. Ao mesmo tempo, a neurose não respeita aeroportos e hotéis. Passarei as próximas duas semanas na Alemanha, a convite da Fundação Biblioteca Nacional, que trouxe 65 autores para a edição da Feira do Livro de Frankfurt que em 2013 homenageia o Brasil.
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Nada mais tolo que ver o escritor como habitante das Esferas Elevadas da Criação. Por outro lado, é demagogo dizer que se trata de um trabalhador qualquer. Entre outros motivos, porque as exigências de uma época de hiperexposição se opõem a características comuns aos que se dedicam à área: dificuldade de interação social, que vai do desconforto ao pânico, e – meu caso – aversão por depender de juízos alheios. O que é fonte infinita de angústia: por mais que declaremos estar imunes em relação a críticos, leitores e demais integrantes do “sistema literário”, todo mundo que publica quer ser apreciado em alguma medida.
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Em viagens, me defendo como dá: fico sozinho o máximo que posso, convivo o mínimo necessário com quem só tenho relação profissional. Gosto da sensação de desperdiçar tempo e oportunidades: lendo no quarto com o dia bonito lá fora, repetindo lugares medianos. A uns dez minutos do Holiday Inn onde nos hospedaram há um certo Viet Rice, barato e sempre vazio, que serve pato frito com vegetais e pimenta. Existe um prazer mesquinho em ser reconhecido pela proprietária, que ao longo da semana já nem pergunta o que quero almoçar. Compro água e biscoitos no supermercado. Tento passar camisas. As cuecas e meias lavarei na banheira. Há uns bons quinze anos viajo sem máquina fotográfica.
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Além dos autores, estão em Frankfurt editores, agentes, jornalistas, nomes da política cultural. Também músicos, artistas plásticos, pessoal de teatro, equipes de suporte. Alguns eu evito. Com outros tenho uma relação agradável, situada num ponto entre os lugares-comuns de uma conversa no ônibus e a maledicência carinhosa. Há amigos também. Encontro Joca Terron e André Sant’Anna no café. À tarde vou com Daniel Galera até o Centro. Frankfurt é uma cidade média/grande típica da Europa – um rio, prédios de três ou quatro andares, alguns arranha-céus, parques, bondes, lojas internacionais, ciclovias.
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Estive na Feira do ano passado, mas lembro pouco das ruas e lugares onde fui. Ando com um caderninho, ao menos se tem a ilusão de que as impressões anotadas servirão para alguma coisa. Viajar é sempre associado ao conceito de experiência, o que hoje parece estar unicamente associado ao conceito de registro: o que não foi relatado, fotografado e elaborado é como se não tivesse existido. À noite, tenho uma leitura na Literaturhaus com Galera, Andréa del Fuego e Carola Saavedra. Uma semana depois, lembro pouco do que falei. Lembro pouco dos eventos de que participei nos últimos anos, a não ser com a vaga ideia de ter sido bom ou ruim, estar cheio ou vazio, algum leitor com quem conversei e por um acaso raro mantive correspondência ou contato pessoal. Ou quando alguém filma e você se vê no YouTube, à vontade ou não, com uma roupa que parece bem ou não no vídeo, e aquela imagem congelada dá uma impressão de eternidade tão ilusória quanto a vaidade do seu julgamento – algo brilhante ou vergonhoso que foi dito no minuto 41’12 de um vídeo que teve 105 visualizações.
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Ao longo dos anos me acostumei a falar em público, mas de uns meses para cá voltei a ficar nervoso. Não há motivo aparente: nunca tenho brancos, nem acho que se tiver será um vexame. Mesmo durante uma leitura, que não exige mais que recitar as frases e parágrafos da página à frente, por vezes meus batimentos se aceleram e fico sem fôlego para continuar. Um médico disse para eu tomar meio comprimido de Propranolol meia hora antes. Há colegas que usam Rivotril ou Lexotan. Alguns bebem. A fala na Literaturhaus é longa, acho que são mais de duas horas com trechos de leitura na voz de um ator. Mais tarde há um jantar que se prolonga em saideiras sucessivas de vinho, cerveja e um bitter parecido com Campari. A primeira noite de uma viagem tem sempre um clima otimista: às quatro da manhã estou à beira do Main, três graus Celsius, que alegria é caminhar no frio da noite de um lugar desconhecido, à procura do que disseram ser uma festa pré-feriado de unificação a bordo de um barco (a entrada é grátis, servem Baileys, boa festa).
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Acordo com um pouco de enjoo. Minha resistência para bebida anda baixa, mas em eventos como este não costuma decepcionar. Corro para a estação de trem, onde encontro o tradutor alemão do meu romance Diário da Queda: Michael Kegler, um dos anjos da guarda da viagem, que participa como intérprete de várias leituras de brasileiros. Tradutores são tão importantes quanto editores, agentes e políticas oficiais na divulgação da literatura nacional no exterior. Muitas vezes são eles que indicam livros e fazem pareceres favoráveis para publishers que não leem português. Também fazem o milagre de transformar uma sintaxe muitas vezes tortuosa, difícil de ser apreendida até por falantes nativos, em algo de impacto num idioma antípoda. Com Michael vou até Marburg, com paradas em pequenas cidades que parecem iguais, ele me dando informações sobre cada uma (“Elvis Presley morou aqui quando servia no Exército”) que também esquecerei.
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De Marburg um carro nos leva para o Festival Literário de Bad Berleburg, em meio a uma paisagem muito bonita de vacas,colinas e montanhas. O Propranolol às vezes me faz tossir por até 24 horas depois do consumo. Tomo outro comprimido antes da leitura da noite, que acontece numa loja de ferramentas e materiais de construção. A cidade tem 20 mil habitantes e há umas oitenta pessoas na plateia. É a média dos eventos de que participo aqui. Em capitais do Brasil não é incomum falar para trinta pessoas, às vezes vinte ou dez. Uma vez, em São Paulo, eu e um amigo jornalista – que veio especialmente da Europa para o debate – falamos para duas pessoas, uma delas sua então namorada.
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Na volta de Bad Berleburg, Michael segue disposto e de bom humor. Eu me afundo nas leituras que trouxe: In Defense of Flogging, de Peter Moskos, uma argumentação curiosa a favor da chibata como método penal, e um livro que eu procurava havia tempo e parece adequado à viagem – Um Escritor no Fim do Mundo, relato de Juremir Machado da Silva sobre sua ida à Patagônia com Michel Houellebecq. Também folheio os originais do romance de um autor brasileiro que me pediu uma orelha. Parece bom, o que me causa alívio. Ao contrário do que dizem por aí, lemos nossos colegas torcendo por eles. São amigos ou pessoas com quem cruzamos de uma forma ou de outra, em conversas virtuais, eventos ou viagens como esta, e não é agradável fingir que não se leu o texto ou fazer elogios falsos. Também me solidarizo com quem passou dois, cinco, dez anos pensando diariamente numa história, lutando contra todo tipo de pudor e limitação para botá-la no papel, para depois ver na reação dos outros – já aconteceu comigo – que o esforço foi por água abaixo.
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Em Bad Berleburg estava chovendo, em Frankfurt o tempo está melhor. Do hotel tenho a vista (bonita também) de um cemitério em frente ao que parece ser um bosque. O Holiday Inn fica numa avenida de pouco comércio, e é preciso descer alguns quarteirões até um entroncamento onde há padarias, lojas, bares e restaurantes indianos, italianos, tailandeses e alemães. Almoço pato frito com legumes e pimenta no Viet Rice. Passo na farmácia para pegar uma encomenda da minha mãe. Penso em ir a um cinema das redondezas, mas aproveito o resto da tarde para responder a e-mails. São mensagens devidas há quarenta dias, estudantes que mandam questionários de dezoito perguntas, solicitações burocráticas para poder receber cachês. Cada lugar para onde presto serviço, em especial SESCs e prefeituras, exige uma lista de documentos para formalizar o que a boa vontade dos homens do departamento financeiro chama de “processos” – certidões negativas de tributos, declarações de que não emprego trabalho infantil, assinaturas com firma reconhecida. Vou bastante ao correio e ao cartório. Não tenho secretária e pago mensalmente uma contadora.
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Tento ver um filme no Netflix, mas o site está inacessível. Faço chá no quarto, dou uma olhada nas redes sociais. A Feira começa a entrar nas discussões: matérias contestam o custo e a aplicação do dinheiro pela FBN, jornalistas alemães veem racismo na escolha dos nomes pela curadoria, Paulo Coelho declara que não virá mais porque metade da comitiva é formada por “amigos dos amigos dos amigos”. Referindo-se à repressão de professores grevistas pela Polícia Militar no Rio de Janeiro, João Paulo Cuenca escreve no Facebook: “Você, escritor brasileiro que estará em Frankfurt no ano em que o Brasil é país convidado de honra da maior feira de livros do mundo, e que se cala com medo de desagradar o governo que pagou a sua passagem aérea e perder eventuais prêmios ou bolsas de tradução: a culpa é sua.”
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Uns dias depois encontro Cuenca, autor de quem gosto. Digo que escritor só tem obrigação de escrever, que reclamar de abusos da PM ou da situação do ensino no Brasil não é tão heroico assim (muita gente faz isso, inclusive governantes) e que colegas podem não se pronunciar por vários motivos (não querer se vincular a temas políticos imediatos, não ter conhecimento maior sobre o assunto, não se achar importante a ponto de fazer manifestos públicos). Cuenca diz que há algo de provocação no post, que há poucas chances de expor os problemas brasileiros ao mundo, que devemos aproveitar as brechas possíveis para isso e que imprensa e governo só tratam desses assuntos porque pressionados. Ao final, porque não discordo das bandeiras da educação e reforma da polícia, embora desconfie do corporativismo dos sindicatos em geral, topo botar o nome num abaixo-assinado sobre o tema.
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(Quanto a Paulo Coelho, de quem não tiro a razão pela mágoa que volta e meia aparece em suas declarações – parte dos que falam mal dele não sabe a diferença entre um romance e um livro de colorir –, não dá para levar a sério quem aceitou o convite há meses e resolveu desistir na véspera. Quem reclama de lobbies e panelas quando, segundo a própria nota da renúncia, quis emplacar na lista de convidados autores de sua preferência. A coluna de Ancelmo Gois no Globo acaba confirmando a história que corre há tempos: a exigência não atendida do Mago – motivo possível da briga toda – para fazer o discurso de abertura da Feira.)
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(Quanto ao racismo: parece óbvio que existe no Brasil, o que é diferente de achar que existe na escolha dos autores que vieram. Esta reflete uma situação anterior: há poucos negros na literatura porque a situação econômica e cultural dos negros, num país sem escola pública decente e sem bibliotecas em lugares pobres – a prioridade de governos e ONGs é música e capoeira –, é ruim. Uns dias depois, tomo cerveja com Luiz Ruffato, Marçal Aquino e Paulo Lins no bar do hotel. Daniel Munduruku senta à mesa mais tarde. Alguém brinca que os dois últimos são os cotistas convidados: o negro e o índio. Eu sou o judeu. Também há gays, mulheres, idosos e o pessoal da periferia, sem contar – uma naja diz outro dia, em outro contexto – minorias discriminadas do meio literário: analfabetos, portadores de distúrbios neurológicos, anões morais.)
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À noite, caminho no frio. Vou até o tal cinema, e nenhum filme em cartaz me interessa. Entro num bar de esportes e vejo um pouco de Hannover versus Hertha Berlin. Gostaria muito de não pensar no Grêmio durante a viagem. Volto e faço ligações no Skype. Leio um artigo sobre a usina de Fukushima, termino de ler um perfil antigo de Bruce Springsteen por David Remnick, o Netflix continua inacessível, ouço música e assisto a um pouco de tevê e não entendo a língua e tenho saudades de quando conseguia dormir direito.
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É a quinta vez que venho à Alemanha, e a primeira depois de ter um livro publicado aqui. Meu pai era de Berlim, emigrou para o Brasil por causa do nazismo e morreu antes do lançamento de Diário da Queda, que tem um personagem com trajetória semelhante, embora seja menos autobiográfico do que parece. Às vezes passo semanas sem pensar no meu pai, mas nos últimos dias sinto saudades dele. A viagem ganha um toque sentimental inesperado, que me faz contar em público histórias sobre ele que nunca contei. Ao mesmo tempo, a ideia de usar a memória privada de alguém para promover um livro me constrange.
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No fim de semana dou entrevistas para uma cadeia de jornais da Holanda e para o Die Welt. Durante a Feira falei com a NKR norueguesa, a Deutsche Welle, a SWR e a Deutschlandradio. É interessante tratar de um tema ainda sensível para os europeus, como a Segunda Guerra Mundial, do ponto de vista de um sul-americano. Algumas conversas são em inglês, e também por isso as falas se tornam menos automáticas, sem a referência cômoda do que foi treinado e testado na língua em que você pensa. As melhores perguntas são as que obrigam o escritor a analisar pela primeira vez um determinado assunto, e a formulação das respostas o faz entender coisas até então abstratas. Isso é mais comum em visitas a escolas e encontros informais com leitores. Um estudante de 15 anos não tem vergonha de dizer que não gostou da palavra x que usei no trecho y, e aí preciso pensar por que mesmo fiz aquela escolha. Já o jornalista ou o pesquisador acadêmico, com limitações de prazo e necessidade de ter uma pauta que chame a atenção ou que precise classificar o livro em categorias estéticas e ideológicas de uma tese, menos frequentemente têm essa liberdade.
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Outro momento bom de dar entrevistas é quando acabamos de lançar um romance, e tudo ainda está numa esfera intuitiva e emocional. Ainda há liberdade para nomear as etapas do processo sem cair em rótulos que acabam aprisionando o escritor. É comum ver colegas justificando os próprios livros com conceitos externos, tirados de artigos críticos posteriores à publicação, e incorporarem tais conceitos de algum modo em livros futuros. Considero isso um barateamento estético: como um best-seller de público, que usa fórmulas de mercado consagradas, o best-seller de crítica diz apenas aquilo que um grupo determinado de leitores quer ouvir.
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Alguns meses depois do lançamento, tudo se relativiza nas manipulações egocêntricas da memória, que nos fazem lembrar da recepção crítica como positiva ou negativa, dependendo, muitas vezes, de uma resenha mais enfática ter saído num veículo de alta ou baixa repercussão. A partir daí, cada escritor vive na sua bolha de ilusão, selecionando o que interessa entre as dezenas de vereditos sobre o livro emitidos na imprensa, em blogs e redes sociais. Só que, para além das mentiras ditas puxando a brasa para o próprio assado, das vendas, das traduções, das adaptações para teatro e cinema, do hype, do marketing e até do boca a boca, o que vale é o leitor diante do livro. Gostamos ou não do que lemos, respeitamos ou não o autor que escreve aquilo independentemente do que ele e os outros disseram. O texto sobrevive aos anos, com suas qualidades e defeitos, nas respostas individuais – e muitas vezes no silêncio – que recebo dessas pessoas.
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Pato frito com legumes e pimenta no Viet Rice.
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Desisto do Netflix. Desisto do Grêmio no Brasileirão. Estou quase desistindo de aprender a passar camisas.
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Acordo com enjoo e dor de cabeça. Ontem fui à festa de uma brasileira casada com um alemão (boa festa). Meu café é sempre o mesmo: frutas, granola, salmão defumado e chá preto. Nas refeições como salsichas, schnitzels, yakisobas, kebabs, hambúrgueres. No Brasil, frequento um clube ao lado de casa para caminhar numa pista atlética. Duas vezes por semana me puno com a tentativa de fazer musculação. Tento ter uma vida regrada na medida da idade e do possível. Em viagens tudo vai por água abaixo e, por mais tarde e em piores condições que eu durma, estou de olhos abertos às nove da manhã.
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Depois do café, internet. Elio Gaspari defende que a “farra de Frankfurt” seja bancada pelo setor editorial “já grandinho”. O texto faz um paralelo entre os 18,9 milhões de reais gastos (depois o governo corrigiu esse valor para 18,4 milhões) e a situação da Biblioteca Nacional, cujas instalações estão caindo aos pedaços. Já Paulo Roberto Pires dá uma noção real e geral sobre a Feira (mero evento de negócios), a curadoria (que tenta passar uma ideia globalizada e “limpinha” das letras brasileiras), o aumento de traduções de autores nacionais no exterior (a maioria por editoras pequenas e sem repercussão), os eventos literários (nos quais há mais público que leitores) e a lista de convidados (marcada pela “quimérica universalidade” e o “cosmopolitismo de aeromoça”).
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Como todo mundo, acho um absurdo a situação da BN. Também gostaria que houvesse mais leitores no país, que a maioria das editoras não dependesse de compras oficiais, que os ficcionistas nacionais fossem editados pelas melhores casas do ramo, que meus colegas parassem de comer no Pizza Hut em capitais da Europa e dos Estados Unidos. Por outro lado, penso nos 18,4 milhões de reais: nem tudo gasto pelo governo (e, da parte pública, nem tudo pela FBN), e sem incluir apenas literatura e ficcionistas – há também shows de música, exposições, peças de teatro, espetáculos de dança, montagem do pavilhão e a presença de historiadores, cientistas, quadrinistas e críticos em Frankfurt. Países mais ricos e menos ricos que o Brasil têm políticas de divulgação cultural no exterior, por meio de institutos ou ações diretas de governos. Houve dinheiro público para bancar despesas de homenageados anteriores, como Nova Zelândia (2012), China (2009) e Catalunha (2007). Claro que o dinheiro de 2013 poderia ser usado para coisas mais relevantes. Subsidiar feijão, por exemplo. Ou 3% do que custará um dos doze estádios da Copa, a Arena Amazonas. Ou, para não sair da cultura, que depende muito de renúncia fiscal, parte ou o todo de filmes como Flores Raras, de Bruno Barreto (13 milhões de reais, em 2013).
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Claro que se pode dizer que não é questão de valores. E que o caixa do governo não é único. E que advogo em causa própria por estar na lista dos curadores Manuel da Costa Pinto e Antonio Martinelli.
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(Nas semanas que antecedem a Feira, há um intenso tiroteio nas redes sociais por causa da lista. As balas atingem a curadoria e os convidados – em especial os com poucos anos de carreira, minoria num time que tem nomes como Carlos Heitor Cony, João Ubaldo Ribeiro, Affonso Romano de Sant’Anna e Ignacio de Loyola Brandão. Somos acusados de oficialismo, conchavos, falta de talento. Ausências de escritores como Reinaldo Moraes são lembradas. Marcelo Mirisola, também ausente, posta no Facebook elogios que recebeu de Manuel da Costa Pinto em anos anteriores. Converso com o curador a respeito, e ele diz: “Gosto demais da obra do Mirisola, mas essas cobranças dele, que começaram antes mesmo de a lista ser divulgada, mostram um comportamento inadequado para um evento como este.” Quanto aos demais critérios, Manuel completa: “O primeiro é o literário, mas houve outros, de representatividade. O escritor mais vendido do Brasil – Paulo Coelho – precisava estar. Idem gêneros importantes como biografia, história, crítica, literatura infantil, quadrinhos, até ciência. Também há a questão dos autores publicados no exterior. Em alguns pontos, como a poesia, há mesmo lacunas por causa das vagas limitadas. Mas a prosa está bem representada. A programação do Brasil na Alemanha não contempla apenas Frankfurt. O Reinaldo Moraes, por exemplo, esteve em Berlim neste mês.”)
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À noite, caminho. É bom usar manga curta no frio. É domingo, está tudo fechado, vou até o Main e volto quase sem cruzar com ninguém. Na manhã seguinte acordarei cedo para ir a Bonn, onde tenho uma leitura com Carola Saavedra e Benjamin Moser, biógrafo de Clarice Lispector. A pontualidade dos trens alemães é apenas lenda já há algum tempo. Apesar do bom momento econômico do país, ou por causa dele, o que atrai imigrantes sem emprego, sou várias vezes abordado com pedidos de dinheiro na estação.
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Moser está indignado com o lobby de astros da MPB para restringir a liberdade de se escrever livros sobre figuras públicas. O assunto rende a semana toda, assim como o assunto Paulo Coelho. O Mago solta nota dizendo que havia desistido da Feira em março. Citada por ele como nome que deveria estar na lista, Thalita Rebouças declara: “Nunca precisei de convites oficiais para tocar a minha carreira.” O Mago se arrepende de ter citado Thalita. José Dirceu entra na discussão: “Paulo tem sua presença reclamada e aplaudida em todas as feiras, em todo o mundo. Posso não concordar com suas opiniões sobre o nosso governo, mas não posso deixar de registrar minha solidariedade.”
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Há uns quinze anos, quando comecei a publicar, a hipótese de colegas da minha geração terem livros comprados por editoras como Gallimard, Suhrkamp e as recentemente fundidas Penguin e Random House era um delírio. Nos últimos dois anos, graças a bolsas de incentivo a tradutores, mas também a interesse não subsidiado dessas casas editoriais, que pagam adiantamentos às vezes bastante bons, o número de traduções dobrou em relação ao que era nas duas décadas anteriores. Paulo Roberto Pires pode ter razão em algumas coisas, mas me pergunto se o momento é de tanto pessimismo: se devemos esperar que os problemas sérios de leitura e educação estejam resolvidos no Brasil, por meio de políticas estratégicas de longo prazo, ou nesse meio tempo fazer o que é possível – a vinda da comitiva a Frankfurt é um exemplo –, sem que as pequenas soluções excluam as grandes.
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Me pergunto também se o debate é apenas sobre números. “O retrato literário de um país que mal lê pode prescindir de autores de entretenimento lidos em larga escala?”, escreve Paulo Roberto. Talvez não, tanto que o Mago estava na lista. Daí para a frente – quantos nomes de sucesso comercial deveriam estar aqui, e no lugar de quem – é outra história. Se o governo seguisse o conselho de Gaspari, dizendo para as editoras se virarem com o convite da Feira, dificilmente teríamos em Frankfurt poetas e autores importantes que vendem pouco ou publicam em casas pequenas. O jornalista oferece uma viagem a Cuba para quem descobrir qual o interesse do cidadão de Pindorama em financiar esta viagem com seus impostos. Se for uma questão de retorno financeiro, talvez não seja nenhum. Ou talvez seja, porque a difusão de uma cultura gera ganhos simbólicos, que por sua vez geram ganhos econômicos. Cultura é o que o jargão atual chama de soft power – e, portanto, item de política de Estado. O exemplo clássico é Hollywood, que espalhou a ideia do “sonho americano” no último meio século, e onde 18,4 milhões de reais não dão nem um quinto do que foi pago a Johnny Depp em 2011 – com dinheiro privado, é verdade – por Piratas do Caribe 4. No plano bem mais modesto da literatura, o programa de bolsa para tradutores da FBN segue o exemplo do que fazem inúmeros países, entre eles Alemanha, Canadá, Argentina, Turquia e França.
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Micronúmeros individuais da farra: a FBN não pagou cachê, e sim uma “ajuda de custo” para cobrir despesas, variável de acordo com os dias que cada um dos convidados passará aqui. No meu caso, deu algo como 160 euros/dia, durante um período em que tive muito pouco tempo para me dedicar a outros trabalhos (sou freelancer, não ganho se ficar parado). Ida e volta de táxi até a Feira: 30 euros. De ônibus com baldeação no metrô: nada. Almoço no Viet Rice: 13 euros. Peixe com legumes, suco de laranja e café expresso no hotel: 30. Jantar com bebida, restaurantes médios/bons: de 30 a 100. Jantares em restaurantes muito bons: é sempre convite.
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Micronúmeros de um escritor mais ou menos da minha idade e mais ou menos bem-sucedido: os cachês vão da gratuidade (Flip, Bienais, visitas a escolas, camaradagem com bravos organizadores de pequenos eventos) a 4 mil reais (raramente). A maioria fica entre 1 mil e 2,5 mil reais, complementada com direitos autorais, jornalismo, oficinas e cursos, trabalhos no ramo editorial, bolsas, eventuais prêmios em dinheiro. Para quem tem casa própria e não tem filhos, é uma vida confortável com férias não remuneradas, nem direito a ficar doente. Outros autores fazem coisas que não faço: tradução, carreira acadêmica, livros de encomenda, redação para campanhas políticas ou publicidade.
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Pega bem no meio literário falar mal do mercado, do circuito de feiras, do marketing pessoal dos escritores. Às vezes me junto às críticas, porque não sou imune à crença romântica de que o excesso de oba-oba prejudica a criação literária, nem que seja por roubar nosso tempo. Apenas sigo curioso se alguém diz o mesmo de nomes estrangeiros consagrados e novos, de Ian McEwan e Mario Vargas Llosa a Steven Hall e Alejandro Zambra, que participam de eventos pelo mundo a convite de embaixadas e institutos ligados ao Estado. Alguns dos integrantes da comitiva brasileira aproveitaram setembro e outubro para fazer leituras em cidades alemãs. Barba Ensopada de Sangue, de Daniel Galera, saiu há dois meses aqui e está na terceira impressão, o que dá em torno de 8 mil exemplares. A tradução de Os Malaquias, de Andréa Del Fuego, foi publicada no fim de junho e esgotou a primeira tiragem (6 mil). Casos parecidos ocorrem na Europa com autores como Adriana Lisboa, Ronaldo Wrobel, Alberto Mussa, Tatiana Salem Levy, João Paulo Cuenca e Edney Silvestre, sem falar em nomes com mais tempo de estrada (Bernardo Carvalho, Cristovão Tezza, Paulo Lins, Luiz Ruffato). Multiplique isso por vários livros, vários países e vários anos: não há chance de chegarmos perto de estrelas (ou ficcionistas médios) do mercado anglo-saxão, mas não se trata mais do que Paulo Coelho definiu como “Zezinho que escreve para cinco amigos”.
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Claro que tudo pode ser circunstancial. A regra em Frankfurt é que o país homenageado receba atenção no seu ano e no ano seguinte saia do radar. O esforço é para que se atinja um patamar intermediário entre os extremos. No momento, pouco se fala dos escritores da Nova Zelândia (embora a atual ganhadora do Man Booker Prize, Eleanor Catton, tenha crescido e feito carreira lá). O interesse na literatura do Brasil também vai depender do desempenho da economia nos próximos anos. Divulgação cultural vem na esteira da relevância econômica, vide o que ocorre hoje com a língua inglesa e o que aconteceu com a literatura da França no último meio século.
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Durmo mal, culpa do vinho, do café e da internet, em que navego como um autômato até umas três da manhã. O hotel de Bonn é brutal, com uns 100 apartamentos por andar e ocupação chinesa massiva. Pela manhã o trem está novamente atrasado, à uma hora chego a Frankfurt, pego um táxi até o Holiday Inn, tomo banho, corto as unhas, falo no Skype, saio para almoçar pato frito com legumes e pimenta (estava com saudades) e dali vou para a cerimônia de abertura da Feira. Ruffato faz um discurso forte sobre as mazelas brasileiras. Ana Maria Machado discorre sobre clichês na imagem da ficção nacional no exterior. Acho bom o contraste: a arte pode ter compromisso político ou ético, mas estética também é importante e pode se bastar. Não fosse assim, não haveria valor em Ezra Pound (fascista), Górki (stalinista) ou Céline (antissemita). Há 2 mil pessoas no auditório. Ziraldo vocifera contra Ruffato: “Este é um discurso para Doha, não Frankfurt.” Nos dias posteriores, o caráter engajado da fala é atacado pelas redes sociais, num espectro que abarca de petistas a uma nota do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira. Ruffato ganha muitos apoios também. Ao final da cerimônia de abertura, Michel Temer cita os próprios poemas e é vaiado.
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Marçal Aquino sobre o episódio todo: “Melhor um escritor se meter na política do que um político se meter na literatura.”
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A Companhia das Letras,[1] editora na qual publico, oferece um coquetel para seus autores. Lá estão Sérgio Sant’Anna, Lourenço Mutarelli, os irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá. A partir daqui, a comida e a bebida da viagem melhoram na proporção inversa da minha capacidade de lembrar nomes e evitar gafes. Há um jantar da minha agente com brasileiros que ela representa (Bernardo Carvalho e Daniel Galera). Depois, dou uma passada no hotel Frankfurter Hof. Encontro Luiz Schwarcz e as editoras do Diário na Espanha, Holanda, Suécia, Noruega e Estados Unidos. Também as da Inglaterra e França, que conheci ano passado e com quem me dou bem. Das oito e meia à uma da manhã tomo caipirinhas, vinho e schnapps de pera (boa bebida) e framboesa (péssima bebida). Volto para o hotel, alguns colegas estão muito bêbados e emocionais no bar do térreo, penso em tomar uma última com eles, mas evito porque quero tentar dormir direito pela primeira vez na viagem.
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Acordo mal. Dou um pulo na Feira, onde estão marcados encontros, cafés, fotos e autógrafos. Os números de Frankfurt são grandes: 190 mil metros quadrados, 7 mil expositores de mais de 100países, público estimado de 300 mil. Há estandes como nas Bienais do Rio e São Paulo, com setores dedicados a material gráfico e franquias de eventos. Agentes, editores e responsáveis por compras e vendas de direitos passam o dia em reuniões, em média de meia hora cada – às vezes em pavilhões distintos, que exigem longas caminhadas, e idiomas diferentes, o que colabora com o cansaço. Ana Paula Hisayama, que também é meu anjo da guarda na viagem, faz isso para a Companhia das Letras. A agenda dela para a quarta-feira tem dezesseis encontros marcados. A de Caroline Chang, da L&PM, tem catorze. A de Luciana Villas-Boas, ex-editora da Record e atual sócia da agência literária VBM, tem onze. Nessas conversas, trocam-se impressões gerais sobre livros e autores, fala-se de material já lido nas semanas anteriores e a ser mandado nas posteriores, mas em muitos casos é ao vivo mesmo, um tentando convencer o outro de que determinado(s) título(s) vale(m) a pena. A capacidade de convencimento do agente – seu talento para emprestar colorido a uma sinopse, no caso de um autor desconhecido – pode ser tão importante quanto os pareceres mais adiante (porque é o momento em que o livro primeiro chama a atenção). Ao final do dia, há coquetéis e jantares de trabalho. Por volta das onze, parte dos profissionais está no Frankfurter Hof ou em bares das redondezas. Muitos esticam em festas na madrugada. Acorda-se muito cedo. À noite, a média etária está entre 30 e 40 anos.
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Grandes negócios são selados aqui, ou levados a leilões realizados poucas semanas depois da Feira. Mas não há regra: às vezes o acordo é fechado antes, longe dos holofotes, em contatos diretos baseados em relações pessoais de confiança, e apenas anunciado em Frankfurt. O trabalho de formiguinha funciona também – contratos de autores que ganharão adiantamentos em torno de 5 mil euros, com desconto de impostos e comissões baixas para agentes e editoras. Até sexta, a Feira funciona apenas para negociações. Sábado abre para o público em geral. Só é permitido comprar livros no domingo, mas alguns estandes já o fazem no fim da tarde anterior. O furto de exemplares não é incomum, assim como não são incomuns as filas para comer nos cafés e restaurantes (caros e ruins).
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Um jornal sueco havia me pedido um depoimento sobre quem deveria receber o Nobel (erro o palpite). Sai um textinho meu no Die Welt (o tema, sempre embaraçoso para mim, é “meu ambiente de trabalho”). Recebo um exemplar da revista da Lufthansa com um artigo que escrevi sobre São Paulo. O editor resolve botar frases na minha boca, o que me deixa furioso (logo passa), mas as fotos são boas – eu de óculos escuros na avenida Paulista, flâneur de mim mesmo, o que talvez ajude a promover meu romance sobre Auschwitz.
• 41 •
(Já fui editor de revista e mexi em textos alheios, sempre negociando com o autor. O mesmo pode ocorrer na edição de um livro. A única coisa de que não posso abrir mão, porque vivo do que escrevo, gostem ou não disso, é a palavra final sobre o que sai publicado em meu nome.)
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À noite, vou com Patrícia Melo a um jantar da nossa editora alemã. Depois, tento ver uma peça de Felipe Hirsch (já terminou quando chego) e assisto a uma parte do que o convite anunciava como “performance de DJs”. Depois, Frankfurter Hof. Depois, um bar perto do Frankfurter Hof. Drinks: vinho, caipirinha, cerveja, schnapps de pera. Na manhã seguinte acordo num estado de perplexidade em relação a tudo e todos, e o primeiro compromisso é uma sessão de fotos para a agência DPA.
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Noite seguinte: festa de uma empresa que me convidou para participar de uma “ação” (não aceitei, mas aceitei ir à festa). Depois, Frankfurter Hof. Depois, festa perto do Frankfurter Hof. Depois, Frankfurter Hof novamente. Vinho, Jim Beam, um coquetel de champanhe e hortelã (derrota) e schnapps de pera.
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Tudo é triste, e o ideal era não ter nascido. Tenho parte do dia livre e me arrasto na chuva até dois museus: o Städel, onde há uma mostra de águas-fortes de Rembrandt, e o Ikonen-Museum, com uma pequena e preciosa coleção de arte religiosa. Queria ter conseguido ir a algumas das mesas dos brasileiros. Queria ter conseguido ver um espetáculo de Roberto Alvim. Leio que Cristiane F. fará uma leitura hoje na Feira, e por um minuto penso em me deslocar até lá e pedir um autógrafo. No fim da tarde, tomo café com o meu tradutor holandês. No sábado, encontrarei minha tradutora italiana e farei minha participação oficial na Feira, um debate com Bernardo Carvalho. Também uma entrevista ao vivo para a rádio, em frente a uma plateia de quinze pessoas e ainda sob efeito de miasmas alcoólicos que funcionam – é útil anotar – como substitutos do Propranolol.
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Ziraldo passa mal e faz um cateterismo.
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O tema das conversas passa a ser o cansaço e a vontade de todos de que tudo termine logo.
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Um time de escritores brasileiros joga uma partida festiva contra um time de escritores alemães. É derrotado por 9 a 1.
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Há banners gigantescos com a foto de Paulo Coelho em frente à Feira. Pego um táxi ali, o motorista pergunta de onde sou, explico o que estou fazendo em Frankfurt, ele sorri e diz o nome do Mago.
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Às onze, dou uma passada no FrankfurterHof. Provavelmente é a última vez que venho aqui, porque não faz sentido visitar uma feira de negócios se a ocasião não for especial como esta. Só tenho aceitado viagens para o exterior se for para promover um livro. Este ano recusei farras na China, Índia, França e Venezuela. Tomo cerveja, o pessoal está indo a uma festa de editoras independentes, mas acabo na festa tradicional de uma editora escocesa. É um porão onde estive no ano passado. Calor e umidade insalubres. Amigos bebem tequila e uísque. A melhor coisa de ter 40 anos e achar que ainda tenho 15 é poder continuar a noite tomando Hi-Fi.
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Acordo semimorto, mas até que estas duas semanas foram divertidas. Durante a viagem ouvi muitas histórias sobre figurões das letras: o que o Prêmio Pulitzer disse para o porteiro do hotel, seu prato preferido, sua obsessão por guarda-chuvas ou material de escritório. Sempre fico com a impressão de que há uma cota de paciência para alimentar este folclore inofensivo, enquanto a parte mais intensa das viagens – sexo e drogas ilícitas, punhaladas pelas costas, crises de choro e depressão, gestos verdadeiros de amor e amizade – jamais acontecerá na presença de quem gosta de fazer relatos do gênero.
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De todo modo, e por trás do compreensível exagero para tornar as coisas mais engraçadas, dramáticas ou trágicas, às vezes surge algo que parece relevante. No livro de Juremir Machado há cenas em que Michel Houellebecq flerta sem sucesso com garçonetes e atendentes. “Sou velho, não sou atraente e aqui ninguém sabe quem eu sou”, ele diz (cito de memória, esqueci o livro – lido pela metade – no Viet Rice). Na frase, assim como no interesse dele por animais, pessoas, lugares e histórias da Patagônia, é possível ver o contraste entre ironia e solidão, sátira e humanismo que torna os romances do escritor francês tão vívidos, para além da imagem de misógino entediado colada nele pela mídia.
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Aí está um exemplo de biografia que pode iluminar uma obra. Na discussão sobre o tema que pautou a semana, manifestaram-se a favor da restrição Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Marília Pêra e Francisco Bosco, este numa série de textos bem articulados. Não acho que a luta pelo direito à privacidade seja apenas “primadonice”, coronelismo ou mercenarismo. Mas, como Bosco mesmo escreveu, é difícil separar o que é público e privado no caso de um artista (ou de um jogador de futebol: como Ruy Castro contaria a história de Garrincha sem mencionar seu alcoolismo?). Aí está um dos argumentos decisivos para mim: uma regra única generalizaria uma questão que deve ser vista caso a caso. Uma questão, portanto, mais afeita à análise judicial – que é sempre feita a posteriori, em diferentes instâncias e com o livro já publicado. Isso não elimina a possibilidade de abusos, mas a alternativa – veto prévio, que equivale a censura – é pior. O outro argumento decisivo é que, se a imprensa não precisa submeter conteúdo a ninguém que não seus editores, e quanto a isso parecem estar todos de acordo, não vejo por que com livros – em geral lidos por muito menos pessoas – deveria ser diferente.
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No caso do presente relato, que nem de longe trata de figurões das letras internacionais, deixei de fora menções a fatos da vida privada minha e de terceiros, a não ser os de menor importância. A pergunta não é, acho, se eles ajudam a explicar o que esses autores escrevem. A teoria literária do século XX fez um esforço enorme para separar vida e obra, mas sempre penso no que Zadie Smith disse sobre T. S. Eliot, um dos defensores centrais da referida separação: será que o grande poeta e crítico americano não pensava assim, entre outros motivos, porque em seu currículo constava o fato de ter abandonado a mulher num hospício?
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A pergunta que importa é: onde está a intimidade de um autor? Tudo é possível em literatura, mas a regra é que livros espelhem a personalidade de quem os produz. Alguém interessante tem boas chances de escrever algo interessante. Alguém chato muito provavelmente escreverá coisas chatas. Mas “interessante” ou “chato” são atributos que dificilmente serão percebidos num almoço, numa viagem de ônibus, numa troca banal de e-mails, a não ser em seu caráter mais superficial. O acesso ao mundo particular que dará colorido ou não aos livros de alguém – sua intimidade, o que inclui experiência de vida e capacidade imaginativa – é bem mais raro. Gosto de acreditar que sou uma pessoa mais leve do que aparento nos meus romances, por exemplo, mas deve ser ilusão. Ou a leveza só aparece quando uso a máscara necessária para enfrentar duas semanas de compromissos que agora chegam ao fim.
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Três amigos escritores, que não são tão mais velhos que eu, tiveram doenças sérias relacionadas ao álcool. Quando me vejo aos 60, 70 anos, caso chegue até lá e independentemente de ter filhos e um casamento feliz ou infeliz, temo tanto ser um sujeito rancoroso e intratável que não publica há décadas quanto um medalhão laureado a caminho de um enterro cheio de elogios. Mas estarei preparado quando isso acontecer, décadas em que a vida nos acostuma ao vazio e à impermanência de modo que o ridículo pareça natural e indolor. Um bom teste sobre ilusões, no caso de um escritor, é caminhar num lugar como a Feira de Frankfurt e reparar no tamanho dos corredores, no número de estandes, na quantidade de editoras, nas tantas fotos e nomes, tantos livros e livros e livros que não param de ser escritos, e perguntar qual o próprio lugar diante disso tudo. Ou quais colegas você inveja de verdade, no lugar de qual deles gostaria de estar quando isso inclui todo o pacote – não apenas a obra, o sucesso e o dinheiro, mas o que a pessoa passou para chegar até ali e como ela vive em função dessas escolhas.
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O que importa, no fundo: fazer o melhor que você pode a cada vez que senta para escrever, de acordo com circunstâncias que incluem talento, estrutura emocional e sorte.
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O que importa na vida pessoal: ser o mais honesto e melhor possível com as pessoas de quem você gosta.
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O que importa diante do horror indiferente do universo: nada.
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Gravo uma participação no Das blaue Sofa, programa da ZDF que dizem ter repercussão. Meia hora de entrevista num sofá em meio à Feira, as perguntas são boas, mas no vídeo a plateia aparece conversando, lendo, tirando fotos de outras coisas. A expressão do meu rosto é marmórea. Estou cansado da minha própria voz. Estou cansado de viajar. Retorno ao hotel, ponho as coisas na mala, faço o ckeck-out, pego um táxi e na hora do encerramento da Feira estou no aeroporto.
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Já no avião, revejo pedaços de filmes: Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater, e O Diabo Veste Prada, de David Frankel. Estou numa fase tranquila com voos. O medo é algo que vem e vai sem motivo, como o nervosismo antes de palestras. Nas únicas vezes em que houve incidentes a bordo – uma arremetida em Brasília e o que pareceu ser o estouro numa turbina em Congonhas, som semelhante ao de uma bomba que fez o piloto anunciar “problemas técnicos” e voltar ao solo logo depois da decolagem –, eu me mantive tranquilo. Idem nas vezes em que fui assaltado ou me machuquei de verdade. Tenho menos medo de morrer do que ansiedade em descobrir que estou prestes a morrer. Em viagens, já tive a sensação de que nunca mais voltarei para casa. Uma vez me vi sozinho num hospital da Índia sem saber o que tinha e sem conseguir levantar a cabeça da maca. No próximo mês e meio tenho eventos no Rio, em Belo Horizonte e duas vezes em Curitiba, além de visitas a escolas em São Paulo. A aeromoça passa com o jantar. Peço frango, tomo um Lexotan, minha garganta está doendo um pouco e acho que vou ficar gripado. Estou a 2 metros do banheiro, que será usado sem descanso pelos passageiros. Durmo pouco e mal.
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[1] O fundador e publisher da piauí é um dos sócios da editora.