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QUATRO POEMAS DE VIAGEM

Imagem Quatro poemas de viagem

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POEMA PARA ESGOTAR A CASA

impossível fossilizar a casa

manter os dentes sadios

contá-los um a um em sua boca

impossível conter o sorriso

mesmo sabendo que a casa

é uma outra

vontade que a casa anule

o mundo que a casa seja

o próprio mundo

que a casa seja um aquário

seja um museu

(do not disturb)

se conseguir atinar

a vastidão de seu presente

serei um recém-chegado crônico

já é impossível pensar

o mundo sem a mediação

da casa

(teria sido preciso esgotar o tema da casa)

não quero querer mas

quero de volta a impossível

casa autêntica

(a casa me dá saudade do lar)

é preciso interditar a casa

deixar que o mato a engula

cresça sem rodeios

dentro dos carros

forre a mesa de jantar esconda

a insistência dos remendos

a nossa casa castelo de cartas

ainda guarda restos de

qualquer coisa que foi embora cedo.

INVERNO

aos sábados assam

um porco em cada esquina

e lá fora todos pensam que nosotros

somos pobres

eu estava em qualquer outro lugar

menos onde pensei que estaria

you speak a very good english

disse o sri-lanko canadense manco

eu a única hóspede mulher

no hotel beira de estrada

fora as putas

dos canadenses com quem

às vezes elas se casam

e nem era temporada

anotei muitas vezes

lembrar-se de exceções e falsos

cognatos

a caminho da praia.

ESTRANGEIRO

jurou conhecer

cada lugar de

cada página da

national geographic

nem é tão frio no polo sul

no meu tempo se podia

viver acho que vim

de navio trinta dias ou

mais até o porto de

santos preciso parar e

lembrar tudo o que fiz.

por fim apontou o mar

e disse no meu tempo

tudo isso aí

era mato.

FOTOGRAFIA

os turistas não entenderam

por que aos onze anos

não quis entrar na tumba

no meio do deserto

fiquei no ônibus muito cética

aos cuidados do motorista

que riu do meu descaso

e me trouxe uma coca-cola

depois de tanta ruína

amarelo sobre amarelo

é difícil enxergar o extraordinário.

àquela altura eu não sabia

por milímetros não acertamos

nem um beijo na esfinge.


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Julia de Souza, poeta paulistana, é autora de Covil, lançado pela 7Letras