questões narigudas
Tiago Jokura piauí_piui 08 Out 2026
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Imagine que você entrou em um laboratório que cria as fragrâncias usadas na fabricação de diferentes produtos: cheirinho de maçã para um detergente, perfume de rosas para um sabonete ou até aroma de churrasco para batata chips. E então encontra uma prateleira com um monte de vidrinhos, que contêm essências de todo tipo: limão, mel, gengibre, cravo-da-índia, canela, algodão, café, lavanda, couro, madeira.
Você abre um frasco e logo um cheiro de chulé, daqueles azedos que fazem a família toda passar mal, se espalha pelo ambiente. Um outro vidro é aberto e, pá, tem um odor terrível de vômito. Mais um potinho e, credo!, parece que alguém esqueceu de dar a descarga. Mais à frente, você toma um susto: a impressão no olfato é de sangue. Será que alguém sabotou o laboratório?
Nada disso. É que esses odores horríveis (e também urina, peixe podre, esgoto, cigarro, lixo, sovaco suado) são importantes para os técnicos especializados criarem os cheirinhos industrializados.
O que acontece é o seguinte:
Imagine que uma fábrica de fraldas descartáveis quer colocar um cheirinho bom de camomila em cada fralda para deixar o bebê cheirosinho e desenvolve uma determinada fragrância para o produto. É muito fácil deixar a fralda agradável ao olfato quando ela está limpa, mas o fabricante tem que prever o que acontecerá quando o bebê mandar aquela bomba – o estrago vai ser suavizado ou a mistura será pior, parecendo uma sujeirada perfumada? Em vez de convocar uma criança fraldada para testar de fato o produto, os técnicos podem pingar gotas da essência fedida e avaliar como os dois cheiros reagem entre eles.
Esse processo para criar e testar essas fragrâncias envolve ciência, paciência, narizes muitíssimo bem treinados... E alguns segredos.
Meu xará Thiago Romão, fundador da Essência Consultoria, me explicou que tudo começa numa conversa entre a empresa onde ele trabalha e seus clientes – ou seja, quem fabrica o produto. Nesse papo, é obrigatória a participação de um avaliador, que entende o que o cliente precisa (pode ser um cheiro suave e fresco para uma loção de banho ou um aroma de frutas cítricas para uma bala).
O perfumista é quem precisa pensar na fórmula que criará esse cheiro desejado. Ele trabalha com um assistente, que é quem pega a receita que ele cria (como se fosse uma receita de bolo mesmo), vai para o laboratório e pesa cada um dos óleos para criar uma fragrância final. “As formulações mais sofisticadas levam mais de duzentos itens”, detalha Kelly Medeiros, avaliadora na empresa Mane.
Perfumistas são profissionais raros, que precisam ter um olfato muito apurado, capaz de diferenciar minúcias dos odores (de diferentes tipos de flores, por exemplo) e ter muito conhecimento.
A Symrise, uma das casas de fragrâncias, me convidou para uma visita a seus laboratórios na cidade de Cotia, na Grande São Paulo. O Marcio Cragel, diretor de pesquisa, e a Gisele Evangelista, coordenadora de laboratório, me mostraram que a equipe é capaz de reproduzir sinteticamente qualquer cheiro natural.
O Marcio foi abrindo pequenos frascos com cheiros capturados diretamente de alguns alimentos. Farejei couve-flor, maracujá, morango e banana, concentrados em pequenas gotas que, segundo ele, têm o potencial de perturbar uma vizinhança inteira. “Uma vez, um estagiário nosso pediu para levar um frasquinho desses para casa, porque a mãe estava curiosa pelo cheiro de manteiga. Quis mostrar a novidade para os colegas e, semanas depois, recebo a ligação da escola em que ele estudava porque o pessoal da limpeza estava tentando tirar aquele cheiro de manteiga do ambiente.”
Continuando nossa excursão pela fábrica de cheiros, a Gisele chegou com uma maletinha metálica, menor do que um laptop, com tubos de ensaio, sprays de um gás misterioso e outras parafernálias capazes de capturar qualquer odor no ambiente, dentro e fora do laboratório. Eles já fizeram uma expedição de barco pela Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, para capturar o cheiro de água poluída. Mas como será que é possível “capturar” um cheiro, algo que não podemos enxergar? A Gisele deu um exemplo diante dos meus olhos – e bem debaixo do meu nariz. Ela pegou pedacinhos de um pão de mel, colocou em um saquinho de papel e mergulhou em uma solução química no tubo de ensaio. Em seguida, tampou o tubo e injetou um gás que resfriou o tubo a cerca de 0ºC. Depois de uns minutos, a solução cheirava exatamente igual ao pão de mel.
No escritório da Gisele vem a segunda parte: ela usa um aparelho chamado cromatógrafo gasoso, em que aquele líquido com cheiro de pão de mel será analisado. O aparelho mostra quais são as moléculas que compõem aquele cheiro. Moléculas, para quem não sabe, são minúsculas combinações de átomos, nossos velhos conhecidos das aulas de química. Lembra que a molécula H2O (2 átomos de hidrogênio e 1 de oxigênio) é a fórmula da água? Pois um chocolate, por exemplo, é formado por diferentes tipos de moléculas, e o cheiro de chocolate conterá algumas delas.
Depois de entender quais são as moléculas que devem compor um determinado cheiro, os pesquisadores manipulam os produtos químicos que têm no estoque para criar moléculas parecidas – e, assim, recriar a sensação de estar farejando aquele produto.
No final da visita, chegamos a um dos pontos mais interessantes do processo: os lugares onde são testados os produtos na prática. Há mais de dez cabines de banheiro, com chuveiro, pia e vaso sanitário, para testar produtos de limpeza. E é aí que entram os futuns podres.
Lembra que foi usado um pão de mel de verdade para capturar o cheiro de pão de mel? Em algum momento, algum pesquisador corajoso foi coletar a catinga de peixe podre, de cebola, de pum...
No caso do chulé, alguém teve que usar um tênis fedido por um tempão e o suor dos pés foi colhido por um paninho. Depois, levaram essa amostra para o laboratório para criar a essência desse mau cheiro, fundamental para testar, por exemplo, um novo talco para espantar o bodum.
Como se vê, nem tudo são flores no mundo da perfumaria.