CRÉDITO: VITO QUINTANS_2026
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espírito de porco

NAS GARRAS DO CRIME

Empresários gatunos fraudavam máquinas de pegar bichinhos de pelúcia, e os clientes é que pagavam o pato

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É preciso ter a mão firme como a de um piloto de avião para conseguir capturar um bichinho de pelúcia naquelas máquinas comuns em shoppings ou parques de diversão. Qualquer pequeno erro e, pode esquecer!, ficamos sem o ursinho, o cachorrinho, o cavalinho, o sapinho ou qualquer outro “inho” que podemos enxergar através do vidro.

O funcionamento da geringonça não é muito complicado. Segurando os botões ou alavancas em um painel fora da máquina, o jogador vai guiando o movimento da garra de metal. Ela se mexe pa­ra a frente e para trás, e também para a esquerda e para a direita. É necessário ter olhos de águia e sangue de barata para esperar o momento em que a garra está exatamente em cima do brinquedo e então dar o comando para que ela desça e agarre em cheio uma orelha, um rabo, uma pata, um focinho ou alguma ponta da pelúcia.

Mas não acaba aí. Depois disso é preciso mover a garra cuidadosamente até um alçapão, onde o brinde será solto e deslizará por um pequeno túnel, até descer por uma portinhola – onde, enfim, vai ser apanhado pelo vencedor ou vencedora, que mostrará um sorriso triunfante, orgulhoso de seu feito. Merecidamente. Afinal, terá passado em um teste de talento e precisão... Certo?

Mas... E se não for sempre assim? E se não for verdadeiramente um teste de habilidade? E se algum empresário mão de vaca fizesse uma gambiarra na máquina para ela não funcionar direito e fazer o jogador perder, de propósito, para não precisar gastar dinheiro repondo o estoque de pelúcias?

Pois um grupo de investigadores da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro já desconfiou disso. E foi seguindo pista atrás de pista para farejar uma grande cachorrada – mais do que isso, um verdadeiro esquema criminoso.

Tudo começou em abril de 2024, quando o serviço Disque Denúncia do Rio recebeu informações sobre outra mutreta. Dois denunciantes anônimos disseram que as máquinas de garra instaladas nos centros de diversões Black Entertainment e London Adventure no Norte Shopping e no Bangu Shopping ofereciam como prêmio pelúcias falsificadas de personagens como os super-heróis da Marvel. Os lugares pareciam acima de qualquer suspeita: divertidos e cheios de luzes coloridas.

Confirmar a acusação da pirataria foi moleza. Quando aproximaram a testa do vidro de uma das máquinas para observar o que tinha lá dentro, os policiais logo perceberam que os bichos de pelúcia estavam mais para bichos de penúria, meio tortos, feitos de material de má qualidade, com acabamento ruim. Ou seja: eram produtos falsificados mesmo, que copiavam porcamente os brinquedos produzidos pelos fabricantes oficiais dos personagens.

Os investigadores poderiam ter apreendido os produtos e ido para casa, mas ficaram se coçando. Seria esse o único problema, ou havia outros? Resolveram então que não dariam um pio sobre os produtos falsificados. Em vez disso, compraram algumas fichas para brincar nas máquinas, como se fossem crianças, querendo apenas se divertir. Testaram suas habilidades várias vezes, mas saíram de mãos abanando, sem ganhar uma única vez. Que estranho!, pensaram. Será que os policiais eram todos uns moscas-mortas, sem habilidade nenhuma para as garras? Ou tinha alguma coisa de errado com aqueles equipamentos?

Eles saíram de lá com a primeira pista na mão. Como pagaram o ingresso por Pix, conseguiram encontrar no comprovante do pagamento os nomes dos destinatários do dinheiro: a London Bus Indústria e Comércio e a A&C Diversões Eletrônicas. As duas empresas eram donas dessas máquinas.

Os investigadores pesquisaram os endereços. E começaram a seguir as pegadas para desvendar o mistério. 

A sede da London ficava na Zona Norte do Rio. Os investigadores foram até lá e ficaram de tocaia, na porta da empresa. De longe, observaram um grande entra e sai de pessoas e veículos carregando máquinas de garra e sacos com pelúcias. Mas nada de muito anormal.

Voltaram no dia seguinte. E no outro. E no outro. Até a manhã de 7 de maio, quando viram um dos funcionários da London transferindo uma carga de pelúcias de uma Saveiro para dentro do galpão. Mesmo de longe, dava para perceber que elas eram pirateadas. Os policiais então chegaram de surpresa para dar o bote, ou melhor, o flagrante. Eles invadiram o galpão e confiscaram 3,3 mil pelúcias e oitenta máquinas de garra. A operação foi batizada de “Mãos Leves”, em referência à garra dos brinquedos.

Com os bonecos nas mãos, os peritos confirmaram a suspeita: tudo ali era falsificado.

Mas havia um detalhe que quase pôs tudo a perder na investigação da polícia. A lei brasileira prevê que o crime de pirataria só pode ser investigado se a denúncia for feita pelas marcas oficiais. Ou seja, só valeria se a Disney, criadora do Mickey, tivesse reclamado daquele mickeymado. O juiz então anulou o inquérito em relação à pirataria. A frustração foi geral, porque os falsificadores não seriam punidos. Mas fazer o quê? Lei é lei. 

Os policiais, porém, ainda estavam com uma pulga atrás da orelha: lembra que, naquele dia no shopping, nenhum deles tinha conseguido fisgar os bichinhos? Será que essas máquinas funcionavam de verdade, recompensando a habilidade de quem brinca?

A reportagem da piuí também foi farejar o assunto. Uma informação valiosa apareceu no site de uma empresa do outro lado do mundo: a Guangzhou Tongru Tecnologia Eletrônica, da cidade de Cantão, na China. A Guangzhou é uma das maiores produtoras desse tipo de equipamento e tem até site traduzido em português, já que boa parte dos clientes são brasileiros. A máquina mais barata, bem básica, custava 1,3 mil reais. A mais cara, cheia de recursos, 426 mil reais. A empresa diz que, a cada semana, um equipamento fatura entre 1 mil e 2,5 mil reais.

Até aí, tudo bem. Mas o site tinha um detalhe intrigante: falava que era possível mexer na “taxa de vitória” do aparelho. Ou seja, quem compra a máquina pode deixar mais fácil ou mais difícil pegar uma pelúcia. O texto fala exatamente assim: “Máquinas configuradas para ter uma taxa de vitórias mais alta (ou seja, o jogador tem mais chance de ganhar um prêmio) podem justificar um preço mais alto [a ser cobrado do cliente].”

Bingo!

Então a pulga na orelha dos investigadores estava correta. Existe um jeito de manipular as máquinas para que o jogo não dependa apenas da habilidade do jogador. Assim, o dono do negócio ganha dinheiro com a venda das fichas ou cartões e não precisa gastar para comprar mais bichinhos para repor o estoque.

A Polícia Civil do Rio confirmou essa suspeita. Pegou um dos oitenta equipamentos apreendidos naquela operação de maio de 2024, que funcionava no Bangu Shopping. Os policiais fizeram 131 tentativas de agarrar um bichinho na máquina, observando minuciosamente como o equipamento operava a cada vez. Logo entenderam que um padrão se repetia: só em uma de 33 tentativas a garra tinha 100% de potência, o suficiente para segurar a pelúcia e jogá-la no alçapão. E aí, sim, nesse único momento, valia a habilidade do jogador: se controlasse bem a garra, ele conseguia ganhar o brinde. Se fosse estabanado, perdia – mas aí seria justo perder.

Nas outras 32 vezes, nem o maior craque mundial de garra conseguiria pescar o brinquedo, já que a mão metálica estava programada para usar apenas 35% da força e não aguentava o peso do bichinho. 

No Brasil, promover este tipo de jogo é proibido por lei, com pena de 3 meses a 1 ano de prisão. Um outro exemplo de atividade ilegal é o jogo do bicho, um tipo de loteria criminosa que leva esse nome porque os números sorteados correspondem a animais, como vaca, cachorro, macaco, tigre, borboleta. Outro caso são as máquinas caça-níqueis, nas quais o apostador aciona uma alavanca ou um botão para girar imagens (como laranjinhas e moedinhas) e tenta acertar a combinação que vale um prêmio. Em todos os casos, é assim: a cada jogador que ganha, muitos outros perdem.

Em agosto de 2024, a Polícia Civil fez batidas com autorização da Justiça em dezenove endereços das duas empresas, a A&C e a London, e também de seus sócios. Era a segunda fase da operação, chamada “Garra Fraca”.

Em um dos endereços os policiais apreenderam não só equipamentos com garras para pelúcias, mas também máquinas caça-níqueis e anotações referentes ao jogo do bicho. “Certamente há bicheiros por trás desse negócio”, diz o delegado Victor Tuttman. Ele é o atual responsável pela investigação, que ainda vai levar um tempo. A polícia está preparando um relatório que vai revelar o conteúdo das conversas nos celulares que foram recolhidos.

Por enquanto, todos os envolvidos são tratados como suspeitos. Só serão considerados culpados se no futuro o juiz chegar a essa conclusão, depois de analisar as provas e ouvir atentamente a defesa de cada um dos envolvidos.

A piuí procurou a defesa dos donos da A&C para saber o que eles têm a dizer, mas ninguém nos respondeu.

Já o advogado Matheus Andrade, que defende os donos da London, negou que as máquinas apreendidas pela polícia fossem manipuladas. Disse que a “conquista do brinquedo depende exclusivamente da habilidade, destreza e estratégia do usuário”. 

Bom, avaliar se isso é verdade caberá à Justiça, que decidirá se são culpados ou inocentes. A parte comercial dessa história, porém, já teve um desfecho. Segundo o advogado, a investigação da polícia fez com que a London encerrasse suas atividades, pois a imagem da empresa ficou abalada com as denúncias. Ele fez uma crítica aos investigadores: diz que, enquanto as apostas esportivas [bets] são autorizadas pelo Estado, é incoerente provocar o fechamento “de um comércio legítimo de entretenimento infantojuvenil de baixo custo”.

Esse advogado citou uma informação importante. É verdade que nem todo jogo prejudicial às pessoas é ilegal. Da mesma forma que o cigarro pode matar e é vendido em qualquer padaria, as bets (apostas esportivas e joguinhos que valem dinheiro, como o famoso jogo do tigrinho) foram autorizadas pelo governo, e todo mundo está careca de saber que fazem muita gente perder grandes quantias de dinheiro. 

Isso não exclui, porém, o fato de que existe muita empresa tentando enganar os clientes, como ao negar um bichinho de pelúcia para quem merecia ter levado o brinquedo para casa. Nesse ponto, pelo menos, a London pode tirar seu cavalinho da chuva.


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Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator, Cocaína: A Rota Caipira e Cabeça Branca (Record)