“Quando percebi, estava olhando pro céu e prestando atenção nas nuvens” - CRÉDITO: ÁLBUM DE FAMÍLIA + ILUSTRAÇÃO DE CAIO BORGES
“Quando percebi, estava olhando pro céu e prestando atenção nas nuvens” - CRÉDITO: ÁLBUM DE FAMÍLIA + ILUSTRAÇÃO DE CAIO BORGES

do fundo do baú II

O MENINO QUE REPARAVA

Uma brincadeira de memorização para atravessar o dia

6 min de leitura

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Quando completei 9 anos, morando na casa da minha tia-avó com cinco primos, eu costumava registrar na memória pequenos momentos do meu dia. Podia ser algo que vi no quintal ou na escola, algo que eu inventava para passar o tempo e muito do que eu observava pelas janelas da minha casa ou do ônibus.

O tempo passou e acabei perdendo esse costume até alguns meses atrás, quando decidi, ao longo do meu dia, reparar e registrar doze coisas. Por que doze? Não sei, só para entortar um pouco o número. Hoje em dia é tudo tão redondo, tão calculado, que doze me parecia um número aleatório bom para fazer a minha pesquisa. Queria experimentar essa liberdade. Não ser prisioneiro.

Fiquei na dúvida se anotaria as doze coisas no papel, no bloco de notas do celular, ou somente na minha retina e na minha memória. Decidi pela terceira opção. 

A primeira coisa que vi e guardei na retina foi que, quando saí do meu quarto, vi meus dois filhos, cada um no seu quarto, isolados do mundo, revezando entre aparelhos tecnológicos e o silêncio. Guardei na minha mente. Senti, pensei, observei. Número 1. Essa foi a observação número 1. 

Quando saí de casa, prestei atenção num prédio que está ao lado daquele que eu moro, mas que eu nunca tinha reparado, com uma varanda faltando. É uma varanda cheia de ferros retorcidos, sem nada na janela. 

Atravessei a rua e notei um grupo fazendo uma dança que eu nunca tinha visto antes. Eu não sei se é uma dança da moda ou se aquele grupo estava criando alguma coisa. Só sei que tinha muitos braços, muita coluna retorcida, pisavam forte no chão e, no fim, paravam numa pose. Lembrei que anos atrás, quando eu vi um balé do Alvin Ailey, a dança não tinha nada a ver com isso: tinha mais curva, mais músculo. De toda forma, registrei na memória.

A manhã já estava acabando e eu não conseguia mais escolher nada para guardar na cabeça. 

Chegou a hora do almoço. Passei por um restaurante fast-food, a boca salivou, mas virei as costas com aquela preocupação se hoje era o dia da besteira e da podreira ou não, e vi um mercadinho bem pequeno logo à frente. No mercadinho tinha algumas prateleiras onde faltavam produtos, parecia que ele estava indo à falência. Entrei e, ao observar, descobri uma carne em promoção. Fui lá, comprei, junto com alho, cebola, um pouco de bacon e decidi que faria meu próprio hambúrguer. Seria a primeira experiência com produtos do supermercado prestes a falir.

Saindo dali, aproveitei que tinha uma sombra de uma árvore exatamente no lugar onde eu aguardaria o meu transporte. Sentei ali, abri o texto que eu precisava memorizar para o meu trabalho, mas em pouco tempo a leitura foi interrompida.

Eu lia uma linha, perdia a atenção, lia de novo a mesma linha, sem conseguir decorar nem entender o que estava lendo, li uma terceira vez. Notei que o que tirava a minha atenção eram dois grupos de estudantes. Naturalmente, por ser um homem preto, eu notei que nos dois grupos só tinha entre eles uma pessoa preta. Eram dois grupos de duas escolas. No primeiro, o rapaz negro ficava calado – ele mais reagia. Era como se ele não se sentisse à vontade para se colocar ou interagir. Me identifiquei com algum momento da minha vida.

Já no outro grupo tinha uma menina que falava bastante, dava pequenos empurrões, estimulava relações, como se fosse a melhor amiga de todos. Também me identifiquei, também percebi que um dia eu fui como ela. Guardei na memória, ou resgatei da minha memória. 

O transporte chegou. O carro era cheio de enfeites, tinham algumas balas, chocolates, bombons variados e até pacotes de salgadinho, atrapalhando um pouco quem fosse se sentar atrás do motorista. Os preços estavam bem colocados, deixando claro que não eram um brinde para o passageiro.

Na frente tinha um boneco Funko que balançava a cabeça. Achei estranho não ser um cachorrinho. Perguntei o que era aquilo e ele me contou que foi um presente da filha dele. Que ela, depois que o pai precisou trocar de profissão, ficou preocupada por ele ter que enfrentar o trânsito, então ofereceu o próprio brinquedo para dar sorte ao pai. Guardei isso na memória, com bastante emoção. A essa altura, eu já tinha perdido a conta de em quantas coisas eu já tinha prestado atenção naquele dia.

Nesse momento eu estava com o prazer imenso de ter me dispersado com outras coisas e ter prestado atenção no mundo. No final das contas, o que eu comecei como brincadeira, descobri que era um exercício de olhar, e aí passei a fazer coisas que tenho até vergonha de escrever aqui porque achei um pouco cafona. Quando percebi, estava olhando pro céu e prestando atenção nas nuvens. E coloquei na minha conta das doze coisas da memória a de uma nuvem que mudava de forma. Passei pela praia, desci e fiquei olhando um pouco o mar, vendo as ondas baterem e, te juro, vi uma tartaruga em pleno Rio de Janeiro. Ela subiu num trecho da praia meio suja, encostou num plástico e mergulhou novamente. Olhei as árvores que não estavam lá muito verdes, com algumas folhas caídas, e me lembrei do interior de onde vem a minha família e de como eu era feliz a cada vez que ia para lá e ficávamos numa roda contando histórias, rindo e, sem muita formalidade, celebrando aquele encontro. 

Valeu a pena fazer essa lista. Eu parei um dia para reparar doze coisas, um número aleatório, sem saber muito bem por quê. Depois eu descobri que é porque eu queria conduzir o meu olhar, e não ser conduzido.

Muitas vezes a nossa experiência atual é de alguém de fora que comanda o nosso olhar. Numa rede social, um algoritmo que não controlamos oferece postagens que nos viciam e ficamos em looping, presos naquele mundo. Em vídeos curtos, chamados shorts, ficamos amarrados e acelerados, sem desfrutar dos tempos diferentes das coisas da vida. O ritmo dominante é o acelerado, é o corrido. É muito difícil pra nós, hoje em dia, desfrutarmos de experiências com tempos diferentes, seja um filme mais longo, uma série média; tudo tem que ser para ontem, rápido e resumido.

Parar e escolher olhar para o que estava ao meu redor virou uma prática, que eu compartilhei com vocês agora. Na minha lista de doze coisas tem dias que passa muito desse número, porque eu escolho olhar para o lado. Nesse momento que estou escrevendo, do meu lado tem dois amigos meus, que estão ansiosos para que eu acabe de digitar e comece logo a bater papo com eles. Não temos um assunto predeterminado, só estamos juntos e aproveitando esse tempo sem acelerar nada, só curtindo a companhia um do outro e o tempo precioso que temos para estar juntos. 

No fim, percebi que, como diz o poeta Paulo Mendes Campos, eu passei um dia prisioneiro da ternura.

Espero que você, que leu este texto, tenha entendido qual é a convocação. 

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É ator e diretor. Aprendeu a contar histórias nas rodas de conversa de sua família na Ilha do Paty e ama ser pai