do fundo do baú I
Fernanda Torres piauí_piui 08 Out 2026
6 min de leitura
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Sempre que minha avó via uma criança distraída por perto, seus olhos tombavam, a cabeça se inclinava para o lado e ela dizia: “Tadinha...”
Para dona Carmen, não havia nada de alegre ou despreocupado na infância. A primeira idade, para ela, era sinônimo de fragilidade, medo e incerteza. Pudera. Dos oito irmãos que teve, restou apenas uma, Valentina. Os outros se foram antes de completar 5 anos. Ter se tornado adulta foi uma vitória para a jovem Carmen, um milagre de resistência e superação.
Minha mãe herdou da mãe dela a mesma consternação. Primogênita de um pai operário, apesar de ter crescido em condições um pouco melhores do que a dos imigrantes italianos que a pariram, dona Arlette também enxerga tormentos na meninez. “A criança é um adulto cheio de vontades, preso a um corpinho sem cabeça, sem tronco nem membros que lhe deem asas”, costuma dizer.
Para os Pinheiro da Silva, a vida só começava mesmo depois dos 18.
Já os Monteiro Torres eram justo o inverso. Classe média do bairro da Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro, meus parentes do lado paterno possuíam raízes fincadas em Minas e no Maranhão. Era Brasil na veia, com seu apreço pela meninada.
Meu avô doutor era um intelectual rigoroso, médico e político do café com leite1 defenestrado pelo Estado Novo, que morreu antes de eu completar 4 anos. Passei grande parte da meninice no apartamento que ele deixou de herança para a mulher e os filhos, num predinho de três andares nas cercanias da Praça Sáenz Peña. Nele, moravam minha tia Ilma, minha avó Ilda e a irmã solteirona dela, Suzel, que morreu virgem, aos 86, pedindo a Deus que a levasse. Além das três, os quatro quartos eram divididos ainda por meu tio Paulo, bancário e fã fervoroso de Frank Sinatra, e dois primos que tinham uma idade próxima à minha e a do meu irmão.
Com as três donas da casa debaixo do mesmo teto – a tia, a avó e a tia-avó –, as crianças reinavam no velho apê da ruazinha sem saída. Como meus pais trabalhavam no teatro nos fins de semana, eu e meu irmão éramos despachados para o outro lado do Túnel Rebouças, sábado sim e o outro também. Lá, aprendi crochet, me tornei sócia do Tijuca Tênis Clube, fui dama de honra no casamento da vizinha, me vesti de zebra e cigana em mais de um baile de Carnaval, tomei Nescau com pão careca no café da manhã, almocei, lanchei e jantei nas horas devidas, tomei banho coletivo no único banheiro da casa, brinquei até dizer chega e assisti à tevê em cores assim que a novidade foi lançada, já que minha mãe, pouco dada a consumismos, demorou séculos até se convencer a comprar uma.
Nós, os pequenos, éramos a razão de ser das três mulheres da Tijuca. A infância, ali, era não só cultuada como estendida ao máximo. A vida adulta, na mão contrária da parentalha materna da Ilha do Governador, significava a perda da inocência e do sem-fim de atenções, um vazio para sempre adiado pelas três senhoras do lar. Não à toa, meu pai era quem se divertia com a gente, comprava brinquedo, montava aviãozinho de plástico, andava de bicicleta, pescava, levava para a praia. Minha mãe, apesar de muito presente e carinhosa, nunca soube muito o que fazer com criança.
Fincada no típico subúrbio carioca rodriguiano, minha árvore genealógica é arcaica, mescla do patriarcado brasileiro com o pastoreio europeu. Fruto dela, caí longe da copa e penei para florescer na Zona Sul do Rio de Janeiro.
Meus pais atores migraram para Copacabana no início dos anos 1950 e só tiveram filhos dez anos depois de casados. Meu irmão e eu nascemos na Guanabara, um ano antes e um ano depois do golpe militar de 1964. A família passou três anos em São Paulo até voltar para Ipanema em 1971, em plena revolução de costumes.
Nossa primeira casa própria foi um sobrado no Jardim Botânico, bairro de artistas e intelectuais. Fui matriculada na escola experimental piagetiana da vizinhança, muito procurada entre os que resistiam à ditadura. Liberdade ampla, geral e irrestrita era a cartilha educacional do colégio: nada de hino à bandeira, decoreba, obrigação ou disciplina. O negócio era a criatividade. Aos cuidados de professoras chamadas de tia e pedagogas fumantes modernérrimas, a molecada ficava solta para fazer o que lhe desse na telha. O resultado foi um crescimento alarmante da perversidade infantil no recreio.
Para piorar, as educadoras prafrentex do pré e do primeiro ano me acharam inteligente para a idade e resolveram me adiantar dois anos na alfabetização. O que, no princípio, foi motivo de orgulho, acabou se transformando num pesadelo de mais de uma década. Eu nunca tive dificuldade com as matérias, gostava de aprender, mas hoje, quando me lembro do tempo de colégio, vejo que passei grande parte dele correndo atrás das mudanças mentais e anatômicas do resto da rapaziada.
Além de mais nova, a minha realidade familiar diferia, e muito, daquela que me rodeava em classe. Todas as amiguinhas da turma eram filhas de pais divorciados, dez anos mais jovens do que os meus. Mais maduras, avançadas e sacanas do que eu, elas brincavam de pera, uva, maçã, dançavam agarradinho, sabiam de cor todas as músicas do Jackson Five, torravam na praia sem virar camarão, faziam balé moderno, discutiam a vida sexual dos pais, eram dadas a mind games e logo cedo viraram cocotas.
Passei anos com receio de ir para a aula escondendo que ainda queria brincar de boneca. Se eu, aos 60, desse comigo menina na rua, repetiria o “tadinha...” de minha avó, para manter a tradição.
Mas esta curta biografia não termina em tom menor. Vencida a infância, rejuvenesci. Os pavores se foram, descobri o teatro e acabei virando eu mesma.
Me lembro de um sonho que tive aos 12, por aí, na cama de casal de minha avó Ilda, na Tijuca. Sonhei que eu era uma gueixa, no alto de uma torre, parecia um origami gerado por IA. Eu saía de um pagode, caminhava por um trampolim altíssimo, tirava o kimono e pulava numa piscina cheia de carpas. Lá embaixo, os amigos do meu irmão me admiravam. O delírio, prenúncio da revolução hormonal que vinha para me libertar, se realizou em vida cinco anos depois.
Aos 18 anos, eu estava pronta para sair, na sala do sobrado do Jardim Botânico onde vivi desde os 6, quando o Luciano, amigo quase parente do meu irmão, chegou para uma visita. Luciano me olhou diferente naquele dia – eu tinha virado mulher.
Os Pinheiro da Silva tinham lá a sua razão. A vida melhora, e muito, depois que se vira gente.