questões cinematográficas
Abr 2010 06h49
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Tendo recebido, no final de março, o Grande Prêmio do festival Cinéma du Réel, promovido no Centre Pompidou, em Paris, 48 foi exibido esta semana na competição internacional do festival É Tudo Verdade. O título se refere à duração da ditadura de Oliveira Salazar, em Portugal, de 1926 a 1974.
Dirigido por Susana de Sousa Dias, o documentário é composto, em grande parte, de dois gêneros de registro e uma única figura de linguagem, além de recorrer à tela preta com pelo menos duas funções principais, cadenciar as passagens entre os personagens e indicar a ausência de imagens quando não existem.
Uma série de fotografias de prisioneiras e prisioneiros políticos portugueses, feitas pela polícia, a célebre PIDE, sucedem-se, surgindo e desaparecendo em lentos fades, in e out.
À imagem, somam-se depoimentos gravados para o documentário, em que mulheres e homens relembram, entre outros aspectos, as circunstâncias em que as fotografias foram feitas, as torturas sofridas na prisão, o tempo que ficaram presos, as condições do cárcere. São falas relativamente breves, algumas dosadas e contidas, outras mais contundentes.
Ao compor 48 com apenas esses elementos, Susana de Sousa Dias demonstra extremo rigor formal. É um método que chamou de “rarefação”, em seus comentários na mesa sobre uso de imagens de arquivo, realizada ontem em São Paulo, no âmbito da Conferência Internacional do Documentário que ocorre conjugada ao É Tudo Verdade.
As fotos, por si só, são registros notáveis. O simples fato de terem sido preservadas e de Susana de Sousa Dias, além de ter tido acesso, ter podido usá-las no documentário, por si só é um feito. Ter, além disso, conseguido localizar, mais de 30 anos depois, 16 desses presos é uma proeza digna de admiração.
Os depoimentos, pela maneira das ex-presas e presos se expressarem, e a simplicidade do que têm a dizer, alteram a percepção dessas imagens e causam um estranhamento perturbador. A junção das vozes idosas com os rostos jovens aguça a sensação do sofrimento a que essas pessoas foram submetidas. São imagens e falas improváveis, condenadas a desaparecerem, que a obstinação da documentarista salvou do esquecimento.
Mas tamanha depuração dos meios expressivos, no limite pode ser uma armadilha. Ao repetir à exaustão o mesmo efeito – lento fade-in, foto e lento fade-out, o recurso tende a perder a eficácia dos minutos iniciais e a se tornar redundante. A forma, ou o dispositivo, se impõe, sobrepujando o drama humano.
Uma ruptura visual marcante coincide com a referência à guerra colonial, feita em um depoimento. É uma sequência de cerca de 15’, depois de transcorridos mais de 70’ do documentário, em que surge, pela primeira vez, outro gênero de imagem. Não existindo fotografias dos que depõe, há um ( ou mais de um? ) plano noturno, em que se entrevê cintilações de luz, o pedaço de uma cerca, uma árvore.
Tendo sido obrigado a ver o documentário em duas etapas, a hora inicial da primeira vez, depois, ontem, a meia hora final, não posso avaliar bem o efeito dessa mudança de estilo visual. Espero poder rever 48 inteiro, de uma só vez, para poder formar impressão mais fundamentada sobre essa quebra de unidade.