esquina

A ALEGRIA RESISTE

O Carnaval retorna às ruas de Santa Maria depois de onze anos

CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026
CRÉDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2026

5 min de leitura

Ouvir essa matéria

0:00 0:00

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Era quase meio-dia quando o policial federal aposentado Sérgio Roberto da Silva acendeu o carvão e começou a colocar a carne nos espetos para o churrasco que juntou integrantes da Escola de Samba Vila Brasil. Depois do almoço, alguns foliões acomodaram-­se por ali mesmo, na sede provisória da escola, para dormir um pouco. Sabiam que “a noite seria puxada”, na expressão de Sérgio da Silva, ou Serjão, como é conhecido na agremiação fundada em 1959 e que ele preside desde 2022.

Naquele sábado, 28 de março de 2026, a cidade gaúcha de Santa Maria teria seu primeiro Carnaval de rua em onze anos. Fora de época (o resto do Brasil celebrou o Carnaval em fevereiro), a festa foi acertada com a prefeitura municipal em cima da hora.

As sete escolas de samba e os cinco blocos independentes da cidade tiveram pouco mais de um mês para preparativos e ensaios. Não houve tempo nem de confeccionar fantasias e adereços exuberantes, nem de montar carros alegóricos. “Foi um dos carnavais mais tranquilos que a gente teve para organizar”, avalia Serjão, de 70 anos.

Coube à Vila Brasil, escola mais antiga da cidade, a honra de encerrar os desfiles, carregando pela Avenida Liberdade sua bandeira com um pavão vermelho estilizado sobre fundo branco. Seu enredo homenageou os bares de Santa Maria.

A longa moratória carnavalesca de Santa Maria coincidiu com o período de luto e indignação na cidade em decorrência do incêndio da boate Kiss, na qual morreram 242 pessoas em 2013.

Poucos anos antes, as agremiações haviam feito acertos com o município para promover um Carnaval mais estruturado. Em reunião com a prefeitura em dezembro de 2010, oito escolas, incluindo a Vila Brasil, pediram ajuda financeira para a realização da folia no ano seguinte. O prefeito Cezar Augusto Schirmer (MDB), que governou por dois mandatos (de 2009 a 2016), abraçou a ideia. Assim, a festa de 2011 contou com financiamento municipal, e a folia de 2012 também.

Um ano depois, em 27 de janeiro, veio a tragédia. Um fogo de artifício disparado dentro da boate Kiss incendiou o teto de espuma da casa e as chamas se alastraram rapidamente. Com a cidade traumatizada, o Carnaval foi cancelado em 2013. “Eu perdi filhos de amigos que peguei até no colo”, recorda Serjão à piauí. “Foi uma coisa horrível para nós.”

A festa voltaria às ruas, mas só por mais dois anos. Em 2015, a Vila Brasil desfilou com um enredo que homenageava o jornal local A Razão, hoje extinto. “A Vila sempre cantou coisas de Santa Maria”, diz Serjão. Naquele ano, ela e outras cinco escolas receberam 35,4 mil cada para montar seus desfiles, segundo registros da prefeitura.

Em 2016, faltando algumas semanas para o Carnaval, as mesmas escolas foram avisadas pela prefeitura de que não haveria mais verba para a festa. Schirmer disse que a crise econômica e os danos causados ao município por um vendaval haviam obrigado a prefeitura a cortar gastos.

O Carnaval foi cancelado. “As escolas de samba não tiveram alternativa diante da situação”, diz Marília Chartune Teixeira, secretária de Cultura da época. Muitas já haviam assumido dívidas que, sem os repasses da prefeitura, não puderam pagar. “As portas da Vila praticamente fecharam”, lembra Serjão. Mas a escola não parou. “A gente fez várias apresentações nesses últimos anos. Fomos convidados para tocar em casamento, aniversário, formatura...” Esses pequenos eventos salvaram a agremiação da insolvência.

O retorno do Carnaval às ruas de Santa Maria, em março, aconteceu um ano depois de mais uma etapa do julgamento de quatro responsáveis pela cadeia de erros e negligências que causou o incêndio fatal: em fevereiro do ano passado, foi confirmada pelo STF a sentença de prisão de todos eles (embora o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul tenha reduzido as penas em agosto de 2025).

Um passo importante para a volta dos desfiles foi dado em novembro do ano passado, com a fundação da Liga das Escolas de Samba e da Associação dos Blocos de Carnaval de Santa Maria. Essas entidades firmaram um novo acordo com o município, na gestão de Rodrigo Decimo (PSD), para garantir a folia em março.

Os termos mudaram. Agora, não há mais competição entre as escolas, como aconteceu até 2015, e a prefeitura já não subsidia os desfiles. Destinou 20 mil reais, via emenda parlamentar, apenas para a infraestrutura da festa, que sequer contou com as arquibancadas que costumavam ser instaladas ao longo da Avenida Liberdade para acomodar o público.

O gasto principal ficou por conta das agremiações. A Vila Brasil arrecadou dinheiro vendendo bebidas, lanches e abadás. Apesar das limitações, as entidades carnavalescas celebraram o acordo com a prefeitura. “Nosso trabalho foi justamente construir esse diálogo, aproximar os diferentes setores e buscar caminhos viáveis para a retomada do Carnaval”, diz Sérgio Marques, o Serginho, de 36 anos, presidente da liga das escolas. Filho de Serjão e de Vera Marques (já falecida), que presidiu a Vila Brasil nos anos 2000, Serginho cresceu imerso na cultura sambista: “É uma parte essencial da minha vida.”

A Vila Brasil entrou na avenida por volta das 4h30 de domingo, dia 29 de março. “Algumas pessoas foram embora durante a madrugada, mas a maioria ficou ali até o fim”, conta o presidente da escola, com orgulho.

De terno branco e chapéu-panamá, no estilo Zé Pelintra – entidade de cultos afro-brasileiros –, Serjão se colocou à frente de cerca de setecentos foliões que aguardavam a deixa para iniciar o desfile. “A Liberdade estava lotada como era antigamente”, ele diz. O som da bateria sacudiu o público, e a escola mais tradicional de Santa Maria pintou a avenida de vermelho e branco, suas cores. Os foliões entoavam o samba enredo que bem pode definir a força de sua agremiação e de sua cidade: “Eu sou a resistência do samba. Sou Vila Brasil, eu sou!”


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É estagiário na piauí