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Bernardo Esteves e João Felipe Carvalho Abr 2026 23h40
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No final da tarde de 25 de junho de 2024, o guatemalteco Humberto Panjoj, árbitro assistente da partida entre Canadá e Peru, desmaiou na beira do campo. Socorrido, deixou o gramado de maca, foi hospitalizado e recebeu alta pouco depois. Panjoj estava desidratado em razão do calor intenso. A partida fazia parte da Copa América de 2024, começara às 17 horas, sob temperatura de 34ºC e umidade de 53%, na cidade americana de Kansas City, que estará entre as dezesseis cidades que sediarão jogos da Copa do Mundo. Depois que Panjoj foi retirado do campo, a partida transcorreu normalmente. O Canadá venceu por 1 a 0.
O desmaio do guatemalteco é um sinal dos tempos. Naquela mesma semana da Copa América, o zagueiro uruguaio Ronald Araújo foi substituído no intervalo da partida em que seu país venceu o Panamá por 3 a 1. De novo, por causa dos efeitos do calor. Araújo disse que sentiu tontura e, quando chegou no vestiário, sua pressão baixou. O médico constatou que ele estava desidratado e não poderia continuar no segundo tempo. No fim da partida, Araújo deu uma entrevista. “A verdade é que ainda estou um pouco tonto”, disse. O jogo aconteceu na Região Metropolitana de Miami e começou às 21 horas, sob temperatura de 28°C e umidade de cerca de 70%.
Os dois episódios chamam a atenção para um fantasma que ronda a Copa. Em 2022, a Fifa quebrou a tradição de fazer o torneio no meio do ano porque o Catar, escolhido como sede, é tórrido nesta época. A Copa, então, aconteceu em novembro e dezembro, meses de clima mais ameno. Os três países que sediarão a competição agora – Estados Unidos, México e Canadá – não são propriamente um Catar, mas, de 11 de junho a 19 de julho, estarão entre o fim da primavera e o início do verão – e a expectativa é que atletas, árbitros, torcedores e todos os profissionais envolvidos nas partidas terão de enfrentar temperaturas altas.
Praticar futebol e outros esportes em condições extremas de calor e umidade é um desafio fisiológico. “Nessas condições o atleta sua muito, mas o suor não evapora e não retira o calor do indivíduo, e com isso ele se desidrata”, diz o pesquisador Samuel Wanner, um estudioso da regulação térmica em esportistas na Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os casos mais sérios de desidratação podem provocar câimbras. “Depois disso pode ocorrer uma certa confusão mental e a perda de coordenação motora, até chegar a casos mais graves, em que o indivíduo pode ter um quadro de inflamação sistêmica severa, que pode levar à morte.” Wanner ressalta, no entanto, que casos extremos são muito incomuns no futebol profissional, já que os atletas são bem condicionados e diminuem a intensidade do esforço físico em condições de extremo calor e umidade.
Mais recentemente, no fim de março, o meio-campista James Rodríguez, capitão da seleção colombiana de futebol, foi hospitalizado por 72 horas depois do amistoso em que seu país enfrentou a França, atual vice-campeã do mundo. O atleta do Minnesota United atuou por 63 minutos em partida vencida por 3 a 1 pelos europeus e teve seu desempenho criticado por torcedores e comentaristas. Rodríguez foi internado com um quadro de desidratação severa, conforme comunicado da Federação Colombiana de Futebol. A entidade esclareceu que o quadro não estava relacionado com qualquer lesão muscular do atleta e nem às suas atividades futebolísticas, e que a internação tinha a finalidade de “monitoramento clínico preventivo e recuperação”.
O amistoso foi realizado no começo da primavera no estado de Maryland, no nordeste dos Estados Unidos. As condições de temperatura e umidade não estavam particularmente preocupantes e não podem explicar o quadro de desidratação do atleta colombiano, mas o episódio reacendeu os temores de que incidentes parecidos aconteçam durante a Copa.
“Se um episódio desse acontecer numa competição como a Copa do Mundo, em que as equipes podem jogar a cada três ou quatro dias, você pode perder um jogador essencial para sua seleção e ter que redesenhar o time por causa disso”, alerta a ambientalista Liuca Yonaha, que se interessa pelos efeitos da crise climática sobre a prática esportiva. As condições climáticas durante o torneio podem afetar diretamente o desempenho esportivo individual e coletivo, acredita Yonaha, que é vice-presidente do Instituto Talanoa, uma ONG que analisa políticas climáticas.
Uma Copa com temperaturas altas já era algo de se esperar neste ano, a julgar pelo calor que caracterizou as duas edições mais recentes do torneio realizadas na região na mesma época do ano – no México em 1986 e nos Estados Unidos em 1994. A diferença é que, desde então, a humanidade continuou acelerando a emissão de gases do efeito estufa na atmosfera, aumentando a temperatura média do planeta e agravando a crise climática, que tem aumentado a frequência e a intensidade de ondas de calor e tempestades.
Examinar a história do Brasil nas copas à luz de alguns marcos da emergência climática ajuda a dimensionar a rapidez do aquecimento global.
- Quando a Seleção Brasileira entrou em campo para defender o bicampeonato, em 1966, na Inglaterra, a temperatura média global estava 1ºC mais baixa do que hoje.
- Desde o tetracampeonato de 1994, liderado por Bebeto e Romário, o número de desastres ligados ao clima aumentou quase 35% – ainda que parte dessa alta se explique pela melhoria dos registros desses eventos.
- A concentração de gás carbônico na atmosfera aumentou mais de 15% desde que o Brasil perdeu a final para a França em 1998.
- E os dez anos mais quentes já registrados na história do planeta aconteceram todos depois do fatídico 7 a 1 contra a Alemanha no Mineirão, em 2014.
Como se a crise climática não fosse um problema grande o suficiente, as previsões dos cientistas indicam que 2026 deve ser um ano de El Niño, o que pode influenciar as condições meteorológicas durante a Copa. Esse fenômeno é causado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico na região equatorial, o que altera os padrões climáticos em várias regiões do planeta. Na América do Norte, o El Niño pode levar a temperaturas acima da média, embora os efeitos possam variar de uma região para outra. De acordo com a Noaa, a agência do governo americano responsável por monitorar os oceanos, a atmosfera e o clima, a probabilidade de que o fenômeno ocorra nos meses do Mundial é de 60%.
Os riscos que as condições climáticas trazem para a Copa vêm sendo alardeados pelo menos desde novembro de 2024, quando um estudo publicado na revista Scientific Reports se debruçou sobre o tema. O artigo, assinado por um grupo de cinco cientistas da Polônia e da Alemanha e liderado por Marek Konefał, pesquisador da Universidade de Ciências do Esporte e da Saúde de Wrocław, avaliou se o calor e outros parâmetros climáticos poderiam representar uma ameaça aos atletas, levando em conta as condições meteorológicas das cidades que sediarão jogos do torneio. A análise mostrou que 10 dos 16 estádios da Copa “têm risco muito alto de apresentar condições de estresse térmico extremo”, a depender do horário do dia, conforme concluiu o estudo. O risco é mais elevado no período entre 14 e 17 horas, quando a radiação solar e as temperaturas são mais intensas.
De acordo com o estudo, as condições climáticas mais extremas apareceram nas cidades de Arlington (na Grande Dallas) e Houston, ambas no Texas, e de Monterrey, no México. Nessas cidades, o índice de estresse térmico usado pelos cientistas – que leva em conta o calor, a umidade, a radiação solar e o esforço físico dos atletas – pode alcançar um patamar que os autores consideram inaceitável. Nessas condições, os jogadores têm a sensação térmica equivalente a uma temperatura de 49,5°C e podem perder uma quantidade muito grande de água durante a partida. Mas o trabalho foi criticado por não levar em conta que alguns estádios – incluindo os de Arlington e Houston – têm cobertura retrátil e sistemas de climatização, o que deve reduzir o risco de estresse térmico para os atletas.
Um outro estudo com objetivos similares, de janeiro do ano passado, chegou a conclusões muito parecidas, mas dessa vez considerou os estádios cobertos e climatizados. O trabalho, assinado por dez cientistas do Reino Unido e do Canadá, saiu na revista International Journal of Biometeorology, e usou um outro índice. Os cientistas analisaram as condições climáticas das dezesseis sedes da Copa nos meses de junho e julho entre 2003 e 2022. Constataram que, em 14 das 16 sedes, esse índice ultrapassou o patamar considerado seguro para a prática do futebol por algumas federações nacionais do esporte. Excluindo-se as quatro cidades com arenas cobertas e climatizadas – Los Angeles, Houston, Dallas e Atlanta –, são seis as sedes que apresentam maior risco para os atletas e três delas vão receber jogos do Brasil na primeira fase do torneio – Nova Jersey (na região de Nova York), Filadélfia e Miami (a lista se completa com Monterrey, Boston e Kansas City).
Os autores de ambos os estudos trouxeram recomendações parecidas, de olho na Copa de 2026. Para os cientistas que assinaram o artigo de 2024, as condições climáticas das sedes deveriam ser levadas em conta pela organização para não prejudicar a saúde e o desempenho dos atletas. “Vale a pena repensar o calendário dos eventos esportivos”, declarou Marek Konefał, quando o trabalho foi publicado. Nos dois casos, os autores recomendaram que os organizadores da Copa evitassem as partidas no meio da tarde, quando o calor aumenta.
Mas a Fifa ignorou o apelo. Das 104 partidas da Copa, 22 acontecerão ao menos parcialmente no intervalo entre 14 e 17 horas, período de maior risco de estresse térmico nos atletas, incluindo a final e as duas semifinais. (Se a conta incluir os jogos iniciados ao meio-dia, o número chega a 45.) Parte desses confrontos será disputada nas cidades que não têm estádios climatizados listadas pelos pesquisadores entre aquelas que representam maior risco para os atletas.
A escolha não é aleatória: as partidas no começo da tarde na América do Norte passam no horário nobre da tevê na Europa, continente que é o centro geopolítico do futebol mundial, onde são fechados os maiores contratos de publicidade e de direitos de transmissão. Ou seja: a tabela foi definida em função dos interesses do mercado europeu, mesmo que os horários impliquem maior risco para a saúde de atletas e torcedores.
Desde a década passada, a Fifa recomenda a interrupção de 3 minutos nas partidas para aliviar os efeitos do calor sobre os atletas. No Brasil, a parada ficou conhecida como “pausa para hidratação”, mas o mais correto seria chamá-las de “pausa de resfriamento”, tradução literal para o termo mais usado em inglês (cooling break). “A hidratação é só uma das medidas para resfriamento dos atletas, que podem incluir também colocar gelo, toalhas molhadas ou usar ventiladores para abanar os jogadores”, diz Samuel Wanner, o especialista em regulação térmica da UFMG.
A Fifa determina que, quando o índice IBUTG ultrapassa 32°C, a partida seja interrompida para o resfriamento. (O IBUTG não deve ser confundido com a temperatura ambiente, pois leva em conta não só o calor, mas também a umidade e a intensidade da radiação solar, e indica a facilidade de evaporação do suor, que é essencial para que o corpo dissipe calor.) Há associações de futebol que usam um patamar mais baixo e seguro, de 28°C, defendido também pelo sindicato dos jogadores profissionais, a Fifpro, entidade internacional que representa 70 mil atletas. No Mundial de Clubes do ano passado, por pressão do sindicato, adotou-se 28°C.
A pausa para resfriamento foi instituída pela Fifa em 2013, mas a ideia só colou de vez no Brasil no ano seguinte, depois de uma decisão da Justiça do Trabalho em Brasília que obrigou a Fifa a aplicar a recomendação. A Copa realizada no Brasil em 2014 foi a primeira a contar com a novidade, que estreou oficialmente na partida entre Holanda e México pelas oitavas de final, ocorrida em Fortaleza e vencida de virada pelos europeus por 2 a 1. Uma semana antes, durante a partida entre Estados Unidos e Portugal pela fase de grupos, o árbitro argentino Néstor Pitana havia feito uma estreia informal da novidade ao permitir que os atletas se hidratassem durante uma paralisação do jogo para atendimento médico a um jogador americano aos 39 minutos do primeiro tempo.
Em dezembro do ano passado, a Fifa anunciou que todas as partidas da Copa de 2026 terão pausa para hidratação aos 22 minutos de cada tempo de jogo, independentemente das condições meteorológicas do dia. “A utilização de pausas para hidratação faz parte de um esforço direcionado para garantir as melhores condições possíveis aos jogadores, com base na experiência de torneios anteriores, incluindo o recente Mundial de Clubes”, afirmou a entidade no comunicado em que anunciou a novidade.
Procurada pela piauí, a Fifa não se manifestou sobre as demais medidas que pretende tomar para minimizar o risco térmico para todos – de jogadores a torcedores – durante a Copa.
No ano passado, o Mundial de Clubes da Fifa contou, pela primeira vez, com 32 equipes. Foi um ensaio para a Copa, que será disputada com o termômetro beirando 1,5°C acima da média global no período pré-industrial. O torneio aconteceu em junho e julho nos Estados Unidos, em 11 cidades, 5 das quais também sediarão jogos do mundial de seleções. E, como aperitivo do que se poderá ver neste ano, no fim de junho de 2025 a costa nordeste e a região central dos Estados Unidos foram atingidas por uma onda de calor intenso que afetou diretamente o torneio.
A competição foi marcada pela luta muitas vezes quixotesca das equipes para fazer frente ao calor extremo. Os espanhóis do Real Madrid se prepararam usando barracas aquecidas para aclimatar seus jogadores às condições em que jogariam. O Chelsea, clube inglês que acabou ganhando o Mundial, foi outro que penou com o clima. A onda de calor pegou os britânicos na Filadélfia, onde estavam se preparando para enfrentar o Espérance Sportive de Tunis, da Tunísia. O italiano Enzo Maresca, então o treinador da equipe londrina, disse à imprensa que estava impossível treinar por causa do calor – a cidade registrou 37°C, com sensação térmica de 40°C. Os ingleses usaram grandes ventiladores industriais nas laterais do campo para refrescar os atletas, mas o treino teve que ser encerrado antes da hora. “Estamos tentando economizar energia para o jogo”, justificou o técnico.
Na partida entre o Bayern de Munique, da Alemanha, e o Benfica, de Lisboa, pela fase de grupos, o termômetro bateu em 37,4°C na cidade de Charlotte, na Carolina do Norte, que não terá jogos da Copa. O índice IBUTG chegou a 32,9°C, o mais alto registrado em todo o torneio. “Acho que nunca joguei debaixo de tanto calor”, disse o norueguês Andreas Schjelderup, ponta-esquerda do time português e autor do único gol do jogo. Como os alemães já estavam classificados para as oitavas de final, o belga Vincent Kompany, técnico do Bayern, escalou um time misto para poupar os titulares do calor.
O exemplo mais sintomático durante o Mundial de Clubes aconteceu na partida entre o Borussia Dortmund, da Alemanha, e o Mamelodi Sundowns, da África do Sul, também pela fase de grupos, vencida por 4 a 3 pelos europeus. A partida foi em Cincinatti – que tampouco será sede da Copa – e começou ao meio-dia, sob uma temperatura de 32°C. Em razão do calor desumano, os reservas da equipe alemã assistiram ao primeiro tempo do vestiário, onde havia ar-condicionado. Ao final da partida, o técnico Niko Kovač declarou à imprensa que estava suando como se tivesse saído da sauna. “Certamente não tivemos nosso melhor desempenho, mas isso não foi possível hoje”, disse.
Pesquisadores da UFMG e de outras instituições do Brasil e do Canadá fizeram um estudo para investigar como o calor extremo no Mundial de Clubes afetou o desempenho físico dos esportistas. O estudo avaliou métricas da performance dos atletas levando em conta a cidade, o horário e as condições meteorológicas em que cada partida foi disputada. Usando estatísticas oficiais compiladas pela Fifa, os autores consideraram também parâmetros como a distância percorrida por jogador e a velocidade em que corriam durante as jogadas.
Os resultados mostraram que, quanto maior era o valor do IBUTG, menor era a distância que os jogadores corriam em alta velocidade. Curiosamente, as condições extremas não afetaram de forma significativa a distância total percorrida. “Não importa tanto se o atleta vai correr 10 ou 12 km, o que importa é a distância que ele corre em alta velocidade, pois é em alta velocidade que acontecem geralmente as ações que definem o resultado da partida”, diz Samuel Wanner, autor principal do estudo, publicado em fevereiro na revista especializada Temperature.
As implicações dessa constatação são que as condições climáticas são determinantes para a dinâmica da partida. Em dias de calor extremo e grande umidade, os atletas desaceleram o ritmo, resultando numa partida mais lenta e pausada. “Quando o jogo é disputado sob condições ambientais inadequadas, a qualidade do espetáculo fica bastante reduzida”, diz Wanner.
Concluído o estudo, seus autores recomendaram à Fifa que, durante a Copa, os jogos previstos para locais muito quentes fossem agendados para o período noturno. De novo, não é o que está previsto na tabela definida pela Fifa. “Na Copa de 2026, há locais nos Estados Unidos e no México em que serão disputadas partidas sob condições ambientais inadequadas”, diz o cientista. O pesquisador acrescenta que as sedes da Copa de 2026 têm condições meteorológicas muito distintas, incluindo cidades no Canadá, com clima mais ameno, mas também a Cidade do México, onde a altitude é outro fator que pode influenciar o desempenho dos atletas. “A expectativa é que, nas cidades mais quentes, a qualidade do jogo seja mais pobre, mas com isso você tende a igualar equipes de nível técnico diferente.”
O calor extremo talvez seja a ameaça mais evidente da crise climática para a prática do futebol, mas não é a única. Fortes tempestades também representam um obstáculo importante. No futebol brasileiro, esses fenômenos têm afetado cada vez mais o andamento dos jogos.
Em abril deste ano, o árbitro precisou adiar em 20 minutos o início da partida entre Remo e Vasco pelo Campeonato Brasileiro, em Belém, por causa das fortes chuvas do chamado inverno amazônico, que vai de dezembro a maio. Ironicamente, o excesso de água no gramado do Mangueirão prejudicou o confronto entre duas equipes que nasceram como clubes de remo. O jogo terminou empatado em 1 a 1.
Catorze meses antes, o mesmo estádio já havia sediado outra partida de interesse nacional afetada pelo clima, na disputa da Supercopa do Brasil entre Flamengo e Botafogo. Também nesse caso, uma tempestade atrapalhou o futebol. O jogo já havia começado e foi interrompido aos 15 minutos do primeiro tempo quando a chuva apertou (o Flamengo vencia então por 1 a 0). A partida foi retomada após uma hora de suspensão e terminou com a vitória rubro-negra por 3 a 1.
Os dois exemplos estão longe de ser exceção no Brasil. A Copa São Paulo de Futebol Júnior, o principal torneio de base do país, coleciona interrupções. Realizada em São Paulo no chuvoso mês de janeiro, é comum que condições climáticas extremas provoquem adiamentos das partidas. Numa delas, em 2018, o São Paulo e o Internacional pararam o jogo debaixo de chuvas e raios em Barueri, na Região Metropolitana da capital paulista. As equipes só puderam retornar ao campo no dia seguinte – dessa vez, sob um Sol escaldante. Em decorrência do adiamento, o São Paulo avançou à final e teve um dia a menos de descanso do que o adversário. Acabou derrotado pelo Flamengo e ficou sem o título.
No Mundial de Clubes nos Estados Unidos no ano passado, as interrupções das partidas por causa da chuva também foram uma constante. Os americanos adotam um protocolo segundo o qual um evento esportivo ao ar livre deve ser suspenso sempre que caírem raios a uma distância de até 13 km. A deixa para o acionamento do protocolo é o som do trovão, que sinaliza que atletas e torcedores estão vulneráveis à queda de raios. A regra determina que se espere por 30 minutos até a retomada do evento; a contagem tem que ser reiniciada a cada novo raio ou trovão.
O protocolo nasceu de uma tragédia. Numa corrida da categoria Nascar de automobilismo, em agosto de 2012, dez pessoas foram atingidas por dois raios no estacionamento de um autódromo na Pensilvânia, e uma delas morreu. Diante das críticas aos erros na comunicação durante a evacuação dos torcedores, o Comitê de Competição Automobilística dos Estados Unidos uniformizou os protocolos de atuação em caso de raios. Até então, cada estado e cada evento adotava suas próprias regras. Como consequência, outras entidades esportivas do país passaram a adotar o mesmo protocolo.
No Mundial de Clubes, 6 das 63 partidas foram suspensas. A mais afetada foi a que opôs o Benfica ao time semiamador do Auckland City, da Nova Zelândia, que ficou interrompida por duas horas (no final, os portugueses golearam por 6 a 0). Foi a maior paralisação do torneio, que teve interrupções em quatro dias consecutivos. No confronto entre o Palmeiras e o egípcio Al-Ahly, a bola só voltou a rolar depois de 45 minutos, com vitória palmeirense por 2 a 0.
Nas oitavas de final, o Benfica, que enfrentava o Chelsea, voltou a ter uma partida interrompida pela chuva. Dessa vez, o jogo ficou parado por 1h45. Depois da partida, o treinador do clube inglês reclamou das interrupções excessivas e questionou a escolha dos Estados Unidos como sede do torneio. “Entendo que, por razões de segurança, vocês suspendam o jogo”, disparou Enzo Maresca. “Mas, se suspenderam sete ou oito jogos, isso significa que provavelmente este não é o lugar certo para realizar a competição.” O italiano ficou furioso porque seu time estava ganhando por 1 a 0 quando o jogo foi interrompido a 4 minutos do fim. A quebra de ritmo por causa da suspensão levou o Benfica a empatar o jogo, e o Chelsea precisou jogar mais 30 minutos de prorrogação para vencer uma partida até então controlada.
Por mais que o acesso de fúria de Maresca tenha um fundo de razão, o aspecto esportivo talvez seja o menos relevante dos prejuízos em cascata causados pela interrupção das partidas. A suspensão traz contratempos para os torcedores e para toda a cadeia de profissionais envolvidos no evento esportivo, além de afetar os planos de segurança e transporte. Sem falar nos prejuízos para anunciantes e emissoras de tevê cujas grades de programação ficam sujeitas às variações meteorológicas, mexendo com pilares importantes do negócio bilionário do futebol. Num torneio com mais de cem partidas como a Copa do Mundo, a incerteza trazida pelas possíveis interrupções provocadas por tempestades com raios é motivo de dor de cabeça para os organizadores.
Liuca Yonaha, ambientalista do Instituto Talanoa, lembra que todo o negócio do futebol tem que se adequar à realidade de tempestades mais intensas e frequentes, a começar pela infraestrutura física dos estádios. A ambientalista citou o caso da Arena do Grêmio e do Beira-Rio, estádio do Internacional, que passaram dias debaixo d’água em virtude das fortes chuvas que inundaram o Rio Grande do Sul e fizeram subir as águas do Guaíba. Os dois estádios ficaram meses sem receber partidas. “São dois estádios que tinham sido construídos ou passado por uma grande reforma na última década, e ainda assim não tinham resiliência nenhuma”, diz Yonaha. Os estádios também têm um papel importante para o enfrentamento dos desastres climáticos, continuou a ambientalista. “As infraestruturas esportivas têm condições de funcionar como ponto de encontro. As arenas têm uma área livre central capaz de servir para o pouso de helicópteros, além de contar com arquibancadas, banheiros e vestiários, e por isso podem abrigar pessoas. Mas, para isso, elas precisam ter resiliência.”
A ameaça que a crise climática representa para a Copa do Mundo foi reforçada pelo relatório Pitches in Peril (Campos em perigo), publicado no ano passado pelas ONGs Football For Future (Futebol pelo futuro) e Common Goal (Objetivo comum), em parceria com a consultoria Jupiter Intelligence, especializada na análise de riscos climáticos. Com base em projeções derivadas de cenários para o futuro do clima elaborados pelo IPCC – o painel da ONU que reúne estudiosos da crise climática –, o documento analisou os dezesseis estádios da Copa de 2026, além de duas arenas que provavelmente serão palco dos mundiais de 2030 e 2034.
As conclusões foram alarmantes. De acordo com o relatório, catorze dos estádios da Copa já registraram condições que ultrapassam limites considerados seguros para a prática do futebol, seja pelo calor intenso, seja por eventos extremos como chuvas e enchentes. E a situação tende a piorar: até 2050, onze dessas arenas estarão sujeitas a condições de calor incompatíveis com a prática segura do futebol. Em Miami, Houston, Dallas e Monterrey, as projeções indicam que haverá mais de cem dias por ano em que será inviável jogar bola ao ar livre.
O panorama que o relatório desenha para o futuro do esporte é sombrio. “O futebol está sob ameaça”, conclui o documento. Na avaliação dos autores, a Copa de 2026 pode ser a última a ser realizada nos moldes atuais na América do Norte se não forem tomadas ações de adaptação para o novo clima. “Quando o torneio voltar a ser realizado nos Estados Unidos, no Canadá ou no México, os riscos climáticos podem exigir uma abordagem muito diferente de quando, onde e como as partidas são realizadas”, afirma o documento.
Uma novidade do relatório foi ampliar a análise para investigar em que medida campos de treinamento em que ídolos do esporte iniciaram suas carreiras estão vulneráveis à crise climática. O documento investigou os campos em que atletas famosos deram seus primeiros passos no futebol. Alguns deles se veem diante de um quadro preocupante. O campo em que o ídolo australiano Tim Cahill começou sua carreira, por exemplo, está exposto a inundações que podem chegar aos 7 metros de altura. Enchentes e inundações também são o maior risco para os campos em que foram revelados o alemão Serge Gnabry e o sul-coreano Heung-min Son.
Já no caso do campo em que foi descoberto o zagueiro nigeriano William Troost-Ekong, que hoje atua no campeonato saudita, a ameaça é o calor extremo. Até 2050, o local poderá enfrentar 142 dias por ano – quase cinco meses – em que as condições serão inviáveis para a prática segura do futebol. Já o campo em que Gnabry começou a carreira, na cidade de Abidjan, na Costa do Marfim, pode enfrentar até 55 dias por ano em que o índice IBUTG passará de 35°C, um patamar contraindicado para a prática de esportes.
Consideradas no conjunto, as projeções sugerem que a revelação de ídolos do esporte será muito mais difícil do que a que tivemos até aqui. “Para proteger o futuro do futebol, precisamos proteger os lugares em que ele começa”, diz o relatório.
A piauí foi a campo no Rio de Janeiro para acompanhar treinos de divisões de base, a fim de entender em que medida a crise climática está afetando a prática de jovens que estão começando no futebol. A reportagem acompanhou treinos da categoria sub-15 da Associação Atlética Portuguesa, clube cujo time de adultos está disputando a série D do Brasileirão (em 2026, o time jogou também pela Copa do Brasil, onde foi eliminado pelo Paysandu).
No treino realizado numa manhã nublada de abril, sob uma temperatura de 27°C, os jovens atletas viveram uma situação inusitada em que a chuva acabou prejudicando a prática do futebol. Durante um exercício em que treinavam jogadas de bola parada, um bate-rebate entre atacantes e zagueiros na pequena área fez a bola espirrar na direção de um jogador oportunista para marcar um gol fácil. Só que a bola não entrou: não por falta de pontaria do atacante ou mérito da defesa. Quem impediu o gol foi uma poça d’água acumulada na frente da baliza desde a chuva da véspera. Em outro momento, o lamaçal que tomava aquela área do campo vitimou outro atacante, que sentiu a coxa numa tentativa de finalização.
Naquele dia, o treinamento transcorreu sem interrupções, mas no fim de janeiro as tempestades suspenderam tudo. “Ficamos uma semana sem treinos, pois o campo não sustenta um período de chuvas fortes”, disse o técnico Ramon de Souza Silva. Restou ao treinador preencher o período com treinos online, mas não há talento que se revele apenas com treinos teóricos e remotos. Caso se confirmem as projeções do Pitches in Peril, essa realidade será cada vez mais comum para muitos atletas.
Naquela sexta-feira, a temperatura amena do outono permitiu que Vitor Reis, preparador físico da categoria sub-15, aumentasse a intensidade das atividades. “Em dias mais quentes, precisamos reduzir a quantidade de exercícios programados e aumentar as pausas, senão eles rendem menos e alguns passam mal”, disse o preparador. Reis conta que, certa vez, antes de trabalhar na Portuguesa, testemunhou um jogador sentindo tontura e vomitando em campo no bairro de Olaria, na Zona Norte carioca.
O preparador físico Yan Almeida, responsável pela categoria sub-17 da Portuguesa do Rio, disse que a queda de rendimento dos atletas é perceptível conforme a temperatura aumenta. “Um jogador que correria os 80 minutos começa a se arrastar em campo com 60 minutos de jogo. No sub-20 eles já estão adaptados a isso, mas o sub-15 e 17 sofrem bastante.” A situação piora em estádios com grama sintética, feita com materiais plásticos como polietileno, polipropileno ou nylon. Nesses casos, a sola da chuteira pode esquentar a ponto de queimar o pé do atleta, contou Almeida.
Nas categorias de base, os riscos trazidos pelas condições climáticas extremas são ainda maiores do que para os atletas das categorias principais. Por se tratar de uma categoria de menos visibilidade e prestígio, os atletas treinam em condições e horários piores e sofrem de maneira mais intensa os efeitos da crise climática.
O futebol feminino enfrenta a mesma dificuldade. Nesse caso, os mesmos desafios que se colocam para a Copa de futebol masculino deste ano estarão em campo para o Mundial feminino, que será realizado no Brasil no ano que vem. “A crise do clima agrava as vulnerabilidades, e com o esporte não é diferente”, diz a ambientalista Liuca Yonaha.
As queixas em relação ao calor nas copas do mundo não chegam a ser uma novidade. No Mundial de 1986, no México, dezenas de partidas foram agendadas para o meio-dia, de olho no horário nobre da tevê na Europa, despertando protesto dos atletas. Diego Maradona, que levaria a Argentina ao seu segundo título naquele torneio, reclamou numa entrevista à agência United Press International. “Sem nós, atletas, não haveria espetáculo. Somos o ingrediente indispensável para a Copa do Mundo. Ao menos os horários das partidas deveriam ser marcados para a hora em que jogamos melhor, e não para quando há mais calor”, afirmou.
Oito anos depois, quando o Mundial foi realizado pela primeira vez nos Estados Unidos, os jogos realizados sob Sol forte voltaram a ser o padrão: 24 das 52 partidas começaram entre meio-dia e três da tarde. Inclusive a final entre Brasil e Itália, que reuniu mais de 94 mil espectadores sob um calor de 38°C em Pasadena, na região de Los Angeles. Além do desgaste da partida iniciada às 12h30, os atletas tiveram que enfrentar mais 30 minutos de jogo na prorrogação, e o tetra brasileiro só se confirmou na disputa de pênaltis. Aquela Copa registrou o recorde de calor para uma partida do torneio. Em Dallas, Alemanha e Coreia do Sul se enfrentaram sob uma temperatura de 48°C pela última rodada da fase de grupos. Os europeus fizeram 3 a 0 no primeiro tempo, mas caíram de rendimento na etapa final e tomaram dois gols.
A introdução de última hora das pausas para o resfriamento dos atletas não livrou a Copa de 2014, no Brasil, de críticas ao clima adverso, mesmo que fosse inverno no Hemisfério Sul. A começar por Joachim Löw, técnico da seleção alemã, que conquistou seu quarto título mundial naquele ano. Após a vitória por 1 a 0 sobre a França nas quartas de final, no Maracanã, Löw reclamou que estava difícil se concentrar nos jogos com a alta temperatura. Naquela tarde, termômetros na Zona Sul do Rio de Janeiro registraram 26°C. O jogo entre França e Alemanha começou às 13 horas, assim como outras 23 das 64 partidas daquele Mundial. O horário pode ter afetado a qualidade do futebol: a média de gols foi de 2,25 por jogo, abaixo dos 2,92 registrados nos outros quarenta confrontos.
As maiores reclamações, porém, vieram em relação ao calor e umidade da Arena da Amazônia, em Manaus. Depois da vitória da Itália contra a Inglaterra por 2 a 1, na estreia das equipes na Copa, o treinador Cesare Prandelli e o meio-campista Andrea Pirlo reclamaram do “clima infernal” da cidade. Seis das oito seleções que jogaram na capital do Amazonas perderam a partida seguinte na Copa. As exceções são Honduras, que fez seu último jogo da competição na cidade, e Portugal, cuja vitória contra Gana, no entanto, não foi suficiente para evitar a eliminação na primeira fase.
Ao adiar os jogos da Copa no Catar para o fim do ano, a Fifa evitou o clima extremo e úmido no país durante o verão, quando as temperaturas passam dos 40°C, com sensação térmica na casa dos 50°C. Mesmo assim, a temperatura média das partidas ficou por volta de 26°C. Sete dos oito estádios do Mundial foram equipados com um sistema de turbinas de ventilação para manter a temperatura amena, mas a tecnologia não chegou aos campos de treinamento – nas redes sociais, a seleção da Inglaterra mostrou o sofrimento dos jogadores durante uma atividade no meio da tarde catariana.
Em 2034, a Fifa voltará a organizar uma Copa no Oriente Médio, dessa vez na Arábia Saudita. À medida que os anos mais quentes do registro histórico vão se sucedendo no calendário, é quase certo que as temperaturas daqui a oito anos serão mais altas do que as registradas no Catar. Mais uma vez o calendário das copas será alterado por causa do clima, e o torneio será organizado no inverno árabe. Com um detalhe: nesse ano, o Ramadã – o mês sagrado do calendário islâmico, em que os fiéis jejuam do amanhecer ao pôr do sol – vai cair em novembro e dezembro. Em função disso, é possível que o Mundial aconteça só no início de 2035, o que faria dessa a primeira Copa realizada num ano ímpar.
O calor extremo é só um aspecto das críticas à escolha da Arábia Saudita para sediar o Mundial, um país repressivo governado por uma monarquia teocrática. As críticas incluem o fato de que os sauditas vão construir onze novos estádios, além de hotéis e de uma ampla infraestrutura de transporte para a circulação dos torcedores, com a provável emissão de grandes quantidades de gases do efeito estufa em todas essas etapas. Como a Copa passa a ter 48 equipes a partir deste ano, a expectativa é de que mais fãs se desloquem até lá para assistir aos jogos, com mais dólares para os cofres da Fifa e mais carbono na atmosfera. “A Copa do Mundo de 2034 corre o risco de se tornar um estudo de caso de sportswashing, no qual um espetáculo global é usado para lavar reputações e desviar críticas, ao mesmo tempo em que contribui significativamente para a própria crise que ameaça o futuro do futebol”, afirma o relatório Fifa’s Climate Blind Spot (O ponto cego climático da Fifa), lançado no ano passado pela ONG New Weather Institute.
A realidade mostra que nem a Copa do Mundo – ou qualquer outro evento esportivo, ou mesmo qualquer outro aspecto da vida pública – pode ser pensada sem que se leve em conta a questão climática.
“Se existe um certo estranhamento em aproximar a Copa do Mundo (e os esportes em geral) da crise climática, como se estivéssemos forçando um encontro entre dois assuntos que pertencem a mundos diferentes, talvez seja porque o futebol ainda ocupe um lugar onde a realidade pode, por 90 minutos, ser deixada do lado de fora”, diz a ambientalista Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa. “Mas quem joga bola ou acompanha futebol sabe: se o gramado estiver encharcado, se estiver calor demais, se os jogadores não conseguirem respirar direito, o jogo muda.”
Diante dessa realidade, à medida que a crise climática se intensifica, é preciso buscar medidas que tornem segura não só a prática do esporte, mas também o hábito de ir a estádios. Não faltam ideias para isso. No ano passado, a Fifpro, sindicato que reúne os atletas profissionais, defendeu que os intervalos entre os dois tempos passassem de 15 para 20 minutos, e que as pausas de resfriamento se tornassem mais frequentes.
O relatório Pitches in Peril também apresentou recomendações dirigidas a diferentes atores do futebol. Para as entidades responsáveis pela governança global do futebol – incluindo a Fifa, as federações continentais e nacionais e as ligas locais –, o documento propõe o compromisso de atingir a neutralidade de carbono até 2040. Aos organizadores de torneios, recomenda investimentos na resiliência e adaptação climática de estádios e campos. Já aos jogadores profissionais, sugere que se posicionem publicamente sobre a crise climática e mobilizem torcedores. Para os torcedores, o apelo é para que pressionem clubes e dirigentes por ações concretas de mitigação e adaptação.
Enquanto não se avança com essas e outras ideias, um ótimo primeiro passo seria repensar o calendário do futebol global e o horário das partidas da Copa de forma a priorizar a saúde e a segurança de atletas e torcedores em detrimento dos interesses comerciais.
Para Unterstell, o fato de que a crise climática tenha invadido de maneira irreversível o campo do entretenimento pode ser uma oportunidade de abrir os olhos da sociedade para o problema. Diz ela: “Quando o esporte, que mobiliza paixões, identidades e bilhões de pessoas, incorpora a adaptação, ele ajuda a normalizar que viveremos sob pressão climática constante e precisamos nos reorganizar como sociedade.”