almanaque de denúncias
08 Jun 2026
4 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Desde que chegou à Câmara dos Deputados, em 1995, o hoje senador Ciro Nogueira (PP-PI) aprendeu que a máquina pública podia servir a parentes e amigos. Em seu primeiro mandato, nomeou em seu gabinete a própria mãe, Eliane Nogueira, e seus quatro irmãos – Juliana, Raimundo, Alessandra e Gustavo. Depois, colocou o pai, Ciro Nogueira Lima, como assessor técnico do seu gabinete de quarto-secretário da Mesa Diretora da Câmara.
Hoje, três décadas depois de sucessivos mandatos, a família continua orbitando a estrutura política. Sua irmã, Alessandra, por exemplo, segue servidora comissionada na Câmara – no gabinete do deputado Julio Arcoverde (PP-PI). Aparentemente, a família suga recursos públicos mais por vício do que por necessidade.
Na década de 1970, o patriarca da família, um auditor fiscal, fundou com sua mulher a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis e ganhou bastante dinheiro comprando terra barata onde a cidade de Teresina ainda não havia chegado, esperando a expansão urbana fazer o resto. Os negócios já caminhavam em paralelo com a política. O pai foi deputado federal por dois mandatos. Em 1994, resolveu lançar o filho, que, com nome igual ao dele, ganhou votos de quem achava que reconduzia o velho à Câmara.
Eleito ininterruptamente pelo estado do Piauí desde então, quatro vezes como deputado e duas como senador, Ciro Nogueira juntou grande fortuna em suas empresas no Piauí e no Maranhão, algumas das quais agora estão na mira da Polícia Federal.
Na piauí deste mês, com bases em dados das Juntas Comerciais do Piauí e do Maranhão, a reportagem de Breno Pires informa que Ciro Nogueira tem direito a receber 50 milhões de reais de três empresas nos próximos três anos. A CN Motos, cujo capital social é de 20 milhões de reais, vai distribuir 32 milhões de reais aos seus donos – quase tudo, 30 milhões, para Ciro. A tradicional Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, cujo capital social é de 3 milhões, vai distribuir 7 milhões de reais para cada um dos quatro irmãos, incluindo o senador, além de 11 milhões de reais para a mãe, Eliane Nogueira.
Na movimentação mais intrigante, segundo os documentos das Juntas Comerciais analisados pela piauí, Ciro tem a receber 17 milhões de reais da Fazendas Reunidas Nogueira Lima. Há uma curiosidade: até pouco tempo, a empresa não estava no nome do senador, mas no de sua mãe, Eliane. Tinha como administrador Raimundo Nogueira, o irmão que está com tornozeleira eletrônica pelo caso Master. A Fazendas Reunidas só passou a ser propriedade de Ciro em setembro passado – e, com tão pouco tempo como dono no papel, ele já faz jus a uma fortuna. O desenho da operação reforça as suspeitas dos investigadores de que a família funciona como uma rede de laranjas para blindar o patrimônio do senador.
Com tanto dinheiro no banco, Ciro comprou uma cobertura tríplex de 514 m² numa das ruas mais chiques de São Paulo, a Oscar Freire. Pagou 22 milhões de reais. A aquisição, revelada pelo site Metrópoles, ocorreu em julho de 2024, por meio da CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa que, três meses antes, em abril de 2024, havia se associado à Green Investimentos, de Vorcaro, por ordem do banqueiro. A CNLF também pagou 1 milhão de reais por uma fatia da Green que valia 13 milhões de reais. Em agosto de 2024, um mês depois da compra da cobertura paulistana, Ciro apresentou a “Emenda Master”, feito que Vorcaro comemorou dizendo: “Saiu exatamente como eu mandei.”
Não é só essa cronologia que sugere que o senador pode ter sido pago para apresentar a “Emenda Master”. A PF descobriu que, menos de dois meses depois de apresentar a “Emenda Refit”, que aliviava a barra de Ricardo Magro, o maior sonegador do país, Ciro apareceu na contabilidade de um negócio do empresário com um crédito de 14,2 milhões de reais a receber.
No papel, o pagamento se devia à compra de uma gleba de 40 hectares na zona rural de Teresina, onde Magro supostamente pretende instalar uma distribuidora de combustíveis (dos 14,2 milhões, a maior parte, 10,8 milhões, já foi paga). Numa evidência da rede de blindagem patrimonial montada pela família do senador, o dono da tal gleba não é o senador, mas seu irmão Raimundo, o da tornozeleira.
Um cruzamento realizado pela piauí mostra que Raimundo está associado a quatro imóveis rurais em Teresina, nas proximidades da BR-316, inclusive a terra adquirida por Magro. A PF investiga se era um negócio imobiliário regular ou uma propina destinada ao irmão, mas paga em troca de serviços parlamentares do senador. A suspeita, além da mecânica da operação, baseia-se no fato de que o terreno à venda tem vegetação nativa, fica muito longe do centro de Teresina, localização imprópria para a construção de uma distribuidora.
A “Emenda Master”, assim como a “Emenda Refit”, não foi aprovada. As duas tratavam de bilhões e bilhões de reais. A emenda que beneficiava o Master permitiria ampliar muito mais o rombo que o FGC sofreu com a pirâmide financeira montada pelo banco de Vorcaro. Já a emenda Refit tratava de favorecer um empresário que deve, como pessoa física e pessoa jurídica, 52 bilhões de reais. Os números mostram o universo estratosférico – mais de 100 bilhões, na soma dos dois exemplos – em que o senador Ciro Nogueira vinha atuando.