O senador Ciro Nogueira, em seu gabinete: contrato veio dois meses depois de proposta de emenda favorável à Refit - Pedro Ladeira/Folhapress
O senador Ciro Nogueira, em seu gabinete: contrato veio dois meses depois de proposta de emenda favorável à Refit - Pedro Ladeira/Folhapress

labirintos pecuniários

PF INVESTIGA NEGÓCIO DE R$ 14,2 MI ENTRE FUNDO DA REFIT E EMPRESA DE CIRO NOGUEIRA

Senador, que propôs emenda que blindaria Ricardo Magro, confirma que 10,8 milhões já foram repassados na transação por gleba na zona rural de Teresina

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A Polícia Federal descobriu um registro contábil que prevê o pagamento de 14,2 milhões de reais de uma empresa ligada ao empresário Ricardo Magro para a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis Ltda., empresa da família do senador do Progressistas (PP) do Piauí. O parlamentar confirmou à piauí a existência do contrato e disse que 10,8 milhões já foram pagos.

O documento é citado na representação da PF que resultou na operação Sem Refino, que teve Magro como um dos alvos na sexta-feira, 15 de maio. 

Magro é considerado o maior sonegador de impostos do país e teve a prisão determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em uma investigação da PF que apura suspeitas de fraude nas operações da Refit, em um esquema que envolve a cooptação de autoridades públicas e ligações com o crime organizado. Nogueira – que foi ministro da Casa Civil no governo Bolsonaro, ocupa a presidência nacional do PP e é um dos nomes mais influentes da direita no Congresso – é visto como um aliado da Refit no Congresso.

Em 18 de junho de 2024, cerca de dois meses antes da assinatura do contrato, Nogueira havia apresentado duas emendas ao projeto de lei do devedor contumaz (PLP 125/2022), recentemente sancionado, que poderiam dificultar o enquadramento de empresas do setor de combustíveis nessa categoria – a das que adotam o calote como um modelo de negócio.

As propostas exigiam filtros adicionais que, na prática, eram entraves para a punição: além da existência de dívida bilionária, reiterada e injustificada, seria necessário considerar critérios regulatórios, como avaliação da Agência Nacional do Petróleo (ANP) sobre a qualidade do serviço ao consumidor e a influência estatal na formação de preços. No setor, as propostas ficaram conhecidas como “emendas-Refit”, pela impressão de que foram talhadas para Magro. No fim, não foram aprovadas.

Ciro Nogueira confirmou o contrato à piauí por meio de nota enviada por sua assessoria de imprensa e depois em troca de mensagens de WhatsApp. Disse que a empresa de sua família já recebeu pagamentos de 10,8 milhões de reais da Athena Real Estate, a empresa que, segundo os investigadores, é ligada a Ricardo Magro.

De acordo com o senador, o valor se refere à venda de uma gleba de 40 hectares na zona rural sul de Teresina, na região do Junco, às margens da BR-316. Nogueira disse que a área será destinada à construção de uma distribuidora de combustíveis. No entanto, a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis Ltda. ainda não repassou o imóvel, pois ainda faltam 3,4 milhões a serem pagos.

O contrato de promessa de compra e venda foi assinado em 9 de agosto de 2024. Pela Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis Ltda., assinou Raimundo Nogueira Lima, irmão do senador e atual presidente da empresa. Pela Athena, assinou Pedro Zuaid Dias Soares, apontado pela polícia, ao lado do pai, Luis Antonio Dias Soares, como um dos operadores da estrutura de blindagem patrimonial e financeira atribuída a Ricardo Magro.

Os pagamentos começaram em novembro do mesmo ano, como mostra um documento enviado pelo senador à piauí. Foram depositados 2,5 milhões de reais nos primeiros três meses. Em seguida, as parcelas baixaram para 300 mil reais mensais. Pelo cronograma, os pagamentos continuariam ao longo de 2026. No entanto, a última parcela foi paga em 4 de dezembro de 2025.

No fim de novembro, por coincidência, os negócios de Ricardo Magro haviam sido atingidos pela Operação Poço de Lobato, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo e pela Receita Federal. A PF quer saber se a transação registrada na Athena correspondeu a uma operação imobiliária regular ou se encobriu uma vantagem indevida. Também investiga se o negócio teve relação com a atuação parlamentar de Ciro Nogueira em temas de interesse econômico da Refit.

Ciro não foi alvo das medidas de busca e apreensão da Operação Sem Refino. A ligação de Ciro com a empresa de sua família era formal. Em 2024, ano da assinatura do contrato, ele ainda era sócio da Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis. O senador diz que hoje não mantém relação com a empresa, pois repassou sua quota de 1% a uma filha no ano passado. No entanto, uma ata notarial obtida pela piauí, datada de dezembro de 2025, registra que Ciro manteve o usufruto da quota e que ainda tem 7 milhões de reais em lucros a receber da empresa. Esse é o mesmo valor que cada um de seus quatro irmãos tem direito; apenas a mãe, Eliane, sua suplente no Senado, terá um valor maior, 11 milhões de reais.

Questionado sobre a informação da empresa da família, Ciro reagiu com surpresa:

— Recebi 7 milhões de distribuição de lucros? Jamais.

A piauí informou que se tratava de um valor a receber que constava de documento registrado em cartório em dezembro de 2025.

— 7 milhões pra mim? Vou checar amanhã estas informações que você está me passando.

Nesta quarta, Nogueira disse que “o que cada sócio efetivamente recebeu foi em torno de 700 mil em 2025”. O parlamentar tem experimentado um incremento de patrimônio nos últimos tempos. O total declarado por ele nas eleições de 2018, quando se reelegeu senador, foi de 23,3 milhões de reais — 1.000% a mais do que o declarado na primeira eleição para o cargo de 2010: 1,9 milhão de reais.

A ligação da Athena Real Estate a Ricardo Magro é indireta, como quase tudo no labirinto empresarial construído pelo empresário paulista que prosperou no Rio, foi morar em Miami e agora está foragido, na difusão vermelha da Interpol, um alerta emitido para localizar e prender um foragido internacional com fins de extradição.

Em resumo, a Athena pertence ao fundo EUV Gladiator Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia. O cotista do fundo é a Eurovest S.A. Na operação Poço de Lobato, a Justiça paulista afirma que a Eurovest e empresas relacionadas movimentaram 72 bilhões de reais em operações atípicas atribuídas à estrutura da Refit. Segundo a PF, o principal beneficiário do EUV Gladiator foi a Athena Real Estate, que recebeu 90 milhões de reais.

O mesmo fundo repassou 27,4 milhões de reais à Eurovest. Foi dentro dessa estrutura que os investigadores encontraram a previsão de pagamento de 14,2 milhões de reais à empresa da família de Ciro Nogueira. O presidente da Eurovest S.A. é Luis Antonio Dias Soares, descrito pelas autoridades como “braço direito financeiro” e “longa manus” do grupo da Refit. Ele também assina, como testemunha, o contrato de compra e venda do imóvel da Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis para a Athena Real Estate, além dos seus respectivos representantes, Raimundo Nogueira e Pedro Zuaid Soares.

Meses depois do negócio, segundo dados da Junta Comercial de São Paulo obtidos pela piauí, a administração da Athena passou para Antônio Santos Oliveira. Na decisão da Operação Poço de Lobato, ele é descrito como responsável por executar uma “operação clássica de reinserção de capital ilícito”. Oliveira também administra a TIF Terminal Intermodal Futuro Ltda., antiga Transo Transportes, apontada como uma das bases logísticas da estrutura investigada ligada à Refit.

A decisão ainda registra sua ligação com Jorge Berdasco Martinez, sócio do escritório Magro Advogados Associados, e o qualifica como pessoa de confiança do núcleo jurídico ligado a Ricardo Magro.  Segundo a piauí apurou, a descoberta de que a Athena Real Estate provisionou 14,2 milhões de reais para pagar à empresa do senador Ciro Nogueira e sua família motivou o envio do caso da Refit para apuração no Supremo Tribunal Federal. A Operação Sem Refino, deflagrada na semana passada por ordem do ministro do STF Alexandre de Moraes, mira a vasta rede de empresários, lobistas, advogados, servidores públicos e empresas associadas à Refit.

A polícia apura a possibilidade de crimes de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, crimes contra a ordem econômica e irregularidades na operação da refinaria. A dívida estimada é de 52 bilhões de reais aos cofres públicos. Originalmente, o inquérito era conduzido pela Polícia Federal no Rio de Janeiro, mas, diante da menção a empresa ligada a parlamentar federal, o Ministério Público Federal enviou para análise da Procuradoria-Geral da República (PGR).

O parecer do PGR Paulo Gonet foi a favor da tramitação no STF, não apenas por isso, mas por conexão com inquéritos iniciados no contexto da ADPF das Favelas. Ciro Nogueira não foi alvo das medidas de busca e apreensão. Seu nome aparece na decisão do relator Alexandre de Moraes apenas uma vez, associado a Jônathas Castro, que pilota o lobby da Refit em Brasília e foi seu braço direito de Nogueira enquanto ministro da Casa Civil em 2021 e 2022, no governo Bolsonaro.

A PF investiga depósitos que totalizam 1,3 milhão de reais a uma empresa de Jônathas Castro, feitos em apenas um mês, março de 2025, por empresas do grupo de Ricardo Magro. Em um trecho de seu relatório não reproduzido na decisão do STF, a PF afirmou: “Na contabilidade da ATHENA viu-se que em 2024 o capital social foi integralizado no  valor  total  de  R$  22  milhões,  bem  como  houve  o  movimento  nas  contas 2.1.01.01.001125 - CIRO  NOGUEIRA AGROPECUARIA E IMOVEIS LTDA (CNPJ n. 06.666.770/0001-54) no valor de R$ 14,2 milhões, sendo depois transferido tal valor para a conta 1.1.05.05.000001 – IMAVEIS”.

O preço de 14,2 milhões de reais por 40 hectares equivale a 355 mil reais por hectare. É um valor muito elevado se considerados terrenos na região sul de Teresina, em comparação a valores divulgados por ofertas de venda na internet, mas o senador afirma que a área está passando por gradativa valorização.

O nome da Athena já havia aparecido em outra operação. Na Poço de Lobato, o Ministério Público de São Paulo apontou uma negociação imobiliária suspeita envolvendo a empresa. Segundo decisão da 2ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da capital paulista, a Athena comprou uma gleba de 25.635 metros quadrados em Paulínia, no interior de São Paulo, por 65,5 milhões de reais, embora o imóvel tivesse valor de referência de 684 mil reais. A decisão judicial classificou a operação como uma compra superfaturada e a descreveu como “elemento probatório destacado de lavagem de dinheiro”.

A empresa que já pagou 10,8 milhões de reais por uma gleba de 40 hectares da família de Ciro Nogueira é descrita, tanto pela PF como o Ministério Público de São Paulo, como parte de uma engrenagem de fundos, holdings, empresas imobiliárias e financeiras usada para deslocar recursos da operação da Refit, comprar imóveis e reinserir capital no sistema financeiro com aparência de legalidade.

Ciro Nogueira disse à piauí que não tem qualquer relação com a negociação que resultou no contrato de 14,2 milhões. “Nunca tratei disso”, diz. Perguntado se o assunto foi discutido entre ele e Ricardo Magro, disse: “Não tenho ideia e não participei desta negociação.” A versão de Ciro deixa em aberto pontos centrais para a investigação: como surgiu a proposta, a avaliação do imóvel, eventual pedido de licenciamento para uma base de distribuição de combustíveis e a identificação de quem, nas estruturas ligada a Magro, autorizou a compra.

O senador enviou uma nota em que negou irregularidades. “O senador Ciro Nogueira lamenta as recorrentes tentativas de associá-lo a escândalos, as quais serão inevitavelmente frustradas, uma vez que não praticou nenhum ato irregular ou ilegal”, diz o texto. Segundo a nota, a empresa que comprou o terreno buscava uma área superior a 40 hectares para construir uma distribuidora de combustíveis. O valor citado pela reportagem, afirmou Ciro, refere-se à venda de uma área “situada em local altamente valorizado em Teresina”, em negociação “regular e totalmente declarada junto aos órgãos competentes em valores condizentes com o mercado”.

A nota diz ainda que a Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis atua no segmento imobiliário, na compra, venda e aluguel de imóveis. Segundo Ciro, ele atualmente não tem participação societária na empresa e, na época do negócio, sua participação era inferior a 1%. O senador afirmou estar com “total tranquilidade” e disse ser “o principal interessado no esclarecimento dos fatos”. Também atribuiu as acusações ao calendário eleitoral. “Surgem, estranhamente, em ano eleitoral com a clara intenção de desgastar sua imagem junto ao povo do Piauí”, escreveu.

A resposta formal de Ciro não mencionava que a transferência do imóvel ainda não havia sido feita. Essa informação foi dada depois, em troca de mensagens com a piauí. Perguntado por que os pagamentos pararam no fim do ano, ele afirmou: “Não tenho ideia.” A piauí pediu uma manifestação aos advogados de Raimundo Nogueira, irmão do senador e presidente da Ciro Nogueira Agropecuária e Imóveis, mas a defesa disse que ele não se manifestará. A assessoria de imprensa da Refit não respondeu às perguntas enviadas.

Na edição de março, a piauí publicou uma reportagem sobre a rede de blindagem e riqueza de Magro (leia aqui o texto na íntegra), que foi citada no relatório da Operação Sem Refino, para contextualizar a atuação da Refit, o histórico de suspeitas sobre Ricardo Magro e as relações políticas que ajudaram a explicar a longevidade do grupo no mercado. Os investigadores reproduziram trechos da reportagem sobre o chamado “corredor do Rio”, montado sob o governo Cláudio Castro, e sobre suspeitas antigas de que a refinaria importava ou formulava combustíveis já processados como se fossem matéria-prima industrial.


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Repórter da piauí, baseado em Brasília