questões cinematográficas
Ago 2010 04h25
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Sexta-feira à tarde, dia da estréia de “A Origem”, havia uma pequena fila diante da bilheteria do cinema Bristol, na avenida Paulista. A sala não chegou a lotar para a sessão das 15h15, mas havia bom público para ver o filme escrito, produzido e dirigido pelo britânico Christopher Nolan, de 39 anos, diretor, entre outros, de “Batman Begins” (2005) e “Batman – O Cavaleiro das trevas” (2008).
Desenvolvido ao longo de 9 anos, depois da versão final do roteiro ser escrita por 6 meses, “A Origem” foi filmado entre junho e novembro de 2009, em locações espalhadas pelo mundo, de Tóquio a Calgary, passando por Londres, Paris e Los Angeles.
Lançado em 326 salas, com anúncios de página inteira nos jornais, distribuidor e exibidores parecem ter apostado que “A Origem”, produzido por $160 milhões de dólares, repitará no Brasil o sucesso comercial obtido nos Estados Unidos, desde a estréia em 16 de julho. No primeiro dia de exibição por lá, rendeu $23 milhões de dólares, chegando a $62 milhões no fim de semana. Há 3 semanas em cartaz, está sendo exibido em 3.545 cinemas, já tendo acumulado receita de $193 milhões de dólares, apenas no mercado americano.
Bem recebido pela grande maioria dos críticos, superou a expectativa incerta anterior ao lançamento. Dizia-se que não passaria de um projeto caro, fruto da vaidade. No auge do verão, faltando duas semanas para entrar em cartaz, segundo artigo publicado no “The New York Times”, “a pergunta que a indústria cinematográfica e seus observadores estaria fazendo é se o de Christopher Nolan – combinado é claro com o focinho fotogênico de Leonardo DiCaprio – seria suficiente para carrear milhões de espectadores para verem ‘A origem’, seu muito esperado ainda que enigmático novo filme.” Até agora, os resultados indicam que as dúvidas não tinham razão de ser, tratando-se de um mega sucesso comercial. Predomina entre a crítica americana a opinião de que é “inteligente, inovador e emocionante – um raro blockbuster de verão bem sucedido tanto visceralmente quanto intelectualmente.” Saberemos hoje se está seguindo essa mesma tendência no mercado brasileiro.
O próprio Christopher Nolan declarou que “A Origem” é um filme de ação intrincado “que não lança mão de estratagemas elaborados para enganar a plateia continuamente. Procura atrair os espectadores para a lógica do seu mundo e revela qual é o truque.” Tendo crescido vendo e adorando grandes blockbusters de verão e entretenimento de ação, “A Origem’’, nas suas palavras, “pretende seguir essa tradição de entretenimento de grande alcance” e sua única preocupação sobre o filme “é não querer que as pessoas entrem no cinema sentindo que precisam analisar o filme enquanto assistem. […] Se entrarem e relaxarem e tiverem prazer com o filme como forma de entretenimento, entenderão absolutamente tudo que precisam entender. […] É realmente como andar de montanha-russa, e gostar de estar na montanha-russa.”
Não poderia haver declaração de propósitos mais clara, tudo indicando que atingiu os objetivos declarados pelo roteirista-produtor-diretor.
Surpreendente são as afirmações, reproduzidas na imprensa brasileira, de que “A origem” seria um filme autoral com méritos intelectuais. O próprio Christopher Nolan induziu essa impressão ao declarar ter buscado inspiração em Jorge Luis Borges quando escreveu o roteiro. “Gostaria de achar que ele apreciaria o filme [risos]. Parece uma referência pretensiosa, mas a verdade é que ele tomava esses conceitos filosóficos bizarros – como um cara diante de um pelotão de fuzilamento que quer mais tempo para concluir uma história, e é atendido fazendo o tempo passar mais devagar, enquanto a bala percorre a distância que o separa do fuzil – e as transforma em histórias curtas muito digestivas.”
Apesar dos 148’ de duração do filme serem acima do usual, transformar “conceitos filosóficos bizarros” em “histórias curtas muito digestivas” parece uma descrição de “A Origem”, não dos contos de Borges.
Mesmo assegurando que antes de terminar o filme nunca tinha visto “O Ano passado em Marienbad” (1961), de Alain Resnais – indicado por alguns como sua fonte de inspiração –, Christopher Nolan admite que haveria semelhanças entre os dois filmes, e conclui que, sem ter visto o original, “roubei de filmes que roubaram de ‘O Ano passado em Marienbad’ – fonte de ideias sobre as relações entre sonho e memória, que é do que trata ‘A Origem’.” E conclui, com senso de humor: “Mas nós temos muito mais explosões”.
A crítica de A. O. Scott, publicada no “The New York Times” em 15 de julho, trata de aspecto essencial de “A Origem”. Para ele, o filme “[…] lida mais com quebra-cabeças trabalhosos do que mistérios profundos, e aponta em direção a tremendas questões filosóficas com as quais o sr. Nolan é cuidadoso demais, tímido demais ou talvez ocupado demais para abordar.
Os feitos de ‘A Origem’ são principalmente técnicos, o que só é uma condenação se você insistir em esperar algo mais do que é entretenimento comercial.[…] O virtuosismo mágico do sr. Nolan, fazendo cenas brilhantes e cenografias impressionantes, junto com sua habilidade em revestir temas convencionais de grandeza e novidade, forjaram a ilusão de que ele é uma espécie de visionário. […]
Mas, embora haja muito para ver em ‘A Origem’, não há nada que possa ser considerado uma visão autêntica. A noção da mente do sr. Nolan é literal demais, lógica demais, regrada demais para permitir a medida plena de loucura – o risco de verdadeira confusão, de delírio, de inefável ambiguidade – que este assunto requer. […] Se o sr. Nolan não consegue tratar disso, talvez seja por que seu acesso é bloqueado pela própria mídia que ele emprega com tanta habilidade.
E as limitações de ‘A origem’ podem indicar não apenas os limites deste diretor muito talentoso mas também os da forma de expressão artística escolhida por ele neste momento da sua história. Nossos sonhos alimentam os filmes. Os filmes alimentam nossos sonhos. Mas de alguma maneira, nossas imaginações ainda estão famintas.”
Além de saquear muitos filmes, em “A origem” Christopher Nolan reproduz a banalidade essencial de “Cidadão Kane” – expressa na procura pelo significado da palavra “rosebud” – ao fazer do catavento encontrado no cofre junto com o testamento, uma chave para esclarecer, no sonho dentro do sonho dentro do sonho dentro do sonho, a relação do pai com o filho em quem o grupo liderado por um ladrão internacional tenta implantar uma ideia que ele acreditará ser sua.