vultos da imprensa
Felippe Aníbal 07 Jul 2026
5 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
A Gazeta do Povo, fundada em 3 de fevereiro de 1919, em Curitiba, nasceu se autoproclamando “um jornal imparcial”, independente e de espírito crítico, como consta do primeiro editorial: “Destina-se à defesa dos interesses gerais da sociedade, a chamar a atenção de todos e de cada um para assuntos que, direta ou indiretamente, nos interessam.”
Em 1962, quando se encontrava em estado falimentar, atolado em dívidas e sem conseguir sequer pagar os funcionários, o jornal foi comprado pelos advogados Edmundo Lemanski – que entrou com o dinheiro – e Francisco Cunha Pereira Filho – que empenhou seu capital social no negócio. Dois anos depois, os sócios já tinham colocado as finanças da casa em ordem. Em 1969, deram mais um passo, adquirindo a TV Paranaense – a futura Rede Paranaense de Comunicação (RPC). Foi o início do que viria a ser o maior grupo de comunicação do estado.
Nas décadas seguintes, os sócios promoveram constantes atualizações no parque gráfico e fizeram da Gazeta o diário mais lido do Paraná. A empresa faturava tanto com assinaturas quanto com publicidade e classificados. Ficou famosa em Curitiba a fila para anunciar nos classificados, que chegava a dobrar a esquina da Praça Carlos Gomes, o endereço de sua sede na época. Mas, nos anos 1990, quando Francisco já tinha ultrapassado os 70 anos de idade, o jornalismo da Gazeta começou a dar sinais de esgotamento. Guilherme Döring Cunha Pereira, filho de Francisco, foi então convocado pela família para integrar a direção do jornal, ao lado de sua irmã, Ana Amélia Cunha Pereira Filizola.
Gentil e reservado, Guilherme tem 60 anos e usa ternos simples – nunca de marcas renomadas. Com um tom de voz suave e formal, recorre a perguntas retóricas e contrai levemente os lábios ao concluir cada pensamento. Nunca levanta a voz, mas, quando contrariado, fica corado e lança no interlocutor um olhar severo. Desde jovem, ele faz parte do Opus Dei, prelazia ultraconservadora da Igreja Católica, formada principalmente por leigos. Guilherme se tornou um numerário, o adepto que assume um compromisso ainda mais intenso com a vida espiritual e as missões do Opus Dei. Além de fazer votos de castidade, pobreza e obediência, alguns numerários praticam ritos de penitência, como o uso do cilício, uma espécie de corrente, geralmente usada na coxa, com ganchos pontiagudos que entram na carne conforme se aperta o instrumento. A opção religiosa fez com que Guilherme também passasse a residir, até hoje, em uma residência coletiva da prelazia em Curitiba.
No período inicial da gestão de Guilherme, a Gazeta do Povo viveu sua melhor fase jornalística, empilhando prêmios e começando a ganhar um certo reconhecimento nacional. Na década de 2010, porém, começou a sofrer desajustes em suas contas – algo que afetou todos os veículos impressos, depois que passaram a perder receita de publicidade para a internet e para as redes sociais.
Foi então que a Gazeta tomou um novo rumo, como mostra uma reportagem publicada na edição deste mês da piauí. Em 2017, o jornal impresso foi extinto e seu conteúdo migrou para o universo digital (manteve-se apenas a revista de fim de semana), a cobertura e o público-alvo foram nacionalizados e a linha editorial assumiu escancaradamente sua posição de ultradireita, contratando colunistas como Rodrigo Constantino e Leandro Narloch. A tendência ultraconservadora se evidenciava não só em colunas de opinião, mas perpassava o conteúdo jornalístico, sepultando a pluralidade e a objetividade.
Aos poucos, com a ascensão da ultradireita no Brasil, o jornal começou a atrair uma audiência ideológica, capturando leitores de outros estados. Em 2018, quando Jair Bolsonaro venceu a eleição, o número de assinantes de fora do Paraná superou os do estado. Naquele ano, a Gazeta declarou apoio a Bolsonaro, catapultando a audiência. Em outubro, mês das eleições, registrou 33,7 milhões de usuários únicos em seu site, tornando-se o veículo digital mais lido do país. As assinaturas dispararam. Em 2025, eram 140 mil. Antes da virada, o déficit anual estava na casa dos 40 milhões de reais. Em 2018, havia caído para 20 milhões. No ano passado, a meta era fechar o ano com o prejuízo na casa dos 2,7 milhões.
A Gazeta persistiu em seu avanço rumo à direita radical. Demitiu o único colunista identificado com o progressismo, o paranaense Rogerio Galindo – e contratou Alexandre Garcia, Guilherme Fiuza e J.R. Guzzo. Depois, acrescentou ao seu corpo de articulistas o senador Sergio Moro (PL-PR), o deputado federal cassado Deltan Dallagnol e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Em um e-book, defendeu a intentona golpista do Oito de janeiro; em outro, compilou textos com críticas ao STF.
A radicalização conservadora e a inclinação à extrema direita política do veículo não se devem, claro, unicamente ao viés financeiro. “O problema do Guilherme é que ele acha que tem uma missão divina para cumprir na Terra. Essa missão divina é a plataforma dele, que ele vai promover mundos e fundos para fazer virar”, afirma Oscar Röcker Neto, ex-chefe de redação da Gazeta. A opção do publisher pelo bolsonarismo, diz ele, tem mais a ver com o aborto do que com aspectos propriamente políticos: “Se você garantir que vai vetar o aborto de tudo quanto é jeito, todo o resto, para o Guilherme, se justifica.”
Quem ajudou a construir a reputação jornalística da Gazeta lamenta os novos rumos. Para o premiado jornalista Mauri König, o veículo “regrediu 150 anos” em termos jornalísticos, retornando ao modelo adotado no século XIX, quando os jornais se restringiam à publicação de textos opinativos e enviesados. “A Gazeta do Povo é o retrato do que o Guilherme pensa para a sociedade e que é manifestado por meio dos colunistas e das matérias editorializadas que produz sobre os temas de interesse dele”, diz König. Outros pensam como ele.