histórias do tio sam
Luís Cláudio Villafañe G. Santos e Rogério de Souza Farias 23 Jul 2026
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Em 30 de maio de 1962, a Seleção Brasileira estreou na Copa do Mundo, disputada no Chile. No mesmo dia do jogo inaugural, desembarcou no Aeroporto do Galeão um acadêmico de 40 anos da Universidade Harvard, em plena ascensão na política americana: Henry Kissinger (1923–2023).
Ele trabalhava como consultor em tempo parcial do presidente John Kennedy e foi nessa condição que viajou ao Brasil. Seu objetivo era avaliar os primeiros resultados da Aliança para o Progresso – o programa de ajuda internacional para a América Latina formulado pelo governo americano – e ajudar a preparar a visita de Kennedy, prevista para o segundo semestre daquele ano.
O Brasil estava em ebulição. Jânio Quadros renunciara em agosto de 1961. Setores da direita e das Forças Armadas haviam tentado impedir a posse de João Goulart, que só assumiu (como chefe de Estado apenas) depois de aprovada a emenda que instituiu o sistema parlamentarista no país, tolhendo os poderes do presidente. A chefia do governo vinha sendo exercida pelo primeiro-ministro Tancredo Neves.
A visita de Kissinger ao Brasil durou de 30 de maio a 18 de junho de 1962 e foi contada em detalhes por ele próprio em um relatório “restrito e confidencial”, com o título Notas sobre o Brasil, de pouco menos de 130 páginas, do qual foram feitas pelo menos dez cópias, que circularam nos altos escalões de Washington. Em 2011, Kissinger doou seu arquivo pessoal à Universidade Yale.
As conclusões sobre a situação política brasileira, reveladas pela piauí, são marcadamente alarmistas: Kissinger descreve um país à deriva, sem rumo político claro, e com risco iminente de um golpe de esquerda, diagnóstico que se somava a outras análises que assustaram o governo americano no período.
Um dos episódios descritos no relatório foi um jantar na casa do empresário Israel Klabin, durante o qual Kissinger conversou com o economista Alexandre Kafka, que procurou convencer o emissário americano de que, a despeito do vácuo de autoridade, não havia o risco de uma revolução no Brasil por causa do caráter conciliador dos brasileiros. Ainda que tenha concordado parcialmente com o argumento, Kissinger observou no seu relatório que “o caráter não violento dos brasileiros também fará com que haja pouca resistência aos grupos extremistas, desde que eles estejam bem organizados”.
Em outra ocasião, depois de se encontrar com representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE), o futuro secretário de Estado anotou: “Ainda que os brasileiros não sejam, em essência, um povo revolucionário, e na medida em que é difícil imaginar qualquer governo eficiente no Brasil, um grupo de pessoas determinadas que de algum modo tome o poder pode usar a própria passividade dos brasileiros para permanecer no poder. Isso é ilustrado pelo modo como os comunistas dominaram o movimento estudantil brasileiro.”
A viagem de Kissinger já foi abordada por alguns estudiosos, como Matias Spektor, que em 2009 publicou Kissinger e o Brasil (Zahar), estudo pioneiro em que apresentou a viagem de 1962, mas sem entrar em detalhes. Em 2015, Niall Ferguson publicou Kissinger 1923-1968: the idealist, o primeiro volume da biografia do secretário de Estado (lançado no Brasil em 2023, pela Crítica), com novas informações sobre a visita, mas se concentrou na conversa mantida pelo americano com Gilberto Freyre. Sem citar o relatório, que aparentemente não foi a base de seu trabalho, Ferguson definiu o tour como o início do “complexo e controverso relacionamento” de Kissinger com a América Latina.
Mais recentemente, em 2020, o historiador Stephen G. Rabe tratou não só da viagem como ressaltou seu impacto, em Kissinger and Latin America (Cornell University Press). Segundo Rabe, o americano afirmou, ao retornar a Brasília em 1976: “Desde minha viagem ao Brasil em 1962, estou profundamente convencido de que o país está destinado à grandeza mundial.” Também em 2020, na biografia Samuel Wainer: o homem que estava lá (Companhia das Letras), Karla Monteiro citou o encontro entre o jornalista e Kissinger em 1962.
Tomada como um todo, contudo, a viagem permaneceu inexplorada pelos historiadores. Além do interesse histórico, o relatório detalha cada passo que Kissinger deu no Brasil, com uma avaliação muitas vezes impiedosa de seus interlocutores no país. Ele reuniu-se aqui com mais de oitenta pessoas da nata do mundo político, militar, intelectual, financeiro e jornalístico, como Carlos Lacerda, Celso Furtado, Júlio de Mesquita Filho, Samuel Wainer e Anísio Teixeira. Também falou com representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE) e com sindicalistas. Para isso, visitou, além do Rio de Janeiro, as cidades de São Paulo, Brasília, Salvador, Recife e Ouro Preto.
Em 17 de junho de 1962, o Brasil derrotou a Tchecoslováquia por 3 gols contra 1 e sagrou-se bicampeão mundial de futebol. Kissinger não passou alheio à comemoração no país. “Quando voltei ao meu hotel, desatou-se uma loucura coletiva. O Brasil acabara de ganhar o campeonato de futebol. Fogos de artifício eram disparados de quase todas as janelas”, escreveu. No dia seguinte, ele regressou aos Estados Unidos convencido de que a Aliança para o Progresso não cumpria seus objetivos no Brasil e que seria difícil formular qualquer programa de ajuda econômica que se convertesse em influência política no Brasil.
Kissinger deduziu que o reformismo da esquerda avançava com convicção, enquanto o centro e a direita revelavam-se incapazes de formar uma alternativa robusta, comprometida tanto com a estabilidade quanto com a democracia. O país que dera ao mundo Pelé e Garrincha revelava, na política, um centro e uma direita sem craques e torcida. Para ele, em vista da perspectiva de uma ditadura de esquerda, não fazia sentido deixar de apoiar as forças de extrema direita, uma vez que inexistiam setores mais moderados ou de centro.