histórias do tio sam II

KISSINGER NO MEIO DO REDEMOINHO

A visita do futuro secretário de Estado ao Brasil em 1962, com o país agitado pela Copa do Mundo e uma grave crise política
Em Belo Horizonte: da esq. à dir., o diplomata Antônio Carlos Tavares; Jon S. Lodeesen, vice-cônsul americano; João Franzen de Lima, secretário de Interior e Justiça de Minas; e Kissinger - CRÉDITO: JORNAL FOLHA DE MINAS_1962
Em Belo Horizonte: da esq. à dir., o diplomata Antônio Carlos Tavares; Jon S. Lodeesen, vice-cônsul americano; João Franzen de Lima, secretário de Interior e Justiça de Minas; e Kissinger - CRÉDITO: JORNAL FOLHA DE MINAS_1962

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Pelé exibiu seu melhor futebol naquela tarde em Viña del Mar, no Chile. Zagallo abriu o placar aos 11 minutos do segundo tempo, e 17 minutos depois o rei selou a vitória sobre o México com um gol memorável. O Brasil apresentava-se com quase a mesma equipe que conquistara o primeiro Mundial em 1958, e a boa estreia confirmava seu favoritismo para ganhar a Copa do Mundo que começava naquele 30 de maio de 1962. Na crônica para o Jornal dos Sports, Nelson Rodrigues sentenciou: “Nunca o football brasileiro foi tão bom.”

No mesmo dia do jogo inaugural, desembarcou no Aeroporto do Galeão um acadêmico de 40 anos da Universidade Harvard, em plena ascensão no meio político americano: Henry Kissinger (1923-2023). Descendente de judeus e nascido em Fürth, cidade alemã próxima de Nuremberg, Kissinger fora alvo direto do terror nazista. Em 1938, quando estava com 15 anos, ele refugiou-se nos Estados Unidos com sua família. Poucos anos depois, observaria de perto a tragédia da guerra como soldado americano, ao desembarcar na França em novembro de 1944 como oficial de contrainteligência. Pelo menos treze parentes próximos seriam mortos no Holocausto.

Nos estudos, Kissinger se destacou como um prodígio desde cedo. O desempenho acadêmico o levou à Harvard, onde ficou conhecido pelo brilhantismo, a arrogância intelectual e a ambição. No fim dos anos 1950, começou a se envolver com a política, mas ainda era figura ideologicamente ambígua. Embora atuasse como assessor da fracassada campanha presidencial do político republicano Nelson Rockefeller em 1960, ofereceu-se para colaborar com o Partido Democrata em questões de política externa, por discordar da estratégia nuclear do governo de Dwight Eisenhower (1953-61).

Em 1961, o presidente democrata John F. Kennedy, também formado em Harvard, contratou Kissinger como consultor em tempo parcial. Nessa condição, ele foi encarregado de visitar o Brasil no ano seguinte. Tinha uma dupla missão: avaliar os primeiros resultados da Aliança para o Progresso – o programa de ajuda internacional para a América Latina formulado pelo governo Kennedy – e ajudar a preparar a visita do presidente americano, prevista para o segundo semestre de 1962.

O Brasil estava em ebulição. Jânio Quadros renunciara em agosto de 1961. Setores da direita e das Forças Armadas haviam tentado impedir a posse de João Goulart, que só assumiu, apenas como chefe de Estado, depois de aprovada a emenda que instituiu o sistema parlamentarista no país, tolhendo os poderes do presidente. A chefia do governo vinha sendo exercida pelo primeiro-ministro Tancredo Neves. O tempo era de mudanças. Em outubro de 1962 ocorreriam as eleições para onze governos estaduais e para renovar o Congresso. Jango contava colher do novo Parlamento a volta ao presidencialismo.

A visita de Kissinger ao Brasil durou de 30 de maio a 18 de junho de 1962 e foi contada em detalhes por ele próprio em um relatório “restrito e confidencial” de pouco menos de 130 páginas, do qual foram feitas pelo menos dez cópias, que circularam nos altos escalões de Washington. Em formato de diário, com o título Notas sobre o Brasil, o texto surpreende por estar pontilhado de comentários sobre as paisagens brasileiras, comparações curiosas e descrições de situações banais ou inusitadas totalmente fora dos objetivos da viagem. As conclusões sobre a situação política brasileira são marcadamente alarmistas: Kissinger descreve um país à deriva, sem rumo político claro, e com risco iminente de um golpe de esquerda, diagnóstico que se somava a outras análises que assustaram o governo americano no período. Em 2011, Kissinger doou seu arquivo pessoal à Universidade Yale. Uma cópia do relatório guardada nos arquivos foi digitalizada e disponibilizada na internet.[1]

A viagem de vinte dias foi mencionada por alguns estudiosos, como Matias Spektor, que em 2009 publicou Kissinger e o Brasil (Zahar), estudo pioneiro em que apresentou a viagem de 1962, mas sem entrar em detalhes. Em 2015, Niall Ferguson publicou Kissinger 1923-1968: the idealist, o primeiro volume da biografia do secretário de Estado (lançado no Brasil em 2023, pela Crítica), com novas informações sobre a visita, mas se concentrou na conversa mantida pelo americano com Gilberto Freyre. Sem citar o relatório, que aparentemente não foi a base de seu trabalho, Ferguson definiu o tour como o início do “complexo e controverso relacionamento” de Kissinger com a América Latina.

Mais recentemente, em 2020, o historiador Stephen G. Rabe tratou não só da viagem como ressaltou seu impacto, em Kissinger and Latin America (Cornell University Press). Segundo Rabe, o americano afirmou, ao retornar a Brasília em 1976: “Desde minha viagem ao Brasil em 1962, estou profundamente convencido de que o país está destinado à grandeza mundial.” Também em 2020, na biografia Samuel Wainer: o homem que estava lá (Companhia das Letras), Karla Monteiro citou o encontro entre o jornalista e Kissinger em 1962.

Tomada como um todo, contudo, a viagem permaneceu inexplorada pelos historiadores. Além do interesse histórico, o relatório é uma curiosa descrição sobre cada passo que Kissinger deu no Brasil, com uma avaliação muitas vezes impiedosa de seus interlocutores. Ele reuniu-se aqui com mais de oitenta pessoas da nata do mundo político, militar, intelectual, financeiro e jornalístico, como Carlos Lacerda, Celso Furtado, Júlio de Mesquita Filho, Samuel Wainer, Walther Moreira Salles,[2] Anísio Teixeira e Juracy Magalhães. Também falou com representantes da União Nacional dos Estudantes (UNE) e com sindicalistas.

Logo que chegou ao Rio de Janeiro, Kissinger teve uma reunião na embaixada americana, mas sem a presença do então embaixador Lincoln Gordon, seu colega de Harvard, com quem manteve uma relação que oscilou entre a amizade e a competição. Para acompanhá-lo na visita ao Brasil, o Itamaraty havia escalado o diplomata Antônio Carlos Tavares (1932-63), que Kissinger descreve como “um dos homens mais ineficientes, ainda que simpático, que jamais conheci”.[3]

O primeiro compromisso oficial foi no dia 31, quinta-feira: uma palestra sobre estratégia nuclear na Escola Superior de Guerra. Depois, almoçou no apartamento duplex de um amigo de Tavares, na Avenida Atlântica. Jornalistas e socialites cariocas também haviam sido convidados – um deles casado com uma marquesa, que, segundo Kissinger, seria “bisneta do último rei de Nápoles”. A alta sociedade carioca lhe pareceu algo caricata, e ele comentou que a atmosfera do encontro “lembrava de maneira quase séria a civilização romana”.

No regabofe, Kissinger conheceu o escritor e jornalista Antonio Callado (1917-97), que publicara em 1960 o livro-reportagem Os industriais da seca e os “galileus” de Pernambuco, sobre os desmandos de políticos e latifundiários com os recursos destinados pela União para o Nordeste. Kissinger conta que os dois conversaram sobre as Ligas Camponesas, que reuniam trabalhadores rurais favoráveis à reforma agrária, e seu líder, Francisco Julião (1915-99). Callado descreveu os dois com simpatia, contou o americano, “embora não vislumbre no movimento, ou na reforma agrária, por insuficiência de terras, a solução para a pobreza nordestina”.

À tarde, Kissinger visitou Samuel Wainer (1912-80), dono do jornal Última Hora, então no auge da influência, com uma circulação diária de cerca de 1 milhão de exemplares, diz Kissinger, “em um país com uma taxa de analfabetismo de 50%”. Ambas as informações, certamente repassadas pela embaixada americana, eram bem superestimadas, provavelmente para exagerar a influência de Wainer. Kissinger não tinha ideia de quem era Wainer e foi duro na avaliação que fez do jornalista, descrevendo-o como “um elemento algo sinistro”, “extremamente vaidoso, imaginando-se um Maquiavel que move as figuras políticas para seus fins”. Para ele, contudo, pareceu que o manipulado era o próprio Wainer, por causa de suas crônicas dificuldades financeiras.

Entre baforadas de cigarro e generosas xícaras de café, Wainer atacou Jânio Quadros, defendeu João Goulart e insistiu na ideia de que era necessário reescrever a Constituição para permitir reformas sociais. Disse que era um homem de “centro” e descreveu a situação do país como de profunda crise, dividido entre a extrema direita e a extrema esquerda, ambas equivocadas e perigosas. Começava assim um padrão nas conversas do emissário americano, com os interlocutores sempre se dizendo politicamente de centro.

Kissinger não se deixou enrolar pelo jornalista, cuja visão política ele descreveu assim:

Se entendi Wainer corretamente, ele está propondo o fim da democracia representativa, pois, de acordo com ele, uma eleição democrática somente poderá produzir parlamentares reacionários. [...] A falta de clareza sobre que tipo específico de reformas ele tem em mente – exceto pela constante invocação da palavra progressista – pode gerar uma autêntica confusão. Isso também pode significar que ele está sendo deliberadamente evasivo, e que tem uma ideia clara sobre o que quer, um mandato popular para um regime essencialmente populista e ditatorial.

O dia seguinte – 1º de junho, sexta-­feira – começou com um encontro com o intelectual católico Alceu Amoroso Lima (1893-1983), que disse a Kissinger logo de início que se sentia espiritualmente domiciliado na França. Na conversa, pontuada por estereótipos sobre o caráter nacional, o intelectual explicou o drama brasileiro recorrendo à psicologia. Buscou convencer seu interlocutor de que o brasileiro era um “povo lírico”, em contraposição ao caráter épico dos demais latino-americanos. Seguiu com uma comparação entre “os extremismos de amores e ódios” dos gaúchos, servindo de matéria-prima para revoluções, e os “pobres e deprimidos” nordestinos, que conseguiam ser “espiritualmente os mais heroicos” pelo seu “orgulho, lealdade, capacidade de resistência e por morrerem na defesa de princípios”. Nesse contexto, segundo Amoroso Lima, só a tradição de acomodação e compromisso poderia evitar que o país deslizasse para uma situação abertamente revolucionária. Kissinger registrou no relatório estar impressionado “pela capacidade dos brasileiros das diferentes visões políticas de sentarem lado a lado e discutirem sem acrimônia, e, devo dizer, sem real seriedade”.

Aproveitou para reclamar de Tavares, seu cicerone, que “chega tarde todas as manhãs e sem ter feito nenhuma das coisas que prometera fazer na noite anterior”. As queixas sobre a falta de pontualidade dos brasileiros, aliás, se repetem por todo o relatório. Tavares procurou se redimir levando o convidado ao Corcovado. Aparentemente, a inspiração do Cristo Redentor amainou a fúria de Kissinger, que registrou: “A vista dali é a mais espetacular do que qualquer cidade que eu tenha visto.”

Seguiu-se uma visita ao Itamaraty, no Centro do Rio, que deixou boa impressão pelo velho palácio, mas teve pouco conteúdo. Resumiu-se a uma conversa com o secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, Carlos Alfredo Bernardes (1916-77), descrito como um homem “bastante alto, muito suave, com obviamente algo de ascendência negra e modos bastante lânguidos”. O tema que dominou a reunião foi o desarmamento, um debate mais ritual do que concreto, de gestos estritamente diplomáticos.

Se a visita ao Itamaraty não passou de uma formalidade elegante, a entrevista seguinte ofereceu o oposto: intensidade política em estado puro. O interlocutor foi o governador Carlos Lacerda (1914-77). Depois de assinalar a beleza dos jardins do Palácio Guanabara, sede do governo, Kissinger anotou que concordava com a descrição que lhe haviam feito de Lacerda: “Um demagogo impiedoso.”

Sobre a situação política do Brasil, Lacerda formulou para o americano uma explicação parecida com a de Samuel Wainer: o país estava dividido entre a extrema direita e a extrema esquerda. O governador se autodefiniu como um político de centro e atacou Wainer como “um canalha e um oportunista”, dizendo que todos sabiam ser ele um comunista “ou tão perto disso que não faz a menor diferença”, escreveu Kissinger.

Lacerda insistiu que se opunha à reforma da Constituição, pois via nisso o risco de transformar o Brasil em uma espécie de Iugoslávia. Previu a possibilidade de tanto a esquerda como a direita darem um golpe preventivo para evitar que o adversário assumisse o poder. Não poupou críticas à Política Externa Independente (PEI), iniciada em 1961 por Jânio e mantida, em linhas gerais, por Goulart.

A PEI pretendeu manter a autonomia do Brasil em relação às principais forças da Guerra Fria, ou seja, os Estados Unidos, de um lado, e a União Soviética, de outro. Além de apoiar ativamente a descolonização e o desarmamento, propagou a conveniência de reforçar as relações econômicas e comerciais com todos os países, inclusive aqueles do bloco soviético. Durante os governos militares, depois de um interregno, alguns elementos desse programa foram reabsorvidos, sob nova roupagem. Desde então, a política externa brasileira convive com o desafio de ser universalista sem abalar os vínculos com os aliados tradicionais. A busca por autonomia em meio às pressões externas permanece como herança da PEI até os dias de hoje.

No mesmo encontro, indagado sobre a Aliança para o Progresso, Lacerda queixou-se de que o programa não estava “apoiando as pessoas corretas”.

Na noite da mesma sexta-feira, Lincoln Gordon ofereceu um jantar na residência da embaixada (que ainda não se mudara para Brasília), sobre a qual Kissinger anotou: “Uma bela casa antiga brasileira cuja varanda traseira estava voltada para o Corcovado e livre daquele ar de nouveau riche chic de muitas outras embaixadas que conheci.” Seria o primeiro da série de comentários elogiosos ao amigo de Harvard, uma das poucas pessoas que escapou dos seus ataques e ironias.

O jantar reuniu diplomatas, políticos, empresários e jornalistas. A conversa mais longa de Kissinger ocorreu com o professor Candido Mendes de Almeida (1928-2022), que chefiara a Assessoria Técnica da Presidência durante o breve governo Jânio Quadros. “Jovem, energético, suave e repleto dos clichês convencionais da esquerda” foi como Kissinger descreveu o acadêmico brasileiro. Registrou ainda em uma nota: “O uso de terminologia marxista por um homem que certamente acabará em posições-chave é, em si, significativo.”

N

o dia 2 de junho, sábado, Kissinger conversou com jornalistas de O Globo e, depois, com o empresário e diretor do Jornal do Brasil, Manoel Francisco do Nascimento Brito (1922-2003). A novidade esteve na rejeição da divisão da política brasileira em direita, centro e esquerda por Nascimento Brito. No lugar disso, o empresário recorreu a outras categorias, que, no entanto, pareceram a mesma coisa para Kissinger: revolucionários, reformistas e direitistas. O empresário – como de praxe – situou-se no centro, como reformista, grupo no qual também incluiu Lacerda. Destacou, contudo, que o Brasil estava a caminho de uma revolução, afirmação que não mereceu nenhum comentário de Kissinger naquele ponto do relatório.

Na parte da tarde houve um encontro no hotel Copacabana Palace, organizado pela embaixada americana, com militares de alta patente. Kissinger destacou a conversa com o tenente-brigadeiro Francisco de Assis Corrêa de Mello (1903-71), a quem descreveu como “brilhante”, louvor raramente dispensado a seus interlocutores na viagem. Ex-ministro da Aeronáutica no governo Juscelino Kubitschek, conhecido popularmente como “Mello Maluco”, o militar foi alvo de uma pergunta direta e incômoda naquele ambiente público: seria verdade que as Forças Armadas já preparavam uma intervenção?

Corrêa de Mello respondeu, lacônico, que, se algo estivesse sendo planejado, certamente não seria ele a dedurar os preparativos da sublevação. O militar disse ainda que os militares eram “protetores da ordem constitucional”, desde que “a Constituição fosse mantida”. Caso algum grupo a violasse ou ameaçasse “tomar o país”, então a intervenção militar se tornaria não ruptura da ordem democrática, mas defesa da legalidade. Não à toa, Corrêa de Mello se tornou uma das cabeças do Comando Supremo da Revolução, logo depois do golpe de 1964, e um dos três signatários do Ato Institucional nº 1.

Generais, brigadeiros e almirantes reclamaram com Kissinger sobre a infiltração de comunistas nas Forças Armadas, em especial nos estados em que os governadores estabeleciam laços com os níveis inferiores de comando, como o Rio Grande do Sul, então governado por Leonel Brizola.

Depois do convescote com ares conspiratórios organizado pela embaixada americana, o dia encerrou-se com uma visita à região onde hoje é a Barra da Tijuca, que rendeu outro elogio de Kissinger à cidade: “Ainda que o Rio em si pareça uma cidade italiana de província, suas paisagens são inigualáveis. Não conheço nenhuma cidade europeia – ou nenhuma cidade do mundo – cujas paisagens se possam aproximar das do Rio.”

Naquele mesmo dia 2 de junho ocorrera uma tragédia. O empate de 0 a 0 do Brasil com a Tchecoslováquia não afetava as perspectivas do bicampeonato mundial, mas Pelé sofrera uma distensão muscular aos 28 minutos do primeiro tempo e estava fora da Copa. “Desde sábado todo o Brasil chora e todo o Brasil vela a contusão de Pelé”, escreveu Nelson Rodrigues em O Globo. “Os ventos são mais tristes, os ventos são mais inconsoláveis.” E concluiu: “O desespero está ventando por todo o país.”

Na segunda-feira, dia 4, depois de ter visitado Petrópolis, Kissinger se reuniu na casa de Márcio Moreira Alves (1936-2009), então assessor do chanceler San Tiago Dantas (1911-64), com “um grupo de jornalistas esquerdistas”. Apesar do desencontro total das opiniões trocadas, Kissinger registrou uma nota benevolente sobre os brasileiros:

No Brasil não há, até onde eu posso ver, a feroz xenofobia dos indianos ou paquistaneses. Os indianos se consideram superiores aos outros povos. Os brasileiros estão maravilhados ao se descobrirem como uma potência importante. Às vezes, tem-se a impressão de que eles não acreditam realmente que são tão importantes quanto a Suécia e constantemente insistem em sua independência, não por convicção, mas pelo medo de que, se não reiterarem isso com suficiente frequência, alguém possa se esquecer deles.

Seguiu-se um jantar na casa do empresário Israel Klabin (1926), durante o qual Kissinger conversou com o economista Alexandre Kafka (1917-2007), que procurou convencer o emissário americano de que, a despeito do vácuo de autoridade, não havia o risco de uma revolução no Brasil por causa do caráter conciliador dos brasileiros. Ainda que tenha concordado parcialmente com o argumento, Kissinger observou no seu relatório que “o caráter não violento dos brasileiros também fará com que haja pouca resistência aos grupos extremistas, desde que eles estejam bem organizados”.

Na terça-feira, dia 5, o Itamaraty ofereceu um almoço no Copacabana Palace, presidido por Bernardes, o secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores, com a presença da cúpula da pasta. Na intimidade dos pares, talvez procurando passar um recado para o governo americano, Bernardes insistiu na tese de que um dos principais problemas do Brasil seria a influência excessiva das Forças Armadas, cujo contingente era desproporcional a qualquer preocupação razoável de segurança. Urgia reduzir o aparato militar.

Kissinger avaliou que Bernardes estava “obviamente tentando me forçar a dizer que os Estados Unidos consideram que o tamanho das Forças Armadas brasileiras era excessivo” – e saiu pela tangente. O diálogo de surdos continuou com o pedido para que Bernardes explicasse em que medida a Política Externa Independente de João Goulart se diferenciava de uma política neutralista. O Brasil não participava oficialmente do Movimento dos Não Alinhados, mas tinha passado a votar com frequência contra as posições americanas na onu, o que causava grande incômodo em Washington. Como justificativa para as constantes discordâncias, Bernardes argumentou que, ainda que houvesse coincidências com os Estados Unidos, era necessário deixar claro não existir uma atitude de subserviência, o que não convenceu Kissinger. Em seguida, os dois também divergiram sobre Cuba e Fidel Castro, que, na opinião de Bernardes, teriam sido empurrados para uma posição radical por causa da intransigência de Washington.

Kissinger conclui em suas notas que a PEI parecia uma demanda da opinião pública interna e da própria vaidade da diplomacia brasileira:

Até recentemente, ninguém ouvira falar de uma política brasileira sobre desarmamento. Agora, o Brasil é um dos autores de um projeto sobre testes nucleares. Essa posição tem atrativos que transcendem o julgamento brasileiro sobre o mérito intrínseco de qualquer disputa específica.

A recomendação de Kissinger ao governo americano no relatório foi tratar o Brasil com dureza: “Parece-­me importante deixar claro que sabemos distinguir entre amigos, inimigos e neutros.” Caso contrário, segundo ele, “haveria uma gradual desmoralização dos elementos pró-americanos e um gradual aumento de um tipo de nacionalismo que se define apenas como antiamericano”.

Depois da conversa reservada, o enviado de Kennedy proferiu no Instituto Rio Branco uma palestra sem maior efeito. Se o encontro com a cúpula da diplomacia brasileira já fora frustrante, o que veio depois seria verdadeiramente conflitivo.

Em seguida ao jantar, Kissinger reuniu-se com representantes da então muito combativa UNE. O encontro fora marcado para às nove da noite. O americano, que não perdia a chance de criticar a falta de pontualidade dos brasileiros, chegou meia hora atrasado e havia apenas um estudante no local. Somente às dez e meia o debate esquentou. O choque de pontos de vista foi total. Os cerca de trinta presentes informaram a Kissinger que, no Brasil, uma revolução socialista era inevitável, e o capitalismo, impraticável e inaceitável. Os Estados Unidos seriam uma força política e econômica imperialista espoliadora, a vanguarda de todas as forças reacionárias do mundo.

Com arrogante ar professoral, Kissinger cutucou: e o imperialismo soviético no Leste Europeu? Os estudantes retrucaram: melhor que a política americana. O enfraquecimento dos Estados Unidos, afirmaram, só ajudaria a paz e o progresso. No relatório, o americano confessou ter perdido a compostura, chegando até a chamar seus debatedores de ignorantes e mentirosos.

O encontro só terminou depois da meia-noite, com um tour pela sede da UNE, na Praia do Flamengo. O que chamou a atenção foram os cartazes armazenados nas instalações e que seriam colados pela cidade: um mostrava um terço do território americano como “roubado” da América Latina; outro exibia o cardápio habitual da opressão ianque em Porto Rico, Cuba e América Central. Kissinger, já sem muito ânimo, anotou que as dependências eram “extraordinárias”. Achou, inclusive, pitoresca a porta de aço feita para resistir a batidas policiais, algo que se provou inútil no golpe de 1º de abril de 1964, quando o prédio foi invadido e incendiado pelos militares. O americano concluiu, com frieza, que o movimento estudantil não passava de “uma ferramenta dos comunistas”. A partir daí, estendeu o raciocínio ao cenário nacional:

Ainda que os brasileiros não sejam, em essência, um povo revolucionário, e na medida em que é difícil imaginar qualquer governo eficiente no Brasil, um grupo de pessoas determinadas que de algum modo tome o poder pode usar a própria passividade dos brasileiros para permanecer no poder. Isso é ilustrado pelo modo como os comunistas dominaram o movimento estudantil brasileiro.

No dia seguinte, Kissinger visitou Anísio Teixeira (1900-71), membro do Conselho Federal de Educação, que apresentou um relato bastante pessimista do estado da educação no Brasil. Teixeira descreveu o sistema educacional como sendo tão elitista quanto o europeu, mas com um nível muito medíocre, pior que o americano. Kissinger considerou toda a conversa “muito brasileira: um brilhante enunciado de dilemas, acompanhado de poucas soluções concretas”.

O educador defendeu que o sistema de ensino tinha que ser reformado, assim se poderia ensinar aos brasileiros que a grande revolução de nosso tempo não foi a russa, mas a americana. Kissinger prossegue: “Os Estados Unidos, argumentou Teixeira, são a única sociedade que deu conteúdo ao conceito de dignidade humana numa base universal. O sistema educacional americano reflete que democracia e educação são sinônimos.”

À tarde, a agenda deslocou-se para o terreno das relações trabalhistas, em encontro com Gilberto Chrockatt de Sá (1909-72), assessor de João Goulart para a área e reputado pela embaixada americana como “uma das pessoas mais inescrupulosas do Rio”. Ele tentou convencer Kissinger de que não havia risco de os comunistas influenciarem o movimento trabalhista. Quando o adido trabalhista da embaixada americana citou o nome de vários comunistas do movimento sindical, Chrockatt deu de ombros e disse: “Bem, pode ser que haja alguns comunistas, mas só estão lá porque nós os usamos.”

Chrockatt tentou explicar a Kissinger como os sindicatos se mantinham, citando que 80% do imposto sindical era dividido entre as diferentes categorias de representantes de trabalhadores. O americano demonstrou curiosidade sobre o destino dos 20% remanescentes. Chrockatt olhou ao redor, deu de ombros, sorriu e respondeu: “Nós nunca afirmamos que éramos perfeitos.” Kissinger conclui: “Ou seja, 20% do imposto é tomado por quem quer que controle o movimento sindical e ninguém sabe o que é feito do dinheiro.”

Após a conversa, o adido e Tavares, que continuava na tarefa de organizar a agenda do visitante, disseram que “nunca tinham visto tantas mentiras espremidas no período de uma hora”.

Em 6 de junho, quarta-feira, Henry Kissinger voou para São Paulo acompanhado de Tavares. As expectativas do emissário americano sobre a capital paulista, que ele comparou com Milão, eram elevadas: “A atmosfera em São Paulo é bastante diferente da carioca. O Rio é uma cidade algo sedutora e indolente. São Paulo irradia energia.”

Depois de visitar a Assembleia Legislativa, onde ouviu as habituais diatribes contra o Rio e o Nordeste, esteve com o prefeito Prestes Maia (1896-1965), que reclamou da corrupção do antecessor, Ademar de Barros, e pediu que recursos da Aliança para o Progresso também fossem destinados à cidade. Durante essa entrevista, a Copa do Mundo finalmente invadiu o relato do enviado de Kennedy:

Subitamente, enquanto eu conversava com o prefeito, desatou-se um pandemônio. Pessoas entraram no gabinete às pressas para se abraçarem; fogos de artifício voavam das janelas. O Brasil marcara um gol. Depois que saí do encontro e estava no trânsito de volta para o hotel, os automóveis paravam e as pessoas saíam para se abraçar; mais fogos de artifício eram disparados. O Brasil marcara outro gol. Cinco minutos depois, o tráfego parou outra vez. Repetiu-se o espetáculo. O jogo terminara com o Brasil ganhando de 2 a 1.

Kissinger não deixou de especular sobre o possível impacto político da campanha da Seleção Brasileira nos gramados do Chile:

Várias pessoas me disseram de forma séria que o futebol é uma das grandes forças unificadoras do Brasil, dando ao país um sentido de consciência nacional. Eles também me contaram (meio de brincadeira) que, caso o Brasil perca, os ânimos ficarão tão acirrados que a situação política estaria fadada a se deteriorar. Isso pode parecer ridículo, mas qualquer um que tenha presenciado as cenas de São Paulo – a cidade mais sóbria do Brasil – pode realmente acreditar.

Fora um jogo difícil. A Espanha dominava e abriu o placar aos 35 minutos do primeiro tempo. No início do segundo tempo, Nilton Santos derrubou um adversário dentro da área, mas deu dois passos à frente, e o juiz marcou a falta fora da área. A penalidade foi cobrada para dentro da área, e o espanhol Joaquín Peiró marcou um golaço de bicicleta. O juiz anulou, alegando jogo perigoso, impedimento ou sabe-­se lá o quê. O Brasil reagiu, e Amarildo, que tinha a terrível tarefa de substituir Pelé, marcou dois gols, aos 27 e aos 41 minutos. O Jornal dos Sports descreveu a partida como uma vitória dramática e espetacular. Em crônica publicada dias depois no jornal O Globo, Nelson Rodrigues resumiu o sentimento dos torcedores: “Amigos, como é mais linda a vitória roubada. O juiz gatuno deu ao nosso feito uma dimensão mais comovida e mais deslumbrante.”

Em São Paulo, a programação seguinte de Kissinger foi a reunião com Ademar de Barros (1901-69), que tentava voltar a governar o estado na eleição de outubro. Em visita ao hotel onde Kissinger se hospedava, Ademar procurou convencê-lo, sem muito sucesso, de que já havia um plano em curso, desde Porto Alegre, para derrubar o governo.

À noite, o encontro foi com Júlio de Mesquita Filho, diretor do jornal O Estado de S. Paulo (Kissinger não cita onde ocorreu a conversa). O jornalista descreveu as dificuldades do Brasil como uma herança direta do varguismo e disse que Goulart era ainda pior que Getúlio: “Um completo oportunista e nada confiável.” Para Mesquita Filho, também San Tiago Dantas era um oportunista que não acreditava na própria política externa. Em contraste, elogiou os governadores de São Paulo (Carlos Alberto Carvalho Pinto), da Guanabara (Carlos Lacerda) e da Bahia (Juracy Magalhães) e sugeriu que os recursos da Aliança para o Progresso fossem destinados diretamente aos estados.

No relatório, Kissinger deixa clara a frustração com as tentativas infrutíferas de agendar um encontro com Jânio Quadros. Em determinado ponto do documento, resume sua perplexidade com o ex-presidente: “Quadros é um enigma.”

No dia 7 de junho, o emissário de Kennedy reuniu-se com o governador Carvalho Pinto (1910-87), que insistiu na ideia de que o futuro do Brasil dependia do resultado da próxima eleição paulista. Segundo o governador, disputavam dois demagogos, Jânio e Ademar de Barros, e um “homem honesto” (nas palavras dele), José Bonifácio Coutinho Nogueira, seu candidato. A conversa fluiu, e Kissinger saiu bem impressionado com Carvalho Pinto, que àquela altura despontava como um futuro presidenciável. Em suas notas, registrou: “Pinto parece uma pessoa que seria uma boa aposta para os Estados Unidos bancar.”

Dos demais encontros do dia, o mais relevante foi a longa conversa com o deputado federal Herbert Levy (1911-2002), um dos líderes da União Democrática Nacional (UDN), que não chegou a despertar o entusiasmo de Kissinger. As impressões do americano sobre a política brasileira eram crescentemente pessimistas:

Minha impressão pessoal é que Goulart está longe de ser o incapaz que a embaixada [americana] me descreveu no primeiro dia. Penso que ele está jogando com muita habilidade: por um lado, paralisa o Parlamento, e, por outro, radicaliza a vida política, ao encorajar o movimento sindical [...]. Finalmente, está tentando dividir o Exército e apelando para sua ala nacionalista, com sua chamada Política Externa Independente. Se pusermos todos esses componentes juntos, ele pode emergir dessa crise como um homem forte.

A procura por aliados de direita ou do centro que fossem viáveis eleitoralmente e também do agrado dos americanos parecia malograr: “Ninguém que eu tenha encontrado até agora dos grupos moderados e conservadores (com a possível exceção de Carvalho Pinto) parece saber o que quer ou ser capaz de o realizar.” E deve ter colocado em alerta a cúpula do governo americano, ao falar no relatório sobre a perspectiva de uma vitória comunista no Brasil: “Se o Exército está realmente dividido, as coisas podem se dirigir rapidamente na direção de algum tipo de titoísmo.[4] Outra possibilidade é, naturalmente, o caos completo. Uma outra remota opção seria uma guerra civil.”

No dia 8, sexta-feira, Kissinger conversou com José Bonifácio Nogueira (1923-2002), o candidato de Carvalho Pinto ao governo paulista que pareceu a Kissinger o mais lúcido dos três postulantes e um dos políticos brasileiros mais inteligentes. Com uma ressalva: “Ele é demasiadamente insípido, demasiadamente pedante e, talvez, demasiadamente escrupuloso.” Bonifácio Nogueira, naturalmente, situou-se como um político de centro e descreveu o Exército como uma instituição dividida entre anticomunistas e nacionalistas extremados.

À noite, o deputado federal Antônio Sylvio Cunha Bueno (1918-81), do Partido Social Democrático (PSD), ofereceu a Kissinger um coquetel, em que esteve presente o general Nelson de Melo (1899-1989), chefe do Segundo Exército, que dias depois se tornaria ministro do Exército. O general não perdeu a oportunidade para desabafar: queixou-se de que os Estados Unidos tratavam o Brasil, um fiel aliado, como se fosse a Nicarágua. Kissinger assinalou no relatório: “Por alguma razão, os brasileiros sempre usam a Nicarágua como o país com o qual não querem ser comparados, nunca Honduras ou El Salvador.” Em tom mais sério, registrou que o general Melo estimava que o Exército estaria unido em caso de uma crise. Nesse momento, o anfitrião chegou na roda de conversa e Kissinger o questionou sobre Quadros. Cunha Bueno não hesitou: “Se vamos ter um ditador, é melhor que seja uma pessoa estável a um louco.” O americano observa: “Em outras palavras, o Brasil prefere ter uma ditadura militar a Quadros.”

No sábado, dia 9, depois de receber um grupo de sindicalistas no hotel, Kissinger encontrou-se com o comentarista internacional de O Estado de S. Paulo, que ele denomina padre Boer, provavelmente se referindo a Nikolas Boer (1914-87), professor de educação da USP e articulista do jornal, que lhe descreveu um quadro de divisão nas Forças Armadas, com potencial para empurrar o Brasil para o caminho de Cuba.

Com essa perspectiva, que certamente não era do seu agrado, Kissinger partiu para Belo Horizonte, e de lá para Ouro Preto, agora numa jornada mais turística que política.

"Uma das cidades mais charmosas em que já estive.” Assim, Kissinger descreveu Ouro Preto no relatório confidencial. Para ele, a cidade histórica exibia “algumas das características de Roma, apenas com cores muito mais vibrantes”. Lá, o emissário americano travou novos conhecimentos. Entre eles, com uma amiga de Tavares, cujo nome não cita, “uma senhora extraordinariamente bonita, muito imprudente”, que seguia para sua quarta separação matrimonial. Juntou-­se ao grupo o chefe de cerimonial do estado de Minas – e a longa noitada terminou em um bar, diante de uma garrafa de vinho, onde não faltaram histórias de fantasmas. Uma das histórias envolvia um caso de amor infeliz, um assassinato e um suicídio. Kissinger chegou a se convencer de que os anfitriões, de fato, acreditavam nas assombrações que descreviam com detalhes: o suicídio por enforcamento do assassino, o rosto esverdeado do cadáver.

Os confrades de mesa o levaram até a entrada da mina onde se teria passado parte da história. Iriam pregar-lhe um trote, que não aconteceu devido à infalível impontualidade brasileira. Depois da visita à mina, no caminho de volta para o hotel, a turma se deparou com o atrasado estudante contratado para assustar o convidado, correndo na direção oposta, com uma corda no pescoço e o rosto pintado de verde.

O domingo, dia 10 de junho, foi de passeios pela cidade. Enquanto isso, no Chile, os brasileiros venciam os ingleses por 3 a 1, com uma exibição fenomenal de Garrincha, que marcou dois gols. O Jornal dos Sports não resistiu ao clichê: “Foi uma exibição para inglês ver.” Em O Globo, Nelson Rodrigues, com muito mais contundência, resumiu: “Feliz do povo que pode esfregar um Garrincha na cara do mundo!” O Brasil jogaria nas semifinais contra o dono da casa.

Na segunda-feira, dia 11, já de volta a Belo Horizonte, Kissinger visitou o reitor da Universidade de Minas Gerais (futura UFMG), Orlando Magalhães Carvalho (1910-98), um dos fundadores da UDN no estado. Carvalho reclamou que a greve estudantil que enfrentava naquele momento era um exemplo da desintegração da autoridade no país. O encontro seguinte foi com Milton Campos (1900-72), também da UDN e candidato derrotado por Goulart na eleição para vice-presidente (que, na época, era escolhido em separado do voto para presidente). Kissinger o descreveu como um homem suave e “irritantemente vago, como todos os líderes da UDN que conheci”. Em certo ponto da conversa, Campos disse que o Brasil precisava de um homem forte. Kissinger observa no relatório: “Mas ele não soube dizer onde aquele homem forte poderia ser encontrado.”

No mesmo dia, o americano voou para Brasília – sem a companhia de Tavares, talvez para alívio do cicerone. Na capital federal, o primeiro encontro foi na casa do reitor da Universidade de Brasília, Darcy Ribeiro (1922-97), no qual esteve presente o chefe da Casa Civil, Hermes Lima (1902-78), que leu um pequeno discurso, defendendo que os recursos da Aliança para o Progresso fossem dirigidos ao governo federal e não entregues aos estados. A conclusão que constou no relatório de Kissinger foi muito negativa, sem uma palavra sobre Darcy Ribeiro:

Parece-me que a indeterminação dos brasileiros, combinada com a aparente falta de liderança das forças democráticas, traz péssimos presságios. Parece-­me que, se algum demagogo chegar a controlar a máquina de governo – particularmente se o fizer de maneira legal, de modo que o Exército fique paralisado –, as possibilidades de uma virada de extrema esquerda aumentam muito. O dogmatismo de um homem tão próximo ao presidente como Hermes Lima é muito inquietante.

No dia seguinte, Kissinger passeou pela cidade com Georges Daniel Landau (1934-2015), um ex-aluno de Harvard, e Wilson Reis Netto (1923-2001), arquiteto da equipe de Niemeyer. Depois, deu uma palestra na sede provisória do Itamaraty, no atual prédio do Ministério da Saúde. Depois do almoço conheceu os palácios do Planalto e da Alvorada. A avaliação sobre o último foi impiedosa: “Como todas as criações de Niemeyer, é um edifício imensamente impressionante por fora e insuportável por dentro. Sua combinação de grandeza e desumanidade faz com que seja inconcebível que alguém possa aguentar nele morar.”

Depois, visitou o Congresso, onde se reuniu com alguns senadores, “a maior parte da UDN”. A conversa foi desoladora. Todos coincidiam na necessidade de reformas, mas não conseguiam definir a natureza das mudanças. Ansiavam por um improvável homem forte com convicções democráticas e não tinham ideia de como evitar o caos que eles mesmos previam.

Kissinger também conversou com a esquerda. Na casa do deputado federal Luiz Fernando Bocayuva Cunha (1922-93), do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), reuniu-se com o anfitrião e os deputados Sérgio Magalhães (1916-91), também do PTB, e Saturnino Braga (1931-2024), do PSB. Os três procuraram convencer Kissinger da conveniência de os Estados Unidos apoiarem as reformas no Brasil e mesmo criar um grupo de especialistas para estudar as propostas da esquerda, na expectativa de que se reconhecesse nelas o rumo adequado. Saturnino Braga chegou a mencionar a Iugoslávia como um modelo a ser adotado, por não se subordinar à União Soviética. As conclusões de Kissinger são generosas com a esquerda brasileira, mas as recomendações para o governo americano são inflexíveis:

O dilema do Brasil talvez seja que a extrema esquerda é o único grupo que sabe bem o que quer e ao menos tem alguma ideia de como o conseguir. Ao mesmo tempo, tenho a impressão de que as reformas que eles [os políticos de esquerda] aspiram vão muito além do conjunto algo pragmático do que entendemos como reformas sociais ou das medidas específicas que propõem. Sua tendência natural é anticapitalista, e porque nos consideram [os Estados Unidos] a epítome do capitalismo, ainda que progressista, sua política externa sempre será dirigida contra nós em alguma medida. Nossa melhor política será lidar com eles de forma pragmática, apoiar reformas específicas, mas não mostrar excessiva tolerância quando agirem de forma contrária aos nossos interesses internacionais.

O tour de Kissinger pelo Brasil continuou em Salvador, onde ele desembarcou em 13 de junho, quarta-feira. A comparação com Brasília tornou-se inevitável.

A nova capital federal lhe parecera marcada por uma tensão não resolvida entre planejamento e organicidade. Era monumental, mas impessoal; ordenada, mas sem naturalidade. Kissinger descreveu como “fantástica” a cidade erguida em apenas quatro anos sob um céu de azul translúcido, com prédios cintilando ao Sol. Mas, passada a impressão inicial, sentiu o desconforto de um espaço excessivamente coreografado, com uma arquitetura que parecia exigir que a vida seguisse as “rígidas ideias de Niemeyer sobre o bem viver”:

Brasília aparenta ser uma exposição industrial. É impressionante, mas é terrivelmente pública com todas suas janelas abertas. Não tem calçadas; tampouco sentido de comunidade. É tão plenamente planejada que perdeu toda espontaneidade e, portanto, todo o mistério.

Em Salvador, cidade que ele achou parecida com Nápoles, Kissinger viu algo que Brasília não oferecia: um espaço que permitia desvios, improvisos, apropriações inesperadas. Ali, seu primeiro encontro foi com o governador baiano, Juracy Magalhães (1905-2001), militar e prócer da UDN, com quem teve uma conversa amena e com muitas coincidências de pontos de vista. Kissinger lamentou que Magalhães tenha dado sinal de interesse em deixar a vida pública, pois se tratava de “um líder nacional bem-­intencionado, sério, dedicado, pró-­americano, que entende os perigos pela frente”. A dedicação de Juracy Magalhães aos Estados Unidos seria recompensada com a nomeação para ser o primeiro embaixador do Brasil em Washington após o golpe de 1964, quando se notabilizou pela infame frase: “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil.”

No restante do dia 13, Kissinger passeou pela cidade com um funcionário do governo americano dedicado a promover no Brasil o soft power dos Estados Unidos. Nas reflexões sobre o poder de sedução da diplomacia americana para os chefes em Washington, desancou o trabalho que estava sendo feito e os diplomatas americanos em geral, com a notável exceção de Lincoln Gordon. Os profissionais destacados para acompanhá-lo haviam sido úteis e eficientes na organização da viagem, mas Kissinger, com sua tradicional veia crítica, não poupou adjetivos: “Pedantes, insossos, burocráticos e sem imaginação.” Ilustrou o julgamento com o caso de seu acompanhante em Salvador, um diplomata vindo originalmente da área publicitária. Descreveu-o como “cansativo, pomposo e moralista”, capaz até do desatino de pregar a Juracy Magalhães uma lição sobre o “caráter brasileiro”. A arrogância, refletiu Kissinger, longe de impressionar, era malvista pelos interlocutores locais e apenas dificultava a promoção dos interesses americanos no Brasil.

Naquele dia, na partida pelas semifinais, o Brasil derrotou o Chile por 4 a 2, em outra grande exibição de Garrincha, que marcou dois gols. O jornal El Mercurio do dia seguinte perguntou: “Garrincha, de que planeta vens?” Contudo, as incertezas voltaram a assombrar os brasileiros. No finalzinho da partida, Garrincha acertou um pontapé na bunda de um jogador chileno. O juiz não percebeu, mas o bandeirinha uruguaio Esteban Marino viu e Mané acabou expulso. O craque ficaria – pendente de um julgamento, pois na época a suspensão não era automática – fora da final. O afastamento de Pelé no início do campeonato e agora, na final, da grande estrela da Copa pareciam ser prenúncios de um desastre para a Seleção.

No dia 14, Kissinger chegou ao Recife e impressionou-se muito desfavoravelmente com as favelas da cidade. “A miséria e a imundice se aproximam das condições indianas”, escreveu. Avaliou que o Nordeste seria a parte do Brasil com maior potencial para uma revolta popular. Com sua visão europeia impregnada de determinismo geográfico recorreu, de novo, à comparação com a Itália para explicar o Brasil:

Há muitas semelhanças entre o Brasil e a Itália. [...] O Sul [da Itália] é realmente um país distinto do Norte. O Norte é rico e energético; o Sul empobrecido, mas com graça e um feroz sentido de lealdade. No Brasil, é o Sul que é industrializado, e o Norte, subdesenvolvido.

Acrescentou, ainda, que “em muitas de suas características, os brasileiros são muito similares aos italianos”.

No dia seguinte, tentou falar com Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas, mas houve um desencontro. Conseguiu, porém, encontrar-­se com Gilberto Freyre (1900-87), cuja entrevista marcada para o dia anterior não acontecera. A conversa logo enveredou para a política, tendo como mote a provável vitória de Miguel Arraes na eleição para o governo do estado em outubro (o que acabou ocorrendo). Freyre resumiu os problemas brasileiros na falta de lideranças adequadas, sendo o grande desafio encontrar algum tipo de líder democrata.

Voltando-se para um tema mais ameno, ambos coincidiram em maldizer Brasília, ainda que preservando Niemeyer. “O paradoxo que uma pessoa tão humana tenha concebido uma capital tão desumana”, resumiu Kissinger. Contou ainda que Freyre soltou uma boutade, que não disfarçava a vaidade, ao dizer que, se tivesse de se exilar, preferia fazê-lo em Santa Helena (para onde Napoleão foi banido) do que em Brasília.

Um almoço com membros do consulado e um empresário pernambucano foi organizado. Eles garantiram a Kissinger que Celso Furtado, então diretor da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), era um comunista. O empresário pertencia ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), fundado no ano anterior para, alegadamente, “defender a democracia”.

Pela conversa, Kissinger deduziu que o Ipes era um “grupo da extrema direita”. E era mesmo, tendo em seus quadros, inclusive, o general Golbery do Couto e Silva, que viria a ser um dos cérebros do regime militar. Kissinger não sabia, mas quem ajudava a financiar o instituto era seu amigo Lincoln Gordon, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil.

Ao contrário do que desejaria o empresário, o encontro com o próprio Celso Furtado (1920-2004), ainda no Recife, foi extremamente positivo, gerando, inclusive, um raro elogio por parte do emissário americano:

Furtado é talvez o funcionário brasileiro mais impressionante que conheci. Sem dúvida é o mais competente tecnicamente. Ele é uma das poucas pessoas que tem uma ideia clara de para onde está indo. Se de fato é comunista (como alguns garantem), que Deus tenha piedade de nós, porque ele é muito duro, inteligente e implacável.

A final da Copa, entre Brasil e Tchecoslováquia, estava marcada para o 17 de junho, dali a dois dias. O bandeirinha Esteban Marino, que reportara ao árbitro a agressão de Garrincha ao adversário, desapareceu do Chile e não apareceu no Uruguai, ou em nenhuma outra parte. Sem seu testemunho, o tribunal da Fifa decidiu não suspender Garrincha da final. Depois da partida, finalmente localizaram Esteban que, segundo consta, estava 10 mil dólares mais rico.

De volta ao Rio, Kissinger passeou pela Baía de Guanabara na lancha do empresário Israel Klabin e jantou com o ministro da Fazenda, Walther Moreira Salles (1912-2001), que o americano descreveu assim: “Um banqueiro muito suave, muito inteligente, extremamente rico, um amigo íntimo de Nelson Rockefeller e que foi embaixador nos Estados Unidos duas vezes. Sua casa é uma das mais bonitas que já vi, muito moderna e arrojada.” O ânimo político de Moreira Salles, porém, foi definido por Kissinger como “extremamente pessimista”: o banqueiro achava que o país viveria “um longo período de instabilidade” e também “não descartava um golpe dos comunistas”.

Naquela tarde, o Brasil derrotou a Tchecoslováquia por 3 gols contra 1 e sagrou-se bicampeão mundial de futebol. Para Nelson Rodrigues, “foi a vitória do homem brasileiro, ele sim, o maior homem do mundo. Hoje o Brasil tem a potencialidade criadora de uma nação de napoleões”. Kissinger não esteve alheio à festa da vitória:

Quando voltei ao meu hotel, desatou-se uma loucura coletiva. O Brasil acabara de ganhar o campeonato de futebol. Fogos de artifício eram disparados de quase todas as janelas. Toneladas de papel caíam em cascatas nas ruas, onde eram incendiadas. Grupos de samba começaram a desfilar, e uma enorme procissão se formou, bloqueando todo o trânsito. Um conhecido brasileiro atravessou o pandemônio até o hotel. Insistiu que eu fosse ver o Carnaval no Centro da cidade. Ocorria uma festa selvagem. O tráfego parou completamente e vários grupos de samba em diferentes uniformes marchavam com instrumentos muito rudimentares, mas com um enorme sentido de ritmo. Uma das músicas dizia: “Não temos feijão... Não temos açúcar... Mas temos a Copa do Mundo.” O ponto mais doce da canção era para ser cantada sem malícia.

A cena tocou em algo mais profundo em Kissinger. Ele era fascinado por futebol desde a infância, quando enfrentou riscos para acompanhar os jogos do time de sua cidade na Alemanha nazista, pois judeus foram proibidos de frequentar os estádios. Depois da guerra, uma de suas primeiras providências ao retornar à cidade natal foi se dirigir ao estádio – agora como soldado americano. Ele esteve presente em pelo menos sete finais de Copa do Mundo. Na primeira, no México, em 1970, observou estupefato e agora ao vivo o “estilo exuberante” (nas suas palavras) do futebol brasileiro liderado por Pelé. Mais tarde, seria um dos arquitetos do convite para o rei jogar no New York Cosmos. Em 1986, afirmou, no jornal The Washington Post, que o futebol condensava os mesmos elementos da política: tensão entre estrutura e improviso, entre tática coletiva e talento individual. Em 1999, em um artigo sobre Pelé para a revista Time, repetiu a associação, aplicando-a ao caso do Brasil: a fascinação pela leveza coreografada do jogador era temperada pela crítica à vertigem do individualismo. Jogadores brilhavam mais pela capacidade de improvisar do que pelo respeito a esquemas táticos.

Essa compreensão seria difícil de dissociar da imagem que formara da política brasileira na visita de 1962. O relatório apresenta um teatro de personalidades vibrantes, instituições fracas e compromissos instáveis, como um time com alguns jogadores excepcionais, mas indisciplinado e refém da própria desorganização. Não por acaso, Kissinger também comparou a política brasileira em 1962 às “lutas pelo poder dos príncipes italianos da Renascença”: era um teatro de ambições individualistas, com um cenário de alianças voláteis.

No dia seguinte à consagração brasileira no Chile, em 18 de junho de 1962, segunda-feira, Henry Kissinger regressou aos Estados Unidos convencido de que a Aliança para o Progresso não cumpria seus objetivos no Brasil e que seria difícil formular qualquer programa de ajuda econômica que se convertesse em influência política:

É bastante fácil observar que a Aliança para o Progresso não está funcionando. Muito menos claro, contudo, é identificar que tipo de programa de ajuda americana poderia ter êxito ou como, no Brasil, se poderia converter a ajuda econômica em influência política. [...] Embora exista descontentamento econômico, este não é a principal fonte da dificuldade. Para a ajuda econômica aliviar a agitação política, é necessário que os beneficiários dessa ajuda estejam comprometidos com uma política moderada e democrática. É preciso que haja um grupo dirigente que compartilhe alguns de nossos propósitos e concorde com uma apreciação comum da realidade. No Brasil, porém, tais condições não existem.

Kissinger deduz que o reformismo da esquerda avançava com convicção, enquanto o centro e a direita revelavam-se incapazes de formar uma alternativa robusta, comprometida tanto com a estabilidade quanto com a democracia. O país que dera ao mundo Pelé e Garrincha revelava, na política, um centro e uma direita sem craques e torcida. Para ele, em vista da perspectiva de uma ditadura de esquerda, não fazia sentido deixar de apoiar as forças de extrema direita, uma vez que inexistiam setores mais moderados ou de centro: “A real dificuldade é que os elementos democráticos ainda devem ser criados.” A conclusão do relatório é anticlimática:

Os Estados Unidos são bastante apreciados no Brasil, e Kennedy é extremamente popular. O problema é desenvolver um grupo de pessoas sinceramente dedicadas à democracia; usar o bom senso para separar os amigos dos inimigos e ter a determinação de apoiar nossos amigos no difícil caminho para a estabilidade. Isto é uma série infeliz de platitudes [e], honestamente, não tenho uma ideia clara de como conseguir esse objetivo.

Nesse contexto, se esgotaria rapidamente a paciência dos Estados Unidos com a espera por um centro ou uma direita no Brasil que fosse viável politicamente e confiável aos olhos dos americanos. Já no dia 30 de julho de 1962 – pouco mais de um mês depois da viagem de Kissinger –, o embaixador Lincoln Gordon se encontrou com John Kennedy na Casa Branca. O presidente americano decidiu “fortalecer a espinha dos militares” brasileiros, instruindo que se indicasse a eles – discretamente – que Washington não se oporia a uma intervenção contra João Goulart.

Na ocasião, Gordon também conseguiu a aprovação de um repasse de 5 milhões de dólares para financiar candidaturas conservadoras nas eleições estaduais, uma ingerência direta na política interna brasileira. Essa reunião no Salão Oval pode ser vista como o momento em que os Estados Unidos perderam os escrúpulos de apoiar os setores golpistas no Brasil.

Não há evidência concreta de que o relato de Kissinger tenha contribuído diretamente para a mudança de política, mas essa é uma hipótese que não pode ser descartada, tanto mais se considerada a proximidade das datas.

O cancelamento da visita de Kennedy ao Brasil foi uma das primeiras sinalizações públicas de que os americanos tinham chegado à conclusão de que Godot afinal não chegaria ao Brasil. É desanimador lembrar que isso ocorreu quando os Estados Unidos eram governados por pessoas progressistas no espectro político daquele país.

Pouco depois, Kissinger romperia com a administração Kennedy, para só se reaproximar dos democratas na gestão de Lyndon Johnson, como assessor extraoficial do governo, no contexto da Guerra do Vietnã. Nas primárias de 1968, apoiou Nelson Rockefeller em sua nova tentativa de se tornar candidato presidencial pelo Partido Republicano. Quem venceu as eleições daquele ano foi o republicano Richard Nixon, que convidou Kissinger para comandar a política externa americana. O tom de desânimo e estupefação que permeia o relato da viagem de 1962 ao Brasil soa hoje como um prelúdio de dois desprezos: sua indiferença futura com relação aos latino-americanos e sua falta de compromisso com os direitos humanos e a democracia ao redor do mundo.


[1] A versão digital do relatório está disponível em: ­https://collections.library.yale.edu/catalog/11786531.

[2] Walther Moreira Salles é pai do fundador da piauí. (N. R.)

[3] Todas as citações do relatório de Kissinger foram traduzidas pelos autores deste texto, que também corrigiram os nomes próprios grafados incorretamente no documento original.

[4] Referência ao ditador Josip Broz Tito (1892-1980), que adotou o socialismo na Iugoslávia, mas de modo independente da influência da União Soviética. Essa posição levou a Iugoslávia a assumir, durante a Guerra Fria, a liderança de um movimento de países que não se alinhavam nem à União Soviética nem aos Estados Unidos.


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É historiador e cônsul-geral do Brasil em Atlanta. Publicou Euclides da Cunha: uma biografia (Todavia)

É doutor em relações internacionais pela Universidade de Brasília e trabalha no Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos