questões nem tão diabólicas
Alexandra Farah, especial para a piauí Abr 2026 08h56
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Amy Odell, autora de Anna – A Biografia, de 2022, fez um post interessante em seu perfil no Instagram na semana passada. Ela questiona: Anna Wintour deixou mesmo a direção da Vogue americana ou apenas parou de exercer as funções que já não queria mais? Em setembro passado, ela anunciou sua substituta no comando editorial da revista, Chloe Malle. Jornalista com quase duas décadas de Vogue, Chloe é filha do cineasta francês Louis Malle e da atriz Candice Bergen (que, a essa altura meio mundo já recordou, interpretou uma personagem que ocupa esse cargo no seriado Sex and the City, na temporada em que Carrie Bradshaw começa a escrever para a Vogue). Na vida real, Anna Wintour, com 76 anos, permanece como diretora global de conteúdo da Condé Nast, supervisionando as revistas do grupo, exceto a The New Yorker. Estão sob sua conduta todas as edições mundiais de publicações como Vogue, GQ, Glamour e projetos estratégicos como o Met Gala, que arrecada fundos para o departamento de moda do museu Metropolitan, em Nova York.
Como aquelas turnês de despedida que projetam ainda mais uma banda, Anna Wintour tem brilhado nessa fase de aterrissagem da Vogue. “É a saída de cargo mais movimentada da história da moda”, escreveu a biógrafa. Recentemente, Anna foi fotografada em uma festa sem seus tradicionais óculos de sol ao lado das modelos Kendall Jenner e Gigi Hadid e caminhou pelo tapete do desfile de estreia de Demna na Gucci. No Oscar deste ano, apresentou, ao lado da atriz Anne Hathaway, os prêmios de “melhor figurino” e “melhor cabelo e maquiagem”, e topou fazer uma referência divertida ao filme O Diabo veste Prada. Anne Hathaway, que no longa representa a assistente Andy, pergunta a Anna Wintour se ela gostou de seu vestido. Anna ignorou a pergunta com a cara de desdém que lhe é característica e seguiu direto para anunciar os indicados, encarnando a frieza de Miranda Priestly, personagem de Meryl Streep que é inspirada nela mesma. No final, ainda chamou Anne Hathaway de Emily, repetindo a piada clássica do longa. No início do mês, Anna dobrou a aposta na piada. Apareceu ao lado de Meryl na capa da própria Vogue, com grande repercussão.
É algo novo ver Anna brincando publicamente com a ideia de ter sido, sim, referência para a temida editora fictícia do filme. No final de 2025, em entrevista a David Remnick no podcast The New Yorker Radio Hour, a jornalista falou sobre a reorganização da Vogue e, com humor, reconheceu que O Diabo era uma caricatura, “mas não totalmente inventada”. “Escolhi olhar o filme pelo lado bom e, às vezes, acho até que tenho que agradecer”, afirmou.
O longa só ajuda a ampliar sua fama. O lendário colunista da Vogue André Leon Talley, morto em 2022, foi quem melhor resumiu: “Se a moda é uma igreja, a Vogue é a Bíblia, e Anna Wintour, o papa.” A frase foi dita por ele no documentário A Edição de setembro, de 2009, que acompanhou a produção da edição mais importante da revista a cada ano, a que lança as coleções de outono-inverno. Naquela época, o doc funcionou como uma resposta indireta ao fenômeno O Diabo veste Prada, um filme que Anna, durante algum tempo, tentou fingir que não existia. Quando o livro que gerou o filme, de Lauren Weisberger, foi lançado em 2003, a jornalista manteve o silêncio.
Anna, britânica, filha de Charles Wintour, editor linha-dura do jornal Evening Standard de Londres por quase duas décadas, dirigiu (dirige?) a Vogue americana por 37 anos. Desde o início, a reputação de insensível e brilhante a acompanha. Enquanto as pessoas murmuravam sobre seu pragmatismo, o público das revistas por onde passava só crescia. Anna sempre sonhou com a publicação, e foi trilhando seu caminho ao topo. Nos dois anos que dirigiu a Vogue britânica ganhou o apelido de “Nuclear Wintour”. A razão: seis meses depois de sua chegada, demissões e reformas radicais, não havia rastro da “antiga” revista. Ao assumir a edição americana, em 1988, uma única capa mudou tudo. A modelo, fotografada não mais em close-up, aparecia quase de corpo inteiro usando um top de alta-costura (Christian Lacroix) e uma calça jeans de 40 dólares. Luxo e um jeans barato juntos? Na época, escândalo, revolução! E assim, edição por edição, tornou-se uma das figuras mais poderosas que a indústria já produziu.
O impressionante é que nenhuma outra executiva e nenhuma outra empresa de comunicação no mundo motivou tantos filmes, livros e séries de televisão sobre si mesma. A Vogue acumula mais de trinta produções audiovisuais dedicadas ao seu universo – de Cinderela em Paris (1957) à série In Vogue: The 1990s, lançada no Disney+ em 2024. A lista inclui filmes de ficção e documentários sobre editores, estilistas e eventos ligados à revista. Nem o New York Times, nem a Time, nem a Rolling Stone chegam perto – e nenhum dá título a uma música de Madonna.
E depois vem o esquadrão. O diabo veste Prada multiplicou as Emilys, como as assistentes de Miranda no filme são chamadas. Antes de 2006, ser jornalista de moda, e principalmente, fazer revista de moda, era um trabalho reservado a poucos. Até que Andrea Sachs aparece na tela. Primeiro desajeitada, mal vestida e jurando estar no lugar errado. Logo começa a correr por Manhattan com um Starbucks em mãos enquanto seus looks ficam cada vez mais fashionistas. A transformação da garota que não entende de moda mas consegue chegar ao topo deu vazão a uma fantasia de milhões em busca de um trabalho glamuroso. Se para ser Gisele precisa nascer linda e com 1,80 metro de altura, para ser Voguette era necessário apenas sobreviver a uma chefia cruel. Todas queriam ser jornalistas de moda. Ou como a personagem de Emily Blunt, outra assistente de Miranda, diz: “um milhão de garotas morreriam para estar no nosso lugar.” A própria Miranda completa: “não seja tola, todos querem ser nós.”
Por que uma revista fascina tanto e por tanto tempo? A Vogue nasceu como coluna social em 1892, quando Arthur Baldwin Turnure fundou em Nova York um jornal semanal voltado para a elite. Cobria bailes, eventos de gala, etiqueta e teatro, ou seja, fofocas elegantes para e sobre gente rica. Turnure morreu em 1906. Três anos depois, o empresário Condé Montrose Nast comprou a publicação e transformou-a numa « revista de classe”. Em vez de falar com todo mundo, a Vogue falaria com um nicho – mulheres que gostam de moda, beleza e estilo de vida. Contratou os melhores fotógrafos e ilustradores e iniciou a expansão internacional. Em 1916 surgiu a edição britânica; em 1920, a francesa. A brasileira estrearia mais tarde, em 1975, e hoje há 28 edições diferentes no mundo (onze em operação da própria Condé Nast e dezessete por licenciamento ou joint-venture).
Em 1932, a revista publicou uma das primeiras capas com foto colorida da história. Quando morreu, em 1942, Nast havia transformado o jornal de sociedade numa instituição mundial. Em 1959, Samuel I. Newhouse, magnata da mídia americana, adquiriu o grupo Condé Nast Publications por cerca de 5 milhões de dólares. Dizem que a compra foi um presente de aniversário para sua esposa, Mitzi Newhouse, leitora assídua de Vogue.
Desde o início, muito do prestígio da publicação vem da curadoria, do que ela escolhe ou não mostrar. Mesmo hoje, quando o Instagram é a mídia mais poderosa da moda, uma capa, ou uma citação nas páginas da Vogue legitima estilistas, modelos e marcas. A influência da Vogue é, e sempre foi, maior que sua circulação. E mesmo assim não está fácil para ninguém: a partir deste ano, nos Estados Unidos, a Vogue vai ter apenas oito edições impressas. Calcula-se que lá, entre papel e digital, circule 1 milhão de cópias de Vogue a cada edição. E assim, se manter no centro da conversa, mesmo em forma de sátira como em O diabo veste Prada, ajuda a sustentar a posição de árbitra do bom gosto. Certamente Anna Wintour sabe disso e talvez essa seja a razão de ela estar circulando tanto por lugares antes inimagináveis. E, quem diria, ajudar a promover a aguardadíssima sequência do filme.
“Desta vez, querido, eles gastaram o dinheiro!”, disse Meryl Streep ao aparecer no The Late Show with Stephen Colbert para divulgar O Diabo veste Prada 2. O filme chega aos cinemas em 1 de maio com orçamento estimado em 150 milhões de dólares, mais de quatro vezes os 35 milhões do original. Quando estreou em 2006, o estúdio tratou o projeto como um “filme de garotas”, contou a atriz. Mas a surpresa veio nas bilheterias: a história da editora durona Miranda Priestly e de sua assistente intelectual anti-fashion Andrea Sachs arrecadou só na bilheteria dos cinemas 326,6 milhões de dólares, quase dez vezes o investimento.
Além da literatura e do cinema, a história que se passa nos bastidores da Runway, a revista fictícia inspirada da história que Lauren Weisberger publicou em 2003, após um ano como assistente pessoal de Wintour, chega ao Brasil em sua versão musical. O espetáculo estreia no Teatro Santander, em São Paulo, em fevereiro de 2027. O país será o segundo a receber a montagem, que vem direto do West End londrino. Desde a estreia, no final de 2024, a produção já levou mais de 1 milhão de pessoas ao teatro Dominion – entre elas, esta que vos escreve. Me diverti, mas saí de lá com a sensação de ter assistido a um retrato histórico, quase melancólico, de uma época antes de todas as assistentes terem rede social. Lá, Miranda é interpretada por Vanessa Williams, que já viveu outra editora implacável, Wilhelmina Slater, na série Ugly Betty. A trilha original é de Elton John. A direção brasileira será de José Possi Neto e as audições começam no mês que vem.
Enredos ambientados no universo da moda sempre fizeram sucesso. Cinderela em Paris, com Audrey Hepburn, ajudou a glamorizar o trabalho em revistas e estúdios fotográficos. Blow-Up (1966), de Michelangelo Antonioni, acompanhou um fotógrafo inspirado em David Bailey no auge do Swinging London. Prêt-à-Porter (1994), de Robert Altman, satirizou a semana de moda de Paris. Zoolander (2001) ironizou a obsessão da indústria por aparência. Rir da moda é fácil, até porque a própria moda, com suas poses e excessos, se leva muito a sério e colabora com o deboche.
Foi na virada do século que o gênero chamado fashion film ganhou fôlego de verdade. A popularização das câmeras digitais possibilitou entrar em ambientes antes inacessíveis: redações, ateliês, bastidores de desfiles. Ao mesmo tempo, a internet globalizou a indústria. As supermodelos Naomi Campbell, Cindy Crawford e Linda Evangelista eram conhecidas pelo primeiro nome. Gisele estava no auge. O fast fashion prometia democratizar o acesso às tendências e os conglomerados LVMH e Kering transformavam estilistas em celebridades globais e semanas de moda em eventos acompanhados nos quatro cantos do planeta.
Com público crescente e novas ferramentas de produção, proliferaram os documentários de moda. Entre eles, Marc Jacobs & Louis Vuitton e Lagerfeld Confidencial, ambos de 2007; Valentino: o último imperador, de 2008; e Diana Vreeland: The Eye Has to Travel, de 2012, este imperdível porque retrata a personalidade extravagante da “primeira editora de moda” moderna, Diana Vreeland, que, em Nova York entre 1937 e 1971 foi a manda-chuva, primeiro na Harper’s Bazaar e depois na Vogue. Após deixar a redação, Diana assumiu o departamento de moda do Metropolitan Museum of Art e ajudou a consolidar o baile beneficente do Costume Institute, hoje conhecido como Met Gala. Ex-bailarina, perspicaz e dona de frases memoráveis como “o que vende é esperança” e “pessoas que comem pão branco não têm imaginação”, foi em Diana Vreeland que Meryl Streep buscou o gesto de entrar na redação jogando casaco e bolsa na mesa da assistente, tão típico de Miranda Priestly. Apesar do jeitão excêntrico, colegas lembram que Diana era, no cotidiano, muito mais calorosa do que a glacial Anna Wintour.
Todos os filmes citados são ótimos, mas nenhum chegou aonde O Diabo veste Prada chegou, nem em bilheteria, nem no imaginário coletivo. Vinte anos depois do lançamento, o trailer da sequência bateu recorde do estúdio: 220 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas. Parte da longevidade pode ser explicada pelo fato de que o filme, dirigido por David Frankel e com roteiro de Aline Brosh McKenna, é ótimo. A trama é intrigante e todos os personagens são bons e ruins ao mesmo tempo. O elenco central é afiadíssimo: Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt, Stanley Tucci, todos de volta na sequência, que também terá Kenneth Branagh e Lucy Liu. Além disso, a história é uma ficção com os dois pés fincados na realidade, o que incita a curiosidade. E há ainda o fato de o livro e o filme serem, ao mesmo tempo, produto e motor de uma transformação maior. Nas últimas décadas, a moda deixou de ser “apenas” uma indústria de bens de consumo e passou a funcionar como entretenimento.
Prova disso é a cena do suéter de tricô azul cerúleo, que explica toda engrenagem da moda. Vamos relembrar: acompanhando a montagem de looks, Andrea ri da obsessão da redação por dois cintos aparentemente idênticos. Miranda interrompe o riso e começa uma humilhação em forma de aula. O suéter azul que Andrea veste, explica ela, não surgiu por acaso. Primeiro apareceu nas passarelas de Oscar de la Renta e Yves Saint Laurent (é ficção, mas poderia ser verdade). Depois foi reinterpretado por outros estilistas, chegou às lojas de departamento e acabou numa arara de liquidação – onde Andrea, ela presume, o encontrou.
“Esse azul representa milhões de dólares e incontáveis empregos”, diz Miranda. “E é cômico você achar que fez uma escolha que te coloca fora da indústria da moda quando, na verdade, o suéter que você está usando foi escolhido para você pelas pessoas desta sala.”
Pah. That’s all.
Em poucos minutos, o filme resume o efeito cascata, em que tendências nascem entre grandes estilistas até chegarem às massas. Na cena, ela explica como o gosto é fabricado.
Qual será a aula que Miranda vai entregar em O diabo 2? O que se sabe é que o roteiro trata da crise das revistas de moda em tempos de mídia social. Na vida real, a Vogue e suas concorrentes enfrentam desafios como circulação impressa que só cai, anunciantes que migram para o online, a internet que democratiza a informação de moda, influenciadores que disputam a atenção do público e incitam questionamentos de todos os tipos, entre eles, os valores do mundo que a revista ajudou a construir – corpos magros, brancos e ricos.
A Vogue ainda existe, ainda importa, mas como diz Michael Grynbaum, jornalista do New York Times e autor do livro Império da elite, que conta a história da Condé Nast, “existem agora milhares de influenciadores e canais de mídia social de onde as pessoas obtêm ideias sobre como se vestir e nenhum deles tem um guardião único”. E assim resta saber se a proliferação de filmes, séries e biografias demonstram vitalidade da moda ou é um sinal de preservação cultural, ou melhor, de que o fim do sistema como o conhecemos está próximo.