questões cinematográficas
Jun 2010 08h58
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“Ao sul da fronteira” termina com a célebre “South American Way”, lançada por Carmen Miranda e o Bando da Lua, nos Estados Unidos, em 1939, e regravada nas décadas seguintes por várias cantoras e cantores. Não identifiquei a versão usada no documentário, mas, qualquer que seja, a escolha da canção para encerrar o passeio de Oliver Stone pela América Latina é, em si mesma, significativa.
Quando Carmen Miranda terminou de cantar no programa de rádio, o cantor e bandleader Ruddy Vallée teria dito que gostaria de fazer um cruzeiro pela América do Sul e perguntado à “Señorita Miranda” se todas as mulheres eram parecidas com ela. As décadas passam, os estereótipos persistem. E em “Ao sul da fronteira”, Oliver Stone faz perguntas equivalentes à de Ruddy Vallée, eivadas de ignorância e prepotência. A diferença é que além de perguntar, afirma que haveria um jeito sul-americano unindo os governos de Hugo Chávez, ao qual é dado maior destaque, Evo Morales, Cristina Kirchner, Lula e outros presidentes.
No lugar de alegria, vatapá, caruru, munguzá, umbu e beijos ao luar, celebrados em “South American Way”, os líderes sul-americanos teriam em comum o projeto de criar uma república bolivariana, com parlamento e moeda únicos – tese que Lula endossa no documentário, e Oliver Stone adota, afirmando que mudanças estruturais em curso na América do Sul poderiam influir, através da crescente população americana de origem hispânica, nos próprios Estados Unidos.
No início de “Ao sul da fronteira”, George W. Bush e o Fundo Monetário Internacional são os vilões. Com a eleição de Barack Obama, em 2008, porém, o documentário perde esses antagonistas e fica meio sem rumo. A expectativa de mudanças, a partir da posse do novo presidente americano, dificultam sustentar a relevância do confronto com os Estados Unidos, apesar de continuar a ter papel central na retórica interna de Hugo Chávez e Evo Morales.
Dependendo de intérprete para entrevistar os líderes latino-americanos, Oliver Stone posa de repórter ingênuo, a quem tudo é permitido, dando-se ao direito de perguntar a Cristina Kirchner quantos pares de sapato ela tem. Revela, dessa maneira, sua faceta Ruddy Vallée, demonstrando a mesma atitude de superioridade dos americanos mais preconceituosos e a inconsequência própria de um turista em cruzeiro ao sul da fronteira.
Ao não levar em conta uma resposta de Raúl Castro, mesmo se possa ter sido dada apenas por conveniência política, Oliver Stone deixa claro seu despreparo como documentarista: “Nem os dirigentes cubanos são padrinhos, nem os presidentes latinoamericanos são herdeiros. Cada país tem a sua identidade.” As palavras do presidente cubano devem ter sido ignoradas por desmentirem o pressuposto básico de “Ao sul da fronteira”.
Como sempre em documentários como esse, há um intelectual de plantão, pronto para ser entrevistado e ter duas ou três frases pinçadas do seu depoimento para corroborar a tese do diretor. No caso, quem se presta a esse triste papel é Tariq Ali.