questões cinematográficas

“APROXIMAÇÃO” – MULTINACIONAL E NEO-NEOREALISTA

Estando em São Paulo na sexta-feira, com a avenida Paulista paralisada por uma manifestação de professores estaduais, entre uma elogiada comédia turca-alemã, “Soul Kitchen”, falada em alemão, imagino, e mais um filme de título mal traduzido, “Disengagement”, fiquei com a opção dirigida por Amos Gitai, uma produção alemã, italiana, israelense e francesa. 
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Estando em São Paulo na sexta-feira, com a avenida Paulista paralisada por uma manifestação de professores estaduais, entre uma elogiada comédia turca-alemã, “Soul Kitchen”, falada em alemão, imagino, e mais um filme de título mal traduzido, “Disengagement”, fiquei com a opção dirigida por Amos Gitai, uma produção alemã, italiana, israelense e francesa. Estou para ver comédia que resista à falta de compreensão dos diálogos.

, como “Mother – A Busca pela verdade”, é mais um filme em que o primeiro plano tem um certo poder encantatório. À diferença, porém, do sul-coreano, no multinacional não parece haver nenhuma relação lógica entre a cena inicial e o que vem depois. Ela não se integra ou se explica adiante; vale por si mesma. É um prólogo que trata de temas correlatos ao enredo, mas cujos dois personagens não participam do resto do filme.

Em uma tomada única, sem cortes, no corredor de um trem em movimento, uma holandesa-palestina e um francês-israelense se encontram no corredor. Há uma certa dubiedade, expressa no diálogo, em relação aos dois estarem, de fato, conhecendo-se naquele momento. Um policial se aproxima e pede, se bem me lembro em italiano, os passaportes deles; estranha que uma palestina e um israelense estejam viajando juntos; faz perguntas que à mulher parecem absurdas: “Qual é precisamente sua nacionalidade?”; “O que quer dizer ‘precisamente’?”, ela retruca. O confronto ameaça se agravar, mas acaba sendo contornado. O policial devolve os documentos e se afasta. Os rostos do casal se aproximam e o plano acaba em um intenso beijo. É uma bela abertura.

O roteiro da impressão de ter sido escrito, em parte, para atender às exigências de uma coprodução multinacional. Além da França e de Israel, a ação transita pela Itália, sem razão relevante. Superada a longa parte inicial, dedicada ao velório e enterro de um célebre professor universitário, quando a filha dele e o irmão de criação dela chegam a Israel, em plena desocupação da Faixa de Gaza, ele como oficial da polícia israelense, ela para reencontrar a filha com quem perdera contato, Amos Gitai parece, finalmente, estar no seu elemento. O filme ganha interesse, à medida em que um estilo que poderia ser chamado de neo-neorealista prevalece, interligando drama individual e coletivo, experiência pessoal e evento histórico. A sequência final, em que a mãe corre atrás do ônibus que está levando embora do assentamento a jovem filha reencontrada pouco antes, evoca a famosa cena de “Roma, cidade aberta” que termina com a morte da personagem de Anna Magnani.

A fotografia de é de Christian Berger, conhecido por seu trabalho com Michael Haneke, inclusive o recente “A Fita Branca”. Feitos um em seguida ao outro, os dois filmes demonstram a variada gama de estilos que ele domina, adequando-se bem a projetos tão diferentes.


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