carta dos bálcãs
Daniel Lisboa Dez 2023 05h00
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Em julho, começo do verão na Europa, a paisagem em volta do posto na cidade de Vlasenica, na Bósnia-Herzegovina, compunha um cenário idílico e luminoso. O belo cartão-postal, entretanto, não consegue esconder o passado sinistro. Logo em frente ao posto de gasolina via-se um outdoor homenageando os integrantes de uma milícia sérvia chamada Segunda Brigada Šekovići. São todos eles criminosos da Guerra da Bósnia, ocorrida entre 1992 e 1995.
Cerca de 100 mil pessoas morreram na Guerra da Bósnia, desencadeada durante o processo de dissolução da Iugoslávia, uma república socialista fundada depois da Segunda Guerra Mundial. Quando o país começou a desmoronar, a partir de 1991, as seis nações que a formavam – Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia, Macedônia, Montenegro e Sérvia – iniciaram seus processos de independência. Alguns ocorreram em paz, outros geraram conflitos logo resolvidos. A independência da Bósnia-Herzegovina, porém, despertou um conflito étnico-religioso de grande proporção, opondo bósnios muçulmanos e sérvios cristãos.
Iniciou-se um processo de limpeza étnica da população muçulmana na Bósnia-Herzegovina, fomentado pelo então presidente da Sérvia, o ultranacionalista Slobodan Milošević e por generais como Ratko Mladić, chamado de “o carniceiro dos Bálcãs”. Foi ele o responsável pelo massacre de 8 mil muçulmanos em Srebrenica, em 1995, o maior genocídio cometido na Europa desde o Holocausto. Os restos mortais de cerca de 6,7 mil muçulmanos estão enterrados no Memorial do Genocídio, em Srebrenica.
Não foi o único genocídio ocorrido nos anos 1990. Em Ruanda, entre abril e julho de 1994, extremistas da etnia hutu que estavam no poder decidiram-se por uma “solução final” contra a minoria tútsi. Em torno de 800 mil tútsis foram assassinados em aproximadamente cem dias por hutus armados de facões e outras armas rudimentares. O Memorial do Genocídio de Kigali guarda os restos mortais de 250 mil vítimas. No Centro de Memória do Genocídio de Murambi, estão os de outras 50 mil pessoas. Neste lugares, entramos no terreno do horror indizível, escreve Daniel Lisboa, na edição deste mês da piauí.
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