questões cinematográficas

“CABEÇA A PRÊMIO” – PUBLICIDADE ENGANOSA E PADRONIZAÇÃO

Qual terá sido a intenção dos responsáveis pela publicidade de “Cabeça a prêmio” ao escolherem a frase de venda reproduzida no anúncio do filme publicado no tablóide Rio Show, do “Globo”, dia 20 de agosto? Em posição de destaque, acima do título, com letras em caixa alta e corpo assegurando boa legibilidade, a única dedução possível é terem atribuído poder de atração à frase entre aspas, assinada por Rodrigo Fonseca e publicada originalmente no próprio “Globo”: “Estreia surpreendente de Marco Ricca na direção”.
Imagem “Cabeça a prêmio” – publicidade enganosa e padronização

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Qual terá sido a intenção dos responsáveis pela publicidade de “Cabeça a prêmio” ao escolherem a frase de venda reproduzida no anúncio do filme publicado no tablóide Rio Show, do “Globo”, dia 20 de agosto? Em posição de destaque, acima do título, com letras em caixa alta e corpo assegurando boa legibilidade, a única dedução possível é terem atribuído poder de atração à frase entre aspas, assinada por Rodrigo Fonseca e publicada originalmente no próprio “Globo”: “Estreia surpreendente de Marco Ricca na direção”.

Na verdade, a frase é adaptada do título de um breve comentário publicado em 2009 – “‘Cabeça a prêmio’ marca a estreia surpreendente do ator Marco Ricca na direção –, da qual, além do nome do filme, foram eliminadas quatro palavras: “marca”, “a”, “do” e “ator”, sendo o “do” trocado por “de”. Sabendo que Rodrigo Fonseca pode não ter sido sequer autor desse título, possivelmente redigido às pressas por algum editor, fica a dúvida se a atribuição da autoria feita pelo anúncio de “Cabeça a prêmio” é ou não verdadeira.

Frases de venda precisam ser curtas e diretas. Pressupõe leitura rápida, é sabido. No caso, porém, a adaptação deturpa o sentido do texto de Rodrigo Fonseca, resultando em publicidade enganosa. “Surpreendente” por quê? Quem entender o adjetivo como promessa de emoções fortes sairá frustrado de “Cabeça a prêmio”, filme que gira em torno de situações e relacionamentos humanos antes banais.

Para entender o sentido original da frase que pode ter sido atribuida a Rodrigo Fonseca, é preciso ler até o fim seu pequeno texto, o que os responsáveis pela frase de venda evidentemente não fizeram. “[…] ‘Cabeça a prêmio’ tem uma complexidade surpreendente para um filme de estreia” escreve Rodrigo Fonseca para arrematar seu comentário.

Complexidade? Fora o fato de “Cabeça a prêmio” ser mais para simples, o que está longe de ser um defeito, é evidente que os responsáveis pela frase de venda, caso tivessem lido o texto, jamais incluiriam “complexidade” como possivel chamariz. O que a crítica valoriza, é anátema para a publicidade.

Segundo Rodrigo Fonseca, o filme “tem uma complexidade surpreendente para um filme de estreia”, o que parece um elogio mas denota um paternalismo injustificado. Marco Ricca tem razões de sobra para se sentir ofendido com esse tratamento. Afinal, estando para completar vinte anos de carreira como ator, tendo atuado em mais de vinte novelas e dez filmes, o que haveria de surpreendente se ao estrear na direção tivesse feito um filme complexo?

Dizer que o filme tem “uma complexidade surpreendente” lembra episódio antigo de um grande crítico brasileiro saindo da sessão de um filme e dando de cara com o diretor na expectativa do seu veredito. Constrangido pela marcação homem a homem, o crítico disse apenas: “Muito revelador!”. E se despediu. Satisfeito, de início, o diretor saiu ruminando ladeira a baixo. Passada a euforia inicial, entendeu que o crítico não dissera absolutamente nada.

Além do diretor Marco Ricca estar atuando em novela de sucesso da TV Globo, haveria outra razão para o mesmo tablóide Rio Show do “Globo” dedicar a capa e três páginas ao filme “Cabeça a prêmio”?

Indicando a existência de “entrelaçamento entre amor e violência, com uma complexidade rara em nossos filmes”, o pesquisador e crítico Carlos Alberto Mattos, em uma das páginas, retoma o que Rodrigo Fonseca já havia escrito.

Entrelaçamento entre amor e violência até consigo ver em “Cabeça a prêmio”. Já “complexidade rara” me escapa inteiramente. A repetição do substantivo em comentários escritos com um ano de intervalo, denota a padronização da crítica de cinema nos principais jornais do Rio e de São Paulo.

Adiante, Carlos Alberto Mattos refere-se ao “belo filme de Marco Ricca”. Seria uma referência específica à fotografia ou a “Cabeça a prêmio” com um todo? Na segunda hipótese, “belo” é tão vazio de sentido quanto “revelador”. Na primeira, por que não dar o crédito devido à fotografia e câmera de José Roberto Eliezer?


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